Francisco de Assis: o Irmão Sol

1.  Introdução

Com as bênçãos de Deus, a paz de Jesus e a interseção de Maria de Nazaré, mãe de Jesus.

Vamos falar sobre “Francisco de Assis: o Irmão Sol”, o missionário divino que deixou traços de luz onde havia escuridão e trevas, em um período de grandes tribulações como das Cruzadas e da Inquisição, vivendo o desapego aos bens materiais, elevando os valores espirituais e pregando a Palavra do Mestre com a prática do consolo e da caridade.

Francisco sofreria as mesmas influências de todas as criaturas da Terra, especialmente na juventude, com seus erros e acertos, mas a sua missão prevaleceria na hora certa, com os devidos esclarecimentos de interpretações equivocadas de visões recebidas e corrigindo suas ações para as tarefas definidas no plano espiritual.

As reflexões desse tema conduzem para: a libertação da alma de todas as amarras de nossas lutas diárias, no caminho da verdade e da vida, em direção ao Pai; a preparação necessária para servir na hora do amadurecimento espiritual; o desapego das coisas materiais; a importância de se vivenciar a pobreza; e o trabalho dignificante para o bem pela prática da caridade.

2. Desenvolvimento

O contexto histórico e as Cruzadas

Importante contextualizar a época vivida por Francisco de Assis para melhor entender as ações dos Céus diante de uma humanidade afastada de Deus e dos ensinamentos de Jesus.

Relembrar alguns fatos históricos da Idade Média, em particular das Cruzadas e da Inquisição, ajudarão a avaliar o valor da vinda missionária de Francisco de Assis em nosso meio.

As Cruzadas foram movimentos militares “cristãos” à Terra Santa para manter o domínio daquela região, conhecidos como os “defensores do Santo Sepulcro”.

No século VII, surgiu o Islamismo do Profeta Maomé, que se expandiu e estabeleceu lugares sagrados na Palestina que coincidiam com os dos cristãos, motivando conflitos com o cristianismo.

Jerusalém era o principal local sagrado para cristãos, mulçumanos e judeus.

Os turcos muçulmanos ocupavam a Terra Santa, impedindo o trânsito de cristãos.

Depois de inúmeras expedições para reconquistar Jerusalém, os muçulmanos se mantiveram na região.

Nas Cruzadas, os “soldados de Cristo” usavam a cruz em suas roupas e justificavam suas ações em diversos confrontos armados, ditas “religiosas”, em nome de Deus e de Jesus.

Embora Jesus houvesse dito: “Se alguém lhe bater numa face, ofereça-lhe também a outra. Se alguém lhe tirar a capa, não o impeça de tirar-lhe a túnica”. (Lucas 6: 29)

Aprendestes que foi dito: olho por olho e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal que vos queiram fazer; que se alguém vos bater na face direita, lhe apresenteis também a outra”. (Mateus 5: 38-39)

O poder religioso

A Igreja Católica, subordinada aos imperadores romanos, transformava-se em mercado de títulos de nobreza e tentava se libertar.

O Papa Gregório III procurou restabelecer a autoridade da Igreja e combater o mercado dos sacramentos e as honras eclesiásticas.

Instalada em riquezas e poder, a Igreja poucas vezes compreendeu a verdadeira tarefa de amor que competia à sua missão.

Do mundo espiritual, recebeu seguidas advertências de Jesus pelas heresias condenáveis.

Qualquer lembrança verdadeira e sincera (da origem cristã), do seu divino Fundador, era tomada como heresia abominável e suscetível de severas punições. Esta era a fotografia do poder religioso da época.

A inquisição

A Inquisição foi instaurada, no Século XIII, e dirigida pela Igreja Católica Romana.

Eram tribunais que julgavam aqueles considerados ameaças às doutrinas da Igreja.

Os suspeitos eram perseguidos, julgados e, se condenados, cumpriam penas de prisão temporária ou perpétua, até a morte na fogueira.

Os julgamentos ganharam força em países como: Portugal, França, Itália e Espanha.  

Cientistas foram perseguidos, censurados e até condenados por defenderem ideias contrárias à doutrina cristã.

No sentido contrário da Inquisição, Jesus disse: “não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós”. (Mateus 7: 1-2)

Mil anos depois

Para Cristo vir à Terra, era necessária preparação espiritual do planeta, para que atentados contra a Boa Nova do reino de Deus não viessem a gerar alterações.

Falange de Anjos desceu à Terra tirando 2 bilhões de espíritos inferiores, que alimentavam ódio e vingança.

O Satanás descrito por João Evangelista evidenciava-se como o símbolo desses 2 bilhões de espíritos, que esperavam o cumprimento da profecia de que, após mil anos, seriam soltos.

Depois de mil anos de cristianismo, foram abertas as portas das trevas.

As cruzadas e, depois, a inquisição foram instituídas por esses espíritos.

Francisco de Assis

Francisco, Francesco, João, ou Giovanni, foi filho de Pedro Bernardone e de Dona Pica.

Nasceu a 5 de julho de 1182, em Assis, na Itália.

Há referências espíritas de nascimento em 26 de setembro de 1181, momento da união do espírito e do períspirito ao corpo material.

Foi batizado pela mãe como João, mas quando seu pai voltou de viagem da França trocou o nome para Francisco, prestando homenagem àquele país.

Segundo algumas revelações espíritas, Francisco foi reencarnação de João Evangelista.

A juventude

Francisco de Assis, de porte pequeno e magro, era filho de Pedro Bernardone, próspero comerciante da região.

A sua educação deveu-se muito à sua mãe, Dona Pica.

Os padres de São Jorge deram-lhe formação adequada e educação cristã.

Francisco aprendeu do pai a arte do comércio, que manejava com inteligência e proveito.

Era jovem alegre, gostava de música, canto, festas, banquetes, noitadas, com muito dinheiro para gastar.

Era ídolo entre os companheiros e líder da juventude de sua cidade.

Sempre se mostrava muito cordial e sorridente.

O dinheiro para Francisco era meio de conseguir prazer material, como boas roupas, comida, bebida, viagens, mas também para amparar os necessitados e desvalidos.

O relacionamento de Francisco com o pai, por vezes, era conflituoso, principalmente quando envolvia coisa do comércio, dinheiro e bens materiais.

Conflitos da época

A Itália vivia os conflitos do feudalismo em suas relações sociais desiguais, com o incremento do comércio, do artesanato e das pequenas indústrias, provocados pela ascendência da burguesia desejosa do domínio econômico.

Assim, eram frequentes guerras entre os senhores feudais e a emergente burguesia.

Havia, ainda, confrontos de poder entre o Imperador e o Papa, e as lutas entre príncipes de cidades rivais que contestavam o poder de uma cidade sobre a outra.

A cidade de Assis trocava constantemente de dono: ora o Papa, ora o Imperador.

Francisco, como todo jovem de sua época, desejava conquistar fama e título de nobreza. Para tanto, fazia-se necessário tornar-se herói em uma dessas batalhas.

Guerra entre Assis e Perugia

Por volta de 1201 e 1202, ocorreu uma guerra entre Assis e a cidade vizinha Perugia, pois os burgueses de Assis romperam com a nobreza local e pegaram em armas contra ela e contra os senhores feudais que eram grandes proprietários de terra na região.

Incentivado por todos os jovens da cidade e pelo pai, Francisco partiu para esta guerra que durou um ano.

Com a derrota de Assis, Francisco e seus amigos caíram prisioneiros, sendo levado para a prisão de Perugia, permanecendo trancafiados por longos meses.

Depois de um ano, foi solto da prisão, retornando para Assis.

O clima insalubre da prisão havia-lhe enfraquecido o organismo, provocando uma grave enfermidade.

Depois de meses de sofrimento, sem sair da cama, conseguiu melhorar.

Ao levantar-se, Francisco não era mais o mesmo, provocando-lhe profundas mudanças.

A nova batalha interna

Francisco já não sentia mais prazer nas cantigas e nos banquetes em companhia dos amigos.

Francisco estava mudando, contudo ainda não havia vencido a grande luta interna contra si mesmo (…) Francisco ainda não sabia dos planos que Deus tinha para ele, uma vez que não havia ainda aprendido a captar a voz da divindade, dominado que ainda estava das coisas terrenas. A sua enfermidade havia sido uma tentativa do Alto para fazer com que ele desse conta de outros valores, pois o sofrimento permite à alma a descoberta das coisas espirituais, das coisas sublimes que, muitas vezes, não são percebíveis por nossos sentidos”.  (Jesus e Francisco de Assis, pg. 34)

Depois do mal interpretado sonho de linguagem simbólica, de palácio e armas talhadas com a cruz do Cristo nos brasões, começou a pensar na vida de cavaleiro, pois era tempo das Cruzadas.

Assim, deixou a sua casa e foi à procura do Duque de Assis para aderir ao seu exército, organizado para ajudar o Papa Inocêncio III na defesa dos interesses da Igreja.

A quem servir? (Deus adverte Francisco)

Francisco não foi longe e, no trajeto, teve uma visão, onde ouviu: 

– Francisco, o que é mais importante, servir ao Senhor ou servir ao servo?

– Servir ao Senhor, é claro – respondeu o jovem.

– Então, por que te alistas nas fileiras do servo?

– Senhor, o que quereis que eu faça?

– Volta a Assis – lhe diz a voz – e ali te será dito; porque a visão que tiveste em sonho não tinha natureza material, mas espiritual.

Francisco voltou para a casa e envergonhado com o seu engano.

A busca interior e o casamento com a pobreza

Francisco retornou a Assis, e questionou: o que Deus quer de mim? O que Ele quer que eu faça?

Para desvendar os desígnios de Deus, dedicou-se à oração e meditação, e percorria campos e florestas em busca de respostas para as suas dúvidas.

Viajou para Roma. Lá trocou seus ricos trajes com os de um mendigo e fez sua primeira experiência de viver na pobreza.

Voltou a Assis, entregando-se à oração e ao silêncio. Frequentava a Igreja de São Damião.

A família e os amigos preocupavam-se com o seu juízo.

Certa vez, em conversa com o amigo Guido de Lorenzo, Francisco afirmou que estava pensando em se casar com a “Dona Pobreza”, como companheira para o resto de sua vida.

A pobreza para Francisco era mais do que dar o que lhe sobrava para os pobres, mas sim conviver com a própria pobreza. Era o seu voto de pobreza!

O homem com hanseníase e encontrando o caminho

Duas experiências abriram-lhe o horizonte: o encontro com o leproso na planície de Assis; e a voz do Crucifixo que lhe falou em São Damião.

Certo dia, passeando a cavalo, Francisco viu um leproso que lhe causava pavor e grande aversão.

Tentou se afastar do local, mas movido por uma força superior, aproximou-se do homem e apeou do cavalo. Não entendeu o que acontecera.

De repente, percebeu-se tão perto que tomou a mão do hanseniano e deu-lhe um beijo de amizade.

O que antes era amargo, mudou-se então em doçura da alma e do corpo.

A partir desse momento, pode afastar-se do mundo e entregar-se a Deus.

Novo conflito com o pai e reconstruir a igreja

Certa vez, entrou para rezar na Capela de São Damião, semidestruída, que ficava na parte baixa de Assis.

Em oração aos pés de um crucifixo, ouviu uma voz, saída do crucifixo: “Francisco, vai e reconstrói a minha Igreja que está em ruínas”.

Imaginando tratar-se de reconstruir a Capela, voltou para casa, vendeu alguns tecidos da loja do pai e entregou-se ao serviço.

Para o pai, seu filho havia perdido o juízo, sendo necessário encarcerá-lo.

Francisco experimentou o cativeiro de sua própria casa paterna.

Depois de alguns dias, sua mãe abriu-lhe a porta e deixou-o partir.

A libertação

Para o pai, Francisco não era mais seu filho, mas um ladrão como outro qualquer, e decidiu recorrer ao tribunal da cidade e, depois, ao Bispo para julgar Francisco na praça de Assis, pois a questão envolvia o cumprimento da vontade de Deus apresentado pelo acusado.

Bernardone exigiu que o filho lhe devolvesse tudo quanto recebera dele.

Francisco despojou-se de tudo até ficar nu, jogando trajes e dinheiro ao pai, exclamando: “até agora chamei de pai a Pedro Bernardone. Doravante não terei outro pai, senão o Pai Celeste”.

O Bispo o acolheu, envolvendo-o com seu manto.

Francisco disse: “sou o arauto do Grande Rei, Jesus Cristo”.

Afastou-se da família e amigos, entregando-se ao serviço dos leprosos, à reconstrução de Capelas e Oratórios que cercavam a cidade.

Início da pregação da Palavra

Reconstruídas a Capela de São Damião, a Capela de São Pedro e a velha Capela de Santa Maria dos Anjos (em Porciúncula), perguntava-se o que faria depois. O que mais lhe pediria Deus?

Não havia entendido ainda que a Igreja que devia restaurar não era a de pedra, mas a própria Igreja de Cristo, enfraquecida na época pelas divisões, heresias e pelo apego de seus líderes às riquezas e ao poder.

Certo dia, na restaurada Capela de Santa Maria dos Anjos, Francisco escutou a leitura do Evangelho de Lucas (10: 2-5) em que Cristo instruía seus Apóstolos sobre o modo de ir pelo mundo em pregação da Palavra, sem túnicas, sem bastão, sem sandálias, sem provisões, sem dinheiro no bolso.

Tais palavras ecoou em seu coração, exclamando: “é isso precisamente o que eu quero! É isso que desejo de todo o coração!”

A partir daquele dia, Francisco iniciou sua vida de pregador itinerante, percorrendo as localidades vizinhas e pregando, em palavras simples, o Evangelho de Cristo.

Muitos que ouviam a pregação, achavam que Francisco havia perdido o juízo, tido como louco, mas alguns começaram a reconhecer nele traços de santo.

O desapego material e o serviço dignificante

Bernardo, o primeiro discípulo, seguindo o exemplo de Francisco, entregou sua riqueza aos pobres por amor a Jesus Cristo, entendendo que aquela riqueza havia sido emprestada pelo Senhor e, agora, necessitava devolvê-la para seguir o novo caminho escolhido.

Francisco disse: “fico feliz com as tuas palavras, irmão Bernardo. Ao te despojares dos bens materiais, desatastes as férreas cadeias que te prendiam ao mundo de Mamon e deste um passo definitivo para ires na direção de Deus”. (Jesus e Francisco de Assis, pg. 67)

Em outro momento, o segundo discípulo, o Padre Pedro Cattani, perguntou a Francisco: “Quem lhe deu a ideia de se tornar mendigo por amor ao Senhor e por que fazer pregações nas praças e no mercado se os padres pregam nas igrejas”? (Jesus e Francisco de Assis, pg. 68)

Francisco respondeu: “Quanto à sua primeira pergunta, devo lhe dizer que não dependeu de mim. Fui como uma folha arrastada pelo vento do Senhor, como uma pequena ave atraída pelo olhar poderoso da serpente. Ele me seduziu com um encanto irresistível. Nada sou além desta simples folha que o Senhor arrasta e conduz para onde quer, além desse passarinho frágil que deseja ser consumido pelo Senhor”.

A segunda questão devo lhe responder do seguinte modo: o que os padres pregam em suas igrejas não é o mesmo que praticam em suas vidas. Eu tento falar do Evangelho e mostrar a todos que me veem e me ouvem como deve viver Cristão segundo a vontade do Cristo. Às vezes, penso que existem dois cristianismos: o do Cristo e o de seus vigários e eles não coincidem absolutamente. Não acuso nem condeno pessoa alguma. Penso que este desvio se deve às nossas fraquezas, que são muitas”. (Jesus e Francisco de Assis, pg. 68)

Os três amigos estavam certos de que o papel do cristão neste mundo é servir sem esperar recompensa, servir pela alegria de servir. Costumavam dizer: quem não vive para servir, não serve para viver”. (Jesus e Francisco de Assis, pg. 70)

O reconhecimento do Papa

Quando os discípulos chegaram a doze, Francisco desejou que o “grupo recebesse a benção do Papa e fosse integrado à Igreja, como uma ordem semelhante a outras que já havia, como a dos beneditinos. Para tanto, era necessário que houvesse regras e que essas regras fossem aprovadas pelo Papa. Francisco não perdeu tempo e formulou as regras, lendo-as para seus amigos que a consideraram ótimas. Então os irmãos esperaram que o tempo melhorasse para que fossem a Roma, a fim de terem as regras confirmadas pelo Papa”. (Jesus e Francisco de Assis, pg. 87)

Francisco e seguidores viajaram a Roma para buscar a aprovação do Papa Inocêncio III aos seus modos de vida.

A primeira audiência não teve sucesso, pois tudo parecia muito estranho ao Papa: estar diante de um homem de baixa estatura, barba negra não cultivada, cabelos pretos despenteados, com casaco camponês surrado e mal remendado, dando a impressão de falar com um mendigo. Em face daquela cena, o Papa mandou embora o estranho.

Naquela mesma noite, o Papa teve um sonho de uma palmeira que crescia e se tornava grande e bela árvore.

Uma semana mais tarde, o Cardeal João de São Paulo, a quem o Bispo de Assis contara a vida de Francisco e seus seguidores, intercedeu na questão junto ao Papa, do qual tinha muita estima. A fala do Cardeal João fez o Papa voltar atrás e reconsiderar nova audiência com Francisco.

Reunidos novamente na sala de audiência do Palácio de Latrão, o Papa, seus Cardeais e Francisco conduziram debates em que os sacerdotes rejeitavam as regras franciscanas sugerindo que eles aderissem a uma ordem já existente: como a dos monges.

Contudo, o Cardeal João de São Paulo intercedeu, mais uma vez, a favor de Francisco, fazendo o Papa passar a decisão para o dia seguinte.

Naquela noite, novo sonho teve o Papa, em que a velha Basílica de São João tremia como diante de um terremoto e tombava para o lado. De repente via um homem pequeno e esfarrapado que escorava a estrutura que ameaçava cair. Depois disso, o Templo parou de tremer. O Papa reconheceu no sonho Francisco.

Francisco também teve um sonho com uma árvore gigantesca e o seu corpo crescia ao mesmo tamanho da árvore. De repente, a árvore se curva em sua direção. Em um momento, parecia ouvir a voz de Inocêncio III da árvore que se curvava a ele.

No dia da terceira reunião, Francisco falou contando uma parábola que tocou Inocêncio III, recebendo do Papa o reconhecimento da nova ordem dos franciscanos. Ao final, o Papa abaixou-se, abraçou Francisco e se ajoelhou diante dele, confirmando o sonho de Francisco.

O Papa ficou maravilhado com o propósito de vida daquele grupo liderado por Francisco. Reconheceu que Deus inspirava Francisco a viver radicalmente o Evangelho, trazendo vida nova a toda Igreja, naquele tempo tão distanciada dos ensinamentos de Cristo.

Por isso deu a aprovação oficial da Igreja, autorizando Francisco e seguidores a pregar o Evangelho nas igrejas e fora delas.

Clara de Assis

Depois que Francisco voltou de sua viagem missionária através da Toscana no ano da graça de 1212, foi convidado a pregar na Catedral de Assis. Logo nos primeiros bancos, viu uma jovem muito bonita, cabelos louros, braços longos e bem torneados e um sorriso que recendia pureza e inocência. (..) Essa moça se chamava Clara e era filha de um nobre por nome de Favorino Sciffi”. (Jesus e Francisco de Assis, pg. 115)

Francisco pregava na Catedral e sua voz penetrou os ouvidos de Clara chagando até o seu coração. Depois da missa, Clara procurou Francisco perguntando-lhe como chegar ao Pai e que estrada deveria percorrer.

Clara não via razão e sentido em sua vida e precisava buscar novos rumos, sendo que o sermão de Francisco apontava para a possibilidade de uma mudança existencial.

Em outra missa, Clara procurou Francisco pedindo-lhe ajuda, sendo sugerido que no Domingo de Ramos, depois das atividades previstas, ela poderia conhecer o modo de vida dos franciscanos indo à orla do bosque para encontrar os irmãos da ordem.

Naquele dia, Clara deixou a sua casa e a família para abraçar a sua causa diante do seu voto de pobreza.

Foi a partir da adesão de Clara que surgiu uma ordem de franciscanas que se chamou, em homenagem à sua fundadora, de Ordem das Clarissas Pobres. Esta ordem obteve grande sucesso e logo se espalhou por diversas partes da Europa, inclusive continua a existir em nossos dias. 

Clara foi uma das reencarnações de Joana de Ângelis, com destaque a Joana de Cusa que acompanhou as pregações de Jesus.

Em 1253, desencarna, após uma vida de prodígios e dedicação aos pobres.

Francisco, a lebre e os pássaros

Depois de várias pregações, Francisco buscou refúgio na desabitada Ilha Maior, onde desejava passar quarenta dias jejuando e orando.

Uma noite, estando em contemplação e prece, viu uma lebre que olhava para ele sem medo ou desconfiança, dando-lhe o nome de Irmão Beiço-Rachado. A partir daquele dia, a lebre passou a viver ao seu lado e acompanhando-o para onde ia.

No dia da partida, despediu-se da lebre, do animal que Deus lhe deu para diminuir a solidão em seu refúgio.

Em outra passagem, na praça do mercado, havia uma grande figueira cujos ramos estavam tomados de grande quantidade de pássaros, que com a presença de Francisco os animaizinhos ficaram agitados.

Os pássaros envolveram Francisco e começaram a ouvir a sua fala sobre que eles deveriam estar gratos a Deus por suas criações, pela liberdade que desfrutavam, pelo alimento na natureza, dentre outras coisas recebidas.

Ao fim da fala, pareciam que os pássaros haviam compreendido tudo e partiram voando para outras árvores.    

Noutro dia, em Alviano, na praça da Igreja, havia diversos ninhos de andorinhas nas árvores que faziam barulho ensurdecedor, impedindo Francisco de falar.

Depois de um tempo, pediu às andorinhas silêncio, prontamente acatado. Aos poucos as andorinhas foram voltando para seus ninhos e alguns permaneceram como a ouvir o que seria dito.

O lobo de Gúbio

Na cidade de Gúbio, existia um lobo muito feroz, que estava sempre na espreita de algum cordeiro, galinha ou animalzinho para matar, chegando até mesmo a atacar as pessoas.

Todos andavam apavorados com esse lobo e estavam com medo de sair para além dos muros desta cidade.

Um dia, Francisco de Assis foi visitar Gúbio e, ao chegar à cidade, soube desses acontecimentos.

Com a sua forma calma e amorosa de ser, disse aos moradores que iria conversar com o lobo. E lá foi ele, sozinho, à procura do lobo.

E eis que surgiu o lobo, rosnando e salivando.

Calmamente, ele começou a falar com o lobo. Francisco sentia muito amor pelos animais e isso o protegia de todas as possíveis ameaças ou perigos.

Diante da fala serena e doce de Francisco, o lobo parecia mais calmo.

O lobo o olhava atentamente, parecendo estar sentindo confiança naquele homem magro, que emanava amor profundo pelos seus irmãos animais.

O lobo conseguiu compreender suas palavras, abaixou a cabeça como se estivesse dizendo sim e lambeu os pés de Francisco, em sinal de amizade.

Os dois voltaram para a cidade e, nos olhos do lobo, via-se apenas uma grande doçura.

Durante muitos anos, os moradores de Gúbio alimentaram o lobo.

Quando o lobo morreu de velhice, foi um grande pesar para toda a cidade.

As marcas do Cristo – os estigmas da paixão

Francisco, normalmente, depois do árduo trabalho, costumava buscar o retiro em lugar solitário e tranquilo para conversar com Deus e reabastecer as suas energias espirituais.

Nessas ocasiões, era visitado por bons Espíritos encorajando-o em sua missão de evangelização.

Dois anos antes de sua morte, a divina Providência conduziu-o para o Monte Alverne, onde costumava meditar.

Naquele Monte, Francisco fez uma prece e elevou seu pensamento às altas esferas.

Em êxtase, viu descer do céu um Serafim com seis asas que brilhavam como fogo.

O seu sentimento foi duplo: o de alegria por Jesus ter se manifestado a ele; e de tristeza de ter visto o Mestre crucificado.

“Francisco desejou ardentemente fundir-se com Jesus, tornar-se um com ele! Enquanto pensava assim, sentia no coração uma enorme alegria e percebeu em seu corpo algo maravilhoso: em suas mãos e pés surgiram os sinais dos cravos que crucificaram Jesus.

Era realmente algo incrível, diz São Boaventura:

Suas mãos e seus pés estavam atravessados no meio certo por grossos cravos cuja cabeça aparecia na parte interior das mãos e no lado de cima dos pés com as pontas aparecendo do outro lado. A cabeça dos cravos era redonda e negra; as pontas bastante longas e afiadas e com evidentes sinais de haver sido retorcido, resultando daí que os cravos sobressaíam do resto da carne. De igual modo, no lado direito do corpo santo, aparecia, como formada por uma lança, uma cicatriz vermelha, da qual brotava às vezes tanto sangue que chegava a umedecer a túnica e as roupas internas. (Jesus e Francisco de Assis, pg. 148)

Francisco teve a glória de receber os estigmas do Crucificado.

Contou este fato a alguns irmãos, mas decidiu que aquele segredo ficaria com ele e somente se Deus desejasse haveria a revelação do corrido.

Assim, Francisco tinha o cuidado em esconder essas coisas dos estranhos, e ocultava-as mesmo dos mais chegados, de maneira que até os irmãos que eram seus companheiros e seguidores mais devotados não souberam delas por muito tempo.

Alguns irmãos e cardeais, em virtude da intimidade que gozavam com Francisco, deram testemunhos orais e escritos das suas chagas, como, por exemplo o Sumo Pontífice Alexandre VI em um sermão, no tempo em que o santo ainda vivia.

Depois de sua morte, podiam ver as marcas dos cravos em suas mãos e seus pés, assim como as chagas no seu flanco direito. Todos queriam ver as marcas do Cristo impressas no corpo do santo.

Fim da jornada na Terra

Cresceu o movimento franciscano.

Em agosto de 1226, Francisco pede para ser levado à Porciúncula.

Nos últimos dias de vida, dita o auto testemunho de incalculável valor para a vida e os propósitos de homem tão singular.

A 3 de outubro, Francisco morreu cantando “mortem suscepit”.

Em 4 de outubro, é sepultado na igreja de São Jorge, em Assis, mas o cortejo fúnebre passou antes pelo mosteiro das Clarissas.

Em 1228, Francisco foi canonizado.

3. Conclusão

Francisco reencarnou na Terra para recuperar a Igreja dos descaminhos que os seus líderes haviam tomado.

Mostrou, na sua prática de vida, que era possível resgatar o Cristianismo de Jesus e que esse resgate poderia ser feito por todos e qualquer homem de boa vontade.

Lembrou que o que Jesus nos pede não tem nada de absurdo, impossível ou maravilhoso. O que o Mestre pediu foi amar ao próximo como a si mesmo e a Deus sobre todas as coisas. E, ainda, sermos bons, humildes, misericordiosos, piedosos, justos, caridosos, cultivar a fé e desapegados das coisas materiais, dentre outros ensinamentos.

Francisco viveu e praticou o amor na sua mais sublime expressão, distribuindo-o para todos indistintamente, pois todos são filhos de Deus.

A grande reflexão está em como mudar a nossa vida e dar a ela um novo rumo e sentido.

A exemplo de Francisco de Assis, o primeiro passo está na libertação necessária das amarras que nos prendem e impedem tomar o caminho da verdade e da vida, e no desapego das coisas materiais, que impendem tomar uma nova direção ou orientação, principalmente se essa nova direção será exatamente no sentido oposto ao que você vinha vivendo até agora.

O apego é um dos maiores problemas no que diz respeito à evolução do espírito, pois ele não nos permite ter a liberdade para avançar”. (…)

“O homem apegado depois de sua desencarnação não consegue ir para a espiritualidade porque fica preso (apegado) às coisas que amava (ou julgava amar) neste mundo”. (…)

“Foi por este motivo que Jesus insistiu tanto conosco a respeito do desapego”. (Jesus e Francisco de Assis, pg. 226 a pg. 227)

Naquela época, os pobres eram uma espécie de extras no drama da vida. Não lhes era dada a menor importância e muitos deles eram considerados marginais.

Como Jesus, Francisco de Assis também fez esta escolha, não só assumindo a própria pobreza, tornando-se um monge mendicante, semelhante aos monges budistas, como buscando pobres para lhes prestar caridoso auxílio. Não é um gesto desprovido de significado o seu casamento místico-simbólico com a dama misteriosa chamada Pobreza. Não foi gratuito que Francisco se tornasse conhecido como Il Poverello d´Assisi ou o Pobrezinho de Assis”. (Jesus e Francisco de Assis, pg. 234)

Quantos ensinamentos extraímos da vida e das obras de Francisco de Assis, quantas reflexões e sugestões de condutas para as nossas vidas práticas.

O maior ensinamento e o mais difícil para nós seres imperfeitos praticar é a libertação da alma para seguir o caminho da verdade e da vida em direção ao Pai, libertação esta de todas as amarras que nos prendem no dia a dia; as amarras materiais, familiares, dos pensamentos, tudo aquilo que impede de mudarmos o rumo de nossa vida, particularmente se esse rumo será exatamente na direção contrária a que você vinha caminhando até agora.

Esta libertação de ficarmos nus do orgulho, do egoísmo, da vaidade, da soberba, da inveja, em fim de tudo contrário às leis de Deus.

Esta libertação que nos impede de vivenciar a pobreza dentro de nós, de sermos pobres de espírito, a pobreza que enobrece a alma.

Francisco de Assis trouxe todos esses ensinamentos para nós e teimamos em não enxergar, não ouvir e, por consequência, não compreender.

Francisco, com seu exemplo de vida, nos ensinou que em tudo há o seu tempo de servir. Há, sim, a devida preparação para o serviço edificante na prática do bem, quando tivermos o mínimo de preparação espiritual. Assim, quando chegou a sua hora, Francisco começou a sua missão, a exemplo do próprio Mestre Jesus, aos 30 anos, de Paulo de Tarso a caminho de Damasco, Moisés e outros tantos missionários divinos.

A nossa hora chegará! A hora que será construída em nossa luta diária, quer no seio da família, dos parentes e amigos, quer no trabalho, ou no caminho da evolução.

Quando chegar a hora, não vacile, vá em frente, confiante, com fé e na certeza de que estará servindo ao Senhor e não ao servo.

Bibliografia:

BÍBLIA SAGRADA.

EMMANUEL (Espírito); na psicografia de Francisco Cândido Xavier. A Caminho da Luz. 38ª Edição. Brasília/DF, Federação Espírita Brasileira, 2016.

EMMANUEL (Espírito); na psicografia de Francisco Cândido Xavier. Pão Nosso. Fonte Viva, (?).

FRANCISCANOS. A vida de Francisco de Assis. Disponível em: http://franciscanos.org.br/?page_id=1137. Publicado em (?). Acesso em 30 de junho de 2018.

FRANCO, Divaldo Pereira; Cezar Braga Said. Francisco: o Sol de Assis. 1ª Edição. Salvador/BA: Editora Leal, 2016.

LEAL, José Carlos. Jesus e Francisco de Assis. 1ª Edição. Rio de janeiro/RJ, Novo Ser Editora, 2012.

MIRAMEZ (Espírito); psicografia de João Nunes Maia. Francisco de Assis. 30ª Edição. Belo Horizonte/MG: Editora Espírita Fonte Viva, 2013.

MUNDO ESPÍRITA, por Maria Helena Marcon. Joanna de Ângelis. Disponível em:  http://www.mundoespirita.com.br/?materia=joanna-de-angelis. Publicado em janeiro de 2013. Acesso em 29 de julho de 2018.

SER. 7 Min com Emmanuel: #061 – Falsos discursos. Disponível em: https://www.portalser.org/7-minutos-com-emmanuel/7-min-com-emmanuel-061-falsos-discursos/. Publicado em (?). Acesso em 21 de julho de 2018.

SÓ HISTÓRIA. A Inquisição. Disponível em: https://www.sohistoria.com.br/ef2/inquisicao/. Publicado em (?). Acesso em 30 de junho de 2018.

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