Quem é o obsessor? (Suely Caldas Schubert)

(Citação parcial para estudo, de acordo com o inciso III do art. 46 da Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998)

Reflexões para estudos sobre obsessão, segundo a Doutrina Espírita

Quem é o obsessor? (Suely Caldas Schubert)

“Obsessores visíveis e invisíveis são nossas próprias obras, espinheiros plantados por nossas mãos.

Emmanuel (Seara dos médiuns, ‘Obsessores’.)

Obsessor – Do latim obsessore. Aquele que causa a obsessão; que importuna.

O obsessor é uma pessoa como nós.

Não é um monstro teratológico saído das trevas, onde tem a sua morada para todo o sempre.

Não é um ser diferente, que só vive de crueldades, nem um condenado sem remissão pela Justiça Divina.

Não é um ser estranho a nós. Pelo contrário. É alguém que privou de nossa convivência, de nossa intimidade, por vezes com estreitos laços afetivos. É alguém, talvez, a quem amamos outrora. Ou um ser desesperado pelas crueldades que recebeu de nós, nesse passado obumbroso, que a bênção da reencarnação cobriu com os véus do esquecimento quase completo, em nosso próprio benefício.

O obsessor é o irmão, a quem os sofrimentos e desenganos desequilibraram, certamente com a nossa participação.

Muitos, por desconhecimento, transferiram para o obsessor os atributos do próprio demônio, se este existisse.

Entretanto, quantos de nós já não cometemos essas mesmas atrocidades que ele comete agora? Quantos de nós já não alimentamos ódios semelhantes? Quem está livre de trazer nos escaninhos da consciência a mesma inimaginável tortura de um amor desvairado, doentio, que se fez ódio e se converteu em taça de fel? Quem pode dizer qual seria a nossa reação se vivêssemos as tormentas que lhe corroem as profundezas da alma?

O ódio só no amor tem cura. É o antídoto que anula os efeitos maléficos, que neutraliza, e, sobretudo, transforma para o bem. Geralmente, é o ódio que impulsiona o ser humano à vingança. É sempre um desforço que se pretende tomar, como quem está pedindo contas a outrem de atos julgados danosos aos seus interesses.

A figura do obsessor realmente impressiona, pelos prejuízos que a sua aproximação e sintonia podem ocasionar. E disto ele tira partido para mais facilmente assustar e coagir a sua vítima. E esta, apresentando, em razão do seu passado, os condicionamentos que facilitam a sintonia, traz, no mais recôndito do seu ser, o medo desse confronto inevitável e a certeza da própria culpa, tornando-se presa passiva do seu algoz de agora.

Não é fácil ao obsidiado amar o seu obsessor. Não é fácil perdoá-lo. Mas, é o que se torna necessário aprender.

O Espiritismo, mostrando-nos toda a trajetória por nós percorrida e as vinculações e compromissos que adquirimos no decorrer de sucessivas reencarnações; descortinando para nossas almas o que fomos, somos e poderemos ser mediante o uso do livre-arbítrio; desvendando as intrincadas questões do ser através da fé racional, lúcida e ativa, torna possível o que a ignorância fazia parecer impossível: perdoar e até aprender a amar ao obsessor.

A Doutrina Espírita nos veio ensinar a Verdade e esta nos faz enxergar por dentro de nós mesmos. Ela nos desnuda perante a nossa própria consciência, pois o verdadeiro espírita não teme o autoexame, a autoanálise, que lhe possibilitará conhecimento mais profundo de deficiências, das sombras que existem dentro de cada um.

Diante dessa conscientização é que nos lançamos à reforma intima. Primeiro, o mergulho dentro do nosso eu, o reencontro doloroso mas essencial, quando contemplamos os escombros, as ruínas em que transformamos o que tínhamos de melhor. Depois dessa constatação, a Doutrina estimula a reconstrução e, além disso, muito mais: possibilita-nos e facilita a reedificação do universo interior.

Essa é uma façanha notável, que unicamente o Consolador Prometido consegue proporcionar ao ser humano.

Fato interessante acontece com o obsessor. Quando surge em nosso caminho, ele nos enxerga tal qual fomos ou somos. Ele nos conhece de longa data e não se iludirá se hoje nos apresentamos com outra capa, outra face. Ele nos vê tal como nos viu, quando nos defrontamos no pretérito. Para ele, o tempo parou no instante em que foi ferido mortalmente, no momento em que teve os seus sonhos destruídos e quando se sentiu traído ou injustiçado. O tempo parou ali e, consequentemente, aquele que está sendo perseguido é também a mesma criatura, para a qual não haveria nenhum modo de mascarar-se, caso tentasse.

Mas, em se aproximando, com o tempo, ainda que nos observando através das lentes do rancor, ele acabará por notar as mudanças que ocorreram em nosso modo de ser, de pensar e de agir – se estas existirem realmente. E só através dessa constatação é que se conseguirá alguma coisa no sentido de conquistá-lo e motivá-lo igualmente a uma transformação.

Aquele que possui o conhecimento espírita terá enormes possibilidades de aprender a exercitar o perdão e o amor pelos seus inimigos. Tanto melhor quanto mais se lembrar de que o perseguidor assim se apresenta por ter sido levado, por quem hoje é a vítima, aos sofrimentos que deram origem ao ódio e à vingança.

O obsessor é, em última análise, um irmão enfermo e infeliz. Dominado pela ideia fixa (monoideísmo) de vingar-se, esquece-se de tudo o mais e passa a viver em função daquele que é o alvo de seus planos. E, na execução desses, o seu sofrimento ir-se-á agravando proporcionalmente às torturas que venha a infligir ao outro, o que acarretará para os seus dias futuros pesado ônus do qual não conseguirá escapar senão pela reforma íntima.

Nenhuma etapa de sua desforra lhe dará a almejada felicidade e alegria, nem trará a paz por que tanto anseia, pois o mal é geratriz de desequilíbrios, frustrações e insuportável solidão.

Existem obsessores de grande cultura e que, por isto mesmo, exercem amplo domínio sobre Espíritos ignorantes e igualmente perversos ou endurecidos, que a eles se vinculam. São os comparsas de que carecem para a execução de seus planos, estando sintonizados na mesma faixa de interesses.

Os obsessores, entretanto, não são totalmente maus, é preciso que se diga. Como ninguém é absolutamente mau. São, antes, doentes da alma. Possuem sementes de bondade, recursos positivos que estão abafados, adormecidos.

Obsessores e obsidiados são assim pessoas como nós. São seres que sofrem porque se desmandaram entre si. São carentes de afeto, compreensão e amor. Seres infelizes, para os quais o Espiritismo veio trazer o consolo e a esperança de uma vida nova de amor e paz.

Para eles, para toda a Humanidade ecoa a amorosa assertiva do Mestre: ‘Eu não vim para o justo, mas para o pecador…’

***

Nem todo obsessor tem consciência do mal que está praticando. Existem aqueles que agem por amor, por zelo, pensando ajudar ou querendo apenas ficar junto do ser querido.

O caso da Sra. O… demonstra isto.

A Sra. O… viu-se de um instante para outro acometida de uma tristeza inexplicável, seguindo-se-lhe um desânimo também difícil de ser entendido, por mais pesquisasse as causas. Sentia-se sem forças, tendo que permanecer quase o dia todo no leito, em repouso. Chorava muito e não conseguia atinar com a razão de tanto abatimento. Foi examinada por vários médicos, que não acharam nenhum mal que justificasse o seu estado.

Resolveu, em consequência disso, procurar a ‘Casa Espírita’ para orientação e passes. Verificou-se estar sob influência espiritual muito forte – a entidade que a acompanhava era a sua própria irmã, desencarnada há algum tempo, de maneira repentina e que havia sido pessoa muito boa, havendo inclusive entre elas uma afeição muito grande.

Foi feito o esclarecimento da irmã desencarnada, na reunião apropriada, e o resultado foi imediato. A Sra. O… curou-se, passando a levar uma vida normal.

Casos como este existem em grande número e evidenciam o total despreparo das criaturas para a morte.

Um Obsessor ‘Simpático’

Alguns obsessores apresentam interessante faceta para os estudiosos do assunto.

Foi o caso de certa entidade que se comunicou na reunião do Centro Espírita Ivon Costa. Muito educado, distinto, tratava ao esclarecedor com toda calma e gentileza. Dizia-se, na verdade, perseguindo a uma pessoa a quem odiava, mas não tinha raiva de mais ninguém e inclusive compreendia o nosso papel ao tentarmos beneficiar a sua vítima. Acreditava em Deus, em Jesus, no amor, mas não tinha vontade de abandonar o seu intento.

Mesmo com todos esses dados positivos de caráter, o seu esclarecimento foi demorado, rendendo-se por fim à evidência do amor, diante da aproximação de um Espírito a quem muito amava e que foi por ele visto durante os trabalhos”. (Suely Caldas Schubert. Obsessão / Desobsessão: profilaxia e terapêuticas espíritas. FEB Editora. Cap 13.)

Bibliografia:

SCHUBERT, Suely Caldas. Obsessão / desobsessão: profilaxia e terapêutica espírita. 3ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2018.

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