Os exilados de Capela e a raça adâmica

Textos da Codificação Espírita e da literatura complementar cuidam do tema “Os exilados de Capela e a raça adâmica”, tais como: A Gênese, de Allan Kardec; A caminho da luz, do Espírito Emmanuel, na psicografia de Francisco Cândido Xavier; Universo e vida, do Espírito Áureo, na psicografia de Hernani T. Sant’Anna; Os exilados de Capela, de Edgard Armond, dentre outras fontes de consulta.

Para se compreender melhor o tema, necessário abordar alguns esclarecimentos preliminares relacionados a: Adão e Eva; evolução espiritual em pluralidade de existências; ciclos evolutivos dos mundos, flagelos destruidores e transição planetária; e emigrações e imigrações dos Espíritos.

Adão e Eva

Allan Kardec, no livro “A Gênese”, Capítulo XI, em “A gênese espiritual”, nos itens 38, 40 e 46, esclarece:

“38. Segundo o ensino dos Espíritos, foi uma dessas grandes imigrações, ou, se quiserem, uma dessas colônias de Espíritos, vinda de outra esfera, que deu origem à raça simbolizada na pessoa de Adão e, por esse motivo, chamada raça adâmica. Quando chegou à Terra, o planeta já estava povoado desde tempos imemoriais. (…)

40. Adão e seus descendentes são representados na Gênese como homens essencialmente inteligentes, visto como, desde a segunda geração, constroem cidades, cultivam a terra, trabalham os metais. Seus progressos nas artes e nas ciências são rápidos e duradouros. Não se conceberia, portanto, que esse tronco tenha tido, como ramos, numerosos povos tão atrasados, de inteligência tão rudimentar, que ainda em nossos dias rastejam a animalidade, que hajam perdido todos os traços e, até, a menor lembrança do que faziam seus pais. Tão radical diferença nas aptidões intelectuais e no desenvolvimento moral atesta, com evidência não menor, uma diferença de origem. (…)

Dizei que todas essas almas faziam parte da colônia de Espíritos exilados na Terra ao tempo de Adão e que se achavam manchadas dos vícios que lhes acarretaram ser excluídas de um mundo melhor, e tereis a única interpretação racional do pecado original, pecado peculiar a cada indivíduo e não resultado da responsabilidade da falta de outrem a quem ele jamais conheceu. Dizei que essas almas ou Espíritos renascem diversas vezes na Terra para a vida corpórea, a fim de progredirem e se depurarem; que o Cristo veio esclarecer essas mesmas almas, não só acerca de suas vidas passadas, como também em relação às suas vidas ulteriores, e somente então dareis à sua missão um sentido real e sério, que a razão pode aceitar.”

Em “A Gênese”, no Capítulo XII, “Gênese mosaica”, em “Paraíso perdido”, nos itens 16, 19 e 23, Kardec comenta:

“16. Dá-se a mesma coisa com a Gênese, na qual se têm que perceber grandes verdades morais debaixo das figuras materiais que, tomadas ao pé da letra, seriam tão absurdas como se, em nossas fábulas, tomássemos em sentido literal as cenas e os diálogos atribuídos aos animais.

Adão é a personificação da humanidade; sua falta individualiza a fraqueza do homem, em quem predominam os instintos materiais a que ele não sabe resistir. (…)

O fruto da árvore simboliza o objeto dos desejos materiais do homem; é a alegoria da cobiça e da concupiscência; resume, numa figura única, os motivos de arrastamento ao mal. O comer é sucumbir à tentação. A árvore se ergue no meio do jardim de delícias para mostrar que a sedução está no seio mesmo dos prazeres e para lembrar que, se o homem der preponderância aos gozos materiais, prender-se-á à Terra e se afastará do seu destino espiritual.

A morte de que ele é ameaçado, caso transgrida a proibição que lhe é feita, é um aviso das consequências inevitáveis, físicas e morais, decorrentes da violação das leis divinas que Deus lhe gravou na consciência. É bem evidente que aqui não se trata da morte corpórea, pois que, depois de cometida a falta, Adão ainda viveu longo tempo, mas sim da morte espiritual, ou, em outras palavras, a perda dos bens que resultam do adiantamento moral, perda figurada pela sua expulsão do jardim de delícias. (…)

19. Se a falta de Adão consistiu literalmente em ter comido um fruto, ela não poderia de modo algum, pela sua natureza quase pueril, justificar o rigor com que foi punida. Não se poderia tampouco admitir, racionalmente, que o fato seja qual geralmente o supõem; de outro modo Deus, ao considerar irremissível o fato, teria condenado a sua própria obra, já que Ele criara o homem para a propagação. Se Adão houvesse entendido assim a proibição de tocar no fruto da árvore e com ela se houvesse conformado escrupulosamente, onde estaria a humanidade e que teria sido feito dos desígnios do Criador? (…)

O paraíso terrestre, cujos vestígios têm sido inutilmente procurados na Terra, era, por conseguinte, a figura do mundo de felicidade onde Adão vivera, ou melhor, onde vivera a raça dos Espíritos que ele personifica. A expulsão do paraíso marca o momento em que esses Espíritos vieram encarnar entre os habitantes do nosso planeta, e a mudança de situação foi a consequência da expulsão.”

Edgard Armond, em “Os exilados da Capela”, comenta: “Adão representa a queda dos Espíritos capelinos neste mundo de expiação que é a Terra, onde o esforço verte lágrimas e sangue, como também no sagrado texto está predito: Maldita é a Terra por causa de ti – disse o Senhor; com dor comerás dela todos os dias de tua vida… No suor do teu rosto, comerás o seu pão até que te tornes à Terra.”

Assim, para a Doutrina Espírita, há correlação entre os textos alegóricos da Bíblia sobre Adão e Eva e o paraíso perdido com o nosso tema acerca dos exilados de Capela e a origem das raças adâmicas.

Evolução espiritual em pluralidade de existências

Pelos ensinos dos Espíritos Superiores, em “O Livro dos Espíritos”, nas questões 80, 83, 115 e 132, somos esclarecidos que todos os Espíritos são permanentemente criados por Deus simples e ignorantes, e que suas existências não têm fim. Da criação, o Espírito começa a sua jornada evolutiva na busca da perfeição em pluralidade de existências, formando a sua individualidade em todo esse processo.

A jornada evolutiva dos Espíritos é longo processo, tendo como pontos de partida as suas criações simples e ignorantes, iniciando suas caminhadas em iguais condições para progredir conforme suas conquistas individuais, sendo que atingirão os graus de perfeição compatíveis aos esforços empreendidos, de acordo com as leis de Deus.

A alma, que não alcançou a perfeição durante uma vida corpórea, continua a depurar-se em outra existência. Pelas sucessivas reencarnações, abrem-se novas oportunidades de aprendizado e renovação, propiciando impulsos evolutivos significativos, cujos benefícios indicam a manifestação da justiça e da misericórdia divinas, que não condenam o Espírito infrator ao sofrimento eterno.

Pela lei de causa e efeito, a reencarnação proporciona ao Espírito devedor as condições de refazimento do seu destino, sobretudo se há empenho em melhorar-se mediante o uso correto do livre-arbítrio. A cada existência, o Espírito dá um passo no caminho do progresso. Quando se libertar de todas as impurezas, não tem mais necessidade das provações da vida corporal.

Em “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, sobre a “Encarnação nos diferentes mundos”, das questões 172 a 188, podemos resumir o seguinte.

As nossas diversas existências corporais se verificam na Terra ou em diferentes mundos, podendo viver muitas vezes no mesmo globo ou passar de um mundo para outro.

Um Espírito permanece numa mesma categoria de mundo se não se adiantou bastante para passar a um mundo superior àquele.

Assim, podemos reaparecer muitas vezes na Terra ou voltar a este, depois de termos vivido em outros mundos. É possível que tenhamos vivido em outro mundo e na Terra.

Se não progredirmos, poderemos ir para outro mundo que não valha mais do que a Terra e que talvez até seja pior do que ela.

Todos os mundos são solidários: o que não se faz num faz-se em outro.

Podem os Espíritos encarnar também em um mundo relativamente inferior a outro onde já viveram, quando em missão, com o objetivo de auxiliarem o progresso, caso em que aceitam alegres as tribulações de tal existência, por lhes proporcionar meio de se adiantarem.

Os Espíritos podem conservar-se estacionários, cuja punição consiste em não avançarem, em recomeçarem, no meio conveniente à sua natureza, as existências mal-empregadas.

Os que faliram em suas missões ou provas têm de recomeçar a mesma existência.

Passando deste planeta para outro, o Espírito conserva a inteligência que aqui tinha, pois que a inteligência não se perde. Pode, porém, acontecer que ele não disponha dos mesmos meios para manifestá-la, dependendo isto da sua superioridade e das condições do corpo que tomar.

Ciclos evolutivos dos mundos, flagelos destruidores e transição planetária

Desde a eternidade, o Universo prossegue com o seu movimento evolutivo rumo ao infinito, sendo que todos os seres e mundos estão submetidos à lei do progresso.

O mundo, ao progredir, oferece morada mais agradável a seus habitantes à medida que eles também progridem. Assim, paralelamente, marcham os progressos de homens, animais, vegetais e os mundos que eles habitam.

Dos ensinos dos Espíritos, somos informados que há diferentes categorias de mundos, quanto ao grau de adiantamento ou inferioridade dos seus habitantes. Há mundos inferiores à Terra, física e moralmente; outros da mesma categoria que o nosso planeta; e outros mais ou menos superiores. Em uma escala evolutiva, os mundos podem ser: primitivos, destinados às primeiras encarnações; mundos de expiação e provas, onde domina o mal; de regeneração, em que as almas ainda têm o que expiar, mas haurem novas forças; ditosos, onde o bem sobrepuja o mal; e celestes ou divinos, habitações de Espíritos puros, onde exclusivamente reina o bem.

A Terra, pertencente ao mundo de expiação e provas, já esteve material e moralmente num estado inferior e primitivo. Hoje, ela se prepara para atingir um grau mais avançado pela lei do progresso, em período de transição planetária, passando de mundo de provas e expiações a caminho de mundo regenerado. Trata-se de um período de mudanças que a Humanidade deverá passar, do surgimento de uma Nova Era, símbolo de uma sociedade mais feliz, justa, pacífica, amorosa e fraterna.

Até aqui, a Humanidade tem realizado grandes progressos com a sua inteligência, chegando a resultados jamais alcançados, sob o ponto de vista das ciências. Resta, ainda, um imenso progresso a realizar: fazer com que reine a caridade, a fraternidade e a solidariedade, para assegurar o bem-estar moral de todos os seus habitantes.

Quando a humanidade está madura para subir um degrau, pode-se dizer que os tempos marcados por Deus são chegados. De todas as partes somos alertados sobre esses tempos, em que grandes acontecimentos ocorrerão para a regeneração da humanidade.

Materialmente, a Terra tem sofrido transformações identificadas e comprovadas pela Ciência, porém a transformação moral ocorrerá pela depuração dos Espíritos encarnados e desencarnados que a povoam, sendo que as principais causas dos sofrimentos humanos são o seu atraso moral e a ignorância das leis de Deus.

Os flagelos destruidores, que atingem a Humanidade, provocados pelo homem ou naturais que ocorrem à sua revelia, são provas que dão ao homem a oportunidade de exercitar a sua inteligência, de demonstrar paciência e resignação ante a vontade de Deus, permitindo-lhe manifestar seus sentimentos de abnegação, de desinteresse e de amor ao próximo, caso o egoísmo não o domine.

Assim, as tribulações estarão presentes no período de transição para que o homem se esforce por adquirir a força necessária capaz de transformá-lo em pessoa de bem, mais espiritualizada, sabendo que o ser moralizado compreende o valor das provações, vendo nelas o remédio amargo, mas útil à sua melhoria espiritual.

Para esses flagelos, o sofrimento é um mecanismo educativo, permitido por Deus, quando o homem se revela rebelde à sua lei.

Emigrações e imigrações dos Espíritos

Chegado o tempo marcado por Deus, ocorre uma grande emigração e imigração de Espíritos.

Os que praticam o mal, não tocados pelo bem e indignos do planeta transformado, serão excluídos espiritualmente para não obstaculizar o progresso. Irão expiar em mundos inferiores e raças atrasadas, levando os conhecimentos adquiridos e tendo por missão fazê-las avançar. Esses Espíritos rebeldes às leis divinas serão substituídos por outros melhores, que farão reinar a justiça, a paz e a fraternidade.

O que distingue os Espíritos atrasados é a revolta contra Deus, por se recusarem a reconhecer um poder superior aos poderes humanos; a propensão para paixões degradantes, sentimentos de egoísmo, orgulho, inveja e ciúme; o apego material, a sensualidade, a cupidez, a avareza.

As grandes partidas coletivas não têm por único fim ativar as saídas; têm igualmente o de transformar mais rapidamente o espírito da massa, livrando-a das más influências e o de dar maior ascendente às ideias novas.

Passado o período de transição planetária, os Espíritos que permaneceram fiéis ao bem receberão morada com uma Humanidade desejosa de progredir, que foi transformada pela força do amor.

No planeta regenerado, a Humanidade se encontrará mais feliz, mas o progresso espiritual não estará completo, pois a caminhada evolutiva é longa.

Em semelhante contexto, deve-se entender o tema “Os exilados de Capela e a raça adâmica”.

Allan Kardec, no livro “A Gênese”, Capítulo XI, em “A Gênese espiritual”, esclarece sobre as emigrações e imigrações de Espíritos e a raça adâmica, esclarecendo:

“35. No intervalo de suas existências corpóreas, os Espíritos se encontram no estado de erraticidade e formam a população espiritual ambiente do globo. Pelas mortes e pelos nascimentos, as duas populações, terrestre e espiritual, deságuam incessantemente uma na outra. Há, pois, diariamente, emigrações do mundo corpóreo para o mundo espiritual e imigrações do mundo espiritual para o mundo corpóreo: é o estado normal.

36. Em certas épocas, reguladas pela sabedoria divina, essas emigrações e imigrações se operam em massas mais ou menos consideráveis, em virtude das grandes revoluções que lhes acarretam a partida simultânea em quantidades enormes, logo substituídas por quantidades equivalentes de encarnações. Devem-se, portanto, considerar os flagelos destruidores e os cataclismos como ocasiões de chegadas e partidas coletivas, meios providenciais de renovamento da população corporal do globo, de ela se retemperar pela introdução de novos elementos espirituais mais depurados. É verdade que há destruição de grande número de corpos nessas catástrofes; isso, contudo, não passa de vestimentas que se rasgam, já que nenhum Espírito perece; eles apenas mudam de planos; em vez de partirem isoladamente, partem em bandos; essa a única diferença, visto que, por uma causa ou por outra, cedo ou tarde fatalmente terão que partir.

As renovações rápidas, quase instantâneas, que se produzem no elemento espiritual da população, em consequência dos flagelos destruidores, apressam o progresso social; sem as emigrações e imigrações que de tempos em tempos lhe vêm dar violento impulso, esse progresso só se realizaria com extrema lentidão.

É de notar-se que todas as grandes calamidades que dizimam as populações são sempre seguidas de uma era de progresso de ordem física, intelectual ou moral e, por conseguinte, no estado social das nações nas quais elas ocorrem. É que têm por fim operar uma transformação na população espiritual, que é a população normal e ativa do globo.

37. Essa transfusão, que se opera entre a população encarnada e desencarnada de um mesmo planeta, igualmente se efetua entre os mundos, quer individualmente, nas condições normais, quer por massas, em circunstâncias especiais. Há, pois, emigrações e imigrações coletivas de um mundo para outro, donde resulta a introdução, na população de um deles, de elementos inteiramente novos. Novas raças de Espíritos, vindo misturar-se às existentes, constituem novas raças de homens. Ora, como os Espíritos nunca mais perdem o que adquiriram, trazem consigo a inteligência e a intuição dos conhecimentos que possuem, imprimindo, por conseguinte, o caráter que lhes é peculiar à raça corpórea que venham animar. Para isso, não precisam que novos corpos sejam criados exclusivamente para serem usados por eles. Desde que a espécie corpórea existe, eles encontram sempre corpos prontos para os receber. Nada mais são, portanto, do que novos habitantes. Quando chegam à Terra, integram-lhe, a princípio, a população espiritual, para depois encarnarem como os outros.

Raça adâmica

38. Segundo o ensino dos Espíritos, foi uma dessas grandes imigrações, ou, se quiserem, uma dessas colônias de Espíritos, vinda de outra esfera, que deu origem à raça simbolizada na pessoa de Adão e, por esse motivo, chamada raça adâmica. Quando chegou à Terra, o planeta já estava povoado desde tempos imemoriais, como a América, quando chegaram os europeus.

Mais adiantada do que as que a tinham precedido neste globo, a raça adâmica é, com efeito, a mais inteligente, a que impele ao progresso todas as outras. A Gênese no-la mostra, desde os seus primórdios, industriosa, apta às artes e às ciências, sem haver passado aqui pela infância intelectual, o que não se dá com as raças primitivas, mas concorda com a opinião de que ela se compunha de Espíritos que já tinham progredido bastante. Tudo prova que a raça adâmica não é antiga na Terra e nada se opõe a que seja considerada como habitando este globo desde apenas alguns milhares de anos, o que não estaria em contradição nem com os fatos geológicos nem com as observações antropológicas, antes tenderia a confirmá-las.

39. No estado atual dos conhecimentos, não é admissível a doutrina segundo a qual todo o gênero humano procede de uma individualidade única, de há seis mil anos somente até hoje. As principais considerações que a contradizem, tomadas à ordem física e à ordem moral, resumem-se nos seguintes tópicos:

Do ponto de vista fisiológico, algumas raças apresentam tipos particulares característicos que não lhes permitem uma origem comum. Há diferenças que evidentemente não são simples efeito do clima, pois que os brancos que se reproduzem nos países dos negros não se tornam negros e reciprocamente. O ardor do Sol queima e escurece a epiderme, porém nunca transformou um branco em negro, nem lhe achatou o nariz, ou mudou a forma dos traços da fisionomia, nem lhe tornou lanudo nem crespo o cabelo comprido e sedoso. Sabe-se hoje que a cor do negro provém de um tecido especial subcutâneo peculiar à espécie.

Deve-se, pois, considerar as raças negras, mongólicas, caucásicas como tendo origem própria, como tendo nascido simultânea ou sucessivamente em diversas partes do globo. O cruzamento delas produziu as raças mistas secundárias. Os caracteres fisiológicos das raças primitivas constituem indício evidente de que elas procedem de tipos especiais. As mesmas considerações se aplicam, conseguintemente, tanto aos homens quanto aos animais, no que diz respeito à pluralidade dos troncos. (Cap. X, itens 2 e seguintes.)

40. Adão e seus descendentes são representados na Gênese como homens essencialmente inteligentes, visto como, desde a segunda geração, constroem cidades, cultivam a terra, trabalham os metais. Seus progressos nas artes e nas ciências são rápidos e duradouros. Não se conceberia, portanto, que esse tronco tenha tido, como ramos, numerosos povos tão atrasados, de inteligência tão rudimentar, que ainda em nossos dias rastejam a animalidade, que hajam perdido todos os traços e, até, a menor lembrança do que faziam seus pais. Tão radical diferença nas aptidões intelectuais e no desenvolvimento moral atesta, com evidência não menor, uma diferença de origem.

41. Independentemente dos fatos geológicos, a prova da existência do homem na Terra, antes da época fixada pela Gênese, é tirada da população do globo. Sem falar da cronologia chinesa, que, dizem alguns, remonta a trinta mil anos, documentos mais autênticos provam que o Egito, a Índia e outros países já eram povoados e floresciam, pelo menos, três mil anos antes da Era Cristã, ou seja, mil anos depois da criação do primeiro homem, segundo a cronologia bíblica. Documentos e observações recentes não deixam hoje dúvida alguma quanto às relações que existiram entre a América e os antigos egípcios, devendo-se, portanto, concluir que essa região já era povoada naquela época. Seria, então, forçoso admitir-se que, em mil anos, a posteridade de um único homem foi capaz de povoar a maior parte da Terra. Ora, semelhante fecundidade estaria em flagrante contradição com todas as leis antropológicas.

42. A impossibilidade se torna ainda mais evidente quando se admite, com a Gênese, que o dilúvio destruiu todo o gênero humano, com exceção de Noé e de sua família, que não era numerosa, no ano 1656 do mundo, ou seja, 2.348 anos antes da Era Cristã. Em realidade, pois, dataria apenas de Noé o povoamento da Terra. Ora, quando os hebreus se estabeleceram no Egito, 612 anos após o dilúvio, esse país já era um poderoso império, que teria sido povoado, sem falar de outras regiões, em menos de seis séculos, tão só pelos descendentes de Noé, o que não é admissível.

Notemos, de passagem, que os egípcios acolheram os hebreus como estrangeiros. Seria de admirar que houvessem perdido a lembrança de uma comunidade de origem tão próxima deles, quando conservavam religiosamente os monumentos de sua história.

Rigorosa lógica, corroborada pelos fatos, demonstra, pois, da maneira mais categórica, que o homem está na Terra desde tempo indeterminado, muito anterior à época que a Gênese assinala. Dá-se a mesma coisa com a diversidade dos troncos primitivos, pois demonstrar a impossibilidade de uma proposição é demonstrar a proposição contrária. Se a Geologia descobre traços autênticos da presença do homem antes do grande período diluviano, mais completa ainda será a demonstração. (…)

45. A raça adâmica apresenta todos os caracteres de uma raça proscrita. Os Espíritos que a integram foram exilados para a Terra, já povoada, mas de homens primitivos, imersos na ignorância, que aqueles tiveram por missão fazer progredir, levando-lhes as luzes de uma inteligência desenvolvida. Não é esse, com efeito, o papel que essa raça tem desempenhado até hoje? Sua superioridade intelectual prova que o mundo de onde vieram os Espíritos que a compõem era mais adiantado do que a Terra. Havendo esse mundo entrado numa nova fase de progresso e não tendo tais Espíritos, pela sua obstinação, querido colocar-se à altura desse progresso, lá estariam deslocados e constituiriam um obstáculo à marcha providencial das coisas. Por isso foram excluídos de lá e substituídos por outros, que o mereceram.

Relegando aquela raça para este mundo de labor e de sofrimento, Deus teve razão para lhe dizer: “Tirarás o alimento da terra com o suor do teu rosto.” Na sua mansuetude, prometeu-lhe que lhe enviaria um Salvador, isto é, alguém que a esclareceria sobre o caminho que lhe cumpria tomar, para sair desse lugar de miséria, desse inferno, e ganhar a felicidade dos eleitos. Esse Salvador, Ele lho enviou na pessoa do Cristo, que lhe ensinou a lei de amor e de caridade que ela desconhecia e que seria a verdadeira âncora de salvação.

É igualmente com o objetivo de fazer que a humanidade progrida em determinado sentido que os Espíritos superiores, embora não tenha as qualidades do Cristo, encarnam de tempos a tempos na Terra para desempenhar missões especiais, proveitosas, simultaneamente, ao adiantamento pessoal deles, se as cumprirem de acordo com os desígnios do Criador.

46. Sem a reencarnação, a missão do Cristo seria um contrassenso, assim como a promessa feita por Deus. Suponhamos, com efeito, que a alma de cada homem seja criada por ocasião do nascimento do corpo e não faça mais do que aparecer e desaparecer da Terra; que relação haveria entre as que vieram desde Adão até Jesus Cristo e as que vieram depois? Todas seriam estranhas umas às outras. A promessa de um Salvador, feita por Deus, não podia aplicar-se aos descendentes de Adão, uma vez que suas almas ainda não estavam criadas. Para que a missão do Cristo pudesse corresponder às palavras de Deus, seria preciso que estas se aplicassem às mesmas almas. Se são novas estas almas, não podem estar maculadas pela falta do primeiro pai, que é apenas pai carnal e não pai espiritual. De outro modo, Deus teria criado almas com mácula de uma falta que não podia deixar nelas qualquer vestígio, pois que elas não existiam. A doutrina comum do pecado original implica, por conseguinte, a necessidade de uma relação entre as almas do tempo do Cristo e as do tempo de Adão; implica, portanto, a reencarnação.

Dizei que todas essas almas faziam parte da colônia de Espíritos exilados na Terra ao tempo de Adão e que se achavam manchadas dos vícios que lhes acarretaram ser excluídas de um mundo melhor, e tereis a única interpretação racional do pecado original, pecado peculiar a cada indivíduo e não resultado da responsabilidade da falta de outrem a quem ele jamais conheceu. Dizei que essas almas ou Espíritos renascem diversas vezes na Terra para a vida corpórea, a fim de progredirem e se depurarem; que o Cristo veio esclarecer essas mesmas almas, não só acerca de suas vidas passadas, como também em relação às suas vidas ulteriores, e somente então dareis à sua missão um sentido real e sério, que a razão pode aceitar.”

O Espírito Emmanuel, em “A caminho da luz”, na psicografia de Francisco Cândido Xavier, em “As raças adâmicas”, extraímos:

O sistema de Capela

Nos mapas zodiacais, que os astrônomos terrestres compulsam em seus estudos, observa-se desenhada uma grande estrela na Constelação do Cocheiro, que recebeu, na Terra, o nome de Cabra ou Capela. Magnífico sol entre os astros que nos são mais vizinhos, ela, na sua trajetória pelo Infinito, faz-se acompanhar, igualmente, da sua família de mundos, cantando as glórias divinas do Ilimitado. A sua luz gasta cerca de quarenta e dois anos para chegar à face da Terra, considerando-se, desse modo, a regular distância existente entre a Capela e o nosso planeta, já que a luz percorre o espaço com a velocidade aproximada de 300.000 quilômetros por segundo.

Quase todos os mundos que lhe são dependentes já se purificaram física e moralmente, examinadas as condições de atraso moral da Terra, onde o homem se reconforta com as vísceras dos seus irmãos inferiores, como nas eras pré-históricas de sua existência, marcham uns contra os outros ao som de hinos guerreiros, desconhecendo os mais comezinhos princípios de fraternidade e pouco realizando em favor da extinção do egoísmo, da vaidade, do seu infeliz orgulho.

Um mundo em transições

Há muitos milênios, um dos orbes da Capela, que guarda muitas afinidades com o globo terrestre, atingira a culminância de um dos seus extraordinários ciclos evolutivos.

As lutas finais de um longo aperfeiçoamento estavam delineadas, como ora acontece convosco, relativamente às transições esperadas no século XX, neste crepúsculo de civilização.

Alguns milhões de Espíritos rebeldes lá existiam, no caminho da evolução geral, dificultando a consolidação das penosas conquistas daqueles povos cheios de piedade e virtudes, mas uma ação de saneamento geral os alijaria daquela humanidade, que fizera jus à concórdia perpétua, para a edificação dos seus elevados trabalhos.

As grandes comunidades espirituais, diretoras do Cosmos, deliberam, então, localizar aquelas entidades, que se tornaram pertinazes no crime, aqui na Terra longínqua, onde aprenderiam a realizar, na dor e nos trabalhos penosos do seu ambiente, as grandes conquistas do coração e impulsionando, simultaneamente, o progresso dos seus irmãos inferiores.

Espíritos exilados na Terra

Foi assim que Jesus recebeu, à luz do seu reino de amor e de justiça, aquela turba de seres sofredores e infelizes.

Com a sua palavra sábia e compassiva, exortou essas almas desventuradas à edificação da consciência pelo cumprimento dos deveres de solidariedade e de amor, no esforço regenerador de si mesmas. Mostrou-lhes os campos imensos de luta que se desdobravam na Terra, envolvendo-as no halo bendito da sua misericórdia e da sua caridade sem limites. Abençoou-lhes as lágrimas santificadoras, fazendo-lhes sentir os sagrados triunfos do futuro e prometendo-lhes a sua colaboração cotidiana e a sua vinda no porvir.

Aqueles seres angustiados e aflitos, que deixavam atrás de si todo um mundo de afetos, não obstante os seus corações empedernidos na prática do mal, seriam degredados na face obscura do planeta terrestre; andariam desprezados na noite dos milênios da saudade e da amargura; reencarnariam no seio das raças ignorantes e primitivas, a lembrarem o paraíso perdido nos firmamentos distantes. Por muitos séculos não veriam a suave luz da Capela, mas trabalhariam na Terra acariciados por Jesus e confortados na sua imensa misericórdia.

Fixação dos caracteres raciais

Com o auxílio desses Espíritos degredados, naquelas eras remotíssimas, as falanges do Cristo operavam ainda as últimas experiências sobre os fluidos renovadores da vida, aperfeiçoando os caracteres biológicos das raças humanas. A natureza ainda era, para os trabalhadores da espiritualidade, um campo vasto de experiências infinitas; tanto assim que, se as observações do mendelismo fossem transferidas àqueles milênios distantes, não se encontraria nenhuma equação definitiva nos seus estudos de biologia. A moderna genética não poderia fixar, como hoje, as expressões dos genes, porquanto, no laboratório das forças invisíveis, as células ainda sofriam longos processos de acrisolamento, imprimindo-se-lhes elementos de astralidade, consolidando-se-lhes as expressões definitivas, com vistas às organizações do porvir.

Se a gênese do planeta se processara com a cooperação dos milênios, a gênese das raças humanas requeria a contribuição do tempo, até que se abandonasse a penosa e longa tarefa da sua fixação”.

Bibliografia:

EMMANUEL (Espírito); psicografado por Francisco Cândido Xavier. A caminho da luz.  1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2016.

KARDEC, Allan; tradução de Evandro Noleto Bezerra. A Gênese. 2ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

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