Dialogando com Espíritos: dialogador, doutrinador ou médium esclarecedor

Essa reflexão tratará do trabalho fraterno de dialogador, doutrinador ou médium esclarecedor em uma reunião mediúnica espírita.

Em “Organização e funcionamento da reunião mediúnica espírita”, da Federação Espírita Brasileira, sob a coordenação de Marta Antunes de Oliveira de Moura, no item 6.3, extrai-se: “O esclarecedor é a pessoa que, na reunião, exerce o papel de ouvir, dialogar e esclarecer os Espíritos manifestantes necessitados, porém, consciente de que se encontra perante uma criatura humana que sofre, e que, muitas vezes, desconhece a real situação em que se encontra”.

A atividade de dialogador, doutrinador ou médium esclarecedor é de suma importância no acolhimento aos Espíritos sofredores que comparecem à reunião mediúnica espírita, principalmente nos trabalhos de desobsessão, como Suely Caldas Schubert, no livro “Obsessão / Desobsessão”, na “Terceira Parte: Reunião de desobsessão”, Capítulo 6, “O Doutrinador”, ensina:

“Esclarecer, em reunião de desobsessão, é clarear o raciocínio; é levar uma entidade desencarnada, através de uma série de reflexões, a entender determinado problema que ela traz consigo e que não consegue resolver; ou fazê-la compreender que as suas atitudes representam um problema para terceiros, com agravantes para ela mesma. É leva-la a modificar conceitos errôneos, distorcidos e cristalizados, por meio de uma lógica clara, concisa, com base na Doutrina Espírita e, sobretudo, permeada de amor.

Essa é uma das mais belas tarefas na reunião de desobsessão e que requer muita prudência, discernimento e diplomacia. Que requer, principalmente, o ascendente moral daquele que fala sobre aquele que ouve, que está sendo atendido. Esse ascendente moral faz com que as explicações dadas levem o cunho da serenidade, da energia equilibrada e da veracidade.”

Suely Caldas Schubert, no mesmo Capítulo, continua:

“As palavras são como setas arremessadas, que poderão ser danosas ou benéficas, dependendo do sentimento de quem as projeta. As primeiras ferem, causam distúrbios, destroem e podem acordar sentimentos de revide, com igual teor vibratório. As segundas, vibrando na luz do amor, penetram na alma como bênçãos gratificantes, produzindo reflexos de claridade que se identificarão com o emissor.

No instante do esclarecimento, quando a entidade se comunica, ela está de alguma forma expectante, aguardando alguma coisa, para ela, imprevisível. Também os presentes à reunião se colocam em posição especial, porém, de doação, de desejo de atender à expectativa do irmão necessitado. E qualquer que seja a maneira sob a qual ele se apresente, todos os pensamentos e todas as vibrações devem estar unidos, homogêneos, dirigidos no intuito de beneficiá-lo. Nesta hora, o doutrinador será o polo centralizador desse conjunto de emoções positivas, estabelecendo-se uma corrente magnética que envolve o comunicante e que ajuda, concomitantemente, ao que esclarece. Este, recebendo ainda o influxo amoroso do mentor da reunião, terá condições de dirigir a conversação para o rumo mais acertado e que atinja o cerne da problemática que o Espírito apresenta.

O esclarecimento não se faz mostrando erudição, conhecimentos filosóficos ou doutrinários. Também não há necessidade de dar uma aula sobre o que é o Espiritismo, nem de mostrar o quanto os espíritas trabalham. Como não é o instante para criticar, censurar, acusar ou julgar. Esclarecer não é fazer sermão. Não surtirão bons resultados palavras revestidas de grande beleza, mas vazias, ocas, frias. Não atenderão às angústias e aflições daquele que sofre e muito menos abrandarão os revoltados e vingativos.

Em quaisquer dos casos, é preciso compreendamos que é quase impossível a uma pessoa mudar de procedimento, sem que seja levada a conhecer as causas que deram origem aos seus problemas. Razão por que, em grande número de comunicações, o doutrinador, sentindo que há esta necessidade, deve aplicar as técnicas de regressão de memória no comunicante. Esta técnica consiste em levá-lo a recordar-se de fatos do seu passado, de sua última ou anterior reencarnação, despertando lembranças que jazem adormecidas. Nessas ocasiões, os Trabalhadores da Espiritualidade agem, seja acordando as reminiscências nos painéis da mente, seja formando quadros fluídicos com as cenas que evidenciem a sua própria responsabilidade perante os fatos em que se proclamava inocente e vítima.

De outras vezes, a lógica e clareza dos argumentos, aliadas à compreensão e ao amor, são o suficiente para convencer as entidades.

Para sentir aquilo que diz, é essencial ao doutrinador uma vivência que se enquadre nos princípios que procura transmitir. Assim, a sua vida diária deve ser pautada, o mais possível, dentro dos ensinamentos evangélicos e doutrinários. Inclusive, porque, os desencarnados que estão sendo atendidos, não raro, acompanham-lhe os passos para verificar o seu comportamento e se há veracidade em tudo o que fala e aconselha. Eis o motivo pelo qual Joanna de Ângelis recomenda: ‘(…) quem se faz instrutor deve valorizar o ensino, aplicando-o em si próprio’.

Outro cuidado que o doutrinador deve ter durante o diálogo é o de dosar a verdade, para não prejudicar o Espírito que veio em busca de socorro e lenitivo, esclarecimentos, enfim, que lhe deem paz. A franqueza, em certos casos, pode ser destrutiva. A verdade pode ferir àquele que não está em condições de recebê-la. É o caso, por exemplo, de uma entidade que desconhece que deixou a Terra e apresenta total despreparo para a morte. Este esclarecimento só deve ser transmitido depois de uma conversação que a prepare psicologicamente para a realidade. A medida justa para isto é colocar-se o doutrinador na posição do comunicante, vivendo o seu drama e imaginando o que seria o seu sofrimento.

Os doutrinadores devem ser no mínimo dois e se revezarão no atendimento aos desencarnados.

Há um outro ponto a se considerar a respeito dos que estão na tarefa de esclarecimento, nas sessões de desobsessão: é que estes não devem ser médiuns de incorporação, pois não teriam condições de acumular as duas funções, além de sofrerem de modo direto as influências dos obsessores, o que obviamente prejudicaria a tarefa de esclarecimento.”

No livro “Mediunidade: estudo e prática”, Programa II, da FEB Editora, Módulo III, Tema 2, em “O diálogo com os Espíritos”, destacamos:

“O esclarecimento dos desencarnados sofredores, perseguidores, renitentes ou não de viciações, ódios, desvios emocionais, entre outros, por meio das manifestações mediúnicas ostensivas, constitui atividade de elevada importância no âmbito da caridade fraternal desenvolvida na Casa Espírita. Indica, igualmente, o ponto máximo da reunião mediúnica.

A propósito, afirma André Luiz:

[…] a alienação mental dos Espíritos desencarnados exige o concurso fraterno de corações amigos, com bastante entendimento e bastante amor para auxiliar nos templos espíritas, atualmente dedicados à recuperação do Cristianismo, em sua feição clara e simples.

Nesse contexto, surge a figura do doutrinador ou dialogador como sendo o médium capaz de acolher e esclarecer o desencarnado que sofre, à luz do entendimento espírita e do Evangelho de Jesus, aliando à sua experiência doutrinária estudos e práticas de vida capazes de ensejar eficácia ao contato com os enfermos espirituais.

1. DOUTRINADOR, DIALOGADOR OU MÉDIUM ESCLARECEDOR

A palavra doutrinação, ainda muito utilizada no meio espírita, sofreu certo desgaste ao longo do tempo em razão de ser utilizada na forma de catequese ou de sermão. Neste curso, ela é empregada como sinônimo de diálogo fraterno ou de esclarecimento evangélico-doutrinário aos comunicantes que necessitam de apoio espiritual, todavia encontramos na obra de André Luiz, Emmanuel e outros orientadores o uso indistinto das designações: doutrinador, dialogador ou médium esclarecedor, palavras utilizadas nesse sentido específico.

Na equipe em serviço, os médiuns esclarecedores, mantidos sob a condução e inspiração dos benfeitores espirituais, são os orientadores da enfermagem ou da assistência aos sofredores desencarnados. Constituídos pelo dirigente do grupo e seus assessores, são eles que os instrutores da Vida maior utilizam em sentido direto para o ensinamento ou o socorro necessários. Naturalmente que a esses companheiros compete um dos setores mais importantes da reunião.

O bom doutrinador tem desenvolvida a mediunidade de intuição que, como qualquer faculdade mediúnica, aperfeiçoa-se com a prática. Daí ser importante manter-se vigilante e atento às intuições que lhe surgem no foro íntimo durante o diálogo mantido com comunicantes desencarnados.

O médium esclarecedor deve esforçar-se para desenvolver outros recursos, úteis à boa execução da tarefa: paciência e tolerância, que acalmam e acolhem irmãos sofredores; estudo espírita, sedimentando sólida base doutrinária necessária para neutralizar quaisquer tentativas de introdução de modismos e equívocos à prática espírita; benevolência, afabilidade e simplicidade durante o trato com os Espíritos comunicantes; manutenção de clima de simplicidade, otimismo e fraternidade ao conversar com Espíritos mais rebeldes, revoltados ou que buscam vingança, aparando-se na certeza do auxílio prestado pelos orientadores espirituais; atenção à problemática apresentada pelo Espírito e, ao mesmo tempo, envolvimento em vibrações harmônicas, a fim de que o médium exercite também a sua capacidade de auxiliar com proveito.

O encarnado encarregado do diálogo deve conscientizar-se do esforço de combate às próprias imperfeições morais, trabalhando na aquisição e no desenvolvimento de virtudes, pois o seu comportamento no bem e as suas atitudes equilibradas apresentam significativo efeito moral sobre os Espíritos com quem dialoga.

2. CONDIÇÕES FAVORÁVEIS DE UM BOM DIÁLOGO COM OS ESPÍRITOS

Allan Kardec assinala no livro O que é o espiritismo, que há três condições essenciais para que um Espírito se comunique:

• que lhe convenha fazê-lo

• que sua posição ou suas ocupações lho permitam;

• que encontre no médium um instrumento apropriado à sua natureza. Tendo como base esses fatores, apontamos, em seguida, as principais condições que favorecem um bom diálogo com os desencarnados.

O amor

A arte da doutrinação se aperfeiçoa com a prática, como acontece a qualquer outra mediunidade, sobretudo se há empenho do doutrinador na aquisição de valores intelectuais e morais. Francisco Thiesen nos lembra, no prefácio do livro Diálogo com as sombras, as palavras do autor da referida obra: “[…] o segredo da doutrinação é o amor.” E André Luiz, no livro No mundo maior, comenta: “[…] conhecimento auxilia por fora, só o amor socorre por dentro […]. Com a nossa cultura retificamos os efeitos, quanto possível, e só os que amam conseguem atingir as causas profundas.”

O conhecimento intelectual, por si só, não é garantia de êxito na tarefa desobsessiva. O esclarecedor deve aliar à sua argumentação o mais elevado sentimento de solidariedade, fraternidade e compreensão, buscando auscultar os sentimentos do sofredor, colocando-se na posição do assistido, para melhor compreendê-lo e auxiliá-lo, como alerta André Luiz: “Para esse fim, para decifrar os complicados labirintos do sofrimento moral, é imprescindível haver atingido mais elevados degraus da humana compreensão.”

A palavra

No atendimento mediúnico a Espíritos necessitados, a palavra expressa tanto ‘o que dizer’ quanto ‘o como dizer’. Deve ser pronunciada num tom de voz harmônico, tranquilo, destituído de afetação, nem imposição, na forma fraterna como a de quem conversa com um amigo ou familiar, momentaneamente, distante do equilíbrio. André Luiz recorda que, ao nos comunicarmos com alguém, emitimos energias que poderão conduzir o ouvinte à harmonia ou ao desajuste, pois a palavra sempre carrega o magnetismo de quem fala:

[A] […] palavra, qualquer que ela seja, surge invariavelmente dotada de energias elétricas específicas, libertando raios de natureza dinâmica. A mente, como não ignoramos, é o incessante gerador de força, por intermédio dos fios positivos e negativos do sentimento e do pensamento, produzindo o verbo que é sempre uma descarga eletromagnética, regulada pela voz.

Em outra obra de sua autoria, André Luiz descreve um atendimento que modificou radicalmente a conduta adotada pelo obsessor, simplesmente porque o dialogador soube aliar simplicidade, tato, gentileza e entonação adequados à palavra:

A paciência do doutrinador sensibilizava-nos. Não recebia Libório, qual se fora defrontado por um habitante das sombras, suscetível de acordar-lhe qualquer impulso de curiosidade menos digna. Ainda mesmo descontando o valioso concurso do mentor que o acompanhava, Raul emitia de si mesmo sincera compaixão de mistura com inequívoco interesse paternal. Acolhia o hóspede sem estranheza ou irritação, como se o fizesse a um familiar que regressasse demente ao santuário doméstico. Talvez por essa razão o obsessor a seu turno se revelava menos agastadiço. […] Ante o argumento enunciado com sinceridade e simpleza, o renitente sofredor pareceu apaziguar-se ainda mais. Jatos de energia mental, partidos de Silva, alcançavam-no agora em cheio, no tórax, como a lhe buscarem o coração. […] Sob o sábio comando de Clementino, falou o doutrinador com afetividade ardente:

– Libório, meu irmão!

Essas três palavras foram pronunciadas com tamanha inflexão de generosidade fraternal que o hóspede não pôde sopitar o pranto que lhe subia do âmago.

Emmanuel, no livro O consolador, abordando os elevados sentimentos que precisam ser desenvolvidos pelo médium esclarecedor, estabelece uma valiosa diferenciação entre doutrinar e evangelizar:

Assim, não basta doutrinar o Espírito, no sentido de transmitir-lhes informações ou ensinar-lhe algo, é importante evangelizar. […] Para doutrinar, basta o conhecimento intelectual dos postulados do Espiritismo; para evangelizar é necessária a luz do amor no íntimo. Na primeira, bastarão a leitura e o conhecimento; na segunda, é preciso vibrar e sentir com o Cristo.

• A prece, o passe e as irradiações mentais

A prece e o passe são recursos valiosos de apoio ao diálogo com os Espíritos, sobretudo quando se esgota qualquer tentativa de entendimento. Fornecem a necessária harmonia tanto ao manifestante portador de desequilíbrio quanto ao próprio médium, considerando que os trabalhadores da equipe espiritual recolhem também as forças mentais emitidas pelos participantes do grupo, inclusive as que fluem abundantes do médium.

Em algumas situações específicas, quando a conversa fraterna não se revela produtiva, pode-se induzir o Espírito ao sono ou à regressão da memória, favorecidos pela atuação dos benfeitores espirituais que, intuitivamente, sugerirão tais medidas.

Se o comunicante perturbado procura fixar-se no braseiro da revolta ou na sombra da queixa, indiferente ou recalcitrante, o diretor ou o auxiliar em serviço solicitará a cooperação dos benfeitores espirituais presentes para que o necessitado rebelde seja confiado à assistência de organizações espirituais adequadas a isso. Nesse caso, a hipnose benéfica será utilizada a fim de que o magnetismo balsamizante asserene o companheiro perturbado, amparando-se-lhe o afastamento da cela mediúnica, à maneira do enfermo desesperado da Terra a quem se administra a dose calmante para que se ponha mais facilmente sob o tratamento preciso.”

Assim, o dialogador, doutrinador ou médium esclarecedor exerce uma tarefa muito importante na reunião mediúnica espírita, trazendo em sua bagagem a base doutrinária edificante e a vivência evangélica adquirida em processo constante de autoaprimoramento, para esclarecer os Espíritos sofredores em socorro espiritual realizados pelas Casas Espíritas.

Bibliografia:

MOURA, Marta Antunes de Oliveira de (Organizadora). Organização e funcionamento da reunião mediúnica espírita. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2008.

MOURA, Marta Antunes de Oliveira de (Organizadora). Mediunidade: estudo e prática. Programa II. 2ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

SCHUBERT, Suely Caldas. Obsessão/Desobsessão: profilaxia e terapêutica espíritas. 3ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2018.

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