Quem quiser salvar a sua vida, a perderá

“Então Jesus disse aos seus discípulos: se alguém quiser acompanhar-me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a vida por minha causa, a encontrará. Pois, que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mateus 16: 24-26; Marco, 8: 34-37; e Lucas, 9: 23-25)

Os ensinamentos do Mestre Jesus devem ser interpretados como lições, exemplos e roteiros de vida para o progresso moral e espiritual na busca da perfeição. Cristo é o caminho, a verdade e a vida em direção ao Pai, porquanto ninguém chega ao Criador Eterno a não ser por Ele.

Para seguir Jesus, temos que vencer a luta íntima contra as próprias imperfeições, com destaque ao egoísmo, ao orgulho, à vaidade, ao ódio, ao rancor, aos inúmeros ressentimentos, dentre outras tantas.

Essa luta interna do bem contra o mal deve ser entendida como renunciar ou negar a si mesmo, fazendo desaparecer o egoísmo para começar a enxergar os semelhantes como verdadeiros irmãos, filhos do mesmo Pai.

A prática do verdadeiro e puro amor conduz para renunciar a si mesmo, afastando o egoísmo, o orgulho e a indiferença dos nossos pretextos, das nossas razões, ideias e mentes, para pensar e agir a partir da ótica do outro.

Devemos tomar a nossa cruz diante das provações e expiações com resignação consciente, esforço e trabalho na prática do bem. Essa cruz tão necessária para a evolução moral e espiritual, permitindo acumular tesouros celestiais na busca da perfeição.

Nesse processo, os bens celestiais são adquiridos mediante acúmulos de virtudes morais em pluralidade de existências, que limpam o Espírito de sentimentos inferiores e viciosos. As aquisições de virtudes são conquistas individuais do Espírito alcançadas por meio de provas e aprendizados edificantes em sucessivas experiências vividas.

Os bens terrenos, materiais e transitórios são empréstimos divinos para o ser humano impulsionar o seu progresso moral e espiritual. Somos depositários fiéis e administradores desses bens. Seremos cobrados dos seus empregos em função do livre-arbítrio. Eles não constituem propriedade individual do ser humano.

Nada nos pertence na Terra, nem mesmo o corpo físico, em que a morte se despoja dele com todos os outros bens materiais. Ao final de nossas existências, tudo será restituído ao verdadeiro proprietário. Logo, os bens materiais aqui ficam.

O apego aos bens materiais e transitórios constitui óbice ao progresso moral e espiritual. Os vínculos que prendem o ser humano desviam-lhe os pensamentos do Céu, paralisando os impulsos do coração. Na verdade, há ilusão ao valorizar com o nome de virtude o que, na maioria das vezes, não passa de egoísmo, orgulho, vaidade.

Não devemos ser administradores infiéis, utilizando os bens emprestados unicamente para a satisfação do egoísmo e do orgulho. Devemos utilizar esses bens a serviço do verdadeiro proprietário em benefício de todos para tornar esse mundo um verdadeiro reino de Deus.

Nesse contexto, essa passagem evangélica trata do apego aos bens transitórios terrenos e da aquisição de virtudes morais perenes ao seguir as pegadas do Mestre Jesus, bens sagrados que são adicionados à bagagem evolutiva na busca da perfeição.

O Espírito Emmanuel, no livro “Harmonização”, na psicografia de Francisco Cândido Xavier, em “Vida estreita”, esclarece a respeito desses ensinamentos de Jesus:

“Porque qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, mas qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, esse se salvará. Jesus (Marcos, 8: 35)

Para que possamos entender a grandeza oculta do ensinamento do Cristo é imprescindível considerações especiais no círculo de nossa própria individualidade.

Já pensaste relativamente à propriedade legítima da vida? Pertencer-te-ão, de fato, os patrimônios materiais, as paisagens exteriores, o teu próprio corpo? Sabes que não.

O homem esclarecido está certo da transitoriedade do quadro em que se movimenta nos caminhos do mundo, reconhecendo a si mesmo como usufrutuário na Casa de Deus. Nem mesmo o invólucro carnal lhe pertence em sentido absoluto.

Jesus, portanto, não aludia à vida universal, criação do Pai Eterno, mas à vida estreita de expressões caprichosas que o homem egoísta inventou para si próprio, na Terra. Tanto assim, que o Mestre se refere à sua vida e não à nossa vida.

Enquanto a criatura deseje salvar caprichos criminosos, perderá a oportunidade de elevar-se aos domínios da sublimação espiritual.

Quase sempre edificamos criações menos dignas no processo evolutivo e erigimos barreiras entre nós e a Inspiração Superior.

A mensagem divina flui incessantemente para os nossos corações, mas numerosos companheiros estão procurando defender certas construções indesejáveis nos caminhos da viciação, do dinheiro, da sexualidade.

Todavia, enquanto perdure semelhante atitude mental, é impossível que o homem se identifique com a plenitude da vida eterna.

Estará comprando objetos materiais e vendendo-os nos mercados inferiores, amarrando o coração para desamarrá-lo depois, em grandes padecimentos na esfera das afeições desviadas.

Aguilhoado às ilusões venenosas onde se compraz em viver temporariamente, é um seixo arestoso nas estradas terrestres, mas quando delibera afeiçoar-se à consciência universalista de Jesus, o homem é a estrela que conquistou as vastidões do céu.”

Pelos esclarecimentos de Emmanuel, os bens materiais e transitórios, inclusive os corpos físicos, são empréstimos divinos como meio de impulsionar o progresso moral e espiritual. Equivocadamente, os seres humanos se apegam a esses bens transitórios que os dominam a ponto de serem algemados a eles, produzindo sentimentos de egoísmo, orgulho, vaidade, dentre outros tantos, que cegam para os verdadeiros bens sagrados que fazem evoluir espiritualmente.

Com o desejo de “salvar a vida” pelos bens transitórios, perde-se a oportunidade de subir mais um degrau de progresso no caminho da vida eterna, caindo em mundo de ilusões e sombras para consequentes expiações educativas em existências futuras.

Antonio Luiz Sayão, no livro “Elucidações evangélicas”, comenta:

“O devotamento absoluto, a submissão sem limites são as condições únicas de chegarmos à perfeição relativa que a Humanidade pode alcançar. Dedicando-nos aos nossos irmãos, pela prática sem reservas da caridade, submetendo-nos aos ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, observando, em todos os nossos atos, os preceitos morais que Ele pregou e exemplificou, estaremos no caminho seguro da nossa salvação. Sujeito às necessidades materiais e aos instintos humanos, cumpre que o homem regule a sua existência, tendo sempre em vista que o seu corpo é um empréstimo que o Senhor lhe fez, como meio de efetuar a sua depuração e chegar até Ele. Não deve apegar-se a esse corpo, nem ao tesouro que acumulou, porquanto nenhum dos dois o salvará no outro mundo.

Aquele que se entrega aos gozos materiais entra para a categoria dos que perdem a alma pelos bens mundanos, dos que a ‘vendem ao demônio’, para usarmos de uma frase tantas vezes repetida e tão mal compreendida. Consagrarmos o nosso corpo, isto é, a nossa dedicação, o nosso trabalho, os nossos esforços ao bem da Humanidade, afrontando incômodos e contrariedades, empregando as riquezas que possuamos em auxiliar, com critério e prudência, os nossos irmãos, é caminharmos para a salvação. Fazer o contrário é gozar materialmente, negligenciando a verdadeira felicidade.

Que todos os nossos atos e pensamentos tenham a guiá-los a gratidão ao nosso Deus e o amor aos nossos irmãos; que nunca o egoísmo, ou o interesse pessoal manchem a pureza das nossas consciências.”

Vinicius, no livro “Nas pegadas do Mestre”, em “O lento suicídio”, ensina:

“Aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; e o que perder a sua vida, por minha causa, achá-la-á. Pois que aproveitará ao homem se ganhar o mundo Inteiro, mas perder a sua vida ou causar dano a si mesmo? ou que dará o homem em troca da sua vida?

Assim falava o meigo Rabino aos seus discípulos há quase dois mil anos. Não obstante, essas exortações são ainda de plena atualidade, pois a maioria dos homens não as compreendeu, e, por isso, está agindo em flagrante desacordo com a moralidade que elas encerram.

O homem quer salvar a sua vida, isto é, pretende gozá-la desfrutando a maior soma possível de prazeres; e, nesse afã, causa dano a si próprio, aniquilando e destruindo a vida.

Milhares de invenções, cada qual mais insensata, se têm introduzido na sociedade com o propósito de proporcionar sensações novas aos incontentáveis partidários de Epicuro. E, coisa notável: quanto mais apuram a arte do prazer sensual, mais os homens exigem nesse particular, advindo daí uma série de males inumeráveis, cujas consequências são as enfermidades sob variadíssimas manifestações e um apreciável decrescimento na duração normal da existência.

E é assim que os epicuristas, preocupando-se de modo exclusivo com a satisfação dos sentidos, com o gozo material da existência, acabam por perder a vida, esgotando-se nesciamente numa sucessão ininterrupta de deleites animalizados.

As noites de contínuas vigílias, que se passam nos teatros, clubes e cafés; a incontinência, o álcool, o fumo, a intemperança, a moda e a tensão nervosa, constantemente reclamadas pelo utilitarismo ganancioso, constituem no seu conjunto as causas determinantes dessa senilidade doentia, e dessa decrepitude prematura, que são o apanágio desta geração.

Ainda neste ato de loucura que a Humanidade pratica, opera como fator o egoísmo; pois é por muito satisfazer o ‘eu inferior’, proporcionando-lhe deleites à saciedade, que o homem lentamente se vai suicidando. Isto vem confirmar a justeza deste conceito: o egoísmo é destrutivo.

E o mundo, que se diz civilizado, ainda não compreendeu essa verdade, apesar dos fatos a atestarem de modo tão positivo quanto eloquente. Por isso, poucos são aqueles que resolvem perder a vida pelo Evangelho, isto é: poucos são os que se acham dispostos a sacrificar o ‘animal’ ao ‘espiritual’. No entanto, só esses gozarão da verdadeira vida, segundo a promessa de Jesus.”

Assim, a evolução do Espírito com aquisição de virtudes morais, em pluralidade de existências, vale mais do que ganhar o mundo com os seus bens materiais transitórios.

O ser humano, esquecendo-se do valor sagrado do progresso do Espírito imortal, de preço inestimável, despende seu tempo em experiências reencarnatórias na conquista de bens perecíveis, cujo valor aqui permanece por sua materialidade.

Ao se dedicar aos valores transitório, menospreza o tesouro sagrado que em si mesmo encerra, o único bem real e inconfundível, que é o homem integral.

Ao querer salvar sua vida pela posse da vida transitória, perderá a oportunidade de construir a vida futura oferecida pelo Mestre Jesus mediante seus ensinamentos e exemplos deixados durante a sua missão na Terra.

Por isso, aquele que perder a vida por amor ao Cristo, seguindo as suas pegadas, encontrará de novo o caminho da vida eterna.

Autor: Juan Carlos Orozco

Bibliografia:

BÍBLIA SAGRADA.

EMMANUEL (Espírito); psicografado por Francisco Cândido Xavier. Harmonização. 1ª Edição. (?): Editora GEEM, 1990.

SAYÃO, Antônio Luiz. Elucidações evangélicas à luz da Doutrina Espírita. 16ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

VINÍCIUS. Nas pegadas do Mestre. 12ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2014.

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