Cocriação: cooperação em planos maior e menor

Esta reflexão diz respeito dos entendimentos de cocriação extraídos da Codificação Espírita, de Allan Kardec, e das obras complementares que tratam da eterna criação do Universo, contando com a participação de inteligências divinas ligadas ao Criador para modelar os diversos sistemas da imensidão.

Pelo dicionário, cocrirar tem o significado de criar em união, cooperação, colaboração ou conjunto, sendo este conceito o ponto de partida para se colher os ensinamentos necessários.

Em “A Gênese”, Capítulo II – Deus, “A Providência”, nos itens 24 e 27, Kardec descortina conhecimentos acerca da solicitude divina e da solidariedade existente em todo o Universo, como a seguir:

“Seja ou não assim no que respeita ao pensamento de Deus, isto é, quer o pensamento de Deus atue diretamente ou por intermédio de um fluido, representemo-lo, para facilitar a nossa compreensão, sob a forma concreta de um fluido inteligente preenchendo o universo infinito, e penetrando todas as partes da Criação: a natureza inteira está mergulhada no fluido divino”.  (Kardec. Gênese.)

“Ocorre fenômeno semelhante entre Deus e a Criação. Deus está em toda parte, na natureza, como o Espírito está em toda parte, no corpo. Todos os elementos da Criação se acham em relação constante com Ele, como todas as células do corpo humano se acham em contato imediato com o ser espiritual. Não há, pois, razão para que fenômenos da mesma ordem não se produzam da mesma maneira, num e noutro caso.

Um membro se agita: o Espírito o sente; uma criatura pensa: Deus o sabe. Todos os membros estão em movimento, os diferentes órgãos estão a vibrar; o Espírito se ressente de todas as manifestações, as distingue e localiza. As diferentes criações, as diferentes criaturas se agitam, pensam, agem diversamente: Deus sabe tudo o que se passa e atribui a cada um o que lhe diz respeito.

Daí se pode igualmente deduzir a solidariedade da matéria e da inteligência, a solidariedade entre si de todos os seres de um mundo, a de todos os mundos e, por fim, de todas as criações com o Criador”. (Kardec. Gênese.)

Destes trechos da Codificação, identifica-se a solidariedade que há, tanto da matéria como da inteligência, para a propagação do pensamento do Criador Supremo, sob a forma de fluido inteligente, que irradia e atua em todo o Universo, penetrando todas as partes da Criação.

Isto porque, todos os seres do infinito e a natureza inteira encontram-se mergulhados no fluido cósmico universal (fluido divino ou plasma divino). Assim, tudo no Universo está conectado, compondo um todo solidário.

Por esta rede inteligente universal, Deus está em toda parte. Todos os elementos da criação estão em relação constante com Deus, tornando-o onisciente de tudo o que se passa e supre a cada um o que lhe diz respeito.

O Espírito André Luiz, no livro “Evolução em dois mundos”, no Capítulo 1 – Fluido cósmico, na psicografia Francisco Cândido Xavier, esclarece:

Plasma divino – O fluído cósmico é o plasma divino, hausto do Criador ou força nervosa do Todo-Sábio.

Nesse elemento primordial, vibram e vivem constelações e sóis, mundos e seres, como peixes no oceano.

Cocriação em plano maior – Nessa substância original, ao influxo do próprio Senhor Supremo, operam as Inteligências Divinas a Ele agregadas, em processo de comunhão indescritível, os grandes devas da teologia hindu ou os arcanjos da interpretação de variados templos religiosos, extraindo desse hálito espiritual os celeiros de energia com que constroem os sistemas da imensidade, em serviço de cocriação em plano maior, de conformidade com os desígnios do Todo-Misericordioso, que faz deles agentes orientadores da Criação Excelsa.

Essas Inteligências gloriosas tomam o plasma divino e convertem-no em habitações cósmicas, de múltiplas expressões, radiantes ou obscuras, gaseificadas ou sólidas, obedecendo a leis predeterminadas, quais moradias que perduram por milênios e milênios, mas que se desgastam e se transformam por fim, uma vez que o Espírito criado pode formar ou cocriar, mas só Deus é o Criador de toda a eternidade.

Impérios estelares – Devido à atuação desses arquitetos maiores, surgem nas galáxias as organizações estelares como vastos continentes do Universo em evolução e as nebulosas intragaláticas como imensos domínios do Universo, encerrando a evolução em estado potencial, todas gravitando ao redor de pontos atrativos, com admirável uniformidade coordenadora”. (André Luiz. Evolução em dois mundos)

O Espírito André Luiz traz luz ao conhecimento de que as inteligências divinas ligadas ao Criador Supremo, ao seu comando e influxo, em perfeita comunhão, mergulhadas no plasma divino, cooperam com o Criador na construção dos sistemas do Universo, convertendo-os em habitações cósmicas, em um serviço de cocriação no plano maior, tornando-os também agentes colaboradores da Criação.

Estas Inteligências ligadas ao Criador, obedecendo às leis de Deus, podem formar ou cocriar, mas somente Deus é o Criador de toda a eternidade.

Em um plano menor, cada um de nós é importante para o todo, pois, fazemos parte da construção universal e estamos mergulhados no mesmo oceano fluídico cósmico universal.

Assimilando e expressando o pensamento do Criador, cada criatura é detentora de uma capacidade intrínseca, a cocriação em plano menor, inerente à faculdade de pensar, através da qual absorve a força emanante de Deus, moldando-a, à sua vontade, e influenciando, dessa forma, a própria criação.

A esse respeito, o Espírito André Luiz, continua:

Cocriação em plano menor – Em análogo alicerce, as Inteligências humanas que ombreiam conosco utilizam o mesmo fluido cósmico, em permanente circulação no Universo, para a cocriação em plano menor, assimilando os corpúsculos da matéria com a energia espiritual que lhes é própria, formando assim o veículo fisiopsicossomático em que se exprimem ou cunhando as civilizações que abrangem no mundo a humanidade encarnada e a humanidade desencarnada. Dentro das mesmas bases, plasmam também os lugares entenebrecidos pela purgação infernal, gerados pelas mentes desequilibradas ou criminosas nos círculos inferiores e abismais, e que valem por aglutinações de duração breve, no microcosmo em que estagiam, sob o mesmo princípio de comando mental com que as Inteligências maiores modelam as edificações macrocósmicas, que desafiam a passagem dos milênios.

Cabe-nos assinalar, desse modo, que, na essência, toda a matéria é energia tornada visível e que toda a energia, originariamente, é força divina de que nos apropriamos para interpor os nossos propósitos aos propósitos da Criação, cujas leis nos conservam e prestigiam o bem praticado, constrangendo-nos a transformar o mal de nossa autoria no bem que devemos realizar, porque o Bem de Todos é o seu Eterno Princípio.

Compete-nos, pois, anotar que o fluido cósmico ou plasma divino é a força em que todos vivemos, nos ângulos variados da Natureza, motivo pelo qual já se afirmou, e com toda a razão, que em Deus nos movemos e existimos”. (André Luiz. Evolução em dois mundos)

Logo, cocriar, em plano menor, é o poder que todos temos, segundo a lei universal, à semelhança das inteligências maiores, para cocriar, moldando ou plasmando mundos e moradas, de encarnados e desencarnados, que poderão ser habitações de luz, transformando todo mal de nossa autoria no bem que edifica pelo eterno princípio do amor divino, ou habitações de sombra, geradas por mentes desequilibradas ou criminosas mergulhadas na purgação infernal.

O Espírito Emmanuel, no livro “A caminho da luz”, Capítulo “A Gênese Planetária”, na psicografia de Francisco Cândido Xavier, relata acerca das reuniões de uma comunidade de Espíritos puros (cocriadores) ligada ao Criador, ocorridas nas proximidades do orbe terrestre, em cujas mãos estão o destino de todas as coletividades planetárias:

“A comunidade dos Espíritos puros

Rezam as tradições do mundo espiritual que na direção de todos os fenômenos, do nosso sistema, existe uma comunidade de Espíritos puros e eleitos pelo Senhor supremo do universo, em cujas mãos se conservam as rédeas diretoras da vida de todas as coletividades planetárias.

Essa comunidade de seres angélicos e perfeitos, da qual é Jesus um dos membros divinos, ao que nos foi dado saber, apenas já se reuniu, nas proximidades da Terra, para a solução de problemas decisivos da organização e da direção do nosso planeta, por duas vezes no curso dos milênios conhecidos.

A primeira, verificou-se quando o orbe terrestre se desprendia da nebulosa solar, a fim de que se lançassem, no tempo e no espaço, as balizas do nosso sistema cosmogônico e os pródromos da vida na matéria em ignição, do planeta, e a segunda, quando se decidia a vinda do Senhor à face da Terra, trazendo à família humana a lição imortal do seu Evangelho de amor e redenção”.

Para complementar o entendimento, cabe, ainda, destacar alguns versículos do Evangelho de João: “no princípio era o Verbo, e o Verbo era com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele; e nada do que foi feito, foi feito sem Ele” (João, 1: 1-3). “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”. (João 1: 14)

No tocante a esses versículos de João Evangelista, o Espírito Emmanuel, no livro “O Consolador”, na psicografado por Chico Xavier, na pergunta 283, ensina: “com Referência a Jesus, como interpretar o sentido das palavras de João: e o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e verdade?”; a resposta é “antes de tudo, precisamos compreender que Jesus não foi um filósofo e nem poderá ser classificado entre os valores propriamente humanos, tendo-se em conta os valores divinos de sua hierarquia espiritual, na direção das coletividades terrícolas. Enviado de Deus, Ele foi a representação do Pai junto do rebanho de filhos transviados do seu amor e da sua sabedoria, cuja tutela lhe foi confiada nas ordenações sagradas da vida no Infinito. Diretor angélico do orbe, seu coração não desdenhou a permanência direta entre os tutelados míseros e ignorantes, dando ensejo às palavras do apóstolo, acima referidas”. (Emmanuel. O Consolador.)

Por estas revelações, Jesus, como integrante da comunidade de Espíritos puros e eleitos pelo Senhor supremo do Universo, é a mais perfeita expressão do verbo divino para o orbe terrestre, identificado com a sua misericórdia e sabedoria, desde a organização primordial do planeta. Tudo isso comprova os valores divinos de Jesus da mais alta hierarquia espiritual, que se fez carne, Filho ungido de Deus, o Pai, como seu Enviado, representação do Pai junto do rebanho de filhos transviados do seu amor e da sua sabedoria, e Diretor angélico do orbe terrestre.

Continuando com o Espírito Emmanuel, na psicografia de Francisco Cândido Xavier, no livro “A caminho da luz”, outras considerações contribuem para esta reflexão:

“Sob a orientação misericordiosa e sábia do Cristo, laboravam na Terra numerosas assembleias de operários espirituais.

Como a engenharia moderna, que constrói um edifício prevendo os menores requisitos de sua finalidade, os artistas da espiritualidade edificavam o mundo das células iniciando, nos dias primevos, a construção das formas organizadas e inteligentes dos séculos porvindouros”. (…)

“As formas de todos os remos da natureza terrestre foram estudadas e previstas. Os fluidos da vida foram manipulados de modo a se adaptarem às condições físicas do planeta, encenando-se as construções celulares segundo as possibilidades do ambiente terrestre, tudo obedecendo a um plano preestabelecido pela misericordiosa sabedoria do Cristo, consideradas as leis do princípio e do desenvolvimento geral”. (…)

“Os tipos adequados à Terra foram consumados em todos os reinos da Natureza, eliminando-se os frutos teratológicos e estranhos, do laboratório de suas perseverantes experiências”. (…)

As forças espirituais que dirigem os fenômenos terrestres, sob a orientação do Cristo, estabeleceram, na época da grande maleabilidade dos elementos materiais, uma linhagem definitiva para todas as espécies, dentro das quais o princípio espiritual encontraria o processo de seu acrisolamento, em marcha para a racionalidade. Os peixes, os répteis, os mamíferos, tiveram suas linhagens fixas de desenvolvimento e o homem não escaparia a essa regra geral”. (Emmanuel. A caminho da luz)

Por tudo isso, podemos, agora, compreender o Evangelho de João:

“Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou”. (João 1: 18)

“Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim”. (João, 14: 6)

Jesus é o tipo mais perfeito que Deus ofereceu ao homem para lhe servir de guia e modelo, ou seja, exemplo de perfeição moral a que pode pretender a humanidade na Terra, e a doutrina que ensinou é a mais pura expressão da lei divina. (Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Pergunta 625.)

Jesus como cocriador divino, “enviado de Deus, Ele foi a representação do Pai junto do rebanho de filhos transviados do seu amor e da sua sabedoria, cuja tutela lhe foi confiada nas ordenações sagradas da vida no Infinito”, sendo o “Diretor angélico do orbe” terrestre.

Bibliografia:

BÍBLIA SAGRADA.

EMMANUEL (Espírito); (psicografado por) Francisco Cândido Xavier. A Caminho da Luz. 38ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2016.

EMMANUEL (Espírito); (psicografado por) Francisco Cândido Xavier. O Consolador. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2016.

KARDEC, Allan; tradução de Evandro Noleto Bezerra da 5ª ed. francesa de 1869. A Gênese. 2ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

LUIZ, André (Espírito); na psicografia de Francisco Cândido Xavier. Evolução em dois mundos. 27ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2018.

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