A passagem para o mundo espiritual

Esta reflexão trata do momento da passagem da vida corporal para o mundo espiritual, que se encontra no Capítulo I, da Segunda Parte, do livro “O Céu e o Inferno”, de Allan Kardec.

Neste Capítulo, Kardec aborda as circunstâncias vivenciadas pelos Espíritos durante as suas passagens para o plano espiritual e as perturbações decorrentes, inclusive relatando as transições de Espíritos que já deixaram este mundo. O Codificador examina a influência do gênero de morte sobre as sensações da alma nos últimos transes, como resultado de suas observações.

Kardec destaca que a matéria sem vitalidade é insensível, sendo a alma (o Espírito encarnado) quem experimenta as sensações de dor e prazer. Durante a vida corporal, toda desagregação material repercute na alma, que recebe a impressão dolorosa. É a alma quem sofre, pois ela tem sensações próprias, e o corpo serve de instrumento da dor.

O perispírito é o envoltório fluídico do Espírito, formando um todo inseparável. Durante a vida, o fluido perispiritual penetra o corpo em todas as suas partes e serve de veículo às sensações físicas da alma. Da mesma maneira, a alma atua sobre o corpo e dirige-lhe os movimentos por intermédio do perispírito.

Cessando a vida orgânica do corpo físico, ocorre a separação da alma, decorrente do rompimento do laço fluídico que a unia ao corpo, mas essa separação nunca é brusca. O fluido perispiritual gradativamente se desprende de todos os órgãos, sendo que a separação se completa quando não mais reste um átomo do perispírito ligado ao corpo.

Por ocasião da morte, a sensação dolorosa da alma está na razão direta da soma dos pontos de contato existentes entre o corpo e o perispírito e da maior ou menor dificuldade para o rompimento. A morte pode ser mais ou menos penosa conforme as circunstâncias.

Quatro casos podem representar situações extremas de infinitas variantes, de acordo com as coesões do perispírito e do corpo:

1º) se o desprendimento do perispírito for completo, a alma nada sente;

2º) se a coesão estiver no auge de sua força, produz-se uma ruptura que reage dolorosamente sobre a alma;

3º) se a coesão for fraca, a separação torna-se fácil e opera-se sem abalo; e

4º) se existirem ainda pontos de contato entre o corpo e o perispírito, a alma poderá ressentir-se dos efeitos da decomposição do corpo, até que o laço inteiramente se desfaça.

Assim, o sofrimento que segue a morte relaciona-se à força que une o perispírito ao corpo. Tudo que diminuir essa força e produzir rapidez no desprendimento, torna a passagem menos penosa. Se o desprendimento ocorrer sem dificuldade, a alma deixará de experimentar qualquer sentimento desagradável.

Na transição, produz-se ainda uma perturbação em que a alma experimenta um torpor que paralisa momentaneamente as suas faculdades, neutralizando as sensações. Seria como um estado de catalepsia, situação semelhante de quem desperta de um sono profundo. As ideias são confusas, vagas e incertas; a vista vê um nevoeiro, mas pouco a pouco se aclara, despertando-lhe a memória e o conhecimento. Esse despertar é bem diferente, sendo calmo para uns e ruins para outros.

A perturbação dura por tempo indeterminado, variando de horas a anos.

A alma quase nunca testemunha conscientemente o derradeiro suspiro, mas há casos dela contemplar conscientemente o desprendimento.

O último alento quase nunca é doloroso, pois ocorre em momento de inconsciência, mas a alma sofre antes a desagregação da matéria e, depois, as angústias da perturbação. Porém, esse estado não é geral, porquanto a intensidade e duração do sofrimento estão na razão direta da afinidade existente entre corpo e perispírito. Quanto maior for essa afinidade, tanto mais penosos e prolongados serão os esforços do Espírito para desprender-se.

Há pessoas nas quais a coesão é tão fraca que o desprendimento se opera por si mesmo, naturalmente, como no caso das mortes calmas, de pacífico despertar.

A causa principal da maior ou menor facilidade de desprendimento é o estado moral da alma. A afinidade entre o corpo e o perispírito é proporcional ao apego à matéria, que atinge o seu máximo no homem, cujas preocupações dizem respeito exclusiva e unicamente à vida e gozos materiais. Ao contrário, nas almas puras, que antecipadamente se identificam com a vida espiritual, o apego é quase nulo.

Assim, de nós somente depende o tornar fácil ou penoso, agradável ou doloroso, esse desprendimento.

Na morte natural, resultante da extinção das forças vitais por velhice ou doença, o desprendimento opera-se gradualmente.

Para o homem em que a alma se desmaterializou e os pensamentos se destacaram das coisas terrenas, o desprendimento quase se completa antes da morte. Ainda com vida orgânica, o Espírito já penetra a vida espiritual, ligado por elo tão frágil que se rompe com a última pancada do coração.

Neste caso, o Espírito pode ter já recuperado a sua lucidez, tornando-se testemunha consciente da extinção da vida do corpo, considerando-se feliz por tê-lo deixado. Para esse, a perturbação é quase nula, ou não passa de ligeiro sono calmo, do qual desperta com indizível impressão de esperança e ventura.

No homem materializado e sensual, que mais viveu do corpo que do Espírito, tudo contribui para estreitar os laços materiais e, quando a morte se aproxima, o desprendimento demanda contínuos esforços. As convulsões da agonia são indícios da luta do Espírito, que às vezes procura romper os elos resistentes, e outras se agarra ao corpo do qual uma força irresistível o arrebata com violência, molécula por molécula.

Quanto mais apegado à vida corporal, sente que ela foge e quer retê-la. Resiste com todas as forças, prolongando a luta por dias, semanas e meses. Nesse momento, o Espírito sente que vive, mas não define se material ou espiritualmente. Luta até que as últimas ligações do perispírito se tenham de todo rompido. Enquanto existirem pontos de contato do perispírito com o corpo, o Espírito ressente-se e sofre com as suas impressões.

O Espírito desmaterializado, mesmo nas enfermidades mais cruéis, sendo frágeis os laços fluídicos que o prendem ao corpo, estes rompem-se suavemente. Depois, a confiança do futuro entrevisto em pensamento ou na realidade, o faz encarar a morte qual redenção e as suas consequências como prova, advindo-lhe uma calma resignada, que ameniza o sofrimento. Após a morte, rompidos os laços, nem uma só reação dolorosa o afeta. O despertar é lépido, desembaraçado e por sensações únicas: o alívio, a alegria.

Na morte violenta, as sensações não são as mesmas. A vida orgânica em plena exuberância de força é subitamente aniquilada. Nenhuma desagregação parcial pôde iniciar previamente a separação do perispírito. Nestas condições, o desprendimento só começa depois da morte e não pode completar-se rapidamente.

O Espírito, colhido de improviso, fica como que aturdido, sentindo, pensando e acreditando-se vivo, prolongando esta ilusão até que compreenda o seu estado. Neste estado entre a vida corporal e espiritual, o Espírito julga material o seu corpo fluídico, experimentando ao mesmo tempo todas as sensações da vida orgânica. Há infinita modalidades que variam segundo os conhecimentos e progressos morais do Espírito.

Àqueles cuja alma está purificada, a situação pouco dura, porque já possuem em si um desprendimento antecipado, cuja morte mais súbita não faz senão apressar. Outros há para os quais a situação se prolonga por anos inteiros.

No suicida, excede a toda expectativa. Preso ao corpo por todas as suas fibras, o perispírito faz repercutir na alma todas as sensações daquele, com sofrimentos cruciantes.

Como resumo, por ocasião da morte, no estado do Espírito tanto maior é o sofrimento quanto mais lento for o desprendimento do perispírito. A rapidez deste desprendimento está na razão direta do adiantamento moral do Espírito. Para o Espírito desmaterializado, de consciência pura, a morte é qual um sono breve, isento de agonia, e cujo despertar é suavíssimo.

Por isso, cada um trabalhe por sua purificação, reprimindo as más tendências e dominando as paixões. Abdique das vantagens imediatas em prol do futuro para identificar-se com a vida espiritual, encaminhando a ela todas as aspirações e preferindo-a à vida terrena.

Devemos considerar essa vida para satisfazer ao mesmo tempo a razão, a lógica, o bom senso e o conceito que temos da grandeza, da bondade e da Justiça de Deus.

A vida futura é uma realidade que se desenrola incessantemente aos nossos olhos. A vida espiritual é a verdadeira vida.

Pouco importam os incidentes da jornada se o ser humano compreende a causa e utilidade das vicissitudes humanas, quando suportadas com resignação. A alma eleva-se nas relações com o mundo visível e os laços fluídicos que a ligam à matéria enfraquecem-se, operando-se por antecipação um desprendimento parcial que facilita a passagem para a outra vida. A perturbação consequente pouco perdura, porque logo se reconhece, nada estranhando, antes compreendendo, a sua nova situação.

Pela prece sincera, que é uma magnetização espiritual, provoca-se a desagregação mais rápida do fluido perispiritual. Pela evocação conduzida com sabedoria e prudência, com palavras de benevolência e conforto, combate-se o entorpecimento do Espírito, ajudando-o a reconhecer-se mais cedo, e, se é sofredor, incute-lhe o arrependimento, o único meio de abreviar seus sofrimentos.

Bibliografia:

KARDEC, Allan; tradução de Evandro Noleto Bezerra. O Céu e o Inferno. 2ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

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