Santo Antônio de Pádua ou de Lisboa: bicorporeidade ou ubiquidade

Essa reflexão, além de tratar da bicorporeidade, compila narrativas da literatura espírita acerca da emancipação da alma vivenciada por Santo Antônio de Pádua ou de Lisboa.

Na bicorporeidade, o encarnado desliga-se parcialmente do seu corpo físico e, enquanto este permanece adormecido em um local, o Espírito se desloca no espaço, tornando-se visível em outra localidade, às vezes muito distante de onde está o seu corpo. A visibilidade pode ser rápida e fugaz, ou nítida e prolongada.

Este tipo de emancipação da alma é muito comum quando se aproxima a hora da desencarnação. O Espírito sente necessidade de ir ao encontro de entes queridos para despedir-se.

O desdobramento espiritual leve, sem tangibilidade, ocorre com relativa frequência nas reuniões mediúnicas usuais da Casa Espírita, sobretudo entre os médiuns videntes e os psicofônicos. Às vezes, o encarnado se desloca até o local onde um acontecimento está ocorrendo ou se posiciona ao lado do Espírito comunicante, fornecendo, mais tarde, detalhes do que percebeu no ambiente espiritual da reunião, ou fora desta.

Em outras situações, mais comuns, o encarnado sai do corpo e assiste a uma projeção de acontecimentos ou fatos, transmitidos em uma tela muito semelhante à utilizada nas projeções de multimídia ou de cinema. Esta última possibilidade se revela importante para melhor compreender o sofrimento do Espírito comunicante, e auxiliá-lo adequadamente, ao acompanhar ações cometidas por ele no passado e que agora se refletem no presente.

As faculdades mediúnicas de Santo Antônio de Pádua são inegáveis, tanto que são inúmeros os “milagres” atribuídos a ele cujos registros levaram à sua canonização. Sobre a capacidade de bicorporeidade de Santo Antônio, em “O Livro dos Médiuns”, na Segunda Parte, Capítulo VII, “Da bicorporeidade e da transfiguração”, no item 119, Allan Kardec narra: “Santo Antônio de Pádua estava pregando na Itália, quando seu pai, em Lisboa, ia ser supliciado, sob a acusação de haver cometido um assassínio. No momento da execução, Santo Antônio aparece e demonstra a inocência do acusado. Comprovou-se que, naquele instante, Santo ­Antônio pregava na Itália, na cidade de Pádua”.

Em seguida, após ser evocado e interrogado acerca do fato anterior, Santo Afonso respondeu a Kardec: “1ª Poderias explicar-nos esse fenômeno? ‘Perfeitamente. Quando o homem, por suas virtudes, chegou a desmaterializar-se completamente; quando conseguiu elevar sua alma para Deus, pode aparecer em dois lugares ao mesmo tempo. Eis como: o Espírito encarnado, ao sentir que lhe vem o sono, pode pedir a Deus lhe seja permitido transportar-se a um lugar qualquer. Seu Espírito, ou sua alma, como quiseres, abandona então o corpo, acompanhado de uma parte do seu perispírito, e deixa a matéria imunda num estado próximo do da morte. Digo próximo do da morte, porque no corpo ficou um laço que liga o perispírito e a alma à matéria, laço este que não pode ser definido. O corpo aparece, então, no lugar desejado. Creio ser isto o que queres saber’.”

Em nota, Kardec comenta: “A alma não se divide, no sentido literal do termo: irradia-se para diversos lados e pode assim manifestar-se em muitos pontos, sem se haver fracionado. Dá-se o que se dá com a luz, que pode refletir-se simultaneamente em muitos espelhos”.

O Espírito Miramez, no livro “Francisco de Assis”, na psicografia de João Nunes Maia, no Capítulo 24, “Do Oriente ao Infinito”, assim narrou a bicorporeidade de Santo Antônio:

“Certa feita, Antônio estava pregando na Itália para grande multidão de fiéis, quando para de súbito e fica imóvel. Os ouvintes, reconhecendo os dons do santo, ficaram a esperar em silêncio profundo, por saberem que o Místico de Pádua poderia estar em colóquio com os Céus.

Naquele mesmo momento, em Portugal, seu pai, o Sr. Martinho de Bulhões, estava sendo condenado injustamente pela morte de um homem.

O pregador franciscano, usando de recursos de ubiquidade, aparece no tribunal e propõe-se a defender o réu. As suas palavras sobremaneira eloquentes, acalmaram as testemunhas mais irritadas, fazendo-as pensar no crime que estavam cometendo, ao afirmarem mentiras diante de um tribunal, visando a umas poucas moedas. Aquelas pessoas compradas antes de consolidarem o macabro crime, pensaram: essa morte foi tão escondida, que qualquer um pode ser o criminoso.

Como se enganam os ignorantes; nada, mas nada, na face da Terra, ficará oculto que não seja anunciado. Ninguém engana a Deus, assim como inocentes verdadeiros não serão atropelados pelo destino; ninguém recebe o que não merece. Antônio, depois de argumentar em defesa do pai, partiu da teoria racional para a parte prática:

– Digníssimo Senhor Juiz e caríssimos irmãos que nos ouvem neste tribunal de justiça humana, falo-vos como se fosse na presença de Deus em aliança com Jesus Cristo. Depois que conversamos, com certeza ficastes conscientes da inocência deste réu, mas é bom que provemos a verdade que vos falo. Haveis de perguntar!… Como? Eu vos peço, em nome da lei, que me acompanheis até o cemitério; eu vou falar com o morto. Ele será a melhor testemunha da questão em vigência.

Olhou dentro dos olhos do Juiz e ordenou com brandura:

– Vamos, meu senhor, porque a lei nada teme, desde quando a verdade apareça.

Este, não resistindo, levantou-se. E Antônio, continuando a olhar para os assistentes, tomou a falar:

– Vamos em nome de Deus e de Cristo!

Mas não foram muitos os que acompanharam Antônio ao cemitério; poucos bastaram para registrar na história, onde um defunto salvou o réu da prisão.

Chegando ao campo santo, dois homens se dispuseram a remover a terra. Algumas testemunhas suavam, outras, pálidas, tremiam. O silêncio era a tônica daquele espetáculo. Somente o Juiz conservava uma postura decente, à espera da verdade, e o santo, serenamente, dominava o ambiente… A expectativa era enorme!…A ferramenta bate no caixão, que é logo destampado, mostrando o corpo em adiantado estado de decomposição. Antônio pula dentro da vala e, na vista de todos, estende a destra ao defunto e fala:

– Diga, meu filho, em nome de Jesus Cristo, fundamento da Verdade no céu e na Terra: Foi Martinho de Bulhões quem te matou?

O suspense era geral. Começou a se formar uma nuvem branca em tomo da cabeça do falecido; suas feições se modificaram e os seus lábios se abriram como por encanto, dizendo:

– Não, não foi ele.

Ali mesmo, no cemitério, o martelo do magistrado fez anunciar a inocência do réu. Frei Antônio andou com o povo alguns passos, desaparecendo sem que este o percebesse, retomando ao seu corpo na Itália, recomeçando seu sermão. O povo quase estático esperava a mensagem de esperança, para eles que sofriam na pele, o dragão do desespero.

Antônio demorara um pouco na sua viagem espiritual; no entanto, como foi fazer uma caridade, os companheiros espirituais ficaram dando assistência aos ouvintes na Itália, até que este chegasse para novamente falar-lhes.

As vibrações das suas palavras emprestavam às moléculas do ar energias vivificantes, para que os organismos que as respirassem se requintassem em vida e esperança Frei Antônio lembrou-se de Paulo aos Romanos, capítulo cinco, versículo vinte, quando assim se refere:

Sobreveio a lei para que se aviltasse a ofensa, mas onde abundou o pecado, super abundou a graça.

A lei apareceu por misericórdia – continuou o tribuno sacro – e nos mostra quantas ofensas estavam escondidas sem que pudéssemos dar termo à ignorância humana, sem que pudéssemos aliviar pelo menos os sofredores, sem que pudéssemos visitar os encarcerados e levar-lhes uma esperança, pela graça de Nosso Senhor. A lei foi um fenômeno divino na Terra, como que freio aos selvagens impulsos dos nossos corações, fazendo com que a inteligência não crie mais problemas, nem se retrate com vingança, sem primeiro saber da verdade. Graças a Deus, ainda existem homens no mundo dados à justiça, e que até dão a vida por ela. O plantio dessa força devemos muito ao grande Moisés, que pela sua sequência faria nascer o Amor, que explodiu na feição do Cristo. Como poderíamos ter e conhecer o Amor, sem primeiro passarmos pelos caminhos da Justiça?

Parou por alguns segundos, passeou os olhos nos fiéis que bebiam suas palavras, como se fossem vinho da melhor qualidade e continuou: parece que depois que conhecemos as leis, os pecados aumentam. Certamente, porque antes não víamos seus efeitos, ou porque eram naturais as suas consequências. Não existia o direito para os menos aquinhoados pela vida; os plebeus eram considerados animais, os encarcerados feras e os analfabetos monstros. Mas quando os Céus nos mostraram um caminho mais excelente, através dos profetas e pela boca do Pastor Inconfundível – do Cristo anunciado pelo Grande Isaías – aparentemente superabundaram os erros que já existiam; e aí começamos, pela graça do Senhor, a corrigi-los. Para isso muitos sucumbiram nas fogueiras, nos porões infectos, nas cruzes. Todavia, aumentou pela misericórdia de Deus, a assistência aos infelizes, aos doentes, aos encarcerados e àqueles que a injustiça farejava, não respeitando a inocência. Entretanto, meus filhos, os justos têm sua recompensa onde quer que estejam, porque Deus é luz muito mais que o Sol, e a injustiça é sombra que não existe com a presença da claridade.

Abençoou a todos, e saiu a pensar meio confuso, no seu pai, que se encontrava em Portugal, e em sua mãe. Mas a alegria do povo o fez distrair-se daquele cismar”.

Almerindo Martins de Castro, no livro “Antônio de Pádua”, expõe: “Antônio de Lisboa ou de Pádua foi médium dos maiores: médium de materialização, de efeitos físicos, vidente, de transporte, de transfiguração, de curar, inspirado, audiente, de transmissão de fluidos, profético”.

Mais adiante, Almerindo, em “Transporte e Materialização”, escreveu:

“Outro fato, verdadeiramente de — Materialização.

Um amigo e vizinho do pai de Antônio matou, por inimizade, certo moço de importante família e escondeu o cadáver no quintal da casa de Martim de Bulhões.

Feitas as pesquisas e achado o morto, foi o pai de Antônio envolvido no processo e condenado à morte, como sendo cúmplice, juntamente com os autores do crime.

Antônio pregava em Pádua, quando foi mediunicamente ciente do ocorrido, isto é, de que o pai ia ser decapitado.

Antônio cessou de falar. Seu corpo, arrimando-se no púlpito, imobilizou-se, dando a impressão de estar dormindo.

E apareceu em Lisboa, no adro da Sé, onde tivera sepultura o assassinado, e aí deteve o cortejo da Justiça.

E, chegando junto à cova do morto, materializou o Espírito da vítima, fazendo-o narrar toda a verdade do crime, sem omitir uma peripécia.

O espanto foi inenarrável, pois todos viram o defunto erguer-se da tumba, e, finda a narrativa, cair ‘morto’ outra vez!

Mas, o extraordinário livramento do velho Martim de Bulhões não produziu só esses pasmos, porque, Antônio, quando continuou a prédica interrompida — em Pádua —, pediu desculpas pelo demorado intervalo, contando como fora e conseguira salvar o genitor.

E os que não acreditaram tiveram a confirmação do caso, quando chegaram as informações pedidas para Portugal.

É certo que se conta também de modo um tanto diferente — nos pormenores — este acontecimento; porém é fora de qualquer dúvida que ocorreu, e havia mesmo, em Lisboa, uma rua cujo nome estava ligado ao caso, chamada — Rua do Milagre de Santo Antônio.

A quantos duvidam — falta confiança, fé, a certeza das realidades prometidas pelo Cristo e reafirmadas pelos grandes médiuns, que continuam, através dos tempos, a grande cruzada pelo aperfeiçoamento das criaturas da Terra. Praticamente, poucos acreditarão que o dom mediúnico possa materializar o Espírito de um assassinado, que venha à Justiça dos homens apontar o nome do criminoso.

Parecerá aos cépticos e aos pouco sabedores da doutrina dos Espíritos que o caso de Antônio de Pádua, livrando o genitor da acusação de cúmplice num crime de morte, só poderá ter realidade sob a forma de milagre, quando um santo, pelas graças celestes, obrigue o Espírito a sair do túmulo para falar em defesa do acusado.

Assim não é. Os médiuns da estirpe de Antônio de Pádua podem atrair e provocar a materialização; mas, qualquer outro, possuindo os fluidos necessários à produção do fenômeno, dará lugar à materialização Espontânea”.

Embora as histórias narradas possam ter as suas diferenças, não há como negar o fato em si que demonstra o elevado Espírito de Santo Antônio de Pádua e o ocorrido, pois ele é historiado em outras tantas literaturas.

Deixo um registro: quando fui ser batizado, a minha mãe escolheu como Padrinho Santo Antônio de Pádua; e, como afilhado, reverencio este Santo que, como São Francisco de Assis, procurou reconstruir a igreja primitiva e tornar o Evangelho de Jesus redivivo.

Bibliografia:

CASTRO, Almerindo Martins de. Antônio de Pádua: sua vida de milagres e prodígios. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Médiuns. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

MIRAMEZ (Espírito); psicografia de João Nunes Maia. Francisco de Assis. 30ª Edição. Belo Horizonte/MG: Editora Espírita Fonte Viva, 2013.

MOURA, Marta Antunes de Oliveira de (Organizadora). Mediunidade: estudo e prática. Programa I. 2ª Edição. Brasília/DF, Federação Espírita Brasileira, 2018.

ROCHA, Cecília (Organizadora). Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita: programa complementar. Tomo Único. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2018.

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