Ide e pregai, discípulo de Jesus!

Muitos candidatos a discípulos de Jesus ficam em dúvidas de como proceder para seguir as pegadas do Mestre no serviço edificante de pregar a Palavra a seus semelhantes.

Quando iluminados pela verdade divina que liberta a alma das paixões viciosas e dos sentimentos inferiores, que dificultam o progresso na busca da perfeição, transformamo-nos em instrumentos do Semeador divino, cooperando na obra de elevação intelectual, moral e espiritual do mundo.

O Cristo disse a seus discípulos que eles eram a luz do mundo e o sal da Terra, os quais seguindo e praticando os seus ensinamentos e exemplos, auxiliavam a afastar as trevas reinantes dentro deles e de seus semelhantes por meio do Evangelho que ilumina, dá significado à vida e a valoriza.

O Mestre mostrou o caminho que conduz para a vida eterna em direção ao Pai; e a existência terrena é uma abençoada oficina de trabalho, resgate e redenção, em que os atos, as palavras e os pensamentos edificantes produzirão bons frutos aos olhos de Deus.

O Espírito Emmanuel, no livro “Fonte viva”, em “Cristo e nós”, na psicografia de Francisco Cândido Xavier, ensina-nos acerca desse esforço de iluminação com Jesus:

“Por que razão Jesus se preocupou em acompanhar o recém-convertido, assistindo-o em pessoa?

É que, se a Humanidade não pode iluminar-se e progredir sem o Cristo, o Cristo não dispensa os homens na obra de soerguimento e sublimação do mundo.

‘Ide e pregai.’

‘Eis que vos mando.’

‘Resplandeça a vossa luz diante dos homens.’

‘A Seara é realmente grande, mas poucos são os ceifeiros.’

Semelhantes afirmativas do Senhor provam a importância por ele atribuída à contribuição humana.

Amemos e trabalhemos, purificando e servindo sempre.

Onde estiver um seguidor do Evangelho aí se encontra um mensageiro do Amigo Celestial para a obra incessante do bem.

Cristianismo significa Cristo e nós.”

Nesse esforço coletivo, Jesus nos convoca para resplandecer a luz das nossas conquistas evolutivas em benefício dos companheiros de jornada, estendendo-lhes as mãos no sentido de caminharmos juntos em direção ao Pai. Identificando e aceitando a luz do Mestre, os seres humanos transformam-se, pouco a pouco, em instrumentos de auxílio, em autênticos discípulos, que sabem refletir a luz do Evangelho nas inúmeras atividades de amor e caridade.

A luz imperecível do Cristo brilha pelos milênios terrestres, penetrando o mundo com o Verbo do princípio. Contudo, nem todos estão dispostos a acolher essa luz. Assim, quem já conquistou certos valores morais elevados e edificantes deve irradiar seus pensamentos, suas palavras, suas ações, suas atitudes e seus gestos como candeias abençoadas sobre os seus semelhantes, contribuindo para o soerguimento moral da Humanidade.

Para nossas reflexões, citaremos algumas passagens evangélicas em que o Mestre Jesus convocou seus discípulos ao trabalho de cooperação para a divulgação da Boa Nova:

“E, convocando os seus doze discípulos, deu-lhes virtude e poder sobre todos os demônios, para curarem enfermidades. E enviou-os a pregar o reino de Deus, e a curar os enfermos. E disse-lhes: nada leveis convosco para o caminho, nem bordões, nem alforje, nem pão, nem dinheiro; nem tenhais duas túnicas. E em qualquer casa em que entrardes, ficai ali, e de lá saireis. E se em qualquer cidade vos não receberem, saindo vós dali, sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra eles. E, saindo eles, percorreram todas as aldeias, anunciando o evangelho, e fazendo curas por toda a parte.” (Lucas, 9: 1-6).

“Chamando os doze para junto de si, enviou-os de dois em dois e deu-lhes autoridade sobre os espíritos imundos. Estas foram as suas instruções: não levem nada pelo caminho, a não ser um bordão. Não levem pão, nem saco de viagem, nem dinheiro em seus cintos; calcem sandálias, mas não levem túnica extra; sempre que entrarem numa casa, fiquem ali até partirem; e, se algum povoado não os receber nem os ouvir, sacudam a poeira dos seus pés quando saírem de lá, como testemunho contra eles. Eles saíram e pregaram ao povo que se arrependesse. Expulsavam muitos demônios, ungiam muitos doentes com óleo e os curavam.” (Marcos, 6: 7-13).

“E disse-lhes: vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado. Estes sinais acompanharão os que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e, se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal nenhum; imporão as mãos sobre os doentes, e estes ficarão curados. Depois de lhes ter falado, o Senhor Jesus foi elevado ao céu e assentou-se à direita de Deus. Então, os discípulos saíram e pregaram por toda parte; e o Senhor cooperava com eles, confirmando-lhes a palavra com os sinais que a acompanhavam” (Marcos, 16: 15-20).

“Jesus enviou estes doze e lhes ordenou dizendo: não ireis pelo caminho das gentes, nem entrareis em cidade de samaritanos; mas ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel; e, indo, pregai, dizendo: é chegado o reino dos Céus. Curai os enfermos, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios; de graça recebestes, de graça dai. Não possuais ouro, nem prata, nem cobre, em vossos cintos; nem alforjes para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bordão, porque digno é o operário do seu alimento. E, em qualquer cidade ou aldeia em que entrardes, procurai saber quem nela seja digno e hospedai-vos aí até que vos retireis. E, quando entrardes nalguma casa, saudai-a; e, se a casa for digna, desça sobre ela a vossa paz; mas, se não for digna, torne para vos a vossa paz. E, se ninguém vos receber, nem escutar as vossas palavras, saindo daquela casa ou cidade, sacudi o pó dos vossos pés.” (Mateus, 10: 5-15).

Essas passagens evangélicas transmitem orientações básicas deixadas pelo Mestre Jesus aos candidatos a discípulos, cujas lições atemporais norteiam todos aqueles que buscam seguir as suas pegadas, servindo como candeias de luz a seus semelhantes, tendo o Cristo como modelo e guia.

Contudo, a implantação do reino de Deus no coração do nosso semelhante não poderá violar o seu livre-arbítrio, o que demandará do candidato a discípulo dedicação constante e esforço edificante em suas ações. Daí o grande desafio ao futuro discípulo de Jesus, o que demandará passar por diversos estágios educativos de evolução espiritual.

Esse aspecto fez-me lembrar o texto “A pequena história do discípulo” do livro “No Roteiro de Jesus”, do Espírito Humberto de Campos, na psicografia de Francisco Cândido Xavier, que narra a caminhada de um aprendiz de discípulo do Mestre Jesus em sete fases de evolução que conduzem para a sublimação daqueles que desejam seguir as pegadas do Cristo na estrada da renovação que liberta a alma na busca da verdadeira felicidade.

A narrativa começa com o Mestre visitando o seu aprendiz pela primeira vez, encontrando-o mergulhado na leitura das informações divinas, procurando sabedoria no conhecimento superior. Do que viu, o Mestre entrega-o aos cuidados de seus prepostos.

Em uma segunda visita, o aprendiz estava entusiasmado e dominado pela luz da revelação, propondo divulgá-la a todos os cantos da Terra. Queria ganhar o mundo para o Criador, multiplicando promessas de sacrifício e interpretando a salvação como serviço da esperança contemplativa. O Mestre louvou o apóstolo ideal, confiando-o a dedicados mensageiros.

Na terceira ocasião, observou mudança no aprendiz, que se guiava pelos propósitos combativos, presumindo ter a posse da realidade universal e lutando com os que não alcançavam o degrau evolutivo. Acusava, julgava e punia sem comiseração. Enfileirava adversários, pretendia destruir e renovar tudo, desconhecia o respeito ao próximo, assumindo graves responsabilidades para o futuro. O Mestre reconhecendo-lhe a sinceridade, acariciou as mãos do defensor da verdade, entregando-o à proteção de missionários fiéis.

Em época diferente, o Mestre percebeu o discípulo pregando princípios edificantes, condicionando-os aos seus pontos de vista. Escrevia páginas e fazia discursos comovedores. Projetava nos ouvintes a vibração de sua fé. Era condutor das massas. O Mestre declarou-o iluminado ministro da palavra celestial, ganhando outros rumos sob a inspiração de valorosos emissários.

No quinto encontro, o Mestre notou o aprendiz com feridas na alma. A conquista do mundo não era fácil. Fora defrontado pela falsidade alheia. Desejoso de praticar o bem, era incessantemente visado pelo mal. Via-se rodeado de espinhos. Suportava calúnias e sarcasmo. Era incompreendido nas melhores intenções. Lia os livros santos intensamente. Sustentava os seus ideais com dificuldades. Ensinava de coração dilacerado. O Mestre enxugou-lhe o suor dizendo para ser peregrino da experiência, confiando-o a carinhosos benfeitores.

Pela sexta vez, o Salvador surpreendeu o discípulo chorando, o qual reconhecia que o domínio de si mesmo era mais difícil do que a conquista do mundo. Entregara-se a forças inferiores, cedendo às sugestões menos dignas que combatia. Aprendera que era mais difícil e doloroso edificar o bem no próprio íntimo. Renunciava ao combate exterior para lutar consigo. Vivia sob a pressão da renovação. Ciente das suas fraquezas e imperfeições, confiava em Deus, a cuja bondade infinita submetia os torturantes problemas individuais pela prece e vigilância. O divino Amigo secou-lhes as lágrimas, exaltando a dor que santifica e recomendando-o aos colaboradores celestiais.

No sétimo encontro, o Mestre admirou-se com o discípulo renovado completamente. O pupilo, dentre outras virtudes, preferia calar-se para ouvir; analisava as dificuldades alheias pelos tropeços; compreendia sem qualquer tendência à superioridade que humilha; via irmãos em toda parte e estava disposto a auxiliá-los e socorrê-los sem preocupação de recompensa; entendia que os filhos de outros lares deviam ser tão amados quanto os filhos do teto em que nascera; entendia os dramas dolorosos dos vizinhos; honrava os velhos e estendia mãos protetoras às crianças e aos jovens; orava pelos adversários, convencido de que não eram maus e, sim, ignorantes e incapazes; socorria os ingratos; interpretava dores e problemas como recursos de melhoria substancial; as lutas eram degraus de ascensão; sua palavra jamais condenava; suas mãos ajudavam sempre; sintonizava sua mente com a Esfera Superior; pregava a verdade e a ensinava a quantos procurassem ouvi-lo; guardava, feliz, a disposição de servir a todos; sabia que era imprescindível amparar o fraco; e suas palavras revestiam-se de ciência celestial. O Mestre abraçou-o proclamando: “Bem-aventurado o servo fiel que busca a Divina Vontade de Nosso Pai! E, desde então, passou a habitar com o discípulo para sempre”.

O texto de Humberto de Campos mostra as diferentes fases daqueles que se propõem a seguir os passos do Mestre Jesus para tornar-se um verdadeiro discípulo.

Tudo na vida tem o seu tempo, a sua preparação e o seu amadurecimento para o serviço edificante na prática do bem, do amor e da caridade, sendo resultado do acúmulo de reflexões, aprendizados e experiências vividas diante de diversas situações de expiações e provas.

O aprendiz do Mestre passou pelas fases de aprendizagem, experiências e provações necessárias para se tornar um discípulo: da busca da sabedoria celestial pelos estudos que educam o Espírito; do despertar da alma pela luz reveladora das verdades eternas; do defensor da verdade divina junto aos seres em evolução; do pregador da palavra celestial; do enfrentamento da dor e incompreensão alheia para tornar-se peregrino da experiência; da luta íntima do bem contra o mal para superar as provações, resistindo às tentações; e do serviço edificante na prática do bem em harmonia com a vontade do Pai.

Importante destacar que, em todas essas fases, o Mestre sempre colocou à disposição do aprendiz os seus prepostos, mensageiros, missionários, emissários, benfeitores e colaboradores celestiais, pois nunca o deixou desamparado para a aquisição dos bens espirituais.

Nas fases, o aprendiz: colocou-se a adquirir os ensinamentos da Palavra; entusiasmou-se diante da revelação e desejou divulgar e pregar a Palavra; procurou purificar e renovar seres necessitados de evolução e em círculos religiosos; escreveu, discursou e conduziu massas; sentia os efeitos da dor e do sofrimento, era colocado a prova e tentado pelo mal, provocava perseguições e sustentava-se com dificuldade, construindo a sua bagagem de experiências dignificantes; reconhecia que muito mais difícil que a conquista do mundo era o domínio de si mesmo, entregara-se também às forças e sugestões inferiores, verificou quão difícil edificar o reino dos Céus dentro de si, constatou que não havia eliminado os sentimentos de egoísmo, orgulho, vaidade e, pela prece e pela vigilância, passou a lutar dentro de si mesmo na busca da ação renovadora; por fim, o discípulo renovara-se completamente depois de suportar e superar todas as provas e expiações.

Assim, o texto de Humberto de Campos ensina-nos o longo caminho para ser um discípulo de Jesus, cuja trajetória de aprendizado, revelação, autoconhecimento, iluminação interior, semeadura, resignação, reforma íntima e serviço edificante conduzem para a verdadeira renovação que liberta a alma na busca da felicidade das bem-aventuranças.

Por tudo isso, o “ide e pregai” não se trata de estimular ações de conversão ou afronta ao livre-arbítrio dos seres humanos, mas sim da possibilidade de dispor aos semelhantes a difusão da prática do bem, na observância do amor universal e das revelações divinas, que trazem verdades imperecíveis.

A candeia de iluminação espiritual é a perfeita imagem de si mesmo, que transforma as próprias energias em bondade e compreensão redentoras para toda gente, gastando o óleo de boa vontade, na renúncia a si mesmo e no sacrifício em Cristo, passando realmente a brilhar.

A Palavra, o Evangelho, os ensinamentos e os exemplos de Jesus são o eterno combustível que alimenta a chama de iluminação interior, de conscientização, de despertar e de libertação da alma em cada ser humano. 

A iluminação interior é o momento do despertar e cada ser humano é local de transformação, renovação, fé, cura e evolução espiritual, na batalha íntima do bem contra o mal. Que brilhe a sua luz em benefício próprio e de todos!

Bibliografia:

BÍBLIA SAGRADA.

CAMPOS, Humberto de (Espírito); (psicografado por) Francisco Cândido Xavier; Gerson Simões Monteiro (organizado por). No Roteiro de Jesus. 3ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2018.

EMMANUEL (Espírito); psicografado por Francisco Cândido Xavier. Fonte viva.  1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2020.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

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