O Espírito Emmanuel em A cortina do “eu”, na psicografia de Francisco Cândido Xavier, no livro “Fonte viva”, Capítulo 101, aborda aspectos para reflexão a respeito de certas atitudes e comportamentos do ser humano em que projeta, consciente, inconsciente ou instintivamente, nas pessoas traços de sua semelhança, buscando uma relação com o “eu”, mediante parâmetros de afinidades que fazem enxergar nelas caraterísticas de nossas maneiras de agir, pensar, julgar e visão de mundo para aprovação e aceitação de um relacionamento ou uma ação.
Vários são os exemplos: eu gosto daquela pessoa porque ela pensa igual a mim; ele é bacana porque faz como faço; tenho para com ele um apreço porque há comunhão de pensamento. Desse comportamento, o que é diferente do “eu” desperta pouco interesse, desprezo, indiferença ou até repulsa.
A cegueira pela “cortina do eu”, do narcisismo apaixonado pela própria imagem, afasta a “genuína comunhão com os interesses divinos”, porquanto “habitualmente amamos a nós mesmos”, fazendo emergir diferenças que enfraquecem possíveis laços de aproximação e afeição, até mesmo com quem estimamos.
Como é difícil aceitar alguém que é diferente do “eu”?
Se possuímos mais conhecimento, normalmente, colocamo-nos em condição de superioridade, facilitando o relacionamento, mas na situação inversa reagimos negativamente ao que recebemos.
Por isso, Emmanuel afirma: “infelizmente, cada um de nós, de modo geral, vive à procura do ‘eu mesmo’.”
No final, Emmanuel ensina: “… graças à bondade de Deus, o sofrimento e a morte nos surpreendem, na experiência do corpo e além dela, arrebatando-nos aos vastos continentes da meditação e da humildade, onde aprenderemos, pouco a pouco, a buscar o que pertence a Jesus Cristo, em favor da nossa verdadeira felicidade, dentro da glória de viver.”
Pelas lições de Emmanuel, na pessoa egocêntrica, a imaginação e o pensamento mantêm-se ocupados com o próprio “eu” e os seus interesses, sendo incapaz de se colocar no lugar de outro.
Para ser empático é preciso descerrar a cortina do “eu”, retirando a atenção dos próprios problemas e passar a observar e a viver o outro, saindo do seu círculo íntimo, quer para a prática da caridade que salva como para não realizar julgamentos levianos.
A empatia leva-nos, também, a ampliar as percepções e evitar julgamentos fechando em nós mesmos, ou seja, utilizar como referência a nossa justiça – o “eu” julgador.
Ser empático é ter a capacidade de se colocar no lugar do outro para entender as suas necessidades, os seus sentimentos, as suas razões e os seus problemas.
É necessário enxergar e escutar as pessoas, identificar as suas carências e dificuldades, captar as suas emoções e entender os seus motivos e atos para se estabelecer uma relação estreita e compreensiva, que conduzirá a um comportamento correspondente a esse entendimento. Sem empatia, seria como disse Jesus: “porque eles, vendo, não veem; e, ouvindo, não ouvem, nem compreendem” (Mateus, 13: 13).
Vejamos o texto de Emmanuel:
A cortina do “eu”
“Porque todos buscam o que é seu e não o que é do Cristo Jesus. – Paulo. (Filipenses, 2:21.)
Em verdade, estudamos com o Cristo a ciência divina de ligação com o Pai, mas ainda nos achamos muito distantes da genuína comunhão com os interesses divinos.
Por trás da cortina do ‘eu’, conservamos lamentável cegueira diante da vida.
Examinemos imparcialmente as atitudes que nos são peculiares nos próprios serviços do bem, de que somos cooperadores iniciantes, e observaremos que, mesmo aí, em assuntos da virtude, a nossa percentagem de capricho individual é invariavelmente enorme.
A antiga lenda de Narciso permanece viva, em nossos mínimos gestos, em maior ou menor porção.
Em tudo e em toda parte, apaixonamo-nos pela nossa própria imagem.
Nos seres mais queridos, habitualmente amamos a nós mesmos, porque, se demonstram pontos de vista diferentes dos nossos, ainda mesmo quando superiores aos princípios que esposamos, instintivamente enfraquecemos a afeição que lhes consagrávamos.
Nas obras do bem a que nos devotamos, estimamos, acima de tudo, os métodos e processos que se exteriorizam do nosso modo de ser e de entender, porquanto, se o serviço evolui ou se aperfeiçoa, refletindo o pensamento de outras personalidades acima da nossa, operamos, quase sem perceber, a diminuição do nosso interesse para com os trabalhos iniciados.
Aceitamos a colaboração alheia, mas sentimos dificuldade para oferecer o concurso que nos compete.
Se nos achamos em posição superior, doamos com alegria uma fortuna ao irmão necessitado que segue conosco em condição de subalternidade, a fim de contemplarmos com volúpia as nossas qualidades nobres no reconhecimento de longo curso a que se sente constrangido, mas raramente concedemos um sorriso de boa-vontade ao companheiro mais abastado ou mais forte, posto pelos desígnios divinos à nossa frente.
Em todos os passos da luta humana, encontramos a virtude rodeada de vícios e o conhecimento dignificante quase sufocado pelos espinhos da ignorância, porque, infelizmente, cada um de nós, de modo geral, vive à procura do ‘eu mesmo’.
Entretanto, graças à bondade de Deus, o sofrimento e a morte nos surpreendem, na experiência do corpo e além dela, arrebatando-nos aos vastos continentes da meditação e da humildade, onde aprenderemos, pouco a pouco, a buscar o que pertence a Jesus Cristo, em favor da nossa verdadeira felicidade, dentro da glória de viver.” (Espírito Emmanuel, na psicografia de Francisco Cândido Xavier. Fonte viva. FEB Editora. Cap. 101)
Autor: Juan Carlos Orozco
Bibliografia:
EMMANUEL (Espírito); psicografado por Francisco Cândido Xavier. Fonte viva. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2020.
