A vida continua

Essa reflexão trata das questões de 149 a 165 em “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, que trazem esclarecimentos a respeito da continuidade da vida espiritual, independentemente da morte do corpo físico, com o objetivo de despertar a consciência e o valor transformador da vida presente.

Para uns, a morte representa o encerramento definitivo da existência; para outros, a morte é uma passagem para outro plano de dimensão espiritual que traz esperança, consolo e repercussões morais em um processo evolutivo constante.

Essa visão estimula, ao mesmo tempo, responsabilidades na existência atual de cada um como ser espiritual e que a vida continuará sempre.

Diante da perda de um ente querido, essa compreensão não diminui a dor de quem se despede, nem pretende simplificar o luto, apenas amplia a compreensão sobre esse fenômeno chamado de morte do corpo físico.

A individualidade que permanece

Com a morte do corpo físico, o Espírito volta ao mundo espiritual, retornando à sua origem, conservando a sua individualidade que jamais se perde.

O corpo espiritual (perispírito) continua a ter um fluido que lhe é próprio, haurido na atmosfera do seu planeta, e que guarda a aparência de sua última encarnação.

A alma nada leva consigo deste mundo, a não ser a lembrança e o desejo de ir para um mundo melhor, lembrança cheia de doçura ou de amargor, conforme o uso que ela fez da vida. Quanto mais pura for, melhor compreenderá a futilidade do que deixa na Terra.

A prova da existência do Espírito está nas comunicações que ocorrem após a sua partida deste mundo material. Também não se tem dúvida quando esses entes espirituais se fazem visíveis em suas aparições.

A vida do Espírito é eterna, a do corpo é transitória e passageira.

Na separação da alma do corpo, rompem-se os laços que os retinham e a alma se desprende.

 A alma não se dissolve em um todo indistinto, nem perde a consciência de si, levando consigo o resultado moral de suas escolhas, a memória das experiências vividas e as tendências que cultivou.

Depois da resposta à questão 115 e sua letra “a”, Kardec comenta:

“Durante a vida, o Espírito se acha preso ao corpo pelo seu envoltório semimaterial ou perispírito. A morte é a destruição do corpo somente, não a desse outro invólucro, que do corpo se separa quando cessa neste a vida orgânica. A observação demonstra que, no instante da morte, o desprendimento do perispírito não se completa subitamente; que, ao contrário, se opera gradualmente e com uma lentidão muito variável conforme os indivíduos. Em uns é bastante rápido, podendo dizer-se que o momento da morte é mais ou menos o da libertação. Em outros, naqueles sobretudo cuja vida foi toda material e sensual, o desprendimento é muito menos rápido, durando algumas vezes dias, semanas e até meses, o que não implica existir, no corpo, a menor vitalidade, nem a possibilidade de volver à vida, mas uma simples afinidade com o Espírito, afinidade que guarda sempre proporção com a preponderância que, durante a vida, o Espírito deu à matéria. É, com efeito, racional conceber-se que, quanto mais o Espírito se haja identificado com a matéria, tanto mais penoso lhe seja separar-se dela; ao passo que a atividade intelectual e moral, a elevação dos pensamentos operam um começo de desprendimento, mesmo durante a vida do corpo, de modo que, em chegando a morte, ele é quase instantâneo. Tal o resultado dos estudos feitos em todos os indivíduos que se têm podido observar por ocasião da morte. Essas observações ainda provam que a afinidade, persistente entre a alma e o corpo, em certos indivíduos, é, às vezes, muito penosa, porquanto o Espírito pode experimentar o horror da decomposição. Este caso, porém, é excepcional e peculiar a certos gêneros de vida e a certos gêneros de morte. Verifica-se com alguns suicidas.”

Assim, a separação da alma do corpo é um desprendimento gradual. A duração e as características desse processo variam conforme as circunstâncias da morte e, sobretudo, o grau de identificação da pessoa com a vida material.

Essa ideia deve ser recebida com serenidade, sem alimentar medos ou interpretações apressadas. Quanto mais conscientes, dedicados ao bem e menos presos a interesses exclusivamente materiais, mais preparados estaremos para as grandes mudanças da existência.

O despertar no mundo espiritual

Após o desligamento, pode ocorrer um período de perturbação espiritual, comparável a um despertar no qual a consciência reconhece gradualmente a sua nova condição.

Essa lucidez não se apresenta do mesmo modo para todos. Há quem se adapte rapidamente; outros necessitam de mais tempo para compreender a transição e reorganizar percepções, lembranças e sentimentos.

Muitas vezes, conhecidos vêm receber na entrada da alma no mundo dos Espíritos, ajudando-o a desligar-se das faixas da matéria. Pode-se encontrar, também, conhecidos que perdeu de vista em outras vidas.

Uma compreensão para viver melhor

Crer na sobrevivência do Espírito imortal tem grande influência para melhorar a maneira de viver, induzindo a um comportamento mais moral do que material.

Perdoar, amar, servir, reparar um erro, cuidar dos afetos e desenvolver virtudes edificantes deixam de ser recomendações abstratas para se tornarem insumos na construção do seu futuro para a eternidade.

Compreender que a vida continua pode diminuir o temor da morte, mas deve, sobretudo, ampliar o compromisso com a prática do bem, do amor e da caridade que salva, para a conquista das bem-aventuranças prometidas pelo Mestre Jesus, ditas no Sermão da Montanha a mais de dois mil anos.

A melhor preparação para a vida espiritual começa aqui, no presente, com a consciência educada no dever cumprido pelo amor que escolhemos oferecer a nós mesmos e aos nossos semelhantes.

O permanente agora é o tempo real, onde podemos transformar os pensamentos e as ações hoje. Fazer o bem consciente traz paz de Espírito. Cuidar de si mesmo e ajudar os outros é a base de uma vida com propósitos mais elevados.

Autor: Juan Carlos Orozco

Bibliografia

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 1. ed. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

Para acessar o Blog Reflexões espíritas, clicar no link abaixo:

https://juancarlosespiritismo.blog/

Deixe um comentário

search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close