O destino é feito de escolhas

Diversos pensadores expressaram que “a vida é feita de escolhas”, mas esta reflexão ampliará a visão para “o destino é feito de escolhas”, indo além, para as vidas conectadas pelo passado, presente e futuro, apoiando-se em dois livros: “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec; e “O problema do ser, do destino e da dor”, de León Denis.

Em “O Livro dos Espíritos”, os Espíritos Superiores esclarecem que a liberdade do homem não é absoluta “porque todos precisais uns dos outros, assim os pequenos como os grandes” e “desde que juntos estejam dois homens, há entre eles direitos recíprocos que lhes cumpre respeitar; não mais, portanto, qualquer deles goza de liberdade absoluta” (questões 825 e 826).

“No pensamento goza o homem de ilimitada liberdade”, sendo responsável pelo que pensa perante a Deus, que o conhecendo pode condená-lo ou absolvê-lo segundo a sua justiça (questões 833 e 834). Assim, temos a liberdade de pensar e somos responsáveis por suas consequências perante a justiça divina.

As questões 835 e 837 ensinam que “a consciência é um pensamento íntimo, que pertence ao homem” e “a liberdade de consciência é um dos caracteres da verdadeira civilização e do progresso”. Neste sentido, a consciência e a liberdade de consciência induzem o progresso das civilizações.

Os Espíritos Superiores, na questão 843, dizem que o homem tem a liberdade de pensar e obrar; e sem o livre-arbítrio seriamos uma máquina. Então, a liberdade de pensar e obrar é própria dos seres inteligentes ou espirituais.

Na questão 780, do progresso moral e da compreensão do bem e do mal, “o homem, desde então, pode escolher. O desenvolvimento do livre-arbítrio acompanha o da inteligência e aumenta a responsabilidade dos atos”.

“Deus criou iguais todos os Espíritos, mas cada um destes vive há mais ou menos tempo, e, conseguintemente, tem feito maior ou menor soma de aquisições. A diferença entre eles está na diversidade dos graus da experiência alcançada e da vontade com que obram, vontade que é o livre-arbítrio” (Questão 804). A diferença evolutiva do Espírito está na aquisição de experiências e no uso do livre-arbítrio para obrar, em construir o destino.

Na mesma direção, León Denis, no livro “O problema do ser, do destino e da dor”, em “O livre-arbítrio”, ensina que “a liberdade é a condição necessária da alma humana que, sem ela, não poderia construir seu destino”.

León Denis correlaciona liberdade e responsabilidade com a elevação do ser, em que a responsabilidade molda a dignidade e a moralidade do homem, porquanto ela vem da consciência que aprova ou censura os nossos atos. “O progresso não é outra coisa senão a extensão do livre-arbítrio no indivíduo e na coletividade”. (…) O livre-arbítrio é, pois, a expansão da personalidade e da consciência”.

Para ser livre é necessário o esforço para soltar as amarras da ignorância e das paixões inferiores, substituindo-as pela razão, educando e preparando as faculdades humanas. Mas, para isso, é preciso tempo.

Em todos os graus de ascensão, na luta do bem contra o mal, sem prejuízo do destino que o passado impõe, sempre haverá lugar para a vontade do ser humano agir. Mas, como conciliar o livre-arbítrio com os desígnios de Deus?

Essa questão está ligada a outras leis, como, por exemplo, às leis de causa e efeito e do progresso, em que o homem exercerá a sua vontade restritivamente sem impedir a ação divina, cujos efeitos sucedem sem limites. Assim, a questão do livre-arbítrio apresenta-se a cada ser como instrumento de evolução para a conquista da própria liberdade.

No início, o Espírito age pelo instinto e, aos poucos, vai dando lugar à razão, porque a liberdade é pequena nos graus inferiores de evolução. Mas, à medida que o Espírito adquiri consciência de si mesmo começa a compreender as leis que regem o Universo.

Em todos os graus de ascensão, “na hora das resoluções importantes, será assistido, guiado, aconselhado por Inteligências superiores, por Espíritos evoluídos e mais esclarecidos do que ele” (León Denis). Essa assistência supre a falta de capacidade para decidir ou de escolher.

León Denis esclarece, ainda, acerca do livre-arbítrio no planejamento reencarnatório, quando ele é possível de realizar-se: “O livre-arbítrio, a livre vontade do Espírito exerce-se principalmente na hora das reencarnações. Escolhendo tal família, certo meio social, ele sabe de antemão quais são as provações que o aguardam, mas compreende, igualmente, a necessidade dessas provações para desenvolver suas qualidades, curar seus defeitos, despir seus preconceitos e vícios. Essas provações podem ser também consequência de um passado nefasto, que é preciso reparar, e ele aceita-as com resignação e confiança, porque sabe que seus grandes irmãos do espaço não o abandonarão nas horas difíceis”.

Para os Espíritos que participam de seus planejamentos reencarnatórios, o futuro lhes aparece em traços gerais, fruto de seus atos anteriores. “Esses atos representam a parte de fatalidade ou ‘a predestinação’ que certos homens são levados a ver em todas as vidas. São simplesmente, como vimos, efeitos ou reações de causas remotas. Na realidade, nada há de fatal e, qualquer que seja o peso das responsabilidades em que se tenha incorrido, pode-se sempre atenuar, modificar a sorte com obras de dedicação, de bondade, de caridade, por um longo sacrifício ao dever” (León Denis).

León Denis acrescenta: “O Espírito só estará verdadeiramente preparado para a liberdade no dia em que as leis universais, que lhe são externas, se tornem internas e conscientes em razão de sua própria evolução. No dia em que ele se penetrar da lei e fizer dela a norma de suas ações, terá atingido o ponto moral em que o homem se possui, domina e governa a si mesmo”. A partir desta consciência, o Espírito não precisará mais do constrangimento para corrigir-se, pois todo ser humano chegado a esse estado de razão será livre e responsável na medida do seu adiantamento.

“Há também causas secretas que muitas vezes atuam sobre nós. Às vezes a intuição vem combater o raciocínio, impulsos partidos da consciência profunda nos determinam num sentido não previsto. Não é a negação do livre-arbítrio; é a ação da alma em sua plenitude, intervindo no curso de seus destinos, ou então será a influência exercida pelos nossos Guias invisíveis, que nos impele em direção ao plano divino, ou ainda a intervenção de uma Inteligência que, vindo de mais longe e mais alto, procura arrancar-nos às contingências inferiores e levar-nos para as cumeadas” (León Denis).

A influência exercida pelos nossos Guias invisíveis não afasta de nós o mal, mas procuram desviar-nos do mau pensamento que nos pode causar dano. Eles em nada obstam ao cumprimento dos decretos de Deus, nem suspendem o curso das leis da Natureza. Apenas evitam que as infrinjamos, dirigindo o nosso livre-arbítrio. Agem, contudo, à nossa revelia, de maneira imperceptível, para não nos subjugar a vontade. O homem se acha então na posição de um que solicita bons conselhos e os põe em prática, mas conservando a liberdade de segui-los ou não. Quer Deus que seja assim, para que se tenha a responsabilidade dos seus atos e o mérito da escolha entre o bem e o mal. É isso o que o homem pode estar sempre certo de receber, se pedir com fervor, sendo, pois, a isso que se podem, sobretudo, aplicar estas palavras: “pedi e obtereis.”

Nesses casos, a vontade do Espírito pode rejeitar ou aceitar e decidir. Em vez de negar ou afirmar o livre-arbítrio: “O homem é o obreiro de sua libertação. Ele atinge o estado completo de liberdade pelo cultivo íntimo e pela valorização de suas potências ocultas” (León Denis).

“Elevemo-nos à consciência de nosso papel e nosso objetivo e seremos livres. Com os nossos esforços, ensinamentos e exemplos asseguraremos a vitória da vontade, assim como do bem, e em vez de formarmos seres passivos, curvados ao jugo da matéria, expostos à incerteza e inércia, teremos feito almas verdadeiramente livres, soltas das cadeias da fatalidade e pairando acima do mundo pela superioridade das qualidades conquistadas” (León Denis).

Na questão 872, em “O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec faz um resumo da questão do livre-arbítrio:

“O homem não é fatalmente levado ao mal; os atos que pratica não foram previamente determinados; os crimes que comete não resultam de uma sentença do destino. Ele pode, por prova e por expiação, escolher uma existência em que seja arrastado ao crime, quer pelo meio onde se ache colocado, quer pelas circunstâncias que sobrevenham, mas será sempre livre de agir ou não agir. Assim, o livre-arbítrio existe para ele, quando no estado de Espírito, ao fazer a escolha da existência e das provas e, como encarnado, na faculdade de ceder ou de resistir aos arrastamentos a que todos nos temos voluntariamente submetido. Cabe à educação combater essas más tendências. Fá-lo-á utilmente, quando se basear no estudo aprofundado da natureza moral do homem. Pelo conhecimento das leis que regem essa natureza moral, chegar-se-á a modificá-la, como se modifica a inteligência pela instrução e o temperamento pela higiene.

Desprendido da matéria e no estado de erraticidade, o Espírito procede à escolha de suas futuras existências corporais, de acordo com o grau de perfeição a que haja chegado e é nisto, como temos dito, que consiste sobretudo o seu livre-arbítrio. Esta liberdade, a encarnação não a anula. Se ele cede à influência da matéria, é que sucumbe nas provas que por si mesmo escolheu. Para ter quem o ajude a vencê-las, concedido lhe é invocar a assistência de Deus e dos bons Espíritos.

Sem o livre-arbítrio, o homem não teria nem culpa por praticar o mal, nem mérito em praticar o bem. E isto a tal ponto está reconhecido que, no mundo, a censura ou o elogio são feitos à intenção, isto é, à vontade. Ora, quem diz vontade diz liberdade. Nenhuma desculpa poderá, portanto, o homem buscar, para os seus delitos, na sua organização física, sem abdicar da razão e da sua condição de ser humano, para se equiparar ao bruto. Se fora assim quanto ao mal, assim não poderia deixar de ser relativamente ao bem. Mas, quando o homem pratica o bem, tem grande cuidado de averbar o fato à sua conta, como mérito, e não cogita de por ele gratificar os seus órgãos, o que prova que, por instinto, não renuncia, malgrado à opinião de alguns sistemáticos, ao mais belo privilégio de sua espécie: a liberdade de pensar.

A fatalidade, como vulgarmente é entendida, supõe a decisão prévia e irrevogável de todos os sucessos da vida, qualquer que seja a importância deles. Se tal fosse a ordem das coisas, o homem seria qual máquina sem vontade. De que lhe serviria a inteligência, desde que houvesse de estar invariavelmente dominado, em todos os seus atos, pela força do destino? Semelhante doutrina, se verdadeira, conteria a destruição de toda liberdade moral; já não haveria para o homem responsabilidade, nem, por conseguinte, bem, nem mal, crimes ou virtudes. Não seria possível que Deus, soberanamente justo, castigasse suas criaturas por faltas cujo cometimento não dependera delas, nem que as recompensasse por virtudes de que nenhum mérito teriam. Demais, tal lei seria a negação da do progresso, porquanto o homem, tudo esperando da sorte, nada tentaria para melhorar a sua posição, visto que não conseguiria ser mais nem menos.

Contudo, a fatalidade não é uma palavra vã. Existe na posição que o homem ocupa na Terra e nas funções que aí desempenha, em consequência do gênero de vida que seu Espírito escolheu como prova, expiação ou missão. Ele sofre fatalmente todas as vicissitudes dessa existência e todas as tendências boas ou más, que lhe são inerentes. Aí, porém, acaba a fatalidade, pois da sua vontade depende ceder ou não a essas tendências. Os pormenores dos acontecimentos, esses ficam subordinados às circunstâncias que ele próprio cria pelos seus atos, sendo que nessas circunstâncias podem os Espíritos influir pelos pensamentos que sugiram.

Há fatalidade, portanto, nos acontecimentos que se apresentam, por serem estes consequência da escolha que o Espírito fez da sua existência de homem. Pode deixar de haver fatalidade no resultado de tais acontecimentos, visto ser possível ao homem, pela sua prudência, modificar-lhes o curso. Nunca há fatalidade nos atos da vida moral.

No que concerne à morte é que o homem se acha submetido, em absoluto, à inexorável lei da fatalidade, por isso que não pode escapar à sentença que lhe marca o termo da existência, nem ao gênero de morte que haja de cortar a esta o fio.

Segundo a doutrina vulgar, de si mesmo tiraria o homem todos os seus instintos, que, então, proviriam, ou da sua organização física, pela qual nenhuma responsabilidade lhe toca, ou da sua própria natureza, caso em que lícito lhe fora procurar desculpar-se consigo mesmo, dizendo não lhe pertencer a culpa de ser feito como é. Muito mais moral se mostra, indiscutivelmente, a Doutrina Espírita. Ela admite no homem o livre-arbítrio em toda a sua plenitude e, se lhe diz que, praticando o mal, ele cede a uma sugestão estranha e má, em nada lhe diminui a responsabilidade, pois lhe reconhece o poder de resistir, o que evidentemente lhe é muito mais fácil do que lutar contra a sua própria natureza. Assim, de acordo com a Doutrina Espírita, não há arrastamento irresistível: o homem pode sempre cerrar ouvidos à voz oculta que lhe fala no íntimo, induzindo-o ao mal, como pode cerrá-los à voz material daquele que lhe fale ostensivamente. Pode-o pela ação da sua vontade, pedindo a Deus a força necessária e reclamando, para tal fim, a assistência dos bons Espíritos. Foi o que Jesus nos ensinou por meio da sublime prece que é a Oração dominical, quando manda que digamos: “Não nos deixes sucumbir à tentação, mas livra-nos do mal.

Essa teoria da causa determinante dos nossos atos ressalta com evidência de todo o ensino que os Espíritos hão dado. Não só é sublime de moralidade, mas também, acrescentaremos, eleva o homem aos seus próprios olhos. Mostra-o livre de subtrair-se a um jugo obsessor, como livre é de fechar sua casa aos importunos. Ele deixa de ser simples máquina, atuando por efeito de uma impulsão independente da sua vontade, para ser um ente racional, que ouve, julga e escolhe livremente de dois conselhos um. Aditemos que, apesar disto, o homem não se acha privado de iniciativa, não deixa de agir por impulso próprio, pois que, em definitivo, ele é apenas um Espírito encarnado que conserva, sob o envoltório corporal, as qualidades e os defeitos que tinha como Espírito. Conseguintemente, as faltas que cometemos têm por fonte primária a imperfeição do nosso próprio Espírito, que ainda não conquistou a superioridade moral que um dia alcançará, mas que, nem por isso, carece de livre-arbítrio. A vida corpórea lhe é dada para se expungir de suas imperfeições, mediante as provas por que passa, imperfeições que, precisamente, o tornam mais fraco e mais acessível às sugestões de outros Espíritos imperfeitos, que delas se aproveitam para tentar fazê-lo sucumbir na luta em que se empenhou. Se dessa luta sai vencedor, ele se eleva; se fracassa, permanece o que era, nem pior, nem melhor. Será uma prova que lhe cumpre recomeçar, podendo suceder que longo tempo gaste nessa alternativa. Quanto mais se depura, tanto mais diminuem os seus pontos fracos e tanto menos acesso oferece aos que procurem atraí-lo para o mal. Na razão de sua elevação, cresce-lhe a força moral, fazendo que dele se afastem os maus Espíritos. Todos os Espíritos, mais ou menos bons, quando encarnados, constituem a espécie humana e, como o nosso mundo é um dos menos adiantados, nele se conta maior número de Espíritos maus do que de bons. Tal a razão por que aí vemos tanta perversidade. Façamos, pois, todos os esforços para a este planeta não voltarmos, após a presente estada, e para merecermos ir repousar em mundo melhor, em um desses mundos privilegiados, onde não nos lembraremos da nossa passagem por aqui, senão como de um exílio temporário”.

Autor: Juan Carlos Orozco

Revisora: Camila Ferreira de Meneses

Bibliografia:

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

DENIS, León. O problema do ser, do destino e da dor. 32ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2017.

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