A inteligência moral

Navegando pela Internet, uma matéria chamou a atenção, dizendo: “Você sabia que existem 9 tipos de inteligência? O psicólogo Howard Gardner, professor da Universidade de Harvard, desenvolveu um longo estudo em sua carreira e provou que inteligência vai muito além do que tradicionalmente é medido nos testes lógicos de QI”. E listou: inteligência lógico-matemática; inteligência linguística; inteligência musical; inteligência espacial; inteligência corporal ou cinestésica; inteligência interpessoal; inteligência intrapessoal; inteligência naturalista; e inteligência existencialista.

Podemos encontrar também outros tipos de inteligências, tais como: inteligência emocional; inteligência competitiva; inteligência de mercado; inteligência militar; dentre outras tantas. Contudo, para a nossa reflexão vamos abordar a “inteligência moral” sob a ótica da Doutrina Espírita.

Apoiados na Codificação Espírita de Allan Kardec, sabemos que Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.

Deus, espírito e matéria constituem o princípio de tudo o que existe, sendo denominada de trindade universal. Como Deus está acima de tudo, dois elementos ou princípios regem o Universo: o espiritual e o material.

Neste momento, faremos algumas distinções: espírito (letra minúscula) designa o princípio espiritual ou princípio inteligente do Universo; Espírito (letra maiúscula) representa o ser inteligente da criação, que povoa o Universo, fora do mundo material, a individualidade do ser extracorpóreo e não mais o elemento inteligente do Universo; e alma é o Espírito encarnado no corpo físico.

Assim, os Espíritos são formados do elemento inteligente, como os corpos o são do elemento material, sendo que os Espíritos são a individualização do elemento inteligente, como os corpos são a individualização do elemento material.

Da ação simultânea desses dois elementos, nascem infinitos fenômenos, muitos deles inexplicáveis pela Ciência.

Os Espíritos Superiores esclarecem que a inteligência é um atributo essencial do espírito, sendo que este independe da matéria, pois eles são distintos; mas, a união do espírito e da matéria é necessária para intelectualizar a matéria.

A inteligência e a matéria são independentes, porquanto um ser dotado de vitalidade pode existir sem a inteligência, por isso ser necessário que o espírito se una à matéria animalizada para intelectualizá-la.

Pela Doutrina Espírita, a inteligência é uma faculdade própria de cada ser espiritual e constitui a sua individualidade moral.

Os Espíritos têm início, quando criados, mas não têm fim, porque são imortais. Deus criou todos os Espíritos iguais quanto às suas faculdades intelectuais, simples e ignorantes, porém é preciso que o livre-arbítrio siga o seu curso para progredirem em inteligência como em moralidade.

Por conseguinte, os Espíritos, pelo desenvolvimento da inteligência, do livre-arbítrio e da moral, começam os seus processos evolutivos, cujo destino é a perfeição relativa à Humanidade, tendo como modelo e guia os ensinamentos e os exemplos do Mestre Jesus.

Desde o início de sua formação, o Espírito não goza da plenitude de suas faculdades. Em sua origem, a vida do Espírito é apenas instintiva, mal tem consciência de si mesmo e de seus atos. A inteligência só pouco a pouco se desenvolve.

O estado da alma na sua primeira encarnação é o da infância na vida corporal e a inteligência apenas desabrocha. Em cada nova existência, o homem dispõe de mais inteligência e melhor pode distinguir o bem do mal.

O progresso moral acompanha o progresso intelectual, mas nem sempre o segue imediatamente. O progresso moral segue o intelectual quando o Espírito desenvolve o seu livre-arbítrio e começa a compreender o bem e o mal, realizando escolhas corretas e tendo consciência das responsabilidades dos seus atos.

Entretanto, enquanto o Espírito não desenvolve o senso moral, pode acontecer de a inteligência estar a serviço da prática do mal. A moral e a inteligência são duas forças que só com o tempo chegam a se equilibrar.

A moral envolve valores que regem o comportamento diante das normas instituídas pela sociedade ou pelo grupo social, determinando o sentido moral de cada indivíduo em suas relações saudáveis e harmoniosas. Busca o bem-estar social.

Para o Espiritismo, em “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, na questão 629, “A moral é a regra do bem proceder, isto é, de distinguir o bem do mal. Funda-se na observância da lei de Deus. O homem procede bem quando faz tudo pelo bem de todos, porque então cumpre a lei de Deus”.

Na questão 630, “O bem é tudo o que é conforme a lei de Deus; o mal, tudo o que lhe é contrário. Assim, fazer o bem é proceder de acordo com a lei de Deus; fazer o mal é infringi-la”.

No Livro “A Gênese”, de Allan Kardec, na parte acerca da origem do bem e do mal, “Se o homem fosse criado perfeito, fatalmente seria levado para o bem. Deus quis que ele fosse submetido à lei do progresso, e que esse progresso fosse fruto do seu próprio trabalho, a fim de que dele tenha o mérito, da mesma maneira que a responsabilidade do mal que é praticado por sua vontade”.

“Como o homem tem que progredir, os males aos quais está exposto são um estímulo para o exercício da sua inteligência, de todas as suas faculdades físicas e morais, incitando-o à procura dos meios de se preservar deles. Se ele não tivesse nada a temer, nenhuma necessidade o levaria à busca do melhor; ele se entorpeceria com a inatividade de seu espírito; não inventaria nada, não descobriria nada. A dor é o aguilhão que compele o homem a avançar na estrada do progresso”. (KARDEC. A Gênese)

O Evangelho de Jesus é o Código Moral dos cristãos, que se fundamenta na Lei de Deus, e a moral que a Doutrina Espírita ensina é a de Jesus Cristo, razão que não há outra melhor. Nesse sentido, a moral Espírita deve ter o mesmo referencial.

As orientações morais fornecem subsídios para a construção e aplicação de normas de conduta, coletivas e individuais, subsídios que podem ser utilizados pelo ser humano, independentemente dos seus costumes, religião e tradições.

Por esse motivo, a moral é sempre interpretada como o bem, como tudo que promove a melhoria integral do homem, ajustando-o à realidade da vida, independentemente de religião e crença, ou até mesmo na ausência destas, tornando-se uma pessoa de bem.

Entretanto, para ser efetivamente bom, o ser humano precisa vivenciar a Lei de Amor: o bem é tudo o que é conforme a Lei de Deus, e o mal é tudo o que dela se afasta.

A consciência moral decorre da estruturação do mundo moral no íntimo do ser, pois o indivíduo moralizado é alguém que considera o sentido da vida dentro de um contexto maior, que não se resume apenas ao atendimento às necessidades de sobrevivência biológica da espécie.

Enfim, para que um ato seja considerado efetivamente moral é necessário que seja voluntário, espontâneo, livre, consciente, intencional, jamais imposto. Revestido dessas características, o ato moral apresenta responsabilidade e compromisso.

Responsável é aquele que responde pelos seus atos, isto é, a pessoa consciente e livre assume a autoria do seu ato, reconhecendo-o como seu e respondendo pelas suas consequências.

Dentro deste contexto, em “O Livro dos Espíritos”, na questão 791, verificamos que uma civilização estará regenerada quando desaparecer os males que ela mesma haja produzido, ou seja, quando a moral estiver tão desenvolvida quanto a inteligência, pois o fruto não pode surgir antes da flor. Isso quer dizer quando a civilização equilibrar e atingir a sua plenitude de inteligência e de moral, fazendo referência ao título desta reflexão, ela estará alcançando a “inteligência moral”.

Bem a propósito, cita-se a resposta à questão 905 em “O Livro dos Espírito”: “A moral sem as ações é o mesmo que a semente sem o trabalho. De que vos serve a semente, se não a fazeis dar frutos que vos alimentem? Grave é a culpa desses homens, porque dispunham de inteligência para compreender. Não praticando as máximas que ofereciam aos outros, renunciaram a colher-lhes os frutos”.

Assim sendo, para sermos considerados discípulos de Jesus é preciso que o Espírito desenvolva a inteligência e os valores morais para adquirir a “inteligência moral”.

Autor: Juan Carlos Orozco

Revisora: Flávia Maia Nobre

Bibliografia:

KARDEC, Allan; tradução de Evandro Noleto Bezerra. A Gênese. 2ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

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