A sorte das crianças

Em “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, das questões 197 a 199, a “Sorte das crianças depois da morte” é um tema que desperta o leitor para o porquê de se interromper a jornada de uma criança, retirando dela as oportunidades futuras. Como explicar a misericórdia, a bondade, a justiça ou a providência divina? Como defender a hipótese de a alma de uma criança permanecer somente alguns instantes na Terra? Ademais, não há dor maior do que a perda de entes queridos, principalmente de filhos crianças.

Há males, nesta vida, que são atribuídos ao próprio ser humano e outros que, aparentemente, parecem completamente estranhos que nos atingem como por fatalidade.

Os esclarecimentos e o consolo oferecidos pelo Espiritismo podem tornar um pouco mais leve a tristeza que representa, em especial, a perda de um ente querido na infância.

Esta reflexão traz a compilação de alguns textos da literatura espírita que cuidam de esclarecer certos aspectos ligados a este tema.

Na questão 199, Kardec pergunta “por que tão frequentemente a vida se interrompe na infância”? A resposta é que “A curta duração da vida da criança pode representar, para o Espírito que a animava, o complemento de existência precedentemente interrompida antes do momento em que devera terminar, e sua morte, também não raro, constitui provação ou expiação para os pais”.

Desta resposta, dois possíveis motivos se destacam: “complemento de existência precedentemente interrompida antes do momento em que devera terminar”; e “constitui provação ou expiação para os pais”.

Após a questão 199, Kardec anota: “Se uma única existência tivesse o homem e se, extinguindo-se-lhe ela, sua sorte ficasse decidida para a eternidade, qual seria o mérito de metade do gênero humano, da que morre na infância, para gozar, sem esforços, da felicidade eterna e com que direito se acharia isenta das condições, às vezes tão duras, a que se vê submetida a outra metade? Semelhante ordem de coisas não corresponderia à justiça de Deus. Com a reencarnação, a igualdade é real para todos. O futuro a todos toca sem exceção e sem favor para quem quer que seja. Os retardatários só de si mesmos se podem queixar. Forçoso é que o homem tenha o merecimento de seus atos, como tem deles a responsabilidade. Aliás, não é racional considerar-se a infância como um estado normal de inocência. Não se veem crianças dotadas dos piores instintos, numa idade em que ainda nenhuma influência pode ter tido a educação? Algumas não há que parecem trazer do berço a astúcia, a felonia, a perfídia, até pendor para o roubo e para o assassínio, não obstante os bons exemplos que de todos os lados se lhes dão? A lei civil as absolve de seus crimes, porque, diz ela, obraram sem discernimento. Tem razão a lei, porque, de fato, elas obram mais por instinto do que intencionalmente. Donde, porém, provirão instintos tão diversos em crianças da mesma idade, educadas em condições idênticas e sujeitas às mesmas influências? Donde a precoce perversidade, senão da inferioridade do Espírito, uma vez que a educação em nada contribuiu para isso? As que se revelam viciosas, é porque seus Espíritos muito pouco hão progredido. Sofrem então, por efeito dessa falta de progresso, as consequências, não dos atos que praticam na infância, mas dos de suas existências anteriores. Assim é que a lei é uma só para todos e que todos são atingidos pela justiça de Deus”.

Na questão 198, Kardec quer saber se “Não tendo podido praticar o mal, o Espírito de uma criança que morreu em tenra idade pertence a alguma das categorias superiores”. A resposta é que “Se não fez o mal, igualmente não fez o bem e Deus não o isenta das provas que tenha de padecer. Se for um Espírito puro, não o é pelo fato de ter animado apenas uma criança, mas porque já progredira até à pureza”.

Neste ponto, outros aspectos a destacar: a lei de causa e efeito, a lei do progresso, a lei do merecimento e a justiça de Deus são aplicadas a todos os seres em evolução, sem distinção; a infância, por si só, não é um estado normal de inocência, embora a criança aja mais por instinto do que intencionalmente; seres sofrem os efeitos das consequências do progresso e não dos atos que praticam na infância, mas dos de suas existências anteriores; Deus não isenta das provas quem deve passar por elas; e a pureza de um Espírito é resultado do progresso alcançado ao se atingir a perfeição.

Em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, no Capítulo IV, “Ninguém poderá ver o Reino de Deus se não nascer de novo”, no item 26, Kardec anota que “A encarnação, aliás, precisa ter um fim útil. Ora, qual seria o das encarnações efêmeras das crianças que morrem em tenra idade? Teriam sofrido sem proveito para si, nem para outrem. Deus, cujas leis todas são soberanamente sábias, nada faz de inútil. Pela reencarnação no mesmo globo, quis Ele que os mesmos Espíritos, pondo-se novamente em contato, tivessem ensejo de reparar seus danos recíprocos. Por meio das suas relações anteriores, quis, além disso, estabelecer sobre base espiritual os laços de família e apoiar numa lei natural os princípios da solidariedade, da fraternidade e da igualdade”.

Outros aspectos para reflexão: toda encarnação tem um fim útil; e pela reencarnação, Espíritos colocam-se em contato para reparar danos recíprocos decorrentes de relações anteriores e estabelecer uma base espiritual pelos laços de família, apoiada pelos princípios da solidariedade, fraternidade e igualdade.

Considerando que todo efeito tem uma causa, as perdas prematuras de entes queridos devem ser visualizadas como efeitos que hão de ter uma causa e, desde que se admita um Deus justo, essa causa também há de ser justa. Se o efeito que precede a causa não se encontra na vida atual, há de ser anterior a essa vida, ou seja, numa existência passada.

Mensagem do Espírito Sanson

O Espírito Sanson, ex-membro da Sociedade Espírita de Paris, em mensagem de 1863, esclarece, pondera e aconselha: “Quando a morte ceifa nas vossas famílias, arrebatando, sem restrições, os mais moços antes dos velhos, costumais dizer: Deus não é justo, pois sacrifica um que está forte e tem grande futuro e conserva os que já viveram longos anos cheios de decepções; pois leva os que são úteis e deixa os que para nada mais servem; pois despedaça o coração de uma mãe, privando-a da inocente criatura que era toda a sua alegria.

Humanos, é nesse ponto que precisais elevar-vos acima do terra-a-terra da vida, para compreenderdes que o bem, muitas vezes, está onde julgais ver o mal, a sábia previdência onde pensais divisar a cega fatalidade do destino. Por que haveis de avaliar a justiça divina pela vossa? Podeis supor que o Senhor dos mundos se aplique, por mero capricho, a vos infligir penas cruéis? Nada se faz sem um fim inteligente e, seja o que for que aconteça, tudo tem a sua razão de ser. Se perscrutásseis melhor todas as dores que vos advêm, nelas encontraríeis sempre a razão divina, razão regeneradora, e os vossos miseráveis interesses se tornariam de tão secundária consideração, que os atiraríeis para o último plano.

Crede-me, a morte é preferível, numa encarnação de vinte anos, a esses vergonhosos desregramentos que pungem famílias respeitáveis, dilaceram corações de mães e fazem que antes do tempo embranqueçam os cabelos dos pais. Frequentemente, a morte prematura é um grande benefício que Deus concede àquele que se vai e que assim se preserva das misérias da vida, ou das seduções que talvez lhe acarretassem a perda. Não é vítima da fatalidade aquele que morre na flor dos anos; é que Deus julga não convir que ele permaneça por mais tempo na Terra. É uma horrenda desgraça, dizeis, ver cortado o fio de uma vida tão prenhe de esperanças! De que esperanças falais? Das da Terra, onde o liberto houvera podido brilhar, abrir caminho e enriquecer? Sempre essa visão estreita, incapaz de elevar-se acima da matéria. Sabeis qual teria sido a sorte dessa vida, ao vosso parecer tão cheia de esperanças? Quem vos diz que ela não seria saturada de amarguras? Desdenhais então das esperanças da vida futura, ao ponto de lhe preferirdes as da vida efêmera que arrastais na Terra? Supondes então que mais vale uma posição elevada entre os homens, do que entre os Espíritos bem-aventurados? Em vez de vos queixardes, regozijai-vos quando praz a Deus retirar deste vale de misérias um de seus filhos. Não será egoístico desejardes que ele aí continuasse para sofrer convosco? Ah! Essa dor se concebe naquele que carece de fé e que vê na morte uma separação eterna. Vós, espíritas, porém, sabeis que a alma vive melhor quando desembaraçada do seu invólucro corpóreo. Mães, sabei que vossos filhos bem-amados estão perto de vós; sim, estão muito perto; seus corpos fluídicos vos envolvem, seus pensamentos vos protegem, a lembrança que deles guardais os transporta de alegria, mas também as vossas dores desarrazoadas os afligem, porque denotam falta de fé e exprimem uma revolta contra a vontade de Deus. Vós, que compreendeis a vida espiritual, escutai as pulsações do vosso coração a chamar esses entes bem-amados e, se pedirdes a Deus que os abençoe, em vós sentireis fortes consolações, dessas que secam as lágrimas; sentireis aspirações grandiosas que vos mostrarão o porvir que o soberano Senhor prometeu”.

Destino depois da morte

Kardec, na questão 381, pergunta se o Espírito de uma criança que morreu readquire imediatamente o seu precedente vigor, a resposta é: “Assim tem que ser, pois que se vê desembaraçado de seu invólucro corporal. Entretanto, não readquire a anterior lucidez, senão quando se tenha completamente separado daquele envoltório, isto é, quando mais nenhum laço exista entre ele e o corpo”.

Assim, ao desencarnar, o Espírito que animava o corpo de uma criança nem sempre retorna de imediato à fase adulta.

No livro “Entre a Terra e o Céu”, o Espírito André Luiz, na psicografia de Francisco Cândido Xavier, registra a sorte das crianças após a desencarnação pelo diálogo entre os Espíritos Hilário e Blandina, esta responsável pelos pequeninos na instituição espiritual “Lar da Bênção”: “– Antigamente, na Terra [considerou Hilário], conforme a teologia clássica, supúnhamos que os inocentes, depois da morte, permaneciam recolhidos ao descanso do limbo, sem a glória do Céu e sem o tormento do inferno, e, nos últimos tempos, com as novas concepções do Espiritualismo, acreditávamos que o menino desencarnado retomasse, de imediato, a sua personalidade de adulto… – Em muitas situações, é o que acontece – esclareceu Blandina, afetuosa –; quando o Espírito já alcançou elevada classe evolutiva, assumindo o comando mental de si mesmo, adquire o poder de facilmente desprender-se das imposições da forma, superando as dificuldades da desencarnação prematura. Conhecemos grandes almas que renasceram na Terra por brevíssimo prazo, simplesmente com o objetivo de acordar corações queridos para a aquisição de valores morais, recobrando, logo após o serviço levado a efeito, a respectiva apresentação que lhes era costumeira. Contudo, para a grande maioria das crianças que desencarnam, o caminho não é o mesmo. Almas ainda encarceradas no automatismo inconsciente, acham-se relativamente longe do autogoverno. Jazem conduzidas pela Natureza, à maneira das criancinhas no colo maternal. Não sabem desatar os laços que as aprisionam aos rígidos princípios que orientam o mundo das formas e, por isso, exigem tempo para se renovarem no justo desenvolvimento. É por esse motivo que não podemos prescindir dos períodos de recuperação para quem se afasta do veículo físico, na fase infantil, de vez que, depois do conflito biológico da reencarnação ou da desencarnação, para quantos se acham nos primeiros degraus da conquista de poder mental, o tempo deve funcionar como elemento indispensável de restauração. E a variação desse tempo dependerá da aplicação pessoal do aprendiz à aquisição de luz interior, através do próprio aperfeiçoamento moral”.

Essas considerações esclarecem a existência de inúmeras instituições de auxílio à infância no plano espiritual, seja para adequá-las à realidade da nova moradia, seja para assisti-las numa nova encarnação.

Cidade de Castrel

Livro “A vida além do véu”, de vários Espíritos, na psicografia do reverendo inglês G. Vale Owen, em 1920, publicado pela FEB Editora, conta sobre uma Colônia espiritual organizada para atender Espíritos desencarnados na infância e preparar outros para a reencarnação. Recebe Espíritos desencarnados na infância, prepara-os para a nova realidade da vida, reintegra-os aos planos que lhes são destinados após terem retornado à forma adulta, ou prepara Espíritos para a reencarnação, acompanhando-os na fase infantil.

Lar da Bênção

Colônia no espaço espiritual do Brasil que prepara mães para a maternidade responsável, atende Espíritos que desencarnam na infância e auxilia outros para a reencarnação. As crianças desencarnadas, desde a liberação física até obterem o reequilíbrio espiritual, recebem a assistência de benfeitores espirituais e o afeto daquelas que foram suas genitoras, as quais, ainda presas aos liames da carne, são, durante o sono físico, levadas à Colônia para auxiliar e acompanhar o reajustamento dos filhos na vida espiritual.

Espíritos desencarnados na infância nas reuniões mediúnicas

Independentemente do nível de evolução que possuem, estes Espíritos são atendidos por entidades esclarecidas que os conduzem a instituições especializadas existentes no plano espiritual.

As suas ocasionais manifestações mediúnicas têm como finalidade consolar e acalmar os familiares encarnados. Durante essas comunicações nunca se encontram sozinhos, mas acompanhados de benfeitores e familiares. Não há, portanto, efetivo atendimento espiritual, como o que se realiza com um Espírito sofredor.

É preciso, pois, agir com cautela e realizar avaliação segura quando, no grupo mediúnico, ocorre a manifestação de crianças desencarnadas.

Bibliografia:

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

MOURA, Marta Antunes de Oliveira de (Organizadora). Mediunidade: estudo e prática. Programa I. 2ª Edição. Brasília/DF, Federação Espírita Brasileira, 2018.

ROCHA, Cecília (Organizadora). Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita: programa complementar. Tomo Único. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2018.

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