Determinismo e planejamento reencarnatório

Nesta reflexão, juntam-se determinismo divino, planejamento reencarnatório, escolhas das provas e livre-arbítrio, principalmente diante dos inúmeros questionamentos sobre até onde influenciamos o rumo do nosso destino.

Escolas filosóficas do passado defendiam a ideia de que os atos humanos seriam guiados por um determinismo imposto por Deus. Em oposição a esse pensamento, não se pode mais considerar um determinismo cego e inexorável, em que o homem não tem a possibilidade de opinar sobre os acontecimentos de sua vida.

Pela Doutrina Espírita, o determinismo divino que nos impulsiona é a obrigação de progredir por meio da encarnação na busca da perfeição, como se extrai da resposta à questão 132, em “O Livro dos Espíritos”, na qual Kardec pergunta sobre o objetivo da encarnação dos Espíritos. A resposta é que “Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Para uns, é expiação; para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação. Visa ainda outro fim a encarnação: o de pôr o Espírito em condições de suportar a parte que lhe toca na obra da criação”.  

Assim, o determinismo divino nos aponta o rumo da perfeição como meta a alcançar. A evolução espiritual será sempre imposta e inevitável. Não regredimos porque os bens celestiais adquiridos pelo Espírito já fazem parte da nossa bagagem espiritual.

Pelo livre-arbítrio, nas respostas às questões 843 e 844, o Espírito tem “a liberdade de pensar, tem igualmente a de obrar. Sem o livre-arbítrio, o homem seria máquina”. (…) “Há liberdade de agir, desde que haja vontade de fazê-lo. Nas primeiras fases da vida, quase nula é a liberdade, que se desenvolve e muda de objeto com o desenvolvimento das faculdades. Estando seus pensamentos em concordância com o que a sua idade reclama, a criança aplica o seu livre-arbítrio àquilo que lhe é necessário”.

Léon Denis, no livro “O problema do ser, do destino e da dor”, disse: “A liberdade é a condição necessária da alma humana que, sem ela, não poderia construir seu destino”.

Mais adiante, Léon Denis esclarece: “O livre-arbítrio, a livre vontade do Espírito exerce-se principalmente na hora das reencarnações. Escolhendo tal família, certo meio social, ele sabe de antemão quais são as provações que o aguardam, mas compreende, igualmente, a necessidade destas provações para desenvolver suas qualidades, curar seus defeitos, despir seus preconceitos e vícios”.

O tema “Escolhas das provas” encontra-se em “O Livro dos Espíritos”, das questões 258 a 273, cujo planejamento reencarnatório pode ser concebido pelo próprio Espírito que deseja reencarnar ou por Espíritos mais esclarecidos, especialmente designados para esta tarefa. Não há improvisação nos procedimentos que antecedem as experiências reencarnatórias, porquanto existe uma planificação fundamentada na lógica e na moralidade, tendo em vista o progresso espiritual da criatura humana.

O planejamento reencarnatório é muito diversificado, porque diversas são as necessidades humanas, podendo ser elaborado pelo próprio Espírito, desde que tenha condições morais e intelectuais para tanto, ou pode ser delegado a um Espírito esclarecido, caso o reencarnante não ofereça condições para planejar ou opinar sobre a mesma.

Este planejamento prevê os principais acontecimentos que poderão ocorrer no mundo físico, que influem no destino. As particularidades correm por conta da posição em que cada um se encontra, dos acontecimentos secundários que se originam das circunstâncias, da força das coisas e das consequências das próprias ações. Escolhendo determinado caminho, terá que sustentar as lutas e vicissitudes sem saber do êxito.

O planejamento reencarnatório está ligado às consequências do uso do livre-arbítrio, situação que reflete o nível de evolução. O livre-arbítrio usado de forma incorreta, repetidamente, restringe a capacidade de opinar em um novo planejamento. Por isso, os Espíritos dedicados a essa tarefa consideram todas as ações que executamos, antes e depois, definindo critérios norteadores do planejamento reencarnatório que nos cabe.

Quando na erraticidade, antes de começar nova existência corporal, o Espírito escolhe o gênero de provas que há de passar e nisso consiste o seu livre-arbítrio. Contudo, nada ocorre sem a permissão de Deus, porquanto foi Deus quem estabeleceu todas as leis que regem o Universo. Dando ao Espírito a liberdade de escolher, Deus lhe deixa a inteira responsabilidade de seus atos e das consequências que estes tiverem. Nada lhe estorva o futuro; abertos se lhe acham, assim, o caminho do bem, como o do mal. Se vier a sucumbir, restar-lhe-á a consolação de que nem tudo se lhe acabou e que a bondade divina lhe concede a liberdade de recomeçar o que foi malfeito.

Acolhido em determinados setores do plano espiritual, o devedor desfruta de serenidade para rever os compromissos assumidos na encarnação recente, refletindo os males e sofrimentos de que se fez responsável. Muita vez, frequenta escolas beneméritas, nas quais recolhe noções da vida, aprimora-se na instrução, aperfeiçoa impulsos e exerce preciosas atividades, melhorando os próprios créditos. As lembranças dos erros penetram o Espírito por sementes de destino, fazendo com que se reconheça necessitado de promoção a níveis mais nobres, pedindo nova reencarnação com as provas de que carece quitar.

As tribulações da existência física não são impostas por Deus ao ser humano, uma vez que o próprio Espírito, na erraticidade, antes de reencarnar, escolhe o gênero de provas por que há de passar. Cumpre distinguir o que é obra da vontade de Deus do que o é da do homem.

Dizem os Espíritos Superiores: “se um perigo vos ameaça, não fostes vós quem o criou e sim Deus. Vosso, porém, foi o desejo de a ele vos expordes, por haverdes visto nisso um meio de progredirdes, e Deus o permitiu”.

Nem todas as tribulações experimentadas pelo Espírito encarnado foram por ele previstas: “não escolhestes e previstes tudo o que vos sucede no mundo, até às mínimas coisas. Escolhestes apenas o gênero das provações”.

Escolhendo, por exemplo, nascer entre malfeitores, sabia o Espírito a que arrastamentos se expunha; ignorava, porém, quais os atos que viria a praticar. Se tomar uma estrada cheia de sulcos profundos, sabe que terá de andar cautelosamente, porque há muitas probabilidades de cair; ignora, contudo, em que ponto cairá e bem pode suceder que não caia, se for bastante prudente.

Para proceder à escolha das provas por que há de passar, o Espírito se orienta pela natureza de suas faltas. Desse modo, escolhe aquelas que o levem à expiação dessas faltas e a progredir mais depressa.

Uns impõem a si mesmos uma vida de misérias e privações, objetivando suportá-las com coragem; outros preferem experimentar as tentações da riqueza e do poder, muito mais perigosas, pelos abusos e má aplicação a que podem dar lugar, pelas paixões inferiores que uma e outros desenvolvem; muitos, finalmente, se decidem a experimentar suas forças nas lutas que terão de sustentar em contato com o vício.

Se apegados a desejos inferiores, os Espíritos escolhem um gênero de vida para a satisfação desses desejos, nem por isso se afastarão dos efeitos dos seus atos. A prova vem por si mesma e eles a sofrem mais demoradamente. Cedo ou tarde, compreendem que a satisfação de suas paixões lhes acarretou deploráveis consequências, que sofrerão durante um tempo que parecerá eterno. E Deus os deixará nessa persuasão, até que se tornem conscientes da falta em que incorreram e peçam, por impulso próprio, seja concedido resgatá-la mediante úteis provações.

Embora possa parecer natural que o Espírito escolha provas menos dolorosas, tal fato não se dá com frequência, porque, logo que este se desliga da matéria, cessa toda ilusão e outra passa a ser a sua maneira de pensar. Sob a influência das ideias carnais, o homem, na Terra, só vê das provas o lado penoso. Tal a razão de lhe parecer natural sejam escolhidas as que, do seu ponto de vista, podem coexistir com os gozos materiais.

Na vida espiritual compara esses gozos fugazes e grosseiros com a inalterável felicidade que lhe é dado entrever e desde logo nenhuma impressão mais lhe causam os passageiros sofrimentos terrenos.

O Espírito pode escolher prova rude e existência angustiada, na esperança de alcançar depressa um estado melhor. De igual modo, o Espírito pode, às vezes, enganar-se, e escolher uma prova que esteja acima de suas forças e sucumbir.

Pode também escolher alguma que nada lhe aproveite, como sucederá se buscar vida ociosa e inútil. Mas, voltando ao mundo dos Espíritos, verifica que nada ganhou e pede outra que lhe faculte recuperar o tempo perdido.

A liberdade que temos de escolher as nossas existências e as provas a que devamos sofrer deixa de parecer singular, pois os Espíritos desencarnados apreciam as coisas de modo diverso da nossa maneira. Eles divisam a meta, que bem diferente é dos gozos fugitivos do mundo. Após cada existência, veem o passo que deram e compreendem o que ainda falta em pureza para atingirem a meta. Daí se submeterem voluntariamente a todas as vicissitudes de uma nova vida corpórea, sendo normal o Espírito não preferir uma existência mais suave.

Não lhe é possível, no estado de imperfeição em que se encontra, gozar de uma vida isenta de amarguras, porquanto percebe precisamente que se trata de melhorar.

A escolha das provas, como manifestação do livre-arbítrio, não tem caráter absoluto, uma vez que Deus pode impor certa existência a um Espírito, quando este, pela sua inferioridade ou má vontade, não se mostra apto a compreender o que lhe seria mais útil, e quando vê que tal existência servirá para a purificação e o progresso do Espírito, ao mesmo tempo que lhe sirva de expiação.

As leis inflexíveis da Natureza ou os efeitos resultantes do passado decidem a sua reencarnação. O Espírito inferior, ignorante dessas leis, pouco cuidadoso de seu futuro, sofre maquinalmente a sua sorte.

O Espírito adiantado inspira-se nos exemplos que o cercam na vida fluídica, recolhe os avisos de seus guias espirituais, pesa as condições boas ou más de sua reaparição neste mundo, prevê os obstáculos, as dificuldades da jornada, traça o seu programa e toma fortes resoluções com o propósito de executá-las. Só volta à carne quando está seguro do apoio dos invisíveis, que o devem auxiliar em sua nova tarefa.

Quando, em sua origem, o Espírito é ainda inexperiente para escolher adequadamente as provas da sua existência, Deus lhe supre a inexperiência, traçando-lhe o caminho que deve seguir. Deixa-o, porém, pouco a pouco, à medida que o seu livre-arbítrio se desenvolve, senhor de proceder à escolha e só então é que muitas vezes lhe acontece extraviar-se, tomando o mau caminho, por desatender os conselhos dos bons Espíritos.

Assim, “Todos os Espíritos tendem para a perfeição e Deus lhes faculta os meios de alcançá-la, proporcionando-lhes as provações da vida corporal. Sua justiça, porém, lhes concede realizar, em novas existências, o que não puderam fazer ou concluir numa primeira prova”.

Lei de causa e efeito e livre-arbítrio

Pela lei de causa e efeito, é possível aceitar que alguns atos da vida sigam um determinismo relativo relacionado ao planejamento reencarnatório. Mas, esta questão deve ser analisada com bom senso, pois tal planejamento é passível de alteração, não é rígido nem inflexível. Tudo depende da forma como o indivíduo conduz a sua existência e como se posiciona perante os desafios da vida.

Há quem suponha que a lei de causa e efeito deva ser cumprido inexoravelmente, independentemente da vontade e dos esforços individuais. É preciso saber diferenciar causa e efeito. A pessoa consciente das dificuldades e dos desafios existenciais que lhe atingem diretamente a vida pode num esforço da vontade fazer com que a lei de ação e reação se cumpra, não pelo sofrimento, mas pelo amor.

O Espiritismo considera que nada acontece sem que Deus saiba, mas não significa que há um controle divino absoluto, que impede a manifestação da vontade do homem. Na verdade, Deus dá ao Espirito a liberdade de escolha, deixando-lhe a responsabilidade de seus atos.

Pela Doutrina Espírita, o homem desenvolve a sua capacidade de fazer escolhas mais acertadas e de utilizar corretamente o livre-arbítrio à medida que evolui espiritualmente pela aquisição de conhecimento e moralidade. Nestas condições, aprende a distinguir o bem do mal. A liberdade de escolhas é um meio pelo qual o homem realiza o seu destino.

Bibliografia:

DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. 32ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2017.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

MOURA, Marta Antunes de Oliveira de (Organizadora). Estudo aprofundado da doutrina espírita: Filosofia e Ciência Espíritas. Livro V. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2017.

MOURA, Marta Antunes de Oliveira de (Organizadora). Mediunidade: estudo e prática. Programa I. 2ª Edição. Brasília/DF, Federação Espírita Brasileira, 2018.

ROCHA, Cecília (Organizadora). Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita: programa fundamental. Tomo I. 2ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2018.

ROCHA, Cecília (Organizadora). Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita: programa complementar. Tomo Único. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2018.

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