Jesus cura o cego de Betsaida

Esta reflexão é uma compilação de trechos extraídos da literatura Espírita.

Do livro “A Gênese”, de Allan Kardec, no Capítulo XV – Os milagres do Evangelho:

“12. Tendo chegado a Betsaida, trouxeram-lhe um cego e lhe pediam que o tocasse. Tomando o cego pela mão, Ele o levou para fora da cidade, passou-lhe saliva nos olhos e, havendo-lhe imposto as mãos, lhe perguntou se via alguma coisa. — O homem, olhando, disse: ‘Vejo a andar homens que me parecem árvores’. — Jesus lhe colocou de novo as mãos sobre os olhos e ele começou a ver melhor. Afinal, ficou tão perfeitamente curado que via distintamente todas as coisas. — Ele o mandou para casa, dizendo-lhe: ‘Vai para tua casa; se entrares na cidade, não digas a ninguém o que se deu contigo’.” (Marcos, 8: 22 a 26.)

13. Aqui, é evidente o efeito magnético; a cura não foi instantânea, mas gradual e consequente a uma ação prolongada e reiterada, embora mais rápida do que na magnetização ordinária. A primeira sensação que o homem teve foi exatamente a que experimentam os cegos ao recobrarem a vista. Por um efeito de óptica, os objetos lhes parecem de tamanho exagerado”.

Do Estudo Aprofundado da Doutrina Espírita: Ensinos e parábolas de Jesus, Livro II, Parte I, no Módulo IV – Aprendendo com as curas, no Roteiro 2, temos:

“1. Texto evangélico

E chegou a Betsaida; e trouxeram-lhe um cego e rogaram-lhe que lhe tocasse. E, tomando o cego pela mão, levou-o para fora da aldeia; e, cuspindo-lhe nos olhos e impondo-lhe as mãos, perguntou-lhe se via alguma coisa. E, levantando ele os olhos, disse: Vejo os homens, pois os vejo como árvores que andam. Depois, tornou a pôr-lhe as mãos nos olhos, e ele, olhando firmemente, ficou restabelecido e já via ao longe e distintamente a todos. E mandou-o para sua casa, dizendo: Não entres na aldeia (Mc 8: 22-26).

2. Interpretação do texto evangélico

» E chegou a Betsaida; e trouxeram-lhe um cego e rogaram-lhe que lhe tocasse (Mc 8:22).

Betsaida (“casa da pesca” em hebraico), uma aldeia situada a nordeste do mar da Galileia e a alguns quilômetros de Cafarnaum, terra dos apóstolos Pedro, Felipe e André, foi palco de curiosa cura realizada por Jesus.

A chegada a humilde comunidade de Betsaida representa uma pausa num ambiente acomodado, de acolhimento aos viajantes cansados e desencorajados em prosseguir a jornada, mas que recebe o Mestre que por ali transitava na busca das ‘ovelhas perdidas’ de Israel.

A misericórdia de Jesus se faz presente quando ele encontra uma dessas ovelhas, identificada na figura do cego de Betsaida (‘E trouxeram-lhe um cego’). A chegada de Jesus evidencia seu trabalho dinâmico no bem, disposto a auxiliar os necessitados que, à semelhança do cego, abrigam a esperança de serem curados dos seus males.

Importa destacar o gesto de solidariedade de alguns amigos que conduzem o cego, pedindo auxílio ao Senhor. São criaturas humanas, anônimas no texto evangélico, que agem como intercessores junto ao Senhor. São Espíritos benevolentes identificados com a mensagem de amor, que nos ensinam como ajustar a própria vida ao trabalho de cooperação e de caridade.

A propósito, elucida um Espírito protetor, em mensagem ditada na cidade de Bordeaux, em 1861:

Qual é, meus amigos, esse bálsamo soberano, que possui tão grande virtude, que se aplica a todas as chagas do coração e as cicatriza? É o amor, é a caridade! Se possuís esse fogo divino, que é o que podereis temer? […] Se tendes amor, tereis colocado o vosso tesouro lá onde os vermes e a ferrugem não o podem atacar e vereis apagar-se da vossa alma tudo o que seja capaz de lhe conspurcar a pureza; sentireis diminuir dia a dia o peso da matéria e, qual pássaro que adeja nos ares e já não se lembra da Terra, subireis continuamente, subireis sempre, até que vossa alma, inebriada, se farte do seu elemento de vida no seio do Senhor. 1

O nome e o número dos amigos que conduziram o cego ficaram escondidos na palavra ‘trouxeram’. Entretanto, a sublime manifestação de amor ao próximo, citado no texto, atravessa os tempos e deixa as suas marcas, revelando o caráter, a solidariedade e o senso de caridade desses benfeitores que souberam aproveitar a feliz oportunidade da presença de Jesus entre eles (‘e trouxeram-lhe um cego e rogaram-lhe que lhe tocasse’).

Similarmente, podemos dizer que a mesma dinâmica do amor se evidencia no trabalho de incansáveis amigos que encontramos ao longo da nossa caminhada evolutiva, os quais visitando a ‘Betsaida de nossos corações’, ainda cristalizados no comodismo das deficiências que trazemos das experiências passadas, nos estimulam ao bem.

Não é fácil apartar-se do mal, consubstanciado nos desvios inúmeros de nossa alma através de consecutivas reencarnações, e é muito difícil praticar o bem, dentro das nocivas paixões pessoais que nos empolgam a personalidade, cabendo-nos ainda reconhecer que, se nos conservamos envolvidos na túnica pesada de nossos velhos caprichos, é impossível buscar a paz e segui-la. Cegaram-nos males numerosos, aos quais nos inclinamos nas sendas evolutivas, e acostumados ao exclusivismo e ao atrito inútil, no desperdício de energias sagradas, ignoramos como procurar a tranquilidade consoladora. 9

A frase: ‘E rogaram-lhe que lhe tocasse’ fala do valor da intercessão. Fundamentados na fé raciocinada, os anônimos benfeitores rogaram a Jesus que tocasse aquele companheiro destituído de visão. O exemplo é elucidativo para todos nós que atuamos na seara espírita. Perante a criatura em sofrimento, temos o dever cristão de consolá-la. Se estivermos impossibilitados de atendê-la diretamente, podemos nos valer do recurso da intercessão que, por vezes, funciona com mais eficiência se fossemos nós o prestador do benefício. Rogando a quem possa, sob os auspícios da caridade, o sofredor é atendido nas suas necessidades. Entretanto, auxiliar requer, sempre, disposição discernimento e confiança. Tal como os amigos citados nesta passagem do Evangelho, não podemos curar alguém, mas agir como intermediário das forças do bem, aplicando os usuais recursos que a Doutrina Espírita nos disponibiliza: o passe, a prece, a conversa fraterna, o amparo material, o esclarecimento espiritual, o apoio solidário etc.

» E tomando o cego pela mão, levou-o para fora da aldeia; e, cuspindo-lhe nos olhos e impondo-lhe as mãos, perguntou-lhe se via alguma coisa. E, levantando ele os olhos, disse: Vejo os homens, pois os vejo como árvores que andam. Depois, tornou a pôr-lhe as mãos nos olhos, e ele, olhando firmemente, ficou restabelecido e já via ao longe e distintamente a todos. E mandou-o para sua casa, dizendo: Não entres na aldeia (Mc 8:23-26).

Podemos observar que Jesus, ao iniciar o paciente processo de cura, manifestado na frase: “tomando o cego pela mão, levou-o para fora da aldeia”, o faz com carinho (“tomando o cego pela mão”) afastando-o do foco de dificuldades (“levou-o para fora da aldeia”).

O gesto de pegar o doente pela mão revela a base em que se fundamenta o trabalho com o Cristo: atenção, simpatia, cuidado, ação eficiente. Por este motivo, as mãos de Jesus são sempre operantes, espalhando o amor de modo incansável.

O trabalho é sempre instrutor do aperfeiçoamento. […] Em todos os lugares do vale humano, há recursos de ação e aprimoramento para quem deseja seguir adiante. Sirvamos em qualquer parte, de boa vontade, como ao Senhor e não às criaturas, e o Senhor nos conduzirá para os cimos da vida. 4

O versículo destaca, igualmente, a manifestação de misericórdia pelo cego, sentimento que antecede o auxilio, propriamente dito. Sabemos que a cegueira tem suas raízes nas ações pretéritas, em geral, desencadeada pela inércia, indiferença e desinteresse na prática do bem.

A grande maioria das doenças tem a sua causa profunda na estrutura semimaterial do corpo perispiritual. Havendo o Espírito agido erradamente, nesse ou naquele setor da experiência evolutiva, vinca o corpo espiritual com desequilíbrios ou distonias, que o predispõem à instalação de determinadas enfermidades, conforme o órgão atingido. 5

O processo de cura se estabelece quando o enfermo começa a se desligar das causas geradoras da doença, sobretudo quando é apoiado pela família e amigos. A estratégia terapêutica utilizada por Jesus estabeleceu que, de imediato, era necessário afastar o cego dos seus problemas, da influência negativa do ambiente psíquico em que se encontrava mergulhado, por este motivo “levou-o para fora da aldeia”.

O processo de cura comporta, basicamente, três etapas: renovação mental do doente, aplicação de recursos terapêuticos para eliminar a doença e o desenvolvimento de ações mantenedoras da saúde. Jesus promove a renovação mental do cego quando, conduzindo-o “para fora da aldeia”, desvincula-o dos elementos perturbadores que lhe alimentava a enfermidade. Os recursos terapêuticos utilizados pelo Mestre estão representados nos fluidos ou energias magnético- -espirituais, presentes na sua saliva e nos seus fluidos magnéticos. As ações promotoras da saúde estão indicadas no versículo 26, registrado por Marcos: “E mandou-o para sua casa, dizendo: Não entres na aldeia”. Significa dizer que a saúde estaria garantida se o atendido guardasse a devida vigilância da sua casa mental (“mandou-o para a sua casa”), mantendo-se harmonizado no bem e afastado do foco dos antigos problemas (“não entres na aldeia”).

A cura da cegueira surge como mera possibilidade quando o cego se apoia na benevolência de amigos, os quais, por sua vez, o conduzem até Jesus. Somente com o Mestre a cura se concretiza. Este processo: desejo de ser curado, apoio de benfeitores, encaminhamento a Jesus, permite ao enfermo compreender que as ações individuais, por menores que sejam, repercutem na própria existência, sendo pois necessário desenvolver a capacidade de se fazer escolhas sensatas. Neste sentido, sabemos que “ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há de odiar um e amar o outro ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não se pode servir a Deus e a Mamon” (Mt 6:24). Mamon representa as paixões inferiores e as coisas materiais supérfluas que, pelo fascínio que exercem sobre as criaturas, podem arrastá-las a grandes desarmonias espirituais e a quedas morais significativas.

Assim, a saída da aldeia, propiciada por Jesus, apresenta também outro significado: coloca o doente no rumo do bem, a serviço de Deus, dando condições ao seu Espírito de acessar outro campo de vibrações, de valores substancialmente diferentes, favoráveis à neutralização do mal.

Trazendo a lição para o campo das nossas cogitações íntimas, percebemos que por muito tempo estivemos prisioneiros de hábitos infelizes e de viciações, antes do entendimento espírita surgir em nossa vida. Isto nos faz refletir o quanto é importante investir na aquisição de valores morais, desenvolvendo virtudes e combatendo o mal. Este processo de mudança pode ser favorecido pelas práticas espíritas, simples, mas eficientes, tais como: reuniões evangélico-doutrinárias ou de estudo; trabalho de assistência e promoção social, de atendimento aos necessitados, encarnados ou desencarnados. São frentes de trabalho que nos fazem manter a mente atenta em interesses edificantes, e que nos desvinculam de antigas conexões geradoras de desconforto espiritual. Agindo assim, estaremos promovendo a desativação de sofrimentos e patologias equivocadamente nutridos pelo nosso Espírito.

O texto de Marcos mostra que Jesus utilizou dois recursos terapêuticos na cura do cego: a saliva e a imposição de mãos. O registro evangélico diz que “e, cuspindo-lhe nos olhos, e impondo-lhe as mãos, perguntou-lhe se via alguma coisa.” O uso da saliva indica que a enfermidade daquele companheiro exigia, por suas características, uma providência de ordem bastante material. É importante ressalvar que somente ao Cristo coube a utilização da saliva como elemento curativo, em razão da sua elevada pureza e sublimado magnetismo. Não se trata de prática que devemos imitar ou incentivar, uma vez que a nossa saliva não possui a desejável pureza química e biológica, em função de hábitos alimentares, deficiências fisiológicas, energéticas etc.

A saliva é um produto que contribui para a manutenção de certas atividades no corpo físico. É um fluido aquoso e transparente secretado pelas glândulas salivares, tendo a água como o seu maior componente (99%) e uma pequena porcentagem de substâncias orgânicas e minerais (substâncias inorgânicas). Alguns elementos biológicos existentes na saliva, como anticorpos e enzimas, protegem o organismo de infecções e intoxicações. É uma substância encontrada na boca e em toda a extensão do aparelho digestivo e orofaríngeo, hidratando-o e tendo como função adicional controlar o nível de água no organismo.

O passe, transmitido pela imposição de mãos, foi outro recurso que o Mestre utilizou na cura do cego. Este, sim, é naturalmente utilizado por nós. A imposição de mãos produz uma transmissão magnética dos nossos fluidos animalizados (fluido vital) que, associados às energias dos benfeitores espirituais, canalizam elementos de cura ao necessitado, envolvendo-o em vibrações de amor e bem-estar.

Após a transmissão magnético-fluídica, Jesus “perguntou-lhe se via alguma coisa”. A pergunta é significativa: o cego é chamado a reagir, a despertar, sair do estado psíquico em que se encontrava e acordar para a vida, exercitando a visão espiritual que se lhe abria. A magnificência da lição nos mostra como deve ser o processo de auxílio: o enfermo não foi constrangido a ver segundo a ótica de Jesus — que, por efeito contrário, manteria o doente no estado de cegueira, já que a luz excessiva também cega —, mas de acordo com a condição evolutiva do próprio Espírito beneficiado.

Percebemos, então, que em todo processo de auxílio é mais importante que o necessitado não se firme apenas nos recursos de quem o ampara, mas que desenvolva os próprios, ativando-os em benefício da sua felicidade. É preciso não esquecer o respeito que devemos ter pelo livre-arbítrio do beneficiado.

A pergunta do Cristo (vê “alguma coisa?”) demonstra que, sob o influxo do amor, há liberdade integral para o necessitado usar do seu livre-arbítrio, vendo o que deseja e discernir sobre o que lhe é lícito ou conveniente.

Homens comuns, habitualmente, pousam os olhos em determinada situação apenas para fixarem os ângulos mais apreciáveis aos interesses inferiores que lhes dizem respeito. […] Olhos otimistas saberão extrair motivos sublimes de ensinamento, nas mais diversas situações do caminho em que prosseguem. […] O homem cristianizado e prudente sabe contemplar os problemas de si mesmo, contudo, nunca enxerga o mal onde o mal ainda não exista. 6

No versículo 24 temos a resposta do cego a Jesus: “E, levantando ele os olhos, disse: vejo os homens: pois os vejo como árvores que andam”. Esta expressão: “levantando ele os olhos” traduz-se como um inequívoco propósito de elevação, atestado pela sua disposição íntima de curar-se. Se a indagação anterior de Jesus — se o enfermo via alguma coisa — afere o desejo de efetiva transformação moral do necessitado, o gesto, caracterizado por “levantando ele os olhos”, confirma a determinação do atendido em seguir as orientações do Cristo.

Que esse processo de cura nos sirva de exemplo, pois o mínimo que se espera de todos nós, Espíritos enfermos, é nos mantermos unidos a Jesus, seguindo os seus ensinamentos, sendo beneficiados pela bondade do Alto que nos cumula de bênçãos. Neste sentido, é preciso superar as manifestações de desânimo e de pessimismo que corriqueiramente nos atingem, enfrentando os desafios da vida com ânimo forte (“levantando os olhos”).

Continuando em sua determinação de se libertar da cegueira, diz o cego: “Vejo os homens, pois os vejo como árvores que andam”. Esta informação mostra que a visão distorcida da realidade pode estar relacionada a diferentes causas.

A primeira sensação que o homem teve foi exatamente a que experimentam os cegos ao recobrarem a vista. Por um efeito de óptica, os objetos lhes parecem de tamanho exagerado. 2

Verifica, porém, que a distorção visual poderia estar relacionada, não a problemas no globo ocular, mas à visão espiritual. Ver homens que parecem árvores que andam, indica visão aparente, superficial e embaçada. Estamos conscientes que cada Espírito é um mundo por si. O ambiente ao qual nos vinculamos não é uma floresta de criaturas aparentemente iguais, como sugere a expressão “árvores que andam”. O espírita consciente sabe que o lar, o trabalho, o ambiente em que vive e atua é uma sociedade heterogênea formada de Espíritos portadores de valores e necessidades diferentes.

 Cairbar Schutel nos lembra o seguinte:

Colhemos […] uma lição de inestimável proveito em tudo isso, e refere-se à passagem do Espírito, da materialidade em que está, para a espiritualidade, da ignorância para a sabedoria, das trevas para a luz. Ele não adquire, como o cego não adquiriu, repentinamente a vidência da Verdade; passa por um estado de confusão, assim como o cego — vendo, mas vendo homens como árvores, até que possa distinguir claramente a realidade. 3

Na primeira etapa do atendimento espiritual, realizado por Jesus, percebemos que a visão do cego se revelou deficiente. Mesmo não enxergando com nitidez, a revelação que prestou a Jesus foi sincera, expressando o que efetivamente estava vendo. Não se enganou, movimentando recursos de superfície, se dizendo curado, mas, ao contrário, ao afirmar que não via plenamente, expõe a sua real deficiência por se sentir seguro e amparado em Jesus. Esta informação foi importante para que o Mestre lhe agraciasse com nova assistência (“tornou a pôr-lhe as mãos nos olhos”).

À semelhança do cego que deseja enxergar com nitidez, devemos dilatar a nossa visão espiritual, buscando de forma incessante o melhor que a vida oferece em termos de conquistas morais e intelectuais. Os valores que dispomos hoje podem ser insuficientes para a realização de empreendimentos elevados. Entretanto, a experiência da vida, se firmada no amor, oferece novos e apropriados ensinamentos que nos impulsionam para a frente. Adotar ação no bem é angariar conhecimentos pelas vias naturais do progresso espiritual, fugindo do impositivo milenar do aprender pelo sofrimento.

Pessoas há que iniciam bons empreendimentos, mas, por falta de perseverança, não concluem as tarefas. Outras, de forma irrefletida, assumem o compromisso de realizar muitas coisas, mas pouco ou nada executam. O Espírito revela progresso efetivo quando passa a ser mais resoluto e constante no seu propósito de melhoria, atestando, assim, assimilação do “olhando firmemente”, indicado no ensinamento evangélico, sob análise. Devemos considerar também que, a despeito das nossas mais nobres e firmes disposições, somente sob o amparo constante de Jesus é que conseguimos forças para, como o cego de Betsaida, saber “olhar firmemente, ficar restabelecido, vendo distintamente a todos.”

A expressão verbal “ficou restabelecido” pode ser interpretada como o retorno do equilíbrio e pela capacidade de retomar à posição de criaturas simples e bem-dispostas. As pessoas simples já não perdem nem se mantém presas no emaranhado de complicações, caracterizado pela indiferença, egoísmo, vaidade etc.

Aprendemos que ver, segundo os padrões determinados por Jesus, significa ser humilde e conhecer a verdade, como está demonstrado na frase: “e já via ao longe e distintamente a todos.” Ver ao “longe” e “distintamente” tem o significado de ver além ou acima das aparências, enxergando o próximo como irmão, já que todos somos filhos do mesmo Pai. Não se trata, pois, de visualizarmos as pessoas como caricaturas humanas (“como árvores que andam”), mas como companheiros em processo de caminhada para Deus, portadores de peculiaridades e valores próprios, os quais nos concedem a oportunidade de colocar em prática a orientação de Jesus, registrada pelo apóstolo João: “Que vos ameis uns aos outros como eu vos amei a vós […]. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13:34-35).

» E mandou-o para sua casa, dizendo: Não entres na aldeia (Mc 8:26).

A frase: “mandou-o para sua casa, dizendo”, nos conduz a dupla interpretação. A primeira é literal e está relacionada ao ambiente doméstico, onde convivemos com os familiares e amigos próximos. Trata-se do local apropriado para a execução das responsabilidades e dos deveres definidos pela reencarnação. A segunda diz respeito à casa íntima, à mente do Espírito, plano onde se opera as aquisições necessárias ao progresso espiritual.

Recomenda também Jesus: “não entres na aldeia.” Nada há de complexo ou incoerente nessa instrução, se fizermos uma análise não literal, extraindo o espírito da letra. Trata-se de uma recomendação justa e prudente, indicando que o doente, para se manter permanentemente livre da cegueira, não deve retornar à posição anterior, antes de ser curado. “Não entres na aldeia” é ordenação precisa do Senhor que mostra ao convalescente a necessidade de vibrar em planos mais elevados. A cura só se concretiza quando o imperativo de Jesus “não entres na aldeia” é, de fato, assimilado. Quando o Espírito entende que é preciso recolher-se à própria intimidade (sua “casa”) deve fazer reflexões apropriadas e elaborar estratégias de redenção. Se a mente renovada eleger como padrão de comportamento o manter-se em sintonia com o Alto, é para aí que deve canalizar seus esforços.

A propósito esclarece Emmanuel:

Quase […] todos os doentes reclamam a atuação do Cristo, exigindo que a dádiva desça aos caprichos perniciosos que lhe são peculiares, sem qualquer esforço pela elevação de si mesmos à bênção do Mestre. Raros procuram o Cristo à luz meridiana; e, de quantos lhe recebem os dons, raríssimos são os que lhe seguem os passos no mundo. Daí procede a ausência da legítima glorificação a Deus e a cura incompleta da cegueira que os obscurecia, antes do primeiro contato com a fé. Em razão disso, a Terra está repleta dos que creem e descreem, estudam e não aprendem, esperam e desesperam, ensinam e não sabem, confiam e duvidam. Aquele que recebe dádivas pode ser somente beneficiário. O que, porém, recebe o favor e agradece-o, vendo a luz e seguindo-a, será redimido. É óbvio que o mundo inteiro reclama visão com o Cristo, mas não basta ver simplesmente […] para ver e glorificar o Senhor é indispensável marchar nas pegadas do Cristo, escalando, com Ele, a montanha do trabalho e do testemunho. 10

A interpretação espírita da cura do cego de Betsaida nos faz recordar Saulo de Tarso que, ao encontrar o Cristo na estrada de Damasco, precisou perder temporariamente a visão física para que pudesse enxergar as claridades espirituais. Eis o que aconteceu ao valoroso apóstolo dos gentios, segundo o relato de Emmanuel.

Aqueles três dias em Damasco foram de rigorosa disciplina espiritual. Sua personalidade dinâmica havia estabelecido uma trégua às atividades mundanas, para examinar os erros do passado, as dificuldades do presente e as realizações do futuro. Precisava ajustar-se à inelutável reforma do seu eu. […] Ninguém acreditaria no ascendente da conversão inesperada; entretanto, havia que lutar contra todos os céticos, uma vez que Jesus, para falar-lhe ao coração, escolhera a hora mais clara e rutilante do dia, em local amplo e descampado e na só companhia de três homens muito menos cultos do que ele, e, por isso mesmo, incapazes de algo compreenderem na sua pobreza mental. […] Agora compreendia aquele Cristo que viera ao mundo principalmente para os desventurados e tristes de coração. Antes, revoltava-se contra o Messias Nazareno, em cuja ação presumia tal ou qual incompreensível volúpia de sofrimento; todavia, chegava a examinar-se melhor, agora, haurindo na própria experiência as mais proveitosas ilações. Não obstante os títulos do Sinédrio, as responsabilidades públicas, o renome que o faziam admirado em toda parte, que era ele senão um necessitado da proteção divina? As convenções mundanas e os preconceitos religiosos proporcionavam-lhe uma tranquilidade aparente; mas, bastou a intervenção da dor imprevista para que ajuizasse de suas necessidades imensas. Abismalmente concentrado na cegueira que o envolvia, orou com fervor, recorreu a Deus para que o não deixasse sem socorro, pediu a Jesus lhe clareasse a mente atormentada pelas ideias de angústias e desamparo. 7

Sabemos que passados três dias em que o apóstolo se encontrava cego, Jesus enviou o idoso Ananias que, em seu nome, curou a cegueira de Paulo. O diálogo que acontece entre o beneficiado e o benfeitor revela o que acontece quando a cura ocorre sob o amparo do Cristo:

Ressuscitastes-me para Jesus — exclamou jubiloso —; serei dele eternamente. Sua misericórdia suprirá minhas fraquezas, compadecer-se-á de minhas feridas, enviará auxílios à miséria da minha alma pecadora, para que a lama do meu espírito se converta em ouro do seu amor. Sim, somos do Cristo — ajuntou o generoso velhinho com a alegria a transbordar dos olhos”. 8

Referências:

1. KARDEC. Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 124. ed. Rio de janeiro: FEB, 2005. Cap. 8, item 19, p. 156-157.

2. _____. A gênese. Tradução de Guillon Ribeiro. 48. ed. Rio de janeiro: FEB, 2005. Cap. 15, item 13, p. 317.

3. SCHUTEL, Cairbar. O espírito do cristianismo. 8. ed. Matão: O Clarim, 2001. Cap. 62 (O cego de Betsaida), p. 319.

4. XAVIER. Francisco Cândido. Fonte viva. Pelo Espírito Emmanuel. 33. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. Cap. 29 (Sirvamos), p. 76.

5. _____. Leis de amor. Pelo Espírito Emmanuel. 4. ed. São Paulo: LAKE, 1972. Pergunta 2, p. 13-14.

6. _____. Pão nosso. Pelo Espírito Emmanuel. 27. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. Cap. 169 (Olhos), p. 353-354.

7. _____. Paulo e Estêvão. Pelo Espírito Emmanuel. 42. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. Segunda parte, cap. 1 (Rumo ao deserto), p. 257-258.

8. _____._____. p. 261.

9. _____.Vinha de luz. Pelo Espírito Emmanuel. 24. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. Cap. 27 (Indicação de Pedro), p. 73-74.

10. _____._____. Cap. 34 (Não basta ver), p. 87-88”.

Antônio Luiz Sayão, em “Elucidações evangélicas à luz da Doutrina Espírita”, apresenta o seu esclarecimento:

“MARCOS, 8: 22 A 26.

Cura de um cego

22. Como chegassem a Betsaida, trouxeram-lhe um cego e lhe pediram que o tocasse.  23. Tomando o cego pela mão, ele o conduziu para fora da aldeia e, passando-lhe saliva nos olhos e impondo-lhe as mãos, lhe perguntou se via alguma coisa. 24. O homem, olhando, disse: Vejo a caminhar homens que parecem árvores. 25. Jesus lhe colocou de novo a mão sobre os olhos e ele começou a ver, ficou curado, de sorte que via tudo distintamente. 26. Jesus o mandou embora para casa, dizendo: Vai para tua casa e, se entrares na aldeia, não digas a ninguém o que te sucedeu.

Jesus nunca se achava só. Estava sempre acompanhado. A recomendação que fez dizia respeito à visão do cego.

Da primeira vez que lhe impôs as mãos, deu-lhe o Mestre a vista espiritual. Viu ele então os Espíritos que em torno daquele se grupavam e que lhe pareceram homens de gigantescas proporções. Pela segunda imposição das mãos, Jesus lhe curou os órgãos animais, passando ele a ver os outros homens, seus semelhantes. Fora-lhe restituída a visão corporal.

Aquela, a espiritual, se desenvolvera pela ação dos Espíritos que cercavam o Mestre, os quais fizeram que o homem se tornasse, na ocasião, vidente, desembaraçando-lhe da matéria o Espírito.

A explicação desse fenômeno, que foi de desprendimento, é a mesma dos fenômenos magneto-espíritas, ou seja: dos fenômenos devidos não só ao magnetismo espiritual, mas também ao magnetismo empregado com o fim de desenvolver a visão espiritual. Pelo contato dos fluídos humanos que o circunvolvem, o Espírito adquire maior força; seu perispírito, ou duplo, forrando-se, por assim dizer, aos eflúvios perispiríticos que o rodeiam, pode subtrair-se ao corpo que o retém, o que lhe permite recobrar, momentaneamente, uma certa liberdade.

O magnetismo ainda ensaia os primeiros passos. O homem tem por demais desprezado o poder que o Senhor lhe pôs nas mãos; mal se dignou de lançar os olhos para a primeira página da introdução desse grande livro da Ciência.

O magnetismo constitui objeto de estudo grave e profundo, que reclama, para se tornar proveitoso, ilimitado desinteresse, fé viva, inesgotável amor ao próximo. Esses os três auxiliares sem os quais não poderemos colher os frutos da árvore da ciência. Com eles, saberemos repelir sempre o mal e caminhar a passos largos pela senda do progresso.

Dirigindo-se especialmente aos magnetizadores, os Espíritos lhes dizem, como enviados do Senhor: Trazeis em vós a fonte de todas as descobertas, de todas as ciências. Abri, trabalhando seriamente, as páginas desse grande livro e nele descobrireis todos os dias alguma beleza nova e vereis até onde pode chegar o poder do homem, quando tem a sustentá-lo o amor do bem, da verdade e do belo.

O magnetizador sério, que trabalhe visando o progresso da Humanidade, deve esmerar-se na escolha dos sonâmbulos que hajam de secundá-lo, certo de que cada um servirá para determinada especialidade. Um só não basta, pois que este que, como Espírito, é adiantado num dos ramos da ciência, pode ser completamente ignorante no que respeita a outro. Não nos referimos aqui à ciência humana, porquanto o sonâmbulo que, na condição de encarnado, seja extremamente simples de espírito pode ser espiritualmente muito adiantado, desde que também seja simples de coração, visto que o desprendimento faculta ao homem o recebimento de inesperadas revelações, por intermédio dos Espíritos Superiores, aos quais o sonâmbulo serve de instrumento.

Deve o magnetizador ter o cuidado de escolher, para seus sensitivos, pessoas de corações puros e devotados, que ele instruirá na ciência magnética, moldando-as a pouco e pouco ao gênero de trabalho para que manifestam aptidão. Assim, este, quando em êxtase, poderá ser o auxiliar de um químico; aquele projetará luz nas trevas da história; aquele outro resolverá problemas mecânicos sobre os quais a Humanidade tem encanecido, sem lhes achar solução.

Entretanto, para chegar a semelhante resultado, cumpre que tanto o magnetizador como o magnetizado sejam puros de coração e não busquem na ciência uma exploração mundana, sem o que ambos verão falir suas esperanças. Afugentados os Espíritos superiores, que só se aproximam do que é puro, os mistificadores dominarão o campo.

O estado sonambúlico é, para o sensitivo, o do Espírito que se liberta do corpo, que nada mais lhe fica sendo senão um instrumento pelo qual transmita seus pensamentos e sensações, exatamente o mesmo que evocadores e médiuns são para os Espíritos.

Desenvolvido e produzido repetidamente, aquele estado eleva o Espírito, habituando-o a libertar-se da sua prisão, mesmo durante o estado de vigília. Desse modo, espalhando pouco a pouco em torno de si seus eflúvios libertadores, acostumar-se-á o homem a viver, por assim dizer, fora de si mesmo. A atmosfera que o rodeia se impregnará desses fluídos humanos e, assim como a miragem que flutua no horizonte se avoluma com as nuvens que a cercam e se lhe agregam, também esses fluídos atrairão os fluídos ambientes que nos circundam e apressarão o desenvolvimento das faculdades humanas e a emancipação das almas.

O cego viu os Espíritos que se grupavam em torno de Jesus e que lhe pareceram homens gigantescos, semelhantes a árvores pela altura do porte. Como a maioria dos que vivem na Terra, ele desconhecia os efeitos do desprendimento espiritual, pelo que não pôde compreender o que se passava aos olhos de seu Espírito.

Nas aparições espíritas, ou nos casos de desprendimento do Espírito do vidente, o que mais lhe prende a atenção é a sede propriamente dita do Espírito, a parte superior da forma corpórea que se lhe apresenta. Só depois de haver notado essa parte da aparição, é que ele percebe o resto das formas, que quase sempre se mostram indistintas, como que diluídas numa espécie de vapor. Geralmente, as formas humanas, que os Espíritos conservam, são mais amplas do que o eram na Terra, podendo-se acrescentar que, nos mundos superiores à Terra, os habitantes são de estatura maior do que a nossa e revelam muito maior pureza de linhas no talhe.

Na Terra, mundo inferior, onde ainda predomina a inferioridade moral, os fenômenos magneto-espíritas são muito amiúde obra de Espíritos maus, tanto que produzem efeitos fluídicos violentos e dolorosos, ou perigosos, tais como, em particular, as subjugações corporais, ou corporais e morais ao mesmo tempo. Doutras vezes, são obra de Espíritos levianos, embusteiros, dando lugar a mistificações.

Como, porém, tudo se passa debaixo da vigilância dos guias, se tais efeitos se verificam, é que fazem parte da. série de provações que o encarnado tem que sofrer, pelo que os Espíritos protetores consentem que eles se deem.

Todas as coisas têm sempre um fim sério. Assim, desde que investiguemos as causas determinantes de uma dessas mistificações, depararemos ou com uma incredulidade sistemática, ou com uma confiança orgulhosa, ou com uma credulidade, uma inexperiência que precisavam de ser esclarecidas, para conduzirem o mistificado à perspicácia e ao devotamento. Não raro, o caso constitui uma lição que convinha fosse dada às suas testemunhas, cuja atenção o encarnado atingido se incumbia de despertar.

Impondo pela segunda vez a mão no homem que estava cego, Jesus, conforme acima dissemos, lhe curou os órgãos materiais da visão, sendo-lhe restituída a vista corporal. Esse resultado, afinal, como todos os outros, de natureza idêntica ou semelhante, decorreu unicamente da ação da potente vontade do Mestre e da sua prodigiosa força magnética, sem que lhe fosse mister passar saliva nos olhos do doente, nem lhe impor as mãos, o que Ele só fez a título de ensino e de exemplo para os homens.

Desempecendo-lhe a visão espiritual, tornando-o vidente, atraiu Jesus a atenção de seus discípulos, dos homens de então, e, principalmente, dos da época atual, para os mistérios de além-túmulo, que viriam a ser desvendados. A um e outros mostrou, do mesmo passo, que aquele, cujo Espírito se acha dominado pela matéria, ou a ela escravizado, está moral e intelectualmente cego, do ponto de vista espiritual, espírita; que esse não poderá recobrar a vista, senão quando seu Espírito exercer domínio sobre a matéria, dela se desprender, isto é, se libertar para dominá-la; que desse modo é que começa. É o progresso moral, a que o desprendimento da visão espiritual do cego servia e serve de símbolo”.

Bibliografia:

BÍBLIA SAGRADA.

KARDEC, Allan; tradução de Evandro Noleto Bezerra. A Gênese. 2ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

MOURA, Marta Antunes de Oliveira de (Organizadora). Estudo aprofundado da doutrina espírita: Ensinos e parábolas de Jesus – Parte I: orientações espíritas e sugestões didático-pedagógicas direcionadas ao estudo do aspecto religioso do Espiritismo. 1ª Edição. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2016.

SAYÃO, Antônio Luiz. Elucidações evangélicas à luz da Doutrina Espírita. 16ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto:
search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close