Aprendendo e evoluindo com os conflitos do lar

“E, assim, os inimigos do homem serão os seus familiares”. (Mateus, 10: 36)

Os laços de família oferecem oportunidades de aprendizado e evolução. Arraigada em vidas passadas, a família é formada por agentes diversos que se reencontram afetos e desafetos, amigos e inimigos, para os ajustes e reajustes indispensáveis.

Os laços espirituais, na família, podem ser formados por Espíritos unidos pela afeição, simpatia e semelhança de inclinações, e felizes por estarem juntos. Esses Espíritos se buscam uns aos outros. A encarnação pode separá-los momentaneamente, mas ao regressarem ao mundo espiritual reúnem-se novamente. Muitas vezes, uns seguem a outros na encarnação, vindo aqui se reunir numa mesma família, ou num mesmo círculo, a fim de trabalharem pelo mútuo adiantamento.

Por outro lado, esses laços espirituais podem também ser formados por familiares estranhos uns aos outros, divididos por antipatias anteriores, a fim de lhes servir de provação. Isso porque, depois de uma existência, o Espírito leva consigo as paixões e os ressentimentos de existências passadas e, muitas vezes, revoltando-se com a ideia do perdão.

Contudo, o Espírito aperfeiçoa-se no Espaço até que deseje receber a luz. Este ser infeliz, após anos de meditações e preces, aproveita a oportunidade em outro corpo em preparo para nascer na família daquele a quem detestou, e pede aos Espíritos incumbidos pelo seu planejamento reencarnatório permissão para lá viver uma nova chance de progresso.

O Espírito Neio Lúcio, em “Os instrumentos da perfeição”, na psicografia de Francisco Cândido Xavier, no livro “Jesus no Lar”, traz um texto maravilhoso que nos faz compreender os conflitos no lar e como usar as “ferramentas” à nossa disposição para construir a edificação necessária para o crescimento próprio e de nossos familiares.

Os instrumentos da perfeição

Naquela noite, Simão Pedro trazia à conversação o espírito ralado por extremo desgosto.

Agastara-se com parentes descriteriosos e rudes.

Velho tio acusara-o de dilapidador dos bens da família, e um primo ameaçara esbofeteá-lo na via pública.

Guardava, por isso, o semblante carregado e austero.

Quando o Mestre leu algumas frases dos Sagrados Escritos, o pescador desabafou. Descreveu o conflito com a parentela e Jesus o ouviu em silêncio.

Ao término do longo relatório afetivo, indagou o Senhor:

– E que fizeste, Simão, ante as arremetidas dos familiares incompreensivos?

– Sem dúvida, reagi como devia! – respondeu o apóstolo, veemente. – Coloquei cada um no lugar próprio. Anunciei, sem rebuços, as más qualidades de que são portadores. Meu tio é raro exemplar de sovinice e meu primo é mentiroso contumaz. Provei, perante numerosa assistência, que ambos são hipócritas, e não me arrependi do que fiz.

O Mestre refletiu por minutos longos e falou, compassivo:

– Pedro, que faz um carpinteiro na construção de uma casa?

– Naturalmente, trabalha – redarguiu o interpelado, irritadiço.

– Com quê? – tornou o Amigo Celeste, bem-humorado.

– Usando ferramentas.

Após a resposta breve de Simão, o Cristo continuou:

– As pessoas com as quais nascemos e vivemos na Terra são os primeiros e mais importantes instrumentos que recebemos do Pai, para a edificação do Reino do Céu em nós mesmos. Quando falhamos no aproveitamento deles, que constituem elementos de nossa melhoria, é quase impossível triunfar com recursos alheios, porque o Pai nos concede os problemas da vida, de acordo com a nossa capacidade de lhes dar solução. A ave é obrigada a fazer o ninho, mas não se lhe reclama outro serviço. A ovelha dará lã ao pastor; no entanto, ninguém lhe exige o agasalho pronto. Ao homem foram concedidas outras tarefas, quais sejam as do amor e da humildade, na ação inteligente e constante para o bem comum, a fim de que a paz e a felicidade não sejam mitos na Terra. Os parentes próximos, na maioria das vezes, são o martelo ou o serrote que podemos utilizar a benefício da construção do templo vivo e sublime, por intermédio do qual o Céu se manifestará em nossa alma. Enquanto o marceneiro usa as suas ferramentas, por fora, cabe-nos aproveitar as nossas, por dentro. Em todas as ocasiões, o ignorante representa para nós um campo de benemerência espiritual; o mau é desafio que nos põe a bondade à prova; o ingrato é um meio de exercitarmos o perdão; o doente é uma lição à nossa capacidade de socorrer. Aquele que bem se conduz, em nome do Pai, junto de familiares endurecidos ou indiferentes, prepara-se com rapidez para a glória do serviço à Humanidade, porque, se a paciência aprimora a vida, o tempo tudo transforma.

Calou-se Jesus e, talvez porque Pedro tivesse ainda os olhos indagadores, acrescentou serenamente:

– Se não ajudamos ao necessitado de perto, como auxiliaremos os aflitos, de longe? Se não amamos o irmão que respira conosco os mesmos ares, como nos consagraremos ao Pai que se encontra no Céu?

Depois destas perguntas, pairou na modesta sala de Cafarnaum expressivo silêncio que ninguém ousou interromper”.

Bibliografia:

BÍBLIA SAGRADA.

LÚCIO, Neio (Espírito). Na psicografia de Francisco Cândido Xavier. Jesus no Lar. 37ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2018.

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