Da identidade dos Espíritos

Essa reflexão tratará “Da identidade dos Espíritos”, de “O Livro dos Médiuns”, Capítulo XXIV, que foi dividida em: provas possíveis de identidade; modo de se distinguirem os bons dos maus Espíritos; e questões sobre a natureza e identidade dos Espíritos.

Allan Kardec, logo no início, alerta que “a questão da identidade dos Espíritos é uma das mais controvertidas, mesmo entre os adeptos do Espiritismo”, sendo uma das maiores dificuldades do Espiritismo prático, depois da obsessão. Isto porque “os Espíritos não nos trazem um ato de notoriedade e sabe-se com que facilidade alguns dentre eles tomam nomes que nunca lhes pertenceram”. Contudo, Kardec expressa que, “em muitos casos, a identidade absoluta não passa de questão secundária e sem importância real”.

Destaca-se a colocação de Kardec de “com que facilidade alguns dentre eles tomam nomes que nunca lhes pertenceram” e de ter incluído o “modo de se distinguirem os bons dos maus Espíritos”, pois enfrentaremos as mesmas dúvidas do Evangelho João: “…, não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus…” (1 João 4:1). As dúvidas decorrem das inúmeras comunicações, mensagens, revelações espirituais ou psicografias atribuídas a certos Espíritos, conhecidos ou não, em que ficamos receosos para acreditar quanto à autoria, confiabilidade e veracidade.

Assim, a reflexão será importante tanto para médium como para o espírita em geral.

“A identidade dos Espíritos das personagens antigas é a mais difícil de se conseguir, tornando-se muitas vezes impossível, pelo que ficamos adstritos a uma apreciação puramente moral. Julgam-se os Espíritos, como os homens, pela sua linguagem”.

“À medida que os Espíritos se purificam e elevam na hierarquia, os caracteres distintivos de suas personalidades se apagam, de certo modo, na uniformidade da perfeição; nem por isso, entretanto, conservam eles menos suas individualidades. É o que se dá com os Espíritos superiores e os Espíritos puros”.

Kardec anota que os diversos nomes dos Espíritos em pluralidade de existências são insignificantes. Entretanto, como precisamos de nomes para fixar as ideias, podem os Espíritos superiores tomar o nome de um personagem conhecido, cuja natureza mais se identifica conosco. “É assim que os nossos anjos guardiães se fazem as mais das vezes conhecer pelo nome de um dos santos que veneramos e, geralmente, pelo daquele que nos inspira mais simpatia”. (…) “Segue-se ainda que, seja qual for o nome sob que alguém invoque o seu anjo guardião, este acudirá ao apelo que lhe é dirigido, porque o que o atrai é o pensamento, sendo-lhe indiferente o nome”.

Entretanto, devemos ter cuidado “quando um Espírito de ordem inferior se adorna com um nome respeitável, para que suas palavras mereçam crédito, e este caso é de tal modo frequente que toda precaução não será demasiada contra semelhantes substituições”. Isto porque Espíritos inferiores procuram fascinar os médiuns para tornar suas ideias aceitas.

A fascinação é uma ilusão produzida por um Espírito obsessor sobre o pensamento e a mente do obsidiado. Nessa situação, o obsessor é ardiloso e hipócrita, simulando falsa virtude. Por conseguinte, o fascinado não acredita que o estejam enganando. Muitos médiuns têm suas quedas obsessivas pela fascinação, em que Espíritos obsessores os fazem aceitar de olhos fechados o que transmitem, sem discernir o verdadeiro do falso.

Prosseguindo, Kardec esclarece que “os Espíritos superiores formam, por assim dizer, um todo coletivo, cujas individualidades nos são, com exceções raras, desconhecidas. Não é a pessoa deles o que nos interessa, mas o ensino que nos proporcionam”.

“Muito mais fácil de se comprovar é a identidade quando se trata de Espíritos contemporâneos, cujos caracteres e hábitos se conhecem, porque, precisamente, esses hábitos, de que eles ainda não tiveram tempo de despojar-se, são que os fazem reconhecíveis e desde logo dizemos que isso constitui um dos sinais mais seguros de identidade”.

Os Espíritos podem dar “espontaneamente provas irrecusáveis de sua identidade, por seus caracteres, que se revelam na linguagem de que usam, pelo emprego das palavras que lhes eram familiares, pela citação de certos fatos, de particularidades de suas vidas, às vezes desconhecidas dos assistentes e cuja exatidão se pode verificar. As provas de identidade ressaltam, além disso, de um sem-número de circunstâncias imprevistas, que nem sempre se apresentam na primeira ocasião, mas que surgem com a continuação das manifestações. Convém, pois, esperá-las, sem as provocar, observando-se cuidadosamente todas as que possam decorrer da natureza das comunicações”.

“Igualmente se pode incluir entre as provas de identidade a semelhança da caligrafia e da assinatura, mas, além de que nem a todos os médiuns é dado obter esse resultado, ele não representa, invariavelmente, uma garantia bastante. Há falsários no mundo dos Espíritos, como os há neste. Aí não se tem, pois, mais do que uma presunção de identidade, que só adquire valor pelas circunstâncias que a acompanhem. O mesmo ocorre com todos os sinais materiais, que algumas pessoas têm como talismãs inimitáveis para os Espíritos mentirosos. Para os que ousam perjurar ao nome de Deus, ou falsificar uma assinatura, nenhum sinal material pode oferecer obstáculo maior. A melhor de todas as provas de identidade está na linguagem e nas circunstâncias fortuitas”. (…) “Se um Espírito pode imitar uma assinatura, também pode perfeitamente imitar a linguagem”.

Para tanto, há que se estudar o ditado em seu conjunto, analisando a fundo as ideias e o alcance das expressões, pois que certas partes da forma material da linguagem podem ser imitadas, mas não o pensamento. “Jamais a ignorância imitará o verdadeiro saber e jamais o vício imitará a verdadeira virtude. Em qualquer ponto, sempre aparecerá a pontinha da orelha. É então que o médium, assim como o evocador, precisam de toda a perspicácia e de toda a ponderação para destrinçar a verdade da impostura. Devem persuadir-se de que os Espíritos perversos são capazes de todos os ardis e de que, quanto mais venerável for o nome com que um Espírito se apresente, tanto maior desconfiança deve inspirar”.

A despeito de se ter afirmado que “a identidade absoluta dos Espíritos é, em muitos casos, uma questão acessória e sem importância, o mesmo já não se dá com a distinção a ser feita entre bons e maus Espíritos”.

“Em todas as comunicações instrutivas, é sobre este ponto, conseguintemente, que se deve fixar a atenção, porque só ele nos pode dar a medida da confiança que devemos ter no Espírito que se manifesta, seja qual for o nome sob que o faça”.

“(…) os Espíritos devem ser julgados, como os homens, pela linguagem de que usam”. (…) “Devemos considerá-los correspondentes que nunca vimos e procurar conhecer o que pensaríamos do saber e do caráter de um homem que dissesse ou escrevesse tais coisas. Pode estabelecer-se como regra invariável e sem exceção que — a linguagem dos Espíritos está sempre em relação com o grau de elevação a que já tenham chegado”.

“Os Espíritos realmente superiores não só dizem unicamente coisas boas, como também as dizem em termos isentos, de modo absoluto, de toda trivialidade. Por melhores que sejam essas coisas, se uma única expressão denotando baixeza as macula, isto constitui um sinal indubitável de inferioridade; com mais forte razão, se o conjunto do ditado fere as conveniências pela sua grosseria. A linguagem revela sempre a sua procedência, quer pelos pensamentos que exprime, quer pela forma, e, ainda mesmo que algum Espírito queira iludir-nos sobre a sua pretensa superioridade, bastará conversemos algum tempo com ele para a apreciarmos”.

“A bondade e a afabilidade são atributos essenciais dos Espíritos depurados. Não têm ódio, nem aos homens, nem aos outros Espíritos. Lamentam as fraquezas, criticam os erros, mas sempre com moderação, sem fel e sem animosidade. Admita-se que os Espíritos verdadeiramente bons não podem querer senão o bem e dizer senão coisas boas e se concluirá Da identidade dos Espíritos que tudo o que denote, na linguagem dos Espíritos, falta de bondade e de benignidade não pode provir de um bom Espírito”.

“A inteligência longe está de constituir um indício certo de superioridade, porquanto a inteligência e a moral nem sempre andam emparelhadas. Pode um Espírito ser bom, afável, e ter conhecimentos limitados, ao passo que outro, inteligente e instruído, pode ser muito inferior em moralidade”.

“Submetendo-se todas as comunicações a um exame escrupuloso, perscrutando-se-lhes e analisando o pensamento e as expressões, como é de uso fazer-se quando se trata de julgar uma obra literária, rejeitando-se, sem hesitação, tudo o que peque contra a lógica e o bom senso, tudo o que desminta o caráter do Espírito que se supõe ser o que se está manifestando, leva-se o desânimo aos Espíritos mentirosos, que acabam por se retirar, uma vez fiquem bem convencidos de que não lograrão iludir. Repetimos: este meio é único, mas é infalível, porque não há comunicação má que resista a uma crítica rigorosa. Os bons Espíritos nunca se ofendem com esta, pois que eles próprios a aconselham e porque nada têm que temer do exame. Apenas os maus se formalizam e procuram evitá-lo, porque tudo têm a perder. Só com isso provam o que são”.

“267. Podem resumir-se nos princípios seguintes os meios de se reconhecer a qualidade dos Espíritos:

1º) Não há outro critério senão o bom senso, para se aquilatar do valor dos Espíritos. Absurda será qualquer fórmula que eles próprios deem para esse efeito e não poderá provir de Espíritos superiores.

2º) Apreciam-se os Espíritos pela linguagem de que usam e pelas suas ações. Estas se traduzem pelos sentimentos que eles inspiram e pelos conselhos que dão.

3º) Admitido que os bons Espíritos só podem dizer e fazer o bem, de um bom Espírito não pode provir o que tenda para o mal.

4º) Os Espíritos superiores usam sempre de uma linguagem digna, nobre, elevada, sem eiva de trivialidade; tudo dizem com simplicidade e modéstia, jamais se vangloriam, nem se jactam de seu saber, ou da posição que ocupam entre os outros. A dos Espíritos inferiores ou vulgares sempre algo refletem das paixões humanas. Toda expressão que denote baixeza, pretensão, arrogância, fanfarronice, acrimônia é indício característico de inferioridade e de embuste, se o Espírito se apresenta com um nome respeitável e venerado.

5º) Não se deve julgar da qualidade do Espírito pela forma material, nem pela correção do estilo. É preciso sondar-lhe o íntimo, analisar-lhe as palavras, pesá-las friamente, maduramente e sem prevenção. Qualquer ofensa à lógica, à razão e à ponderação não pode deixar dúvida sobre a sua procedência, seja qual for o nome com que se ostente o Espírito.

6º) A linguagem dos Espíritos elevados é sempre idêntica, senão quanto à forma, pelo menos quanto ao fundo. Os pensamentos são os mesmos, em qualquer tempo e em todo lugar. Podem ser mais ou menos desenvolvidos, conforme as circunstâncias, as necessidades e as faculdades que encontrem para se comunicar; porém, jamais serão contraditórios. Se duas comunicações, firmadas pelo mesmo nome, se mostram em contradição, uma das duas é evidentemente apócrifa e a verdadeira será aquela em que nada desminta o conhecido caráter da personagem. (…)

7º) Os bons Espíritos só dizem o que sabem; calam-se ou confessam a sua ignorância sobre o que não sabem. Os maus falam de tudo com desassombro, sem se preocuparem com a verdade. Toda heresia científica notória, todo princípio que choque o bom senso, aponta a fraude, desde que o Espírito se dê por ser um Espírito esclarecido.

8º) Reconhecem-se ainda os Espíritos levianos pela facilidade com que predizem o futuro e precisam fatos materiais de que não nos é dado ter conhecimento. Os bons Espíritos fazem que as coisas futuras sejam pressentidas, quando esse pressentimento convenha; nunca, porém, determinam datas. A previsão de qualquer acontecimento para uma época determinada é indício de mistificação.

9º) Os Espíritos superiores se exprimem com simplicidade, sem prolixidade. Têm o estilo conciso, sem exclusão da poesia das ideias e das expressões, claro, inteligível a todos, sem demandar esforço para ser compreendido. Têm a arte de dizer muitas coisas em poucas palavras, porque cada palavra é empregada com exatidão. Os Espíritos inferiores, ou falsos sábios, ocultam sob o empolamento, ou a ênfase, o vazio de suas ideias. Usam de uma linguagem pretensiosa, ridícula ou obscura, à força de quererem pareça profunda.

10º) Os bons Espíritos nunca ordenam; não se impõem, aconselham e, se não são escutados, retiram-se. Os maus são imperiosos; dão ordens, querem ser obedecidos e não se afastam, haja o que houver. Todo Espírito que impõe trai a sua inferioridade. São exclusivistas e absolutos em suas opiniões; pretendem ter o privilégio da verdade. Exigem crença cega e jamais apelam para a razão, por saberem que a razão os desmascararia.

11º) Os bons Espíritos não lisonjeiam; aprovam o bem que é feito, mas sempre com reserva. Os maus prodigalizam exagerados elogios, estimulam o orgulho e a vaidade, mesmo pregando a humildade, e procuram exaltar a importância pessoal daqueles a quem desejam captar.

12º) Os Espíritos superiores desprezam, em tudo, as puerilidades da forma. Só os Espíritos vulgares ligam importância a particularidades mesquinhas, incompatíveis com ideias verdadeiramente elevadas. Toda prescrição meticulosa é sinal certo de inferioridade e de fraude, da parte de um Espírito que tome um nome imponente.

13º) Deve-se desconfiar dos nomes singulares e ridículos, que alguns Espíritos adotam quando querem impor-se à credulidade; fora soberanamente absurdo tomar a sério semelhantes nomes.

14º) Deve-se igualmente desconfiar dos Espíritos que com muita facilidade se apresentam, dando nomes extremamente venerados, e não lhes aceitar o que digam, senão com muita reserva. Aí, sobretudo, é que uma verificação severa se faz indispensável, porquanto isso não passa muitas vezes de uma máscara que eles tomam para dar a crer que se acham em relações íntimas com os Espíritos excelsos. Por esse meio, lisonjeiam a vaidade do médium e dela se aproveitam frequentemente para induzi-lo a atitudes lamentáveis e ridículas.

15º) Os bons Espíritos são muito escrupulosos no tocante às atitudes que hajam de aconselhar. Elas, qualquer que seja o caso, nunca deixam de objetivar um fim sério e eminentemente útil. Devem, pois, ter-se por suspeitas todas as que não apresentam este caráter, ou sejam condenáveis perante a razão, e cumpre refletir maduramente antes de tomá-las, a fim de evitarem-se mistificações desagradáveis.

16º) Também se reconhecem os bons Espíritos pela prudente reserva que guardam sobre todos os assuntos que possam trazer comprometimento. Repugna-lhes desvendar o mal, enquanto aos Espíritos levianos ou malfazejos apraz pô-lo em evidência. Ao passo que os bons procuram atenuar os erros e pregam a indulgência, os maus os exageram e sopram a cizânia, por meio de insinuações pérfidas.

17º) Os bons Espíritos só prescrevem o bem. Máxima nenhuma e nenhum conselho que se não conformem estritamente com a pura caridade evangélica podem ser obra de bons Espíritos.

18º) Jamais os bons Espíritos aconselham senão o que seja perfeitamente racional. Qualquer recomendação que se afaste da linha reta do bom senso, ou das Leis imutáveis da natureza, denuncia um Espírito atrasado e, portanto, pouco merecedor de confiança.

19º) Os Espíritos maus, ou simplesmente imperfeitos, ainda se traem por indícios materiais, a cujo respeito ninguém se pode enganar. A ação deles sobre o médium é às vezes violenta e provoca movimentos bruscos e intermitentes, uma agitação febril e convulsiva, que destoa da calma e da doçura dos bons Espíritos.

20º) Muitas vezes, os Espíritos imperfeitos se aproveitam dos meios de que dispõem, de comunicar-se, para dar conselhos pérfidos. Excitam a desconfiança e a animosidade contra os que lhes são antipáticos. Especialmente os que lhes podem desmascarar as imposturas são objeto da maior animadversão da parte deles. Alvejam os homens fracos, para os induzir ao mal. Empregando alternativamente, para melhor convencê-los, os sofismas, os sarcasmos, as injúrias e até demonstrações materiais do poder oculto de que dispõem, se empenham em desviá-los da senda da verdade.

21º) Os Espíritos dos que na Terra tiveram uma única preocupação, material ou moral, se se não desprenderam da influência da matéria, continuam sob o império das ideias terrenas e trazem consigo uma parte dos preconceitos, das predileções e mesmo das manias que tinham neste mundo. Fácil é isso de reconhecer-se pela linguagem de que se servem.

22º) Os conhecimentos de que alguns Espíritos se enfeitam, às vezes, com uma espécie de ostentação, não constituem sinal da superioridade deles. A inalterável pureza dos sentimentos morais é, a esse respeito, a verdadeira pedra de toque.

23º) Não basta se interrogue um Espírito para conhecer-se a verdade. Precisamos, antes de tudo, saber a quem nos dirigimos; porquanto, os Espíritos inferiores, ignorantes que são, tratam frivolamente das questões mais sérias. Também não basta que um Espírito tenha sido na Terra um grande homem, para que, no mundo espírita, se ache de posse da soberana ciência. Só a virtude pode, purificando-o, aproximá-lo de Deus e dilatar- -lhe os conhecimentos.

24º) Da parte dos Espíritos superiores, o gracejo é muitas vezes fino e vivo, nunca, porém, trivial. Nos Espíritos zombadores, quando não são grosseiros, a sátira mordaz é, não raro, muito apropositada.

25º) Estudando-se cuidadosamente o caráter dos Espíritos que se apresentam, sobretudo do ponto de vista moral, reconhecem-se-lhes a natureza e o grau de confiança que devem merecer. O bom senso não poderia enganar.

26º) Para julgar os Espíritos, como para julgar os homens, é preciso, primeiro, que cada um saiba julgar-se a si mesmo. Muita gente há, infelizmente, que toma suas próprias opiniões pessoais como paradigma exclusivo do bom e do mau, do verdadeiro e do falso; tudo o que lhes contradiga à maneira de ver, às suas ideias e ao sistema que conceberam, ou adotaram, lhes parece mau. A semelhante gente evidentemente falta a qualidade primacial para uma apreciação sã: a retidão do juízo. Disso, porém, nem suspeitam. É o defeito sobre que mais se iludem os homens. Todas estas instruções decorrem da experiência e dos ensinos dos Espíritos. Vamos completá-las com as próprias respostas que eles deram sobre os pontos mais importantes”.

268. Questões sobre a natureza e a identidade dos Espíritos

1ª Por que sinais se pode reconhecer a superioridade ou a inferioridade dos Espíritos?

‘Pela linguagem, como distinguis um doidivanas de um homem sensato. Já dissemos que os Espíritos superiores não se contradizem nunca e só dizem coisas aproveitáveis. Só querem o bem, que lhes constitui a única preocupação’.

‘Os Espíritos inferiores ainda se encontram sob o influxo das ideias materiais; seus discursos se ressentem da ignorância e da imperfeição que lhes são características. Somente aos Espíritos superiores é dado conhecer todas as coisas e julgá-las desapaixonadamente’.

2ª A ciência é sempre sinal certo de elevação de um Espírito?

‘Não, porquanto, se ele ainda está sob a influência da matéria, pode ter os vossos vícios e prejuízos. Há pessoas que, neste mundo, são excessivamente invejosas e orgulhosas; julgais que, apenas o deixam, perdem esses defeitos? Após a partida daqui, os Espíritos, sobretudo os que alimentaram paixões bem marcadas, permanecem envoltos numa espécie de atmosfera que lhes conserva todas as coisas más de que se impregnaram’.

‘Esses Espíritos semi-imperfeitos são mais de temer do que os maus Espíritos, porque, na sua maioria, reúnem à inteligência a astúcia e o orgulho. Pelo pretenso saber de que se jactam, eles se impõem aos simples e aos ignorantes, que lhes aceitam sem exames as teorias absurdas e mentirosas. Embora tais teorias não possam prevalecer contra a verdade, nem por isso deixam de produzir um mal passageiro, pois que entravam a marcha do Espiritismo e os médiuns voluntariamente se fazem cegos sobre o mérito do que lhes é comunicado. Esse um ponto que demanda grande estudo da parte dos espíritas esclarecidos e dos médiuns. Para distinguir o verdadeiro do falso é que cumpre se faça convergir toda a atenção’.

3ª Muitos Espíritos protetores se designam pelos nomes de santos ou de personagens conhecidas. Que se deve pensar a esse respeito?

‘Nem todos os nomes de santos e de personagens conhecidas bastariam para fornecer um protetor a cada homem. Entre os Espíritos, poucos há que tenham nome conhecido na Terra. Por isso é que, as mais das vezes, eles nenhum nome declinam. Vós, porém, quase sempre quereis um nome; então, para vos satisfazer, o Espírito toma o de um homem que conhecestes e a quem respeitais’.

4ª O uso desse nome não pode ser considerado uma fraude?

‘Seria uma fraude da parte de um Espírito mau que quisesse enganar, mas, quando é para o bem, Deus permite que assim procedam os Espíritos da mesma categoria, porque há entre eles solidariedade e analogia de pensamentos’.

5ª Assim, quando um Espírito protetor diz ser São Paulo, por exemplo, não é certo que seja o Espírito mesmo, ou a alma, do apóstolo que teve esse nome?

‘Exatamente, porquanto há milhares de pessoas às quais foi dito que têm por anjo guardião Paulo, ou qualquer outro. Mas que vos importa isso, desde que o Espírito que vos protege é tão elevado quanto São Paulo? Eu já o disse: como precisais de um nome, eles tomam um para que os possais chamar e reconhecer, do mesmo modo que tomais os nomes de batismo para vos distinguirdes dos outros membros da vossa família. Podem, pois, tomar igualmente os dos arcanjos Rafael, Miguel etc., sem que daí nada de mais resulte’.

‘Acresce que, quanto mais elevado é um Espírito, tanto mais dilatada é a sua irradiação. Segue-se, portanto, que um Espírito protetor de ordem muito elevada pode ter sob a sua tutela centenas de encarnados. Entre vós, na Terra, há notários que se encarregam dos negócios de cem e duzentas famílias; por que haveríeis de supor que menos aptos fôssemos nós, espiritualmente falando, para a direção moral dos homens, do que aqueles o são para a direção material de seus interesses?’

6ª Por que é que os Espíritos que se comunicam tomam frequentemente nomes de santos?

‘Identificam-se com os hábitos daqueles a quem falam e adotam os nomes mais apropriados a causar forte impressão nos homens por efeito de suas crenças’.

7ª Quando evocados, os Espíritos superiores vêm sempre em pessoa ou, como alguns o supõem, se fazem representar por mandatários incumbidos de lhes transmitir os pensamentos?

‘Por que não virão em pessoa, se o podem? Se, porém, o Espírito evocado não pode vir, o que se apresenta é forçosamente um mandatário’.

8ª E o mandatário é sempre suficientemente esclarecido para responder como faria o Espírito que o envia?

‘Os Espíritos superiores sabem a quem confiam o encargo de os substituir. Além disso, quanto mais elevados são os Espíritos, mais se confundem pela comunhão dos pensamentos, de tal sorte que, para eles, a personalidade é coisa indiferente, como o deve ser também para vós. Julgais, então, que no mundo dos Espíritos superiores não haja senão os que conhecestes na Terra, como capazes de vos instruírem? De tal modo sois propensos a considerar-vos como os tipos do universo, que sempre supondes nada mais haver fora do vosso mundo. Em verdade vos assemelhais a esses selvagens que, nunca tendo saído da ilha em que habitam, creem que o mundo não vai além dela’.

9ª Compreendemos que seja assim, quando se trate de um ensino sério; mas como permitem os Espíritos superiores que outros, de baixo escalão, adotem nomes respeitáveis, para induzirem os homens em erro, por meio de máximas não raro perversas?

‘Não é com a permissão dos primeiros que estes o fazem. O mesmo não se dá entre vós? Os que desse modo enganam os homens serão punidos, ficai certos, e a punição deles será proporcionada à gravidade da impostura. Ademais, se não fôsseis imperfeitos, não teríeis em torno de vós senão bons Espíritos; se sois enganados, só de vós mesmos vos deveis queixar. Deus permite que assim aconteça, para experimentar a vossa perseverança e o vosso discernimento e para vos ensinar a distinguir a verdade do erro. Se não o fazeis, é que não estais bastante elevados e precisais ainda das lições da experiência’.

10ª Não sucede que os Espíritos pouco adiantados, porém, animados de boas intenções e do desejo de progredir, se veem designados às vezes para substituir um Espírito superior, a fim de que tenham o ensejo de se exercitarem no ensinar aos seus irmãos?

‘Nunca, nos grandes centros; quero dizer, nos centros sérios e quando se trate de ministrar um ensinamento geral. Os que aí se apresentam o fazem por sua própria conta, para, como dizeis, se exercitarem. Por isso é que suas comunicações, ainda que boas, trazem o cunho da inferioridade deles. Delegados só o são para as comunicações pouco importantes e para as que se podem chamar pessoais’.

11ª Nota-se que, às vezes, as comunicações espíritas ridículas se mostram entremeadas de excelentes máximas. Como explicar esta anomalia, que parece indicar a presença simultânea de bons e maus Espíritos?

‘Os Espíritos maus, ou levianos, também se metem a enunciar sentenças, sem lhes perceberem bem o alcance ou a significação. Entre vós, serão homens superiores todos os que as enunciam? Não; os bons e os maus Espíritos não andam juntos; pela uniformidade constante das boas comunicações é que reconhecereis a presença dos bons Espíritos’.

12ª Os Espíritos que nos induzem em erro procedem sempre cientes do que fazem?

‘Não; há Espíritos bons, mas ignorantes e que podem enganar-se de boa-fé. Desde que tenham consciência da sua ignorância, convêm nisso e só dizem o que sabem’.

13ª O Espírito que dá uma comunicação falsa sempre o faz com intenção maléfica?

‘Não; se é um Espírito leviano, diverte-se em mistificar, sem outro intuito’.

14ª Podendo alguns Espíritos enganar pela linguagem de que usam, segue-se que também podem, aos olhos de um médium vidente, tomar uma falsa aparência?

‘Isso se dá, porém, mais dificilmente. Todavia, só se verifica com um fim que os próprios Espíritos maus desconhecem. Eles então servem de instrumentos para uma lição… O médium vidente pode ver Espíritos levianos e mentirosos, como outros os ouvem, ou escrevem sob a influência deles. Podem os Espíritos levianos aproveitar-se dessa disposição para o enganar, por meio de falsas aparências; isso depende das qualidades do Espírito do próprio médium’.

15ª Para não ser enganado, basta que alguém esteja animado de boas intenções? E os homens sérios, que não mesclam de vã curiosidade seus estudos, também se acham sujeitos a ser enganados?

‘Evidentemente, menos do que os outros, mas o homem tem sempre alguns pontos fracos que atraem os Espíritos zombeteiros. Ele se julga forte e muitas vezes não o é. Deve, pois, desconfiar sempre da fraqueza que nasce do orgulho e dos preconceitos. Ninguém leva bastante em conta estas duas causas de queda, de que se aproveitam os Espíritos que, lisonjeando as manias, têm a certeza do bom êxito’.

16ª Por que permite Deus que maus Espíritos se comuniquem e digam coisas ruins?

‘Ainda mesmo no que haja de pior, um ensinamento sempre se colhe. Toca-vos saber colhê-lo. Mister se faz que haja comunicações de todas as espécies, para que aprendais a distinguir os bons Espíritos dos maus e para que vos sirvam de espelho a vós mesmos’.

17ª Podem os Espíritos, por meio de comunicações escritas, inspirar desconfianças infundadas contra certas pessoas e causar dissídios entre amigos?

‘Espíritos perversos e invejosos podem fazer, no terreno do mal, o que fazem os homens. Por isso é que estes devem estar em guarda. Os Espíritos superiores são sempre prudentes e reservados, quando têm de censurar; nada de mal dizem: advertem cautelosamente. Se querem que, no interesse delas, duas pessoas deixem de ver-se, darão causa a incidentes que as separarão de modo todo natural. Uma linguagem própria a semear a discórdia e a desconfiança é sempre obra de um mau Espírito, qualquer que seja o nome com que se adorne. Assim, pois, usai de muita circunspecção no acolher o que de mal possa um Espírito dizer de um de vós, sobretudo quando um bom Espírito vos tenha falado bem da mesma pessoa, e desconfiai também de vós mesmos e das vossas próprias prevenções. Das comunicações dos Espíritos, guardai apenas o que haja de belo, de grande, de racional, e o que a vossa consciência aprove’.

18ª Pela facilidade com que os maus Espíritos se intrometem nas comunicações, parece legítimo concluir-se que nunca estaremos certos de ter a verdade?

‘Não é assim, pois que tendes um juízo para as apreciar. Pela leitura de uma carta, sabeis perfeitamente reconhecer se foi um tipo sem educação ou um homem bem-educado, um néscio ou um sábio que a escreveu; por que não podereis conseguir isso, quando são os Espíritos que vos escrevem? Ao receberdes uma carta de um amigo ausente, que é o que vos assegura que ela provém dele? A caligrafia, direis; mas não há falsários que imitam todas as caligrafias; tratantes que podem conhecer os vossos negócios? Entretanto, há sinais que não vos permitirão qualquer equívoco. O mesmo sucede com relação aos Espíritos. Figurai, pois, que é um amigo quem vos escreve ou que ledes a obra de um escritor, e julgai pelos mesmos processos’.

19ª Poderiam os Espíritos superiores impedir que os maus Espíritos tomassem falsos nomes?

‘Certamente que o podem; porém, quanto piores são os Espíritos, mais obstinados se mostram e muitas vezes resistem a todas as injunções. Também é preciso saibais que há pessoas pelas quais os Espíritos superiores se interessam mais do que outras e, quando eles julgam conveniente, as preservam dos ataques da mentira. Contra essas pessoas os Espíritos enganadores nada podem’.

20ª Qual o motivo de semelhante parcialidade?

‘Não há parcialidade, há justiça. Os bons Espíritos se interessam pelos que usam criteriosamente da faculdade de discernir e trabalham seriamente por melhorar-se. Dão a esses suas preferências e os secundam; pouco, porém, se incomodam com aqueles junto dos quais perdem o tempo em belas palavras’.

21ª Por que permite Deus que os Espíritos cometam o sacrilégio de usar falsamente de nomes venerados?

‘Poderias também perguntar por que permite Deus que os homens mintam e blasfemem. Os Espíritos, assim como os homens, têm o seu livre-arbítrio para o bem, tanto quanto para o mal; porém, nem a uns nem a outros a Justiça de Deus deixará de atingir’.

22ª Haverá fórmulas eficazes para expulsar os Espíritos enganadores?

‘Fórmula é matéria; muito mais vale um bom pensamento dirigido a Deus’.

23ª Dizem alguns Espíritos disporem de sinais gráficos inimitáveis, espécies de emblemas, pelos quais podem ser conhecidos e comprovarem a sua identidade; é verdade?

‘Os Espíritos superiores nenhum outro sinal têm para se fazerem reconhecer além da superioridade das suas ideias e de sua linguagem. Qualquer Espírito pode imitar um sinal material. Quanto aos Espíritos inferiores, esses se traem de tantos modos que fora preciso ser cego para deixar-se iludir’.

24ª Não podem também os Espíritos enganadores contrafazer o pensamento?

‘Contrafazem o pensamento, como os cenógrafos contrafazem a natureza’.

25ª Parece assim fácil sempre descobrir-se a fraude por meio de um estudo atento?

‘Não o duvides. Os Espíritos só enganam os que se deixam enganar. Mas é preciso ter olhos de mercador de diamantes, para distinguir a pedra verdadeira da falsa. Ora, aquele que não sabe distinguir a pedra fina da falsa se dirige ao lapidário’.

26ª Há pessoas que se deixam seduzir por uma linguagem enfática, que apreciam mais as palavras do que as ideias, que mesmo tomam ideias falsas e vulgares por sublimes. Como podem essas pessoas, que não estão aptas a julgar as obras dos homens, julgar as dos Espíritos?

‘Quando essas pessoas são bastante modestas para reconhecer a sua incapacidade, não se fiam de si mesmas; quando por orgulho se julgam mais capazes do que o são, trazem consigo a pena da vaidade tola que alimentam. Os Espíritos enganadores sabem perfeitamente a quem se dirigem. Há pessoas simples e pouco instruídas mais difíceis de enganar do que outras, que têm finura e saber. Lisonjeando-lhes as paixões, fazem eles do homem o que querem’.

27ª Na escrita, dar-se-á que os maus Espíritos algumas vezes se traiam por sinais materiais involuntários?

‘Os hábeis, não; os desazados se desencaminham. Todo sinal inútil e pueril é indício certo de inferioridade. Coisa alguma inútil fazem os Espíritos elevados’.

28ª Muitos médiuns reconhecem os bons e os maus Espíritos pela impressão agradável ou penosa que experimentam à aproximação deles. Perguntamos se a impressão desagradável, a agitação convulsiva, o mal-estar são sempre indícios da má natureza dos Espíritos que se manifestam.

‘O médium experimenta as sensações do estado em que se encontra o Espírito que dele se aproxima. Quando ditoso, o Espírito é tranquilo, leve, refletido; quando infeliz, é agitado, febril, e essa agitação se transmite naturalmente ao sistema nervoso do médium. Em suma, dá-se o que se dá com o homem na Terra: o bom é calmo, tranquilo; o mau está constantemente agitado’.

Nota. Há médiuns de maior ou menor impressionabilidade nervosa, pelo que a agitação não se pode considerar como regra absoluta. Aqui, como em tudo, devem ter-se em conta as circunstâncias. O caráter penoso e desagradável da impressão é um efeito de contraste, porquanto, se o Espírito do médium simpatiza com o mau Espírito que se manifesta, nada ou muito pouco a proximidade deste o afetará. Todavia, é preciso se não confunda a rapidez da escrita, que deriva da extrema flexibilidade de certos médiuns, com a agitação convulsiva que os médiuns mais lentos podem experimentar ao contato dos Espíritos imperfeitos”.

Bibliografia:

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Médiuns. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

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