A vida tem sentido

Muitos encontram sentidos em suas vidas apoiados em variados objetivos, diferentes metas e inúmeros motivos, podendo ser em função de profissão, poder, glória, status, dinheiro, riqueza, prazer, pessoas, coisas materiais ou imateriais, entre outros.

Contudo, diante dos sofrimentos e das dores que perturbam as estruturas física e mental, questionam qual seria o sentido de suas vidas.

Sem respostas, alguns não veem sentidos para suas vidas e, não raro, perguntam-se o porquê de tanto sofrimento e tanta dor, deparando-se com um vazio existencial que levam a grandes quedas.

A Doutrina Espírita traz luz a questões existenciais à medida que esclarece sobre: Deus, sua Natureza, seus atributos e sua ação providencial; a criação do Universo, as leis e os princípios que o regem; o bem e o mal; a criação, a imortalidade e a progressão dos Espíritos; a crença na vida futura; a lei de causa e efeito; a lei do progresso; a lei do amor; a lei do trabalho; o objetivo da reencarnação; a pluralidade de existências; a compreensão dos sofrimentos e das dores; e a busca da perfeição relativa à Humanidade, tendo Jesus como modelo e guia: o caminho, a verdade e a fonte de vida eterna em direção ao Pai.

O Espírito Joanna de Ângelis, no livro “Amor imbatível amor”, na psicografia de Divaldo Pereira Franco, ensina: “Existir significa ter vida, fazer parte do Universo, contribuir para a harmonia do Cosmos. A existência humana é uma síntese de múltiplas experiências evolutivas, trabalhadas pelo tempo através de automatismos que se transformam em instintos e se transmudam nas elevadas expressões do sentimento e da razão. À medida que os automatismos biológicos se convertem em impulsos dirigidos — ressalvados alguns que permanecerão sem a contribuição da consciência — o ser psicológico passa a sobressair, conduzindo, de início, a carga dos atavismos que deverão ser remanejados, diluindo aqueles de natureza perturbadora e aprimorando aqueloutros que se transformarão em fontes de alegria, de prazer e de paz…”

Em “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, pela resposta à questão 115, sabemos que: “Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes, isto é, sem saber. A cada um deu determinada missão, com o fim de esclarecê-los e de os fazer chegar progressivamente à perfeição, pelo conhecimento da verdade, para aproximá-los de si. Nesta perfeição é que eles encontram a pura e eterna felicidade. Passando pelas provas que Deus lhes impõe é que os Espíritos adquirem aquele conhecimento. Uns aceitam submissos essas provas e chegam mais depressa à meta que lhes foi assinada. Outros, só a suportam murmurando e, pela falta em que desse modo incorrem, permanecem afastados da perfeição e da prometida felicidade.”

As provas impostas aos Espíritos pelas leis divinas são como uma avaliação de merecimento por suas obras que, ao final de cada existência, precisam ser superadas com resignação para adquirir os conhecimentos evolutivos necessários para o acúmulo de experiências que nos impulsionarão na busca da perfeição. Conforme forem cumpridas essas provas, aceleramos ou estacionamos o nosso progresso.

Os Espíritos não podem se isentar das provas que lhes cumpre sofrer, porquanto, se assim fosse, que mérito teriam para gozar dos benefícios da perfeição. As provas são necessárias e impostas por Deus na busca da perfeição em pluralidade de existências, ou seja, cada situação da nossa vida pode ser entendida como uma prova para dar mais um passo em direção à evolução.

As expiações estão relacionadas às faltas cometidas, consistindo nas tribulações que sofremos. “Todas as penas e tribulações da vida são expiação das faltas de outra existência, quando não a consequência das da vida atual” (questão 983, em “O Livro dos Espíritos). “As vicissitudes da vida corpórea constituem expiação das faltas do passado e, simultaneamente, provas com relação ao futuro. Depuram-nos e elevam-nos, se as suportamos resignados e sem murmurar” (questão 339, em “O Livro dos Espíritos).

Por conseguinte, Espíritos que somos, do momento da criação divina, simples e ignorante, iniciamos o processo evolutivo em pluralidade de existências na busca da perfeição, passando pelas inúmeras provas e expiações, cujas experiências trabalhadas e superadas pelo tempo necessário diante da eternidade, os seres humanos vão transformando-se e renovando-se intelectual, moral e espiritualmente, com a eliminação das impurezas da alma.

O Espírito Manoel Philomeno de Miranda, no livro “Transição Planetária”, elucida: “Mediante as reencarnações, etapa a etapa, dá-se-lhe o processo de eliminação das imperfeições morais, que se transforma em valores relevantes, impulsionando-o na direção da plenitude que lhe é destinada. Errando e corrigindo-se, realizando tentativas de progresso e caindo, para logo levantar-se, esse é o método de desenvolvimento que a todos propele na direção da sua felicidade plena. (…) A existência no corpo físico é uma oportunidade de aprendizado que a vida concede ao ser espiritual no seu processo de crescimento interior, facultando-lhe os recursos apropriados para que a divina chama que existe em todos alcance a plenitude. De acordo com a maneira como cada um se comporte no mister, estará semeando as ocorrências do futuro, que terá de enfrentar, a fim de recompor-se e corrigir o que foi danificado. Cada reencarnação é sublime concessão divina para a construção ditosa da imortalidade pessoal. Escola abençoada, a Terra é o reduto formoso no qual todos nos aperfeiçoamos, retirando a ganga pesada do primarismo, que impede o brilho do diamante estelar do Espírito que somos. Os golpes do processo evolutivo encarregam-se de liberar-nos, permitindo que as facetas lapidadas pela dor e buriladas pelo amor reflitam as belezas siderais”.

Assim, no contexto do Universo, a nossa existência contribui para a harmonia do Cosmos no sentido de cocriação, em plano menor, pelo poder que todos temos, segundo a lei universal, à semelhança das inteligências maiores para cocriar, moldando ou plasmando mundos e moradas, de encarnados e desencarnados, que poderão ser habitações de luz, transformando todo mal de nossa autoria no bem que edifica pelo eterno princípio do amor divino, ou habitações de sombra, geradas por mentes desequilibradas ou criminosas mergulhadas na purgação infernal.

Quando o Espírito progride de sua animalidade para um estágio de humanidade mais adiantado, Joanna de Ângelis registra: “Somente então, surgem as interrogações que fazem parte da busca do sentido existencial: a) para que viver? b) por que lutar? c) como desenvolver essa capacidade de perseverar até alcançar a meta?”.

Joanna de Ângelis continua: “A vida é inerente a tudo, e tentar explicar-lhe a causa, o motivo do primeiro movimento que lhe deu origem, é perder-se em elucubrações filosóficas e religiosas desnecessárias. Aceitar-lhe a realidade sem discussão, que se apresenta como fuga psicológica para o seu enfrentamento, é o primeiro passo.

Vive-se, e isso é incontestável. Negá-lo, significa anular-se, anestesiar a capacidade de pensar.

Viver da melhor forma possível é o desafio imediato. Viver bem — desfrutando dos recursos que a Natureza e a inteligência proporcionam — para bem viver — realizações internas com o desenvolvimento ético adequado, que proporcionam bem-estar interior —, eis a razão por que lutar.

Tal conquista sempre se consegue mediante o esforço da não aceitação comodista, partindo-se para a luta de crescimento pessoal e de transformação ambiental, que facultam a existência feliz.

O próprio esforço, na mínima realização vitoriosa, contribui para o favorecimento da capacidade de se prosseguir conquistando as metas que, ao serem alcançadas, oferecem outras novas, que podem proporcionar melhores condições de plenitude e de integração na Consciência Cósmica.

Cada etapa vencida, portanto, mais capacita o ser para as porvindouras que lhe cumpre conquistar. Experimentada uma vitória, surgem motivações especiais para o prosseguimento das lutas que acenam conquistas mais significativas, particularmente no íntimo, quando o ser psicológico desabrocha e predomina sobre o conjunto fisiológico”.  (Espírito Joanna de Ângelis, na psicografia de Divaldo Pereira Franco. Amor imbatível amor. Editora Leal. Cap. 21)

Ainda no livro “Amor imbatível amor”, Joanna de Ângelis esclarece sobre o vazio existencial:

“Nesse processo de superação do primarismo, quando o Self adquire discernimento, se não houve um amadurecimento paulatino e cuidadoso, ocorrem, segundo Viktor Frankl, em seus estudos e aplicações logoterápicos, dois fenômenos que respondem pelo vazio existencial: a perda de alguns instintos animais, básicos, que lhe davam segurança, e o desaparecimento das tradições que se diluem, e antes eram-lhe paradigmas de equilíbrio.

Diante disso, o indivíduo é obrigado a escolher, com discernimento para eleger, dando surgimento a outro tipo de instinto de sobrevivência para prosseguir lutando. Sem uma decisão clara, torna-se instrumento dos outros, agindo conforme as demais pessoas, em atitude conformista, não reagindo aos impositivos do meio, perdendo-se, sem motivação, ou se deixa conduzir pelos interesses do grupo, atuando conforme o mesmo, que lhe impõe comportamentos agressivos, anulando o seu interesse e alterando o seu campo de ação.

Naturalmente perde o contato com o Self para que sobreviva o ego, e assimilando o que é bem da época, assume os modismos e se despersonaliza.

Nesse vazio que surge, por falta de motivação real para prosseguir, foge para o alcoolismo, para as drogas, para o sexo ou tomba em depressão…

Noutras vezes, para ocultar essa lacuna na emoção — o vazio existencial — refugia-se em comportamentos impróprios, buscando o poder, a glória efêmera através dos quais chama a atenção, torna-se brilhante sob os focos de luz da fama, neurotizando-se.

Dá-se conta de que as complexas engrenagens do poder e da glória continuam permitindo o vazio interior — porque se satura com rapidez das novidades do exterior — percebe também que as compensações do prazer sexual são frustrantes quão ligeiras, produzindo um certo estado de amargura que parece inexplicável.

Mui comumente surgem comentários no grupo social, a respeito de alguém que tem tudo — dinheiro, família, beleza, inteligência, poder — e, no entanto, parece não ser feliz.

Sucede que esse tudo não preenche o vazio, faltando o sentido da vida, seu significado, sua razão de ser.

A tensão de novas buscas e a saturação que decorre do conseguir, resultam em transtorno neurótico.

Com o tempo disponível e falta de objetivo, a única saída emocional é o mergulho na depressão. Essa ocorrência é comum nas pessoas atuantes que param de agir abruptamente, por enfermidades, por aposentadoria, pelos feriados e períodos de férias, que lhes abrem as feridas existenciais do vazio.

A psicoterapia unida à logoterapia amenizam a situação, propondo um sentido natural à existência, objetivos duradouros, que exigem esforço, embora sejam compreensíveis as recaídas até a fixação dos novos valores”.  (Espírito Joanna de Ângelis, na psicografia de Divaldo Pereira Franco. Amor imbatível amor. Editora Leal. Cap. 22)

Joanna de Ângelis, acerca da necessidade de objetivo na vida, ensina:

“A busca de um sentido existencial por parte do ser humano constitui-lhe uma força inata impulsionadora para o seu progresso. Ao identificá-lo, torna-se-lhe o objetivo básico a ser conquistado, empenhando todos os recursos para a consecução da meta.

Graças a isso, que podem ser os seus ideais, as suas necessidades, as suas ambições, oferece a vida e não teme a morte, conseguindo, inclusive, permanecer sob as mais miseráveis e inumanas condições, desde que essa chama permaneça acesa interiormente.

Trata-se de um sentido pessoal que ninguém pode oferecer, e que é particular a cada qual. Torna-se, de futuro, um ideal de grupo, em razão de constituir interesse coletivo, porém a sua origem se encontra no nível de consciência e de pensamento individual, que elegem o que fazer e como fazê-lo. Não pode ser elegido por outrem ou brindado, senão conseguido pelo próprio ser.

Possivelmente será proposto quando se é despertado para o interesse, chamando-lhe a atenção, mas a sua eleição é pessoal.

Jesus, ante a transitoriedade dos valores terrestres e a fugacidade do corpo, propôs a busca do reino de Deus e sua justiça, elucidando que, após esta primazia tudo mais será acrescentado. Isto é, estabelecendo o mais importante — o sentido, o objetivo existencial — as demais aspirações se tornam secundárias e chegarão naturalmente.

Esse reino de Deus encontra-se na consciência tranquila, que resulta do dever retamente cumprido, dos compromissos bem conduzidos, dos objetivos delineados com acerto. Graças a essa diretriz, a aquisição dos recursos faz-se com naturalidade, como um acréscimo, que é a consequência básica.

Todos necessitam de um algo para motivar-se, para viver.

Essa busca de significado, de objetivo ou sentido não pode ser resultado de uma fé ancestral, isto é, de uma crença destituída de fatos, que se dilui ante dificuldades, principalmente os conflitos internos, mas da luz da razão que se transforma em vontade de conseguir uma vida mais expressiva, mais rica de conteúdo, de aspirações profundas e autênticas.

Um afeto familiar, um ideal em desenvolvimento, o lar, uma atividade dignificadora, o retorno a um serviço interrompido tornam-se, entre muitos outros, objetivos que dão sentido à vida, favorecendo meios para se lutar. (…)

Quando se tem o porquê viver, a forma de como viver até lograr o objetivo torna-se secundária. Esse impulso primário no ser, faz que supere os obstáculos e impedimentos com o pensamento no que conseguirá. (…)

Somos de parecer que o sentido, o objetivo, o essencial, é a autossuperação das paixões, a auto iluminação para bem discernir o que se deve e se pode fazer, para harmonizar-se em si mesmo, em relação ao seu próximo e ao grupo social no qual se encontra, bem como à Vida, à Natureza, Deus…

Os princípios morais — alguns inatos ao ser humano — são indispensáveis. Não porém as imposições morais-sociais, geográficas, estabelecidas legalmente e logo desacreditadas. Mas aqueles que são inerentes, derivados do mais profundo e básico, que é o amor. Respeitar a vida, amando-a; fomentar o progresso, trabalhando; construir a felicidade, perseverando; não fazer a outrem o que não deseja que o mesmo lhe faça, eliminam a possibilidade de consciência de culpa, de conflito, e dão-lhe um padrão para o comportamento equilibrado, uma diretriz para a conduta sadia.

O ser atua moralmente, porque sente o impulso interno da vida que se submete às Leis que a regem.

Essa força interior que o leva à prática dos atos corretos, o Bem, no início, é metafísica, pois procede do Psiquismo Causal, para depois tornar-se uma necessidade transformada em ações, portanto nos fatos que lhe confirmam a excelência.

Quando escasseiam esses princípios na mente e na emoção, o indivíduo, desestruturado, enferma e a mais eficaz solução é o amorterapia, impulsionando-o a permitir que desabrochem os sentimentos de fraternidade, de solidariedade, de perdão, de auto entrega, assim aparecendo significados para continuar-se a viver. (…)”. (Espírito Joanna de Ângelis, na psicografia de Divaldo Pereira Franco. Amor imbatível amor. Editora Leal. Cap. 23)

A dor, assim como o sofrimento, tem a sua razão de ser. Nas trajetórias evolutivas, “tudo o que vive neste mundo, natureza, animal, homem, sofre e, todavia, o amor é a lei do universo e por amor foi que Deus formou os seres. (…) A dor segue todos os nossos passos; espreita-nos em todas as voltas do caminho” (León Denis, pg. 347).

“Fundamentalmente, a dor é uma lei de equilíbrio e educação. Sem dúvida, as falhas do passado recaem sobre nós com todo o seu peso e determinam as condições de nosso destino. O sofrimento, muitas vezes, não é mais do que a repercussão das violações da ordem eterna cometidas; mas, sendo partilha de todos, deve ser considerado como necessidade de ordem geral, como agente de desenvolvimento, condição do progresso. Todos os seres têm de, por sua vez, passar por ele. Sua ação é benfazeja para quem sabe compreendê-lo; mas, somente podem compreendê-lo aqueles que lhe sentiram os poderosos efeitos” (León Denis, págs. 347 e 348).

“A dor e o prazer são as duas formas extremas da sensação. Para suprimir uma ou outra seria preciso suprimir a sensibilidade. São, pois, inseparáveis, em princípio, e ambos necessários à educação do ser, que, em sua evolução, deve experimentar todas as formas ilimitadas, tanto do prazer como da dor” (León Denis, pg. 348).

Dessa maneira, a dor e o prazer são meios de educar e agentes de progresso, em que as causas dos sofrimentos atuais se encontram nas violações do passado, anteriores aos efeitos, determinando as condições do destino de cada ser. Os benefícios da dor e do sofrimento alcançam aqueles que souberam compreender as suas ações e os seus efeitos: “A tristeza e o sofrimento fazem-nos ver, ouvir, sentir mil coisas, delicadas ou fortes, que o homem feliz ou o homem vulgar não podem perceber” (León Denis, pg. 349).

A alma deve conquistar todos os elementos e atributos para se libertar dos sentimentos inferiores, renovar a sua morada e alcançar a verdadeira felicidade, mas para isso precisa dos obstáculos, das exigências e das duras lições que provocam os esforços e formam a experiência necessária para atingir a meta evolutiva.

Nos estágios inferiores da vida, há que se passar pelas provações e expiações da luta do bem contra o mal dentro do próprio íntimo, para se adquirir a conscientização necessária para o pleno exercício do livre-arbítrio e tornar possível o triunfo futuro.

Joanna de Ângelis ensina sobre os significados do amor e do sofrimento na vida:

“Para melhor expressar-se, o amor irrompe de formas diferentes, convidando à reflexão em torno dos valores existenciais. Muito do significado que se caracteriza pelo poder — mecanismo dominante da realização do ego — desaparece, quando o amor não está presente, preenchendo o vazio existencial. Essa ânsia de acumular, de dominar, que atormenta enquanto compraz, torna-se uma projeção da insegurança íntima do ser que se mascara de força, escondendo a fragilidade pessoal, em mecanismos escapistas injustificáveis que mais postergam e dificultam a autorrealização.

A perda da tradição é como um puxar do tapete no qual se apoiam os pés de barro do indivíduo que se acreditava como o rei da criação e, subitamente se encontra destituído da força de dominação, ante o desaparecimento de alguns instintos básicos, que vêm sendo substituídos pela razão. O discernimento que conquista é portador de mais vigor do que a brutalidade dos automatismos instintivos, mas somente, a pouco e pouco, é que o inconsciente assimilará essa realidade, que partirá da consciência para os mais recônditos refolhos da psique.

Nesta transformação — a metamorfose que se opera do rastejar no primarismo para a ascese do raciocínio — o sofrimento se manifesta, oferecendo um novo tipo de significado e de propósito para a vida.

Impossível de ser evitado, torna-se imperioso ser compreendido e aceito, porquanto o seu aguilhão produz efeitos correspondentes à forma porque se deva aceitá-lo.

Quando explode, a rebeldia torna-se uma sensação asselvajada, dilaceradora, que mortifica sem submeter, até o momento em que, racionalmente aceito, faz-se instrumento de purificação, estímulo para o progresso, recurso de transformação interior. (…)

O sofrimento, portanto, seja ele qual for, demonstra a transitoriedade de tudo e a respectiva fragilidade de todos os seres e de todas as coisas que os cercam, alterando as expressões existenciais, aprimorando-as e ampliando-lhes as resistências, os valores que se consolidam. Na sua primeira faceta demonstra que tudo passa, inclusive, a sua presença dominante, que cede lugar a outras expressões emocionais, nada perdurando indefinidamente. Na outra vertente, a aquisição da resistência somente é possível mediante o choque, a experiência pela ação.

O ser psicológico sabe dessa realidade. O Self identifica-a, porém o ego a escamoteia, fiel ao atavismo ancestral dos seus instintos básicos.

O sofrimento constitui, desse modo, desafio evolutivo que faz parte da vida, assim como a anomalia da ostra produzindo a pérola. Aceitá-lo com resignação dinâmica, através de análise lúcida, e bem direcioná-lo é proporcionar-se um sentido existencial estimulante, responsável por mais crescimento interior e maior valorização lógica de si mesmo, sem narcisismo nem utopias.

Todos os indivíduos, uma ou mais vezes, são convidados ao enfrentamento, sem enfermidades graves ou irreversíveis, com dramas familiares inabordáveis, com situações pessoais quase insuportáveis, defrontando o sofrimento.

A reação irracional contra a ocorrência piora-a, alucina ou entorpece os centros da razão, enquanto que a compreensão natural, a aceitação tranquila, propiciam a oportunidade de conseguir o valor supremo de oferecer-se para a conquista do sentimento mais profundo da existência.

A morte, a enfermidade, os desastres econômicos, os dramas morais, os insucessos afetuosos, a solidão e tantas outras ocorrências perturbadoras, porque inevitáveis, produzindo sofrimento, devem ser recebidas com disposição ativa de experienciá-las. Para alguns desses acontecimentos palavra alguma pode diluir-lhe os efeitos. Somente a interação moral, a confiança em Deus e em si mesmo para a convivência feliz com os seus resultados.

Esta disposição nasce da maturidade psicológica, do equilíbrio entre compreender, aceitar e vivenciar. Aqueles que não os suportam, entregando-se a lamentações e silícios íntimos, permanecem em estado de infância psicológica, sentindo a falta da mãe superprotetora que os aliviava de tudo, que tudo suportava em vãs tentativas de impedir-lhes a experiência de desenvolvimento evolutivo.

A aceitação, porém, do sofrimento como significado existencial e propósito de vida, não se torna uma cruz masoquista, mas se transforma em asas de libertação do cárcere material para a conquista da plenitude do ser”.  (Espírito Joanna de Ângelis, na psicografia de Divaldo Pereira Franco. Amor imbatível amor. Editora Leal. Cap. 24)

A respeito da relatividade da vida física, Joanna de Ângelis, escreveu:

“Embora a relatividade do ser físico, da existência terrena, o sentido da vida permanece inalterado. Se se depositam no corpo, apenas, todas as aspirações, à medida que ele envelhece, que se lhe diminuem as resistências e possibilidades, claro está que perdem o impacto e o objetivo.

Observando-se, porém, a vida como um todo, não somente como a trajetória fisiológica, tais anseios se realizam a cada instante, arquivando-se no passado, e servem de base para novas buscas e motivações.

Não sendo o corpo mais que uma vestimenta, a sua duração é irrestrita, desgastando-se enquanto vibra, consumindo-se à medida que é utilizado.

As conquistas agradáveis e as derivadas do sofrimento tornam-se parte integrante do seu conteúdo, permanecendo como valores que o enriquecem.

O importante não é o seu tempo de duração, mas a forma como é vivida, experienciada, arquivada cada etapa.

Quando se encontra acumulado, vibra e tem sentido, porquanto pode ser acionado a cada instante, revivido com intensidade quando se queira, repetindo as emoções antes experimentadas.

Não há porque se temer o envelhecimento, invejar a juventude, lamentar o tempo. Esse comportamento viceja nos indivíduos imaturos. O vir-a-acontecer não pode influir mais na conduta, do que o já-acontecido.

Os sofrimentos vivenciados, os sorrisos externados, os conhecimentos adquiridos, os recursos utilizados são todos um cabedal que não pode ser comparado ou permutado pelas interrogações daquilo que ainda não foi conseguido.

A existência física possibilita a integração do indivíduo com a Natureza, harmonizando-o e promovendo-o para realizar incursões mais audaciosas, quais a superação do ego e o crescimento do Self, assim como a tranquila movimentação na sua realidade de ser imortal. O seu trânsito no corpo constitui-lhe uma etapa valiosa para a recomposição de forças, que se perturbaram, e a aquisição de energias mais sutis que se derivam do eu superior e devem ser canalizadas no rumo da sua supervivência.

Assim não fosse, a consumpção orgânica encerrar-lhe-ia a realidade, apagando as conquistas do pensamento e do amor.

Essas expressões da vida não se comburem jamais, desaparecendo na memória do tempo, extinguindo-se no espaço universal. Permanecem atuantes e realizadoras, vencendo as barreiras vibratórias do corpo e mantendo-se organizadas fora dele, porque são a fonte geradora do existir.

A busca do sentido da vida ultrapassa a manifestação da forma e prossegue em outras dimensões, aformoseando o ser que projeta, sim, a sua realidade para outros cometimentos existenciais futuros, outros desafios humanos, superando-se através das conquistas armazenadas, direcionando-se para a integração na harmonia da Consciência Cósmica, livre de retentivas com a retaguarda, desembaraçado de aflições, porque superadas, e aberto a novas expressões sempre portadoras da peregrina luz da sabedoria”. (Espírito Joanna de Ângelis, na psicografia de Divaldo Pereira Franco. Amor imbatível amor. Editora Leal. Cap. 25)

Então, que vivamos e busquemos um sentido na vida em função do amor divino, como esclarece Léon Denis:

“Princípio da vida universal, proporciona à alma, em suas manifestações mais elevadas e puras, a intensidade de radiação que aquece e vivifica tudo em volta de si; é por ele que ela se sente estreitamente ligada ao poder divino, foco ardente de toda a vida, de todo o amor.

Acima de tudo, Deus é amor. Por amor, criou os seres para associá-los às suas alegrias, à sua obra. O amor é um sacrifício; Deus hauriu nele a vida para dá-la às almas.

Ao mesmo tempo que a efusão vital, elas receberiam o princípio afetivo destinado a germinar e expandir-se pela provação dos séculos, até que tenham aprendido a dar-se por sua vez, isto é, a dedicar-se, a sacrificar-se pelas outras. Com esse sacrifício, em vez de se amesquinharem, mais se engrandecem, enobrecem e aproximam do foco supremo.

O amor é uma força inexaurível, renova-se sem cessar e enriquece ao mesmo tempo aquele que dá e aquele que recebe. É pelo amor, sol das almas, que Deus mais eficazmente atua no mundo. Por ele atrai para si todos os pobres seres retardados nos antros da paixão, os Espíritos cativos na matéria; eleva-os e arrasta-os na espiral da ascensão infinita para os esplendores da luz e da liberdade”. (León Denis. O problema do ser, do destino e da dor)

Joanna de Ângelis, no livro “Garimpo de amor”, na psicografia de Divaldo Pereira Franco, ensina: “Alcança-se a plenitude terrena quando se consegue amar. Amar, sem qualquer condicionamento ou imposição, constitui a meta que todos devem perseguir, a fim de atingir o triunfo existencial. (…) Quando alguém empreende a tarefa de ser aquele que ama, ocorre uma revolução significativa no seu psiquismo, e todo ele se transforma numa chama que ilumina sem consumir-se, numa tranquilidade que não se altera. (…) O amor tudo pode e tudo vence. Não se afadigando mediante a pressa, estende-se ao longo do tempo como hálito de vida que a mantém e brisa cariciosa que a beneficia”.

“O objetivo da evolução, a razão de ser da vida não é a felicidade terrestre, como muitos erradamente creem, mas o aperfeiçoamento de cada um de nós, e esse aperfeiçoamento devemos realizá-lo por meio do trabalho, do esforço, de todas as alternativas da alegria e da dor, até que nos tenhamos desenvolvido completamente e elevado ao estado celeste. (…)

O universo é justiça e amor. Na espiral infinita das ascensões, a soma dos sofrimentos, divina alquimia, converte-se, lá em cima, em ondas de luz e torrentes de felicidade” (Léon Denis, O problema do ser, do destino e da dor.).

Assim sendo, a vida tem sentido sim: diante das provas e expiações de sua existência, viva em função do amor maior, como Jesus amou, na busca da felicidade duradora, que nem a traça e a ferrugem corroem, por isso “buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mateus, 6: 33).

Viva por você mesmo e pelo seu próximo, fazendo a caridade que liberta a alma!

Bibliografia:

ÂNGELIS, Joanna de (Espírito); na psicografia de Divaldo Pereira Franco. Amor imbatível amor.  18ª Edição. Salvador/BA: Editora Leal, 2017.

ÂNGELIS, Joanna de (Espírito); na psicografia de Divaldo Pereira Franco. Garimpo de amor.  6ª Edição. Salvador/BA: Editora Leal, 2015.

DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. 32ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2017.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

LUIZ, André (Espírito); na psicografia de Francisco Cândido Xavier. Evolução em dois mundos. 27ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2018.

MIRANDA, Manoel Philomeno de (Espírito); Divaldo Pereira Franco (psicografado por). Transição Planetária. 5ª Edição. Salvador/BA: Editora Leal, 2017.

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