A piedade precursora da caridade

Selecionamos alguns textos da literatura espírita para as nossas reflexões sobre a temática piedade, focando: a piedade precursora da caridade; a piedade filial; a piedade fraternal; e a piedade com contentamento.

Antes, porém, apresentaremos algumas considerações preliminares para facilitar os entendimentos e colher os ensinamentos necessários.

A piedade caracteriza-se por um sentimento de compaixão e de misericórdia diante dos sofrimentos alheios, podendo se manifestar de diferentes formas, desde a precursora da caridade, que nos aproxima dos anjos, auxiliando a enfrentar e superar as provas e expiações da vida, assim como a julgadora, condenatória e mentirosa, que nos tornam inoperantes em face das aflições alheias.

A piedade impulsiona a caridade quando desperta o sentimento de compaixão e de misericórdia no sentido de movimentar o amor ao próximo, o amor em ação, para ajudar, consolar e levantar o nosso semelhante a seguir em frente, independentemente de suas faltas, de seus erros ou equívocos existenciais.

Nesse contexto, as pessoas aflitas e sofredoras não cruzam os nossos caminhos por acaso, pois alguma razão haverá para estimular as nossas reações de benevolência e caridade às circunstâncias impostas pelos fatos.

A piedade precursora da caridade depara-se com os infortúnios dos corações aflitos dos nossos semelhantes, motivando-nos a afastar o egoísmo, o orgulho e a indiferença para agir com a caridade que salva, libertando a alma dos sentimentos inferiores que atrasam a nossa evolução moral e espiritual.

Pela lei de ação e reação, tudo aquilo que fazemos voltará para nós mesmos, este é um dos motivos para que tenhamos piedade para com os nossos semelhantes, já que, muitas vezes, necessitamos dessa mesma piedade.

Achamos que somente Deus e os outros devem ter piedade para conosco, mas nós não temos a mesma obrigação de ser piedosos para com o próximo. Não raro, em nossas orações, pedimos piedade e misericórdia a Deus, mas, no cotidiano, agimos pelo egoísmo, pelo orgulho e pela indiferença diante dos sofrimentos dos nossos irmãos que precisam de ajuda.

A piedade que nos aproxima dos anjos é a que conduz à caridade incondicional, sem julgar e condenar os que precisam de consolo, como disse Jesus: “Não necessitam de médico os sãos, mas, sim, os doentes” (Mateus, 9: 12).

O Espírito Miguel, em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, no Capítulo XIII, em “Instruções dos Espíritos”, discorre sobre “A piedade”:

“A piedade é a virtude que mais vos aproxima dos anjos; é a irmã da caridade, que vos conduz a Deus. Ah! deixai que o vosso coração se enterneça ante o espetáculo das misérias e dos sofrimentos dos vossos semelhantes. Vossas lágrimas são um bálsamo que lhes derramais nas feridas e, quando, por bondosa simpatia, chegais a lhes proporcionar a esperança e a resignação, que encanto não experimentais! Tem um certo amargor, é certo, esse encanto, porque nasce ao lado da desgraça; mas não tendo o sabor acre dos gozos mundanos, também não traz as pungentes decepções do vazio que estes últimos deixam após si. Envolve-o penetrante suavidade que enche de júbilo a alma. A piedade, a piedade bem sentida é amor; amor é devotamento; devotamento é o olvido de si mesmo e esse olvido, essa abnegação em favor dos desgraçados, é a virtude por excelência, a que em toda a sua vida praticou o divino Messias e ensinou na sua doutrina tão santa e tão sublime.

Quando esta doutrina for restabelecida na sua pureza primitiva, quando todos os povos se lhe submeterem, ela tornará feliz a Terra, fazendo que reinem aí a concórdia, a paz e o amor.

O sentimento mais apropriado a fazer que progridais, domando em vós o egoísmo e o orgulho, aquele que dispõe vossa alma à humildade, à beneficência e ao amor do próximo, é a piedade! piedade que vos comove até as entranhas à vista dos sofrimentos de vossos irmãos, que vos impele a lhes estender a mão para socorrê-los e vos arranca lágrimas de simpatia. Nunca, portanto, abafeis nos vossos corações essas emoções celestes; não procedais como esses egoístas endurecidos que se afastam dos aflitos, porque o espetáculo de suas misérias lhes perturbaria por instantes a existência álacre. Temei conservar-vos indiferentes, quando puderdes ser úteis. A tranquilidade comprada à custa de uma indiferença culposa é a tranquilidade do Mar Morto, no fundo de cujas águas se escondem a vasa fétida e a corrupção.

Quão longe, no entanto, se acha a piedade de causar o distúrbio e o aborrecimento de que se arreceia o egoísta! Sem dúvida, ao contato da desgraça de outrem, a alma, voltando-se para si mesma, experimenta um confrangimento natural e profundo, que põe em vibração todo o ser e o abala penosamente. Grande, porém, é a compensação, quando chegais a dar coragem e esperança a um irmão infeliz que se enternece ao aperto de uma mão amiga e cujo olhar, úmido, por vezes, de emoção e de reconhecimento, para vós se dirige docemente, antes de se fixar no Céu em agradecimento por lhe ter enviado um consolador, um amparo. A piedade é o melancólico, mas celeste precursor da caridade, primeira das virtudes que a tem por irmã e cujos benefícios ela prepara e enobrece. – Miguel. (Bordeaux, 1862.)” (O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo XIII; Instruções dos Espíritos)

Allan Kardec, em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, no Capítulo XIV, em “Piedade filial”, esclarece:

“3. O mandamento: ‘Honrai a vosso pai e a vossa mãe’ é um corolário da lei geral de caridade e de amor ao próximo, visto que não pode amar o seu próximo aquele que não ama a seu pai e a sua mãe; mas o termo honrai encerra um dever a mais para com eles: o da piedade filial. Quis Deus mostrar por essa forma que ao amor se devem juntar o respeito, as atenções, a submissão e a condescendência, o que envolve a obrigação de cumprir-se para com eles, de modo ainda mais rigoroso, tudo o que a caridade ordena relativamente ao próximo em geral. Esse dever se estende naturalmente às pessoas que fazem as vezes de pai e de mãe, as quais tanto maior mérito têm, quanto menos obrigatório é para elas o devotamento. Deus pune sempre com rigor toda violação desse mandamento.

Honrar a seu pai e a sua mãe não consiste apenas em respeitá-los; é também assisti-los na necessidade; é proporcionar-lhes repouso na velhice; é cercá-los de cuidados como eles fizeram conosco na infância.

Sobretudo para com os pais sem recursos é que se demonstra a verdadeira piedade filial. Obedecem a esse mandamento os que julgam fazer grande coisa porque dão a seus pais o estritamente necessário para não morrerem de fome, enquanto eles de nada se privam, atirando-os para os cômodos mais ínfimos da casa, apenas por não os deixar na rua, reservando para si o que há de melhor, de mais confortável? Ainda bem quando não o fazem de má vontade e não os obrigam a comprar caro o que lhes resta a viver, descarregando sobre eles o peso do governo da casa! Será então aos pais velhos e fracos que cabe servir a filhos jovens e fortes? Ter-lhes-á a mãe vendido o leite quando os amamentava? Contou porventura suas vigílias, quando eles estavam doentes, os passos que deram para lhes obter o de que necessitavam? Não, os filhos não devem a seus pais pobres só o estritamente necessário, devem-lhes também, na medida do que puderem, os pequenos nadas supérfluos, as solicitudes, os cuidados amáveis, que são apenas o juro do que receberam, o pagamento de uma dívida sagrada. Unicamente essa é a piedade filial grata a Deus.

Ai, pois, daquele que olvida o que deve aos que o ampararam em sua fraqueza, que com a vida material lhe deram a vida moral, que muitas vezes se impuseram duras privações para lhe garantir o bem-estar. Ai do ingrato: será punido com a ingratidão e o abandono; será ferido nas suas mais caras afeições, algumas vezes já na existência atual, mas com certeza noutra, em que sofrerá o que houver feito aos outros.

Alguns pais, é certo, descuram de seus deveres e não são para os filhos o que deviam ser; mas a Deus é que compete puni-los e não a seus filhos. Não compete a estes censurá-los, porque talvez hajam merecido que aqueles fossem quais se mostram. Se a lei da caridade manda se pague o mal com o bem, se seja indulgente para as imperfeições de outrem, se não diga mal do próximo, se lhe esqueçam e perdoem os agravos, se ame até os inimigos, quão maiores não hão de ser essas obrigações, tratando-se de filhos para com os pais! Devem, pois, os filhos tomar como regra de conduta para com seus pais todos os preceitos de Jesus concernentes ao próximo e ter presente que todo procedimento censurável, com relação aos estranhos, ainda mais censurável se torna relativamente aos pais; e que o que talvez não passe de simples falta, no primeiro caso, pode ser considerado um crime, no segundo, porque, aqui, à falta de caridade se junta a ingratidão.

4. Deus disse: “Honrai a vosso pai e a vossa mãe, a fim de viverdes longo tempo na terra que o Senhor vosso Deus vos dará.” Por que promete Ele como recompensa a vida na Terra e não a vida celeste? A explicação se encontra nestas palavras: “que Deus vos dará”, as quais, suprimidas na moderna fórmula do Decálogo, lhe alteram o sentido. Para compreendermos aqueles dizeres, temos de nos reportar à situação e às ideias dos hebreus naquela época. Eles ainda nada sabiam da vida futura, não lhes indo a visão além da vida corpórea. Tinham, pois, de ser impressionados mais pelo que viam, do que pelo que não viam. Fala-lhes Deus então numa linguagem que lhes estava mais ao alcance e, como se se dirigisse a crianças, põe-lhes em perspectiva o que os pode satisfazer. Achavam-se eles ainda no deserto; a terra que Deus lhes dará é a Terra da Promissão, objetivo das suas aspirações. Nada mais desejavam do que isso; Deus lhes diz que viverão nela longo tempo, isto é, que a possuirão por longo tempo, se observarem seus mandamentos.

No entanto, ao verificar-se o advento de Jesus, eles já tinham mais desenvolvidas suas ideias. Chegada a ocasião de receberem alimentação menos grosseira, o mesmo Jesus os inicia na vida espiritual, dizendo: “Meu reino não é deste mundo; lá, e não na Terra, é que recebereis a recompensa das vossas boas obras.” A estas palavras, a Terra Prometida deixa de ser material, transformando-se numa pátria celeste. Por isso, quando os chama à observância daquele mandamento: “Honrai a vosso pai e a vossa mãe”, já não é a Terra que lhes promete, e sim o céu”. (O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo XIV; Honrai a vosso pai e a vossa mãe.)

O Espírito Joanna de Ângelis, na psicografia de Divaldo Pereira Franco, em Florações Evangélicas, no Capítulo 58, ensina sobre “Piedade fraternal”:

“Perfeitamente natural é o sentimento de compaixão pelos que padecem aflições inominadas no carreiro das provações humanas.

A dor, mercadejando os interesses aflitivos, convoca as atenções para as feridas que expõe no corpo dilacerado dos que lhes caem nas malhas, esperando socorro.

Lágrimas copiosas, gritando misericórdia aos ouvidos atentos à musicalidade dos sofrimentos, aguardam o lenço que lhes enxuguem todas as expressões de infortúnio.

Soledade falando baixinho à necessidade de um braço amigo, de uma companhia discreta e de um auxílio, em forma de migalha de entendimento a fim de diminuir o abismo do vazio interior.

Viuvez e orfandade apresentando angústias indescritíveis na expectativa de compreensão, de modo a tornar menos ácido o cálice horrendo de desespero e de mágoa.

*

A piedade fraternal, que é o amor em começo, filha dileta da caridade excelsa, logo descobre como coparticipar de todo esse triste festival de angústias no cenário desolador das dores humanas.

No entanto, mui difícil é a dádiva da piedade fraternal, à presunção, à soberbia.

Pelas características de que se revestem o presunçoso e o soberbo, a ira nos que o cercam é o primeiro sentimento que investe, promovendo reações imediatas às suas atitudes ferinas.

Ao lado do ingrato assinalado pelo esquecimento de todo o bem que recebeu, a atitude próxima é a da revolta que assoma no coração generoso do doador, agora cioso por um pronto desforço.

A agressividade desta ou daquela natureza compõe naturalmente um quadro de reações que o instinto engendra, oscilando entre a perspicácia da contrariedade ao azedume cruel do ódio que conseguem, não poucas vezes, roubar a paz tisnando a lucidez dos que lhe são vítimas indefesas.

Piedade, piedade para os maus, os ingratos, os soberbos, os cruéis porque são possivelmente membros de um organismo social dos mais doentes, porquanto ignoram o câncer que os vítima por dentro, mais próximos do aniquilamento da vaidade do que eles próprios supõem.

O sofrimento resignado nos compunge, a dor discreta nos comove, as lágrimas em silêncio nos chamam à compaixão, mas, é piedade também o ato de paciência ao lado do rebelde, do conduzido pelo corcel fogoso das paixões arbitrárias que nos humilha e nos aguilhoa, zombando muitas vezes do nosso valor, por ignorância total da infelicidade que portam consigo.

A piedade é um sentimento multiface, que todos devemos agasalhar no coração.

Como é verdade que Jesus se compadeceu da pobre mulher surpreendida em adultério, que ignorava a sandice atormentadora e a obsessão de que era objeto, convém não esqueçamos que ante a surra da ingratidão geral que o levou à Cruz, o seu último pensamento e suas últimas palavras foram a rogativa ao Pai para que perdoasse os crucificadores e os traidores, pois que eles não sabiam o que estavam a fazer, ensinando com a eloquência do exemplo a mais sublime página de piedade fraternal, que continua qual luminoso roteiro para o homem através dos tempos sem fim, até o dia em que seja possível a perfeita fraternidade Universal”. (Espírito Joanna de Ângelis. Florações Evangélicas. Cap 58.)

O Espírito Emmanuel, na psicografia de Francisco Cândido Xavier, em Pão Nosso, no Capítulo 107, esclarece sobre “Piedade”:

“Mas é grande ganho a piedade com contentamento. – Paulo. (I Timóteo, 6:6.)

Fala-se muito em piedade na Terra; todavia, quando assinalamos referências a semelhante virtude, dificilmente discernimos entre compaixão e humilhação.

– Ajudo, mas este homem é um viciado.

– Atenderei; entretanto, essa mulher é ignorante e má.

– Penalizo-me; contudo, esse irmão é ingrato e cruel.

– Compadeço-me; todavia, trata-se de pessoa imprestável.

Tais afirmativas são reiteradas a cada passo por lábios que se afirmam cristãos.

Realmente, de maneira geral, só encontramos na Terra essa compaixão de voz macia e mãos espinhosas.

Deita mel e veneno.

Balsamiza feridas e dilacera-as.

Estende os braços e cobra dívidas de reconhecimento.

Socorre e espanca.

Ampara e desestimula.

Oferece boas palavras e lança reptos hostis.

Sacia a fome dos viajores da experiência com pães recheados de fel.

A verdadeira piedade, no entanto, é filha legítima do amor.

Não perde tempo na identificação do mal.

Interessa-se excessivamente no bem para descurar-se dele em troca de ninharias e sabe que o minuto é precioso na economia da vida.

O Evangelho não nos fala dessa piedade mentirosa, cheia de ilusões e exigências. Quem revela energia suficiente para abraçar a vida cristã encontra recursos de auxiliar alegremente. Não se prende às teias da crítica destrutiva e sabe semear o bem, fortificar-lhe os germens, cultivar-lhe os rebentos e esperar-lhe a frutificação.

Diz-nos Paulo que a ‘piedade com contentamento’ é ‘grande ganho’ para a alma e, em verdade, não sabemos de outra que nos possa trazer prosperidade ao coração”. (Espírito Emmanuel. Pão Nosso. Cap. 107)

Bibliografia:

ÂNGELIS, Joanna de (Espírito), na psicografia de Divaldo Pereira Franco. Florações evangélicas. 6ª Edição. Salvador/BA: LEAL, 2020.

EMMANUEL (Espírito), na psicografia de Francisco Cândido Xavier. Pão nosso. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2018.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

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