Qual de vocês, se quiser construir uma torre, primeiro não se assenta e calcula o preço, para ver se tem dinheiro suficiente para completá-la?

Essa reflexão do Evangelho de Lucas trata daqueles que desejam construir uma torre de iluminação maior sem atentar que a evolução intelectual, moral e espiritual é longo processo, começando pela edificação da própria morada, com o devido esforço no trabalho da prática do bem, mantendo a perseverança e a vigilância necessárias. A construção dessa torre depende da edificação da casa íntima em bases sólidas dos princípios cristãos, cujos insumos de renovação fazem parte do projeto maior de iluminação e progresso moral e espiritual.

Texto evangélico: “Uma grande multidão ia acompanhando Jesus; este, voltando-se para ela, disse: Se alguém vem a mim e ama seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos e irmãs, e até sua própria vida mais do que a mim, não pode ser meu discípulo. E aquele que não carrega sua cruz e não me segue não pode ser meu discípulo. Qual de vocês, se quiser construir uma torre, primeiro não se assenta e calcula o preço, para ver se tem dinheiro suficiente para completá-la? Pois, se lançar o alicerce e não for capaz de terminá-la, todos os que a virem rirão dele, dizendo: Este homem começou a construir e não foi capaz de terminar. Ou, qual é o rei que, pretendendo sair à guerra contra outro rei, primeiro não se assenta e pensa se com dez mil homens é capaz de enfrentar aquele que vem contra ele com vinte mil? Se não for capaz, enviará uma delegação, enquanto o outro ainda está longe, e pedirá um acordo de paz. Da mesma forma, qualquer de vocês que não renunciar a tudo o que possui não pode ser meu discípulo”. (Lucas, 14: 25-33)

Do “Estudo Aprofundado da Doutrina Espírita: Ensinos e parábolas de Jesus”, Livro III, Parte II, da FEB Editora, no Módulo II, Roteiro 3 – “A casa edificada sobre a rocha”, extraímos alguns aspectos para um melhor entendimento do nosso tema:

“O Cristo simbolizou a edificação do caráter humano por meio de uma casa assentada sobre a rocha, uma casa de base sólida, contra a qual as tormentas e as tempestades da vida são incapazes de destruir ou abalar. (…)

Não se pode esquecer, também, que toda edificação de valores espirituais eternos deve erguer-se, no dia a dia, pedra a pedra, tijolo a tijolo, unidos com o cimento da atenção, da vigilância e da perseverança. A construção do caráter, ou a sua melhoria, não deve restringir-se às boas intenções, mas ao esforço disciplinado de combate às imperfeições e às más inclinações. (…)

Sem dúvida, a exemplificação dos ensinos do Mestre tem sido o maior desafio enfrentado pelo cristão. ‘Edificar a casa de modo seguro e adequado é a meta do progresso espiritual. Para que tal solidez seja alcançada, necessitamos de componentes selecionados, de disposição para o trabalho, perseverança e projeto bem definido. (…)

Devemos considerar, porém, que há Espíritos que diante do ensino de Jesus deixam-se conduzir por uma torrente de entusiasmo contraproducente. São criaturas boas, mas precipitadas. Querem transformar-se de um dia para o outro, sem dispensar os devidos cuidados exigidos no processo de edificação moral: estudo, exemplos, esforço, experiência. Sabemos que são poucas as pessoas que conseguem, por esforço hercúleo, mudarem rapidamente de posição evolutiva, num reduzido espaço de tempo. Na verdade, não devemos ser excessivamente morosos nas nossas conquistas espirituais, nem imprudentes.

Tal situação nos faz lembrar esta outra citação do Evangelho: ‘Pois qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro a fazer as contas dos gastos, para ver se tem com que a acabar? Para que não aconteça que, depois de haver posto os alicerces e não a podendo acabar, todos os que a virem comecem a escarnecer dele, dizendo: Este homem começou a edificar e não pôde acabar’ (Lc 14:28-30).”

Para sermos discípulos de Jesus temos que seguir os seus ensinamentos e exemplos, carregando a nossa cruz e renunciando a nós mesmo e a tudo que possuímos, ou seja, vencer a luta íntima contra as próprias imperfeições, com destaque ao egoísmo, ao orgulho, à vaidade, ao ódio, ao rancor, aos inúmeros ressentimentos, dentre outras tantas.

Essa luta interna, do bem contra o mal, pode ser entendido como o renunciar a si mesmo, negar-se a si mesmo e fazer desaparecer o “eu” (egoísmo), e começar a enxergar os nossos semelhantes como verdadeiros irmãos, filhos do mesmo Pai.

Para seguir o Cristo, devemos tomar a nossa cruz diante das provações e expiações, com resignação, esforço e trabalho na prática do bem. Essa cruz tão necessária para a nossa evolução moral e espiritual, permitindo acumular tesouros celestiais na busca da perfeição relativa à Humanidade, tendo Jesus modelo e guia, caminho, verdade e vida em direção ao Pai.

O Espírito Emmanuel, em “A torre”, na psicografia de Francisco Cândido Xavier, ensina:

“Pois qual dentre vós, querendo edificar uma torre, não calcula primeiro, sentado, a despensa; se tem (os meios) para concluir? (Lucas, 14: 28)

Constitui objeto de observação singular as circunstâncias do Mestre se referir, à essa altura dos ensinamentos evangélicos, à uma torre, quando deseja simbolizar o esforço de elevação espiritual por parte da criatura.

A torre e a casa são construções muito diversas entre si.

A primeira é fortaleza, a segunda é habitação.

A casa proporciona aconchego, a torre dilata a visão.

Um homem de bem, integrado no conhecimento espiritual e praticando-lhe os princípios sagrados está em sua casa, edificando a torre divina da iluminação, ao mesmo tempo.

Em regra vulgar, porém, o que se observa no mundo é o número espontâneo de pessoas que nem cuidaram ainda da construção da casa interior e já falam calorosamente sobre a torre, de que se acham tão distantes.

Não é fácil o serviço profundo da elevação espiritual, nem é justo apenas pintar projetos sem intenção séria de edificação própria.

É indispensável refletir nas contas, nos dias ásperos de trabalho, de autodisciplina.

Para atingir o sublime desiderato, o homem precisará gastar o patrimônio das velhas arbitrariedades e só realizará esses gastos com um desprendimento sincero da vaidade humana e com excelente disposição para o trabalho da elevação de si mesmo, a fim de chegar ao término, dignamente.

Queres construir uma torre de luz divina?

É justo. Mas não comeces o esforço, antes de haver edificado a própria casa íntima”. (Espírito Emmanuel. Alma e luz. Ed. IDE. Cap. 15)

Ainda Emmanuel, na pergunta 66 do livro “O consolador”, na psicografia de Francisco Cândido Xavier, esclarece:

“Pergunta: O preceito evangélico: ‘Assim, pois, aquele que dentre vós não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo’ deve ser interpretado no sentido absoluto?

Resposta: Ainda esse ensino do Mestre deve ser considerado no seu divino simbolismo.

A fortuna e a autoridade humanas são também caminhos de experiências e provas, e o homem que as atirasse fora de si, arbitrariamente, procederia com a noção da irresponsabilidade, desprezando o ensejo do progresso que a Providência divina lhe colocou nas mãos.

Todos os homens são usufrutuários dos bens divinos e os convocados ao trabalho de administração desses bens devem encarar a sua responsabilidade como problema dos mais sérios da vida.

Renunciando ao egoísmo, ao orgulho, à fraqueza, às expressões de vaidade, o homem cumprirá a ordenação evangélica, e, sentindo a grandeza de Deus, único dispensador no patrimônio real da vida, será discípulo do Senhor em quaisquer circunstâncias, por usar as suas possibilidades materiais e espirituais, sem os característicos envenenados do mundo, como intérprete sincero dos desígnios divinos para felicidade de todos.” (Espírito Emmanuel. O consolador. FEB Editora. Pergunta 66)

Antonio Luiz Sayão, em “Elucidações evangélicas”, traz mais luz a essa passagem evangélica:

“Os santos Evangelhos são o código, ou a tábua dos preceitos e sentenças do Divino Mestre. Para bem se conhecerem esses preceitos e sentenças, necessário se faz estudá-los, interpretando-os, de modo a lhes alcançar o sentido profundo. Para isso, não basta ter deles a compreensão literal ou gramatical; é preciso pesquisar-lhes os fundamentos, apreciá-los em conjunto, buscar-lhes o espírito.

Jesus veio dar cumprimento ao Decálogo e confirmar as profecias que lhe eram relativas. Veio congraçar a Humanidade, fazendo-lhe ver que os seus membros devem unir-se pela amizade, pelo afeto, pelo carinho, que produzem a concórdia, pelo amor paterno e filial.

Veio, enfim, mostrar-lhe que a vida real é a do Espírito liberto da escravidão da matéria, isto é, purificado, e que o Espírito só se depura na adversidade, que é o crisol das grandes obras.

Ele, portanto, jamais poderia ter dito o que quer que importasse em condenação do amor da família. O que, com relação a esta, como a respeito de tudo mais, condenou foi o excesso, que em todas as coisas prejudica o ser humano e o transvia. É dever do homem consagrar-se à família e preencher para com esta todas as obrigações que lhe impõem as Leis Divinas, cuja síntese é a Lei do Amor.

Não deve, porém, fazer do cumprimento dessas obrigações um culto. Não lhe deve sacrificar o amor ao próximo, nem os interesses superiores e a felicidade real de seus outros irmãos em Deus, pois que isso seria. egoísmo e o egoísmo contravém aos ensinos do Filho de Deus.

Assim, aquele que, para agradar a seu pai ou a sua mãe, praticar um ato contrário a esses ensinos não é digno do Mestre, não pode ser seu discípulo. Essa a lição constante dos versículos acima, para cuja compreensão cumpre não constituam obstáculo os termos odiar e aborrecer, porquanto nenhum desses vocábulos traduz com exatidão a palavra correspondente no texto hebraico, a qual não tem a significação violenta daquelas outras e carece de equivalente nos modernos idiomas. Além disso, importa não esqueçamos que Jesus frequentemente usava de expressões demasiado fortes, para impressionar os Hebreus de então, profundamente materializados.

Quanto ao ser a vida do Espírito a única real e, pois, a única digna de apreço e valiosa, a prova temo-la em que, falando a seus discípulos, o Senhor lhes recomendava que nenhuma importância dessem à vida do corpo, sempre que lhes fosse mister sacrificá-la, a bem daquela outra.

A cruz a que aludia, quando sentenciava que quem não tomar a sua para o seguir não pode ser seu discípulo, é a das expiações e das provas necessárias e inevitáveis, por isso que mediante elas somente é que o Espírito se depura, quando as aceita com humildade, resignação e, até, reconhecimento, conforme o exemplificou Ele que, aliás, era justo, inocente e imaculado, que, por conseguinte, nada tinha que expiar, nem que o tornasse merecedor de qualquer provação.

Dizendo que ‘aquele que acha a sua vida a perderá e que aquele que perde a vida por sua causa a achará’, o Divino Mestre se dirigia especialmente a seus discípulos, para lhes significar que, dentre eles, o que falisse à sua missão, para conservar a vida humana, renunciaria ao acabamento da obra, comprometendo, assim, gravemente, a sua Vida Espiritual; que, ao contrário, aquele que não recuasse diante da morte e a sofresse, para levar a cabo a obra, desempenhando a sua missão, teria a vida eterna.

Tais palavras, entretanto, podem e devem considerar-se como dirigidas, no mesmo sentido, aos que posteriormente, em todas as épocas, viessem ou venham a constituir-se continuadores da alta missão em que se investiram os apóstolos e os discípulos imediatos do Cristo”.

Assim, que edifiquemos a nossa própria morada interior em bases sólidas da rocha no projeto de construção da torre divina de iluminação e elevação moral e espiritual.

Bibliografia:

BÍBLIA SAGRADA.

EMMANUEL (Espírito); na psicografia de Francisco Cândido Xavier; coordenação de Saulo Cesar Ribeiro da Silva. O Evangelho por Emmanuel: comentários ao Evangelho segundo Lucas. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2016.

MOURA, Marta Antunes de Oliveira (organizadora). Estudo aprofundado da doutrina espírita: Livro III – Ensinos e Parábolas de Jesus – Parte II. Orientações espíritas e sugestões didático-pedagógicas direcionadas ao estudo do aspecto religioso do Espiritismo. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2016.

SAYÃO, Antônio Luiz. Elucidações evangélicas à luz da Doutrina Espírita. 16ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

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