Visão espírita do ser humano integral

O materialista não aceita a existência e a sobrevivência da alma, ou entende que ela e suas faculdades não passam de propriedades do organismo humano. Por conseguinte, todas as aquisições intelectuais e morais dos seres humanos se extinguem com a morte do corpo físico.

Assim, o materialista acredita que o pensamento, a emoção e os sentimentos são reações físico-químicas do sistema nervoso. Sustenta, ainda, que a existência da matéria é a única realidade, porque todas as coisas são compostas de matéria e todos os fenômenos são o resultado de interações materiais.

Logo, a alma é vista como um princípio material organizado por conjunto de leis físicas que a produziram; e o sistema nervoso tem a sede do pensamento. Nesse sentido, a alma é o mesmo que inteligência, como uma capacidade de conhecer.

Para a Doutrina Espírita, Deus não permite revelar tudo ao ser humano neste mundo e tampouco conhecer o princípio de todas as coisas, sendo que o homem penetrará no mistério das coisas ocultas à medida que se depurar, porquanto para compreender certas coisas precisará de faculdades que ainda não possui.

A Ciência foi dada ao homem para o seu adiantamento, porém ela não poderá ultrapassar os limites estabelecidos pelo Criador para desvendar alguns segredos da Natureza. Mas, Deus poderá revelar o que não é dado apreender pela Ciência.

Para o Espiritismo, a matéria existe em diferentes estados, dos quais alguns deles ignoramos, podendo a matéria ser tão etérea e sutil que nenhuma impressão cause aos sentidos humanos, até mesmo com a utilização de instrumentos construídos pelo homem. Contudo, sempre será matéria, embora para nós não seria.

A Doutrina Espírita entende que o Universo não é só matéria, tendo um princípio inteligente regendo tudo o que existe. Nada é por acaso, nada ocorre sem controle ou em desordem. Não há efeito sem causa anterior; e todo efeito inteligente deve ter uma causa inteligente.

Nesse sentido, destacam-se duas forças que regem o Universo: o princípio espiritual, ou inteligente; e o princípio material. Acima de tudo está Deus, inteligência suprema, causa primária de todas as coisas. Da ação simultânea dos princípios material e espiritual, nascem fenômenos que são naturalmente inexplicáveis, se não considerarmos um dos dois.

Importante destacar que a Ciência e o Espiritismo caminham juntos na busca da verdade, complementando-se. A Ciência sozinha não consegue explicar todos os fenômenos do Universo somente pelas leis da matéria. O Espiritismo sem a Ciência faltaria o apoio e a comprovação necessária para sustentar os fenômenos espirituais.

Para o Espiritismo, o ser humano integral possui três coisas: o corpo físico ou ser material, análogo aos animais e animado pelo mesmo princípio vital; a alma ou ser imaterial, com o Espírito encarnado no corpo; e o perispírito, o primeiro envoltório do Espírito, sendo o laço que prende a alma ao corpo, elo entre a matéria e o Espírito.

A alma é o Espírito encarnado, e o corpo físico é apenas o seu envoltório grosseiro, material, temporário e perecível, cuja destruição pela morte restitui a liberdade ao Espírito, pois o seu estado natural é ser livre.

A morte é a destruição do corpo físico, mas o Espírito imortal sobrevive e prossegue a sua jornada evolutiva na busca da perfeição relativa à Humanidade, tendo Jesus Cristo como modelo e guia, o caminho, a verdade e a vida em direção ao Pai.

Depois de uma existência, o Espírito abandona o antigo corpo, retornando ao plano Espiritual, o mundo invisível ao homem.

O perispírito, que prende o Espírito ao corpo físico desde a fecundação até a morte carnal, é uma espécie de envoltório semimaterial, um corpo etéreo invisível para nós no estado normal, porém que pode tornar-se visível e tangível em certas circunstâncias, como sucede nos fenômenos das aparições espirituais dos Espíritos desencarnados.

O perispírito tem ainda outras denominações: corpo espiritual ou psicossoma (Espírito André Luiz); corpo fluídico (Leibniz); mediador plástico (Cudworth); e modelo organizador biológico, (Ernani G. Andrade). Também considerado corpo astral, exteriorizando-se através e além do envoltório carnal, irradiando-se como energia específica ou aura.

O perispírito se constitui de variados fluidos que se agregam, decorrentes da energia universal primitiva de que se compõe cada orbe, gerando uma matéria hiper física, que se transforma em mediador plástico entre o Espírito e o corpo físico.

Revestimento temporário, imprescindível à encarnação e à reencarnação, é tanto mais denso ou sutil, quanto evoluído seja o Espírito que dele se utiliza.

O Espírito está sempre revestido do perispírito, cuja natureza se eteriza à medida que ele se depura e se eleva na hierarquia espiritual.

O perispírito não é o Espírito e tampouco pensa. Ele é o agente ou instrumento de ação do Espírito.

Os Espíritos são os seres inteligentes da criação que povoam o Universo. E a palavra Espírito, com o “E” maiúsculo, é a individualização do princípio espiritual, ou inteligente, do ser extracorpóreo e não o princípio espiritual ou inteligente do Universo.

O Espírito é a sede da inteligência, do pensamento, da vontade, da consciência, das lembranças e da memória das existências humanas.

A crença no Espírito baseia-se na existência de um princípio inteligente fora da matéria. Contudo, a natureza íntima do Espírito ainda é desconhecida, assim como a época e o modo de sua formação.

O corpo físico e o Espírito são distintos, embora um atue sobre o outro.

Por outro lado, os Espíritos são revelados por seus atos, precisando do perispírito para atuar sobre a matéria, pois que o perispírito é instrumento direto para a ação do Espírito na matéria.

O Espírito precisa do corpo físico, por meio da encarnação, para evoluir, dominando e depurando as imperfeições e os sentimentos inferiores, tais como: o egoísmo, o orgulho, a ganância, a vaidade, a paixão, o apego, a inveja, a ambição, a cobiça, o desejo, o prazer, a tentação, a indiferença, dentre outros tantos. Isso porque o corpo, por ser exclusivamente material, sofre as vicissitudes e as necessidades que a matéria proporciona, o que não seria possível enquanto no plano espiritual.

Na questão 132, em “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, temos:

“132. Qual o objetivo da encarnação dos Espíritos?

Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Para uns, é expiação; para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação. Visa ainda outro fim a encarnação: o de pôr o Espírito em condições de suportar a parte que lhe toca na obra da criação. Para executá-la é que, em cada mundo, toma o Espírito um instrumento, de harmonia com a matéria essencial desse mundo, a fim de aí cumprir, daquele ponto de vista, as ordens de Deus. É assim que, concorrendo para a obra geral, ele próprio se adianta.”

A resposta dos Espíritos Superiores expressa que a encarnação é um determinismo divino imposto para o ser humano chegar à perfeição, porquanto deverá sofrer as vicissitudes da existência corporal. Pelo planejamento reencarnatório, na existência corporal, o Espírito sabe que, escolhendo certo caminho, terá que sustentar as lutas de determinada espécie para a sua evolução intelectual, moral e espiritual.

“As vicissitudes da vida corpórea constituem expiação das faltas do passado e, simultaneamente, provas com relação ao futuro. Depuram-nos e elevam-nos, se as suportamos resignados e sem murmurar. A natureza dessas vicissitudes e das provas que sofremos também nos podem esclarecer acerca do que fomos e do que fizemos, do mesmo modo que neste mundo julgamos dos atos de um culpado pelo castigo que lhe inflige a lei. Assim, o orgulhoso será castigado no seu orgulho, mediante a humilhação de uma existência subalterna; o mau rico, o avarento, pela miséria; o que foi cruel para os outros, pelas crueldades que sofrerá; o tirano, pela escravidão; o mau filho, pela ingratidão de seus filhos; o preguiçoso, por um trabalho forçado, etc.” (Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Comentários à questão 399)

O Espírito Joanna de Ângelis, no livro “O homem integral”, na psicografia de Divaldo Pereira Franco, ensina:

“Jesus, superando todos os limites do conhecimento, fez-se o biótipo do Homem Integral, por haver desenvolvido todas as aptidões herdadas de Deus, na condição de ser mais perfeito de que se tem notícia. Toda a Sua vida é modelar, tornando-se o exemplo a ser seguido, para o logro da plenitude, de quem deseja libertação real.”

“A desenvoltura das propostas evangélicas facilita a ruptura da rotina, dando saudável dinâmica para uma vida integral em favor do homem-espírito eterno e não apenas da máquina humana pensante a caminho do túmulo, da dissolução, do esquecimento.”

“Quando o homem moderno passar a considerar a própria imortalidade em face da experiência fugaz do soma, empreenderá a viagem plenificadora de trabalhar pelos projetos duradouros em detrimento das ilusões temporárias, observando o futuro e vivendo-o desde já, empenhado no programa da sua conscientização espiritual. Nele se insculpirá, então, o modelo da realização em um ser integral, destituído do medo da vida e da morte, da sombra e da luz, do transitório e do permanente, da aparência e da realidade.”

“A pessoa se deve acostumar com o seu espaço, liberando-se da propriedade total sobre ele e adaptando-se, mentalmente, à ideia de reparti-lo com outrem, mantendo, porém, integral, a sua liberdade íntima, cujos horizontes são ilimitados. Ademais, deve considerar que os espaços físicos são transitórios, em razão da precariedade da própria vida material, que se interrompe com a morte, transferindo o ser para outra dimensão, na qual os limites tempo e espaço passam a ter outras significações.”

“O ser humano, diante da visão nova e transpessoal, deixa de ser a massa, apenas celular, para tornar-se um complexo com predominância do princípio eterno. (…)

Neste admirável amálgama da integração dos mais importantes Insights das Doutrinas psicológicas do Ocidente com as Tradições Esotéricas do Oriente, agiganta-se o Espiritismo, pioneiro de uma Psicologia Espiritualista dedicada ao conhecimento do homem integral, na sua valiosa complexidade – Espírito, perispírito e matéria – ampliando os horizontes da vida orgânica, a se desdobrarem além do túmulo e antes do corpo, com infinitas possibilidades de progresso, no rumo da perfeição.”

Assim sendo, você é um ser humano integral, dotado de corpo físico, Espírito e perispírito. Por isso, cuide do corpo e da alma para vencer as vicissitudes da vida na busca da perfeição, seguindo o caminho, a verdade e a vida que o Mestre Jesus nos ensinou e os seus exemplos deixados para seguir as suas pegadas em direção ao Pai.  

Bibliografia

ÂNGELIS, Joanna de (Espírito); na psicografia de Divaldo Pereira Franco. O homem integral.  23ª Edição. Salvador/BA: Editora Leal, 2017.

KARDEC, Allan; tradução de Evandro Noleto Bezerra. A Gênese. 2ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

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