A negação de Pedro

“A negação de Pedro é predita. (…) Jesus disse‑lhes então: essa noite, todos vós vos escandalizareis por minha causa, pois está escrito: ferirei o pastor e as ovelhas do rebanho se dispersarão. Mas, depois que eu ressurgir, eu vos precederei na Galileia. Pedro, tomando a palavra, disse‑lhe: ainda que todos se escandalizem por tua causa, eu jamais me escandalizarei. Jesus declarou: em verdade te digo que esta noite, antes que o galo cante, me negarás três vezes! Ao que Pedro disse: mesmo que tiver de morrer contigo, não te negarei. O mesmo disseram todos os discípulos. (…) Vigiai e orai, para que não entreis em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca.” (Mateus, 26: 29-35 e 41)

“Pedro estava assentado fora, no pátio; e, aproximando-se dele uma criada, disse: tu também estavas com Jesus, o galileu. Mas ele negou diante de todos, dizendo: não sei o que dizes. E, saindo para o vestíbulo, outra criada o viu, e disse aos que ali estavam: este também estava com Jesus, o Nazareno. E ele negou outra vez com juramento: não conheço tal homem. E, daí a pouco, aproximando-se os que ali estavam, disseram a Pedro: verdadeiramente também tu és deles, pois a tua fala te denuncia. Então começou ele a praguejar e a jurar, dizendo: não conheço esse homem. E imediatamente o galo cantou. E lembrou-se Pedro das palavras de Jesus, que lhe dissera: Antes que o galo cante, três vezes me negarás. E, saindo dali, chorou amargamente.” (Mateus, 26: 69-75)

Como seres imperfeitos em evolução intelectual, moral e espiritual, essa reflexão tratará dos ensinamentos decorrentes da negação de Pedro, em que as fragilidades e as vulnerabilidades da carne são colocadas em prova de fé, confiança, perseverança e vigilância, para não se desviar do caminho da verdade divina e da vida eterna em direção ao Pai, tendo Jesus como modelo e guia.

Nesse sentido, a oração e a vigilância fortalecem a alma em aflição, assim como os alertas do mundo espiritual, por intermédio do Anjo da Guarda e dos Espíritos protetores, para não cair em tentação.

No momento da prisão e do julgamento do Cristo, seus discípulos estavam amedrontados, vendo tudo a distância a quem diziam tanto amar, como havia expressado Pedro: “… mesmo que tiver de morrer contigo, não te negarei. O mesmo disseram todos os discípulos.”

Durante o martírio do Mestre, quando perguntado da sua relação com Jesus, Pedro o negou por três vezes. E, na última negação, escuta o galo cantar, como o havia alertado o Cristo, caindo em profunda desolação, apesar do alerta recebido. Por que Pedro agiu assim?

Pelo temor, pela fraqueza, pela vulnerabilidade, pela invigilância e pela falta de atenção aos alertas recebidos, pode-se experimentar quedas de entendimentos conquistados para ações menos edificantes, que nos submetem ao assédio de forças inferiores. Por isso, devemos ter constante vigilância das nossas imperfeições, pois são nas provas que se travam as lutas redentoras para os progressos moral e espiritual. É a vigilância da consciência para não se contaminar pelo mal, porquanto ele opera às escondidas nos acontecimentos infelizes e decorrentes da invigilância.

O Espírito Emmanuel, no livro “Caminho, verdade e vida”, na psicografia de Francisco Cândido Xavier, em “O fracasso de Pedro”, no Capítulo 89, ensina:

“O fracasso, como qualquer êxito, tem suas causas positivas.

A negação de Pedro sempre constitui assunto de palpitante interesse nas comunidades do Cristianismo.

Enquadrar-se-ia a queda moral do generoso amigo do Mestre num plano de fatalidade? Por que se negaria Simão a cooperar com o Senhor em minutos tão difíceis?

Útil, nesse particular, é o exame de sua invigilância.

O fracasso do amoroso pescador reside aí dentro, na desatenção para com as advertências recebidas.

Grande número de discípulos modernos participam das mesmas negações, em razão de continuarem desatendendo.

Informa o Evangelho que, naquela hora de trabalhos supremos, Simão Pedro seguia o Mestre ‘de longe’, ficou no ‘pátio do sumo sacerdote’, e ‘assentou-se entre os criados’ deste, para ‘ver o fim’.

Leitura cuidadosa do texto esclarece-nos o entendimento e reconhecemos que, ainda hoje, muitos amigos do Evangelho prosseguem caindo em suas aspirações e esperanças, por acompanharem o Cristo a distância, receosos de perderem gratificações imediatistas; quando chamados a testemunho importante, demoram-se nas vizinhanças da arena de lutas redentoras, entre os servos das convenções utilitaristas, assestando binóculos de exame, a fim de observarem como será o fim dos serviços alheios.

Todos os aprendizes, nessas condições, naturalmente fracassarão e chorarão amargamente.”

Emmanuel, no livro “O Consolador”, na psicografia de Francisco Cândido Xavier, na questão 320, acerca dos ensinamentos da negação de Pedro, responde: “A negação de Pedro serve para significar a fragilidade das almas humanas, perdidas na invigilância e na despreocupação da realidade espiritual, deixando-se conduzir, indiferentemente, aos torvelinhos mais tenebrosos do sofrimento, sem cogitarem de um esforço legítimo e sincero, na definitiva edificação de si mesmas”.

Antônio Luiz Sayão, no livro “Elucidações evangélicas”, sobre essa passagem evangélica, comenta:

“Pedro confiara demais nas suas próprias forças e não procurara o único ponto de apoio que o pudera sustentar: a prece. Deixara-se levar pela confiança em si mesmo e, malgrado ao aviso de Jesus, não se pusera em guarda.

Grande foi o seu remorso, pois que nele houve apenas fraqueza e não culpa. Houve apenas falta de previdência de desconfiança de si mesmo, e não traição premeditada, fruto da covardia e do egoísmo.

Ao deixar a casa do sumo sacerdote, ele reconheceu o seu erro e se dispôs a repará-lo. Essa a distinção que se deve fazer entre a fraqueza e a culpabilidade.

Dificilmente pode o culpado reparar, no curso de uma existência, a falta durante ela cometida; ao passo que o fraco pode adquirir a força de que careça. Eis por que são quase sempre temerários os nossos juízos. Eis como é por que às vezes condenamos o que o Senhor desculpa e desculpamos o que Ele reprova.

Quando o galo cantou, Jesus não estava perto de Pedro. Mas, naquele instante, o apóstolo experimentou uma impressão fluídica que, por um efeito de mediunidade, lhe recordou as palavras do Mestre, fazendo-o ao mesmo tempo ver o semblante doce e calmo deste, que se limitava a dirigir-lhe um olhar triste, quando com a ingratidão era pago da afeição que lhe testemunhara.

Houve, da parte de Jesus, ação magnética a distância e, da de Pedro, vidência.”

Assim, a edificação de valores espirituais eternos deve erguer-se no dia a dia, pela atenção, vigilância e perseverança; em uma ação incessante de transformação moral.

A construção do caráter não deve restringir-se às boas intenções, mas ao esforço disciplinado de combate às imperfeições e às más inclinações.

A vigilância deve ser permanente, a fim de se evitar tropeços e quedas, conservando uma atitude positiva, mental e emocional.

Por fim, transcreve-se uma linda mensagem de Emmanuel, na psicografia de Francisco Cândido Xavier, no livro “Fonte viva”, no Capítulo 110, em “Vigiemos e oremos”:

“Não te proponhas, desse modo, atravessar o mundo, sem tentações. Elas nascem contigo, assomam de ti mesmo e alimentam-se de ti, quando não as combates, dedicadamente, qual o lavrador sempre disposto a cooperar com a terra da qual precisa extrair as boas sementes.

Caminhar do berço ao túmulo, sob as marteladas da tentação, é natural. Afrontar obstáculos, sofrer provações, tolerar antipatias gratuitas e atravessar tormentas de lágrimas são vicissitudes lógicas da experiência humana.

Entretanto, lembremo-nos do ensinamento do Mestre, vigiando e orando, para não sucumbirmos às tentações, uma vez que mais vale chorar sob os aguilhões da resistência que sorrir sob os narcóticos da queda.”

Bibliografia:

BÍBLIA SAGRADA

EMMANUEL (Espírito); na psicografia de Francisco Cândido Xavier. O Consolador. 29ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

EMMANUEL (Espírito); na psicografia de Francisco Cândido Xavier. Caminho, verdade e vida. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2021.

EMMANUEL (Espírito); psicografado por Francisco Cândido Xavier. Fonte viva.  1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2020.

SAYÃO, Antônio Luiz. Elucidações evangélicas à luz da Doutrina Espírita. 16ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

Um comentário em “A negação de Pedro

  1. A doutrina de Jesus é Luz no nosso caminho 🙏

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