Ninguém pode servir a dois senhores

“Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há de odiar um e amar o outro ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom.” (Mateus, 6: 24)

As palavras do Mestre Jesus são claras, não podemos conciliar dois comportamentos completamente distintos: um de servir a Deus; e outro de servir ao que representa o jugo às paixões viciosas, aos sentimentos inferiores e aos bens materiais da Terra.

Trata-se de escolher o caminho do bem e da verdade divina que liberta a alma, semeando amor e caridade, ou o da verdade transitória que conduz a quedas morais, afastando-se do Pai, diante do mau uso dos bens e talentos colocados à disposição nas provas e expiações, que poderão impulsionar a evolução espiritual na busca da perfeição.

Muitos, diante de conflitos existenciais, da luta do bem contra o mal no próprio íntimo, podem apresentar comportamentos diferentes e exteriorizar duas personalidades, como se existissem duas pessoas dentro de você.

Esses conflitantes comportamentos podem ser exemplificados, tais como: ser uma determinada pessoa no trabalho e outra diferente no ambiente familiar; proceder de uma maneira no culto religioso e de forma diversa no dia a dia; ser “fervoroso religioso”, com fé em Deus, e agir espalhando o ódio ao invés do amor; dentre outros tantos.  

Assim, aos que servem a dois senhores, em certas situações ou circunstâncias da vida, um dos lados falará mais alto, estimulando um comportamento ambíguo, controverso e incoerente, o qual retratará a luta do bem ou do mal no seu interior.

O Espírito Joanna de Ângelis, no livro “Jesus e o Evangelho à luz da psicologia profunda”, na psicografia de Divaldo Pereira Franco, em “Propriedade”, ensina:

“O Homem Jesus sabia-o, e esclareceu com vigor que não se pode servir simultaneamente a dois senhores com a mesma dedicação, que podem ser também interpretados como a realidade do Si e o capricho do ego. O primeiro é permanente; o outro, transitório. Enquanto um necessita de previdência e equilíbrio para o engrandecimento e a conquista de mais altos patamares, o outro permanece mesquinho e diminuto, comprazendo-se no imediatismo inseguro de necessidades que se renovam sem cessar.

O ser humano tem o dever de selecionar os objetivos existenciais, colocando-os em ordem de acordo com a qualidade e o significado de todos eles, para empenhar-se em destacar aqueles que são primaciais, exigindo todo o empenho, e aqueloutros que são secundários, podendo ser conduzidos com naturalidade, sem maior sofreguidão. (…)

A aquisição de valores propicia e estimula o trabalho incessante, motivando o homem à renovação das forças e aos empreendimentos que se multiplicam em competição justa pelo adquiri-las. É estimulante para a existência física e fator de identificação social no grupo em que se movimenta.”

O Espírito Humberto de Campos, no livro “Boa Nova”, na psicografia de Francisco Cândido Xavier, Capítulo 6, em “Fidelidade a Deus”, narra:

“– De que modo, porém, se há de viver como homem e como apóstolo do reino de Deus na face deste mundo? – inquiriu Tadeu.

– Em verdade – esclareceu o Messias –, ninguém pode servir, simultaneamente, a dois senhores. Fora absurdo viver ao mesmo tempo para os prazeres condenáveis da Terra e para as virtudes sublimes do Céu. O discípulo da Boa-Nova tem de servir a Deus, servindo à sua obra neste mundo. Ele sabe que se acha a laborar com muito esforço num grande campo, propriedade de seu Pai, que o observa com carinho e atenta com amor nos seus trabalhos. Imaginemos que esse campo estivesse cheio de inimigos: por toda parte, vermes asquerosos, víboras peçonhentas, tratos de terra improdutiva. É certo que as forças destruidoras reclamarão a indiferença e a submissão do filho de Deus, mas, o filho de coração fiel a seu Pai se lança ao trabalho com perseverança e boa vontade. Entrará em luta silenciosa com o meio, sofrer-lhe-á os tormentos com heroísmo espiritual, por amor do reino que traz no coração plantará uma flor onde haja um espinho; abrirá uma senda, embora estreita, onde estejam em confusão os parasitos da terra; cavará pacientemente, buscando as entranhas do solo, para que surja uma gota d’água onde queime um deserto. Do íntimo desse trabalhador brotará sempre um cântico de alegria, porque Deus o ama e segue com atenção.

– Qual a primeira qualidade a cultivar no coração – perguntou um dos filhos de Zebedeu –, para que nos sintamos plenamente identificados com a grandeza espiritual da tarefa?

– Acima de todas as coisas – respondeu o Mestre – é preciso ser fiel a Deus.”

O Espírito goza sempre do livre-arbítrio e, em virtude dessa liberdade, é que escolhe entre o bem e o mal. A capacidade para amar e operar no bem está na base de todo o sistema de elevação para Deus.

Um coração limpo é o sentimento destituído de maldade, capaz de perceber, sentir e operar no bem pela prática da caridade.

Em alguns momentos, conseguimos identificar emoções, fatos e circunstâncias que nos encaminham para o bem, e que podem ser aproveitadas como lições valiosas. Identificando o bem, emerge a necessidade de se melhorar para, de futuro, evitar o que lhe originou uma fonte de amarguras.

O verdadeiro cristão é alguém cujo comportamento é invariavelmente edificante.

Será sempre honrado e louvado todas as vezes que praticarmos o bem e nos mantivermos fiéis às manifestações de sua vontade. Os tributos da glorificação, devem, pois, ser encaminhados ao Senhor, que é o legítimo doador, autor e direcionador da vida.

O outro lado valoriza os bens materiais, as paixões inferiores que fascinam o ser humano, arrastando-o para desarmonias espirituais e a quedas morais significativas.

Aquele que é dominado pelos sentimentos inferiores, pensando tão somente no gozo das paixões que o escravizam, precisa se libertar deste jugo.

É necessário acender a luz para encontrar o caminho da libertação. Sem a irradiação brilhante do próprio ser, não poderemos ser vistos com facilidade pelos mensageiros divinos, que ajudam em nome do Altíssimo, e nem auxiliaremos a quem quer que seja. É indispensável organizar o santuário interior e iluminá-lo, a fim de que as trevas não nos dominem.

As provas da vida são desafios que permitem ao ser humano considerar a precariedade dos valores materiais que absorvem a humanidade encarnada.

Redimensionando a existência à luz do entendimento evangélico, agora revivido pelo Espiritismo, aprendemos fazer distinção entre o certo e o errado, entre o que é de duração passageira e o que é eterno.

Pelo livre-arbítrio, o homem constrói a sua experiência e o seu progresso, distinguindo o bem do mal.

Os bens da Terra pertencem a Deus, que os distribui a seu grado, não sendo o homem senão o usufrutuário, o administrador mais ou menos íntegro e inteligente desses bens.

Eles não constituem propriedade individual do homem. Nada nos pertence na Terra, nem sequer o nosso pobre corpo. Somos depositários e não proprietários.

Logo, não devemos ser depositários infiéis, utilizando os bens emprestados unicamente para a satisfação do nosso egoísmo e orgulho. Não devemos nos julgar com o direito de dispô-los em exclusivo proveito daquilo que recebemos como simples empréstimo.

Por tudo isso, sejamos fiéis a Deus, perseverando e resistindo às tentações que nos desviam do caminho do bem, afastando todo o mal que nos provocam grandes quedas morais e espirituais, pois que não podemos servir a dois senhores.

Bibliografia:

BÍBLIA SAGRADA.

ÂNGELIS, Joanna de (Espírito); na psicografia de Divaldo Pereira Franco. Jesus e o Evangelho à luz da psicologia profunda. 6ª Edição. Salvador/BA: LEAL Editora, 2016.

CAMPOS, Humberto de (Espírito); (psicografado por) Francisco Cândido Xavier. Boa Nova. 37ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2016.

KARDEC, Allan; Tradução de Guillon Ribeiro. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

MOURA, Marta Antunes de Oliveira de (Organizadora). Estudo aprofundado da doutrina espírita: Cristianismo e Espiritismo. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2017.

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