Trajetórias do Espiritismo na França e no Brasil: a busca pela unidade doutrinária

Introdução

O estudo da trajetória do Espiritismo revela uma transição de seu berço europeu para a sua consolidação em solo brasileiro, cujo o histórico do declínio na França para a sua expansão no Brasil auxilia a compreender como ele se estruturou com as características singulares do País, influenciado tanto pela fidelidade às obras de Allan Kardec quanto pelas inclusões de revelações mediúnicas posteriores que moldaram o aspecto religioso, possibilitando algumas reflexões sobre o futuro na busca de unidade doutrinária.

Cabe ressaltar a percepção da realidade que cada um tem de fatos, fenômenos e circunstâncias, que estimula uma construção mental peculiar acerca deles, conhecida como subjetividade da experiência humana. Cada um percebe a realidade de maneira diferente.

Nessa perspectiva, há uma tendência de se acolher, interpretar e valorizar apenas as informações que confirmem o que já se acredita, ignorando as evidências contrárias. Por conseguinte, a percepção da realidade é influenciada por crenças, experiências, educação, cultura, costumes e até mesmo pelo estado emocional do momento.

Antes de abordar o tema em si, importante recordar alguns fundamentos básicos da Codificação Espírita de Kardec para compreender como eles se relacionaram com as inclusões da literatura complementar que moldaram o Espiritismo brasileiro, principalmente aquelas de características religiosas.

Kardec escreveu em “O Evangelho Segundo Espiritismo”: “Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade”. (KARDEC, 2019, p. 256)

Na introdução desse livro, sobre o controle das revelações dos Espíritos, Kardec expressou: “O primeiro exame comprobativo é, pois, sem contradita, o da razão, ao qual cumpre se submeta, sem exceção, tudo o que venha dos Espíritos. Toda teoria em manifesta contradição com o bom senso, com uma lógica rigorosa e com os dados positivos já adquiridos, deve ser rejeitada, por mais respeitável que seja o nome que traga como assinatura.” (KARDEC, 2019, p. 21)

Kardec norteou o seu trabalho de Codificação do Espiritismo na razão e no bom senso da fé inabalável, sendo característica de sua obra que seguia as ideias positivistas da época pela metodologia científica. Kardec como educador e pesquisador agia com rigor científico, adotando abordagem racional e experimental para o estudo dos fenômenos mediúnicos.

Ele defendeu a aliança da Ciência com a religião, como alavancas da inteligência humana, em que uma revela as leis do mundo material e a outra as do mundo moral, ambas com os mesmos princípios por suas leis, que é de Deus, sem se contradizerem.

Para Kardec, Espiritismo e Ciência deveriam caminhar juntos. Caso a Ciência provasse que a Codificação estaria errada em algum ponto, a Doutrina deveria modificar-se, pois a verdade é uma só.

Outra preocupação de Kardec era o controle universal das revelações espíritas, pilar fundamental de sua metodologia, que referenciou a análise dos conteúdos da Doutrina dos Espíritos. Por esse controle, a credibilidade do Espiritismo estava na concordância das revelações de diferentes Espíritos, feitas espontaneamente por grande número de médiuns, estranhos uns aos outros, e em diversos lugares.

A verdade espírita não se apoia na revelação de único Espírito ou médium, porquanto se os Espíritos tivessem revelado a Doutrina Espírita tão somente a uma pessoa, nada garantiria a sua origem, pois seria preciso acreditar naquele que a tivesse recebido.

Acrescentou que a revelação de única fonte teria caráter individual, sem cunho de autenticidade, devendo ser considerada opinião de determinado Espírito, sendo imprudente aceitá-la e propagá-la levianamente como verdade absoluta.

 Esse controle de cruzamento de revelações espirituais garantiu que o Espiritismo não se tornasse obra de um só ser espiritual ou de grupo específico, assegurando a sua consistência e evitando eventuais cismas.

Em “O Livro dos Espíritos”, Kardec classifica a Doutrina Espírita como de filosofia espiritualista e, no fim desse livro, no item VI, alerta: “Falsíssima ideia formaria do Espiritismo quem julgasse que a sua força lhe vem da prática das manifestações materiais e que, portanto, obstando-se a tais manifestações, se lhe terá minado a base. Sua força está na sua filosofia, no apelo que dirige à razão, ao bom senso.” (KARDEC, 2019, p. 350)

O aspecto filosófico vai além da observação de fenômenos mediúnicos, buscando compreender o porquê e o para quê da existência, a origem, a natureza e o destino dos Espíritos, bem como as relações dos mundos visível e invisível.

Essa vertente utiliza a razão e a lógica para investigar temas existenciais, agindo como filosofia de vida com bases científicas e consequências morais.

O aspecto filosófico também se destaca por ser livre de dogmas, utilizando abordagem racionalista e método de perguntas e respostas sistematizado por Kardec para promover a fé raciocinada.

Quanto ao aspecto científico, no livro “A Gênese”, em o “Caráter da revelação espírita”, no item 55, temos: “Um último caráter da revelação espírita, a ressaltar das condições mesmas em que ela se produz, é que, apoiando-se em fatos, a Doutrina tem que ser, e não pode deixar de ser, essencialmente progressiva, como todas as ciências de observação. Pela sua substância, alia-se à Ciência que, sendo a exposição das leis da natureza, com relação a certa ordem de fatos, não pode ser contrária às Leis de Deus, autor daquelas Leis. As descobertas que a Ciência realiza, longe de o rebaixarem, glorificam a Deus; unicamente destroem o que os homens edificaram sobre as falsas ideias que formaram de Deus.

O Espiritismo, pois, estabelece como princípio absoluto somente o que se acha evidentemente demonstrado, ou o que ressalta logicamente da observação. Entendendo-se com todos os ramos da economia social, aos quais dá o apoio das suas próprias descobertas, assimilará sempre todas as doutrinas progressivas, de qualquer ordem que sejam, desde que hajam assumido o estado de verdades práticas e abandonado o domínio da utopia, sem o que o Espiritismo se suicidaria. Deixando de ser o que é, mentiria à sua origem e ao seu fim providencial. Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.” (KARDEC, 2013, p. 39)

O aspecto científico baseia-se em estudos, observações, pesquisas, experimentações e análises dos fenômenos mediúnicos e anímicos, tratando da natureza, da origem e do destino dos Espíritos e as suas relações com o mundo corporal.

Importante registrar as palavras de Paulo Henrique de Figueiredo, no livro “Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo”, em “O método das ciências”, que disse:

“… Allan Kardec não produziu a teoria por si mesmo, uma vez que ela teve como origem os ensinamentos dos Espíritos superiores. Foi um trabalho coletivo de Espíritos encarnados e desencarnados. Os diversos centros de pesquisa garantiam a diversidade de médiuns necessários para evitar uma origem única de ideias, o que manteria tudo somente no campo da opinião.

A universalidade do ensino dos Espíritos superiores é o que permite verificar a procedência e veracidade do ensino, além do exame racional e metódico das hipóteses. Por isso, a tarefa fundamental de Kardec, repetimos, na análise das comunicações, foi, em suas palavras, ‘avaliar os graus de confiança que a razão permitia conceder-lhes, distinguir as ideias sistemáticas, individuais, e isoladas daquela que receberam a sanção do ensinamento universal dos Espíritos’. E para isso ele se valeu da metodologia científica apropriada a esse objeto de estudo, disponível em seu tempo, que foi o das ciências filosóficas.” (FIGUEIREDO, 2019, p. 255)

Figueiredo, mais adiante, em “Abordagem científica dos testemunhos dos Espíritos”, continua:

“Não foi Kardec quem produziu o conteúdo da Doutrina Espírita, e a questão de origem é evidentemente clara. (…)

É a partir das instruções dadas pelos Espíritos de categoria elevada, baseada nas leis naturais de seu mundo, que se constitui a Doutrina. (…)

Portanto, o meio principal de observação para a Ciência Espírita são os testemunhos dos Espíritos, por meio dos médiuns. Mas Kardec não se restringia a ouvir apenas os Espíritos superiores, dedicando-se a examinar e dialogar com a maior diversidade possível deles, milhares, para identificar os fatos que mereciam estudos.

Depois de identificados os fenômenos e consideradas as hipóteses relevantes para explicá-los, os pesquisadores recebiam oportunamente o ensino dos Espíritos, a elucidação das generalizações e das leis derivadas. Cabe, assim, aos homens, a elaboração da forma da Doutrina Espírita, mas o conteúdo se origina dos Espíritos. Mas esse ensino não é individual, nem de uma só origem. (…)

A garantia quanto ao ensino dos Espíritos está na concordância das revelações dadas espontaneamente, ou seja, pela inciativa coletiva dos Espíritos superiores, que controlam sua sucessão e progresso. Essas manifestações ocorrem em diversos grupos, de vários lugares, com diferentes interesses, abordagens e especialidades do conhecimento; por numerosos médiuns, estranhos uns aos outros. Kardec se comunicava com mais de mil centros que concorriam para sua pesquisa.” (FIGUEIREDO, 2019, p. 259)

O Espiritismo estimula, ainda, o aspecto religioso, em que os conhecimentos filosóficos e científicos sejam aplicados nas vidas das pessoas para a mudança de atitudes e comportamentos, porquanto sem essa visão de nada serviriam esses conhecimentos.

Pelo aspecto religioso, os conhecimentos do Espiritismo servem como base para a reforma íntima, a regeneração e a transformação moral e espiritual de cada ser humano pela aplicação da filosofia e da ciência espíritas, impulsionando o seu progresso.

Esse aspecto, especificamente, tem sido motivo de muito debate e até de cismas no movimento espírita brasileiro, com argumentos fundamentados para os dois lados.

Os que aceitam o Espiritismo como religião entendem esse aspecto no sentido de que a Doutrina se preocupa com as consequências morais dos seus ensinos, buscando na ética e na moral pregadas por Jesus os elementos que deverão nortear a conduta do ser humano, livres de rituais, práticas exteriores, dogmas e misticismo.

Os que não aceitam o aspecto religioso do Espiritismo o relacionam, principalmente, com inserções de conceitos e princípios de fontes espirituais sem o controle universal das revelações dos Espíritos estabelecidas por Kardec, que procuraram modificar a linha mestra da proposta original da Codificação Espírita, tais como: as obras “Os Quatro Evangelhos” de Jean-Baptista Roustaing; as possíveis adulterações no livro “A Gênese”, 5ª Edição, de 1872; o livro “Brasil Coração do mundo, pátria do evangelho”, de Humberto de Campos, na psicografia de Francisco Cândido Xavier; e outros da literatura complementar espirita, após a morte de Allan Kardec.

Essa perspectiva crítica, frequentemente associada ao movimento da volta ao Espiritismo puramente científico e filosófico, argumenta que o Espiritismo brasileiro, depois da morte de Kardec, sofreu excessivo apego religioso, desviando a Doutrina de sua proposta original.

Embora alguns espíritas não aceitem o aspecto religioso, não há como negar que a sua força está na transversalidade e integração dos conhecimentos filosóficos, científicos e religiosos, proporcionando compreensão mais abrangente da existência humana.

Por que o Espiritismo declinou na França?

A Revista Espírita, de janeiro de 1869, publicou uma “Estatística do Espiritismo” que indicava cerca de 600 mil adeptos na França. Hoje, existem cerca de 30 grupos espíritas federados à União Espírita Francesa e Francófona (USFF), principal federação espírita na França, fundada em 1919, evidenciando um substancial declínio.

Aspectos favoráveis ao estabelecimento do Espiritismo na França

Alguns aspectos, do século XIX, foram favoráveis para o Espiritismo se estabelecer na França, tais como: descrença nas antigas práticas religiosas de submissão e dominação dogmática e mística; enfraquecimento da influência da Igreja no Estado; maturidade intelectual e científica da Humanidade; reação ao materialismo científico crescente; surgimento de novas correntes espiritualistas; e valorização do espiritualismo racional.

Kardec disse que o Espiritismo veio, na época predita, cumprir a promessa do Cristo. Se tivesse vindo antes das descobertas científicas teria malogrado.

Como o Consolador Prometido, Kardec afirmou que o Espiritismo é obra coletiva dos Espíritos que participaram da Codificação, vozes do Céu, sob a direção do Espírito de Verdade, que contaram com o auxílio de incontáveis médiuns, de maneira universal, transmitindo as mesmas mensagens.

Segundo Kardec, a Doutrina Espírita não trouxe nova moral, mas veio elucidar e completar o ensino evangélico, agora compreensível à luz da razão e da Ciência.

No século XIX, a Humanidade havia atingido um grande avanço de maturidade intelectual e científica, marcado pela modernidade, filosofia e Ciência, que permitiu o entendimento de conceitos antes considerados dogmáticos, místicos ou sobrenaturais.

Nesse contexto, o século XIX foi marcado pelo cientificismo e pelo positivismo, excluindo a religiosidade dogmática reinante e promovendo uma visão racionalista e materialista do mundo.

Assim, o Espiritismo surgiu como resposta ao materialismo crescente, oferecendo ponte entre religião e Ciência, ao investigar fenômenos mediúnicos, utilizando método de observação e investigação racional.

Naquela época, houve, também, interesse espiritualista no mundo, que buscava evidências da imortalidade da alma. Esse movimento criou ambiente fértil para a aceitação das ideias espíritas.

A doutrina organizada por Kardec adotou viés pedagógico e racional, longe do misticismo cego, e o espiritualismo racional reagia ao materialismo e aos monismos, propondo uma espiritualidade que passasse pelo crivo da lógica e da Ciência da época.

Paulo Henrique de Figueiredo, no livro “Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo”, em “Os tempos são chegados”, expressa: “… o Espiritualismo Racional, propondo a moral da liberdade baseada na concepção psicológica científica do ser humano, abria o pensamento francês para a possibilidade de um novo mundo, criado pelo ato solidário e pela educação educadora transformadora. Desse modo, enquanto pôde, o Espiritualismo Racional liderou o movimento liberal francês, lutando pelas liberdades de pensamento (ensino livre), de consciência (liberdade de crença) e moral (dever), um movimento oposto à fé cega. O Espiritismo pôde surgir quando as crenças ancestrais foram confrontadas pela razão, e a descrença materialista, por sua vez, não era suficiente para garantir a evolução da humanidade.” (FIGUEIREDO, 2019, p. 37)

Quando a França buscava o estabelecimento de um Estado laico em decorrência dos dogmas da Igreja católica que pregava a fé de submissão com ideias de temor e castigos divinos, não mais atendendo aos anseios da sociedade, o Espiritismo encontrou momento propício para o seu estabelecimento com proposta de espiritualismo racional.

Ademais, a máxima espírita “fora da caridade não há salvação” se alinhava com o ideal de fraternidade da época, focando reforma moral e solidariedade, distanciando-se do misticismo de fé cega.

Motivos para o declínio do Espiritismo na França

Apesar dos aspectos favoráveis ao estabelecimento do Espiritismo na França, alguns fatores motivaram o seu declínio naquele país, como fatos históricos, econômicos, culturais, sociais, científicos, religiosos, divergências internas na condução do movimento espírita francês depois da morte de Kardec, dentre outros.

A Revolução Francesa desencadeou transformações importantes: fim da monarquia absolutista e dos privilégios da nobreza e do clero; declaração dos direitos do homem; ascensão da burguesia; implementação da República e do Estado Laico; ideais iluministas; novo ordenamento jurídico; e revolução industrial.

Kardec dava credibilidade ao Espiritismo e, com a sua morte repentina, a condução do destino do Espiritismo francês sofreu abalos com fraudes, interpretações duvidosas, interferências, ingerências indevidas e desvios doutrinários que se conflitavam com a linha mestra da Codificação original, até mesmo com influências místicas e dogmáticas.

Diante do dinamismo e da progressividade do Espiritismo, antevendo desvios de rumo por novos conceitos e princípios, Kardec alertou na Revista Espírita, de dezembro de 1868, no item IV – O CHEFE DO ESPIRITISMO: “Não faltarão intrigantes, pseudo-espíritas, que queiram elevar-se por orgulho, ambição ou cupidez; outros que alardeiam pretensas revelações com o auxílio das quais procurem salientar-se e fascinar as imaginações por demais crédulas. É também de prever que, sob falsas aparências, indivíduos haja que tentem apoderar-se do leme, com a ideia preconcebida de fazerem soçobrar o navio, desviando-o de sua rota. O navio não soçobrará, mas poderia sofrer prejudiciais atrasos que se devem evitar. São esses, sem contestação, os maiores escolhos de que o Espiritismo precisa preservar-se. Quanto maior consistência ele adquirir, tanto mais ciladas lhe armarão seus adversários.” (KARDEC, 1868, p. 519)

O legado de Kardec era visto por muitos como um chamado à vigilância constante e ao uso da razão para garantir que novos princípios e conceitos estejam de acordo com o controle universal das revelações dos Espíritos.

Após a morte de Kardec, o movimento espírita francês fragmentou-se pelo autoritarismo de seu condutor principal, por interesses particulares de alguns dirigentes, divergências doutrinárias, disputas internas e fraudes, enfraquecendo-o e tornando-o vulnerável, pois não havia um sucessor com a mesma capacidade do Codificador.

Ao lado de Gabriel Delanne e Camille Flammarion, Léon Denis era um dos expoentes do Espiritismo francês, reconhecido como natural sucessor moral e doutrinário de Kardec para dar continuidade às suas obras, mas isso não ocorreu.

Pierre Gaëtan Leymarie, em 1869, sucedeu a Kardec na direção da Revista Espírita, da livraria espírita e da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.

Paulo Henrique de Figueiredo, baseado nos relatos de Canuto Abreu, pesquisador e estudioso espírita, que teve acesso a fontes primárias de Kardec e entrevistou os pioneiros da Codificação em suas viagens à França, revela parte desse momento para o nosso conhecimento, inclusive com fundamento nos documentos de Kardec que se encontram no Centro de Documentação e Obras Raras (CDOR) da Fundação Espírita André Luiz (FEAL).

O acervo de Canuto Abreu é considerado fundamental para a historiografia espírita, permitindo um “retorno a Kardec” com base em documentos autênticos e relatos de primeira mão.

Canuto Abreu identificou grande desvio promovido no movimento espírita, quer na França como no Brasil, afastando-se da proposta original de Kardec. Vejam alguns desses relatos: “Em 1921 e 1922, Canuto Abreu, investigando a história do Espiritismo, surpreendeu-se com os relatos reveladores de fiéis e dedicados pioneiros, como Delanne, Flamarion, Sausse, Léon Denis. (…) Ouviu deles sobre as terríveis dificuldades que a sucessão do movimento espírita francês sofreu após a morte de Allan Kardec em 1869, além das que ele próprio enfrentou durante a elaboração da Doutrina.” (FIGUEIREDO, 2019, p.86)

Figueiredo conta sobre a influência de Leymarie para o declínio do Espiritismo na França: “Numa aventura destinada a aumentar seus proventos, já que destinara a si mesmo um salário e parte dos lucros da Sociedade e isso não lhe parecia o bastante, envolveu-se numa fraude a partir das falsas fotografias de Espíritos vendidas aos clientes esperançosos de rever seus parentes desencarnados e acabou preso, ‘sacrificando a Causa que pretendia conduzir, e perdendo-se no escândalo público’. E então, afirma Canuto, ‘a polícia correicional, após a sentença de 17 de agosto de 1875, cassou ao Espiritismo a licença de funcionar a sociedade regular. A imprensa cobriu de lama e irrisão a memória ilibada de Allan Kardec, e de ridículo a viúva octogenária e os pioneiros que procuravam defender a doutrina inocente.” (FIGUEIREDO, 2019, p.91)

Leymarie, em 1875, foi indiciado por trapaça e fraude em ação judicial denominada de “Processo dos Espíritas”, que envolvia publicação de fotos de espíritos materializados na Revista Espírita do fotógrafo Édouard Buguet, que confessou as fraudes por interesses financeiros, inclusive negou ser médium.

Leymarie foi condenado, em 1877, a um ano de prisão e pagamento de multa.

Tempo depois, a sentença condenatória de Leymarie foi anulada, possibilitando o seu retorno às atividades na direção da Sociedade e da Revista Espírita.

Esse caso causou grande desgaste ao Espiritismo francês junto à opinião pública.

Figueiredo expressa: “Leymarie não colocou em jogo somente a sua reputação, que despencou, mas também a credibilidade do Espiritismo, em virtude do cargo que exercia e da sociedade que representava. Esse episódio alterou decisivamente o futuro da Doutrina Espírita em sua pátria, pulverizando o movimento nas décadas seguintes.” (FIGUEIREDO, 2019, p.94)

Os sucessores de Kardec não conseguiram evitar a contaminação da Doutrina pelas ideias de Jean-Baptiste Roustaing, autor de “Os Quatro Evangelhos” ou “A Revelação da Revelação”, pela psicografada de Émlie Collignon.

Figueiredo relata: “Em busca de fortuna, Leymarie, representante legal do legado de Kardec, cedeu às investidas de Jean Guérin, o mais próximo e fiel apóstolo do rico advogado Jean-Baptiste Roustaing, que lhe deu a missão de gerir milhares de francos para fazer sua obra e seus conceitos invadirem o movimento espírita, sobrepondo-se à de Kardec.” (FIGUEIREDO, 2019, p.95)

Guérin conseguiu o que Roustaing não alcançou e a influência de Roustaing foi fator de discórdia que influenciou caminhos distintos para os movimentos na França e no Brasil.

Roustaing defendia que Jesus não possuía corpo físico, mas corpo fluídico imune à dor, ao sofrimento e às necessidades fisiológicas, sendo ser agênere, cujo entendimento se adequava com o pensamento católico do nascimento de Jesus, da virgindade de Maria e do desaparecimento do corpo do Cristo após a sua morte.

Kardec sustentava que Jesus tinha corpo carnal em sua missão na Terra até a sua morte na cruz para ser modelo de perfeição moral e guia da Humanidade, permitindo vê-lo como exemplo. Para Kardec, a característica de agênere ocorreu em suas aparições após a ressuscitação.

A tese de Roustaing desvalorizava os ensinamentos e exemplos morais do Cristo, pois tudo não passaria de simulação de dor e sofrimento, sem valor algum. Roustaing sustentava a virgindade de Maria e o nascimento milagroso.

Kardec, seguindo a lógica da reencarnação e as leis naturais, desmistificava a ideia de corpo fluídico que não passasse pelo processo biológico, enfatizando a grandeza de Maria sem necessidade de milagres contra as leis da natureza.

Roustaing interpretava a ressurreição e o desaparecimento do corpo de Jesus, após a crucificação, como dissolução fluídica.

O Espiritismo concentra-se na sobrevivência do Espírito e na sua materialização e aparição após a morte.

Roustaing introduziu, também, a queda dos espíritos antes da encarnação, ideia de origem de espíritos pecadores que precisavam de expiação.

Kardec baseava-se no princípio de que espíritos são criados simples e ignorantes, evoluindo por sucessivas reencarnações para o progresso, sem a necessidade de queda original do estado de pureza.

Esses fatores narrados motivaram o declínio do Espiritismo na França.

Chegada do Espiritismo no Brasil

Apesar do declínio na França, o Espiritismo encontrou ambiente propício no Brasil para o seu estabelecimento e a sua expansão, porém com caraterísticas diferentes.

A formação cultural brasileira, marcada por intensa miscigenação de raças, etnias, credos e costumes, distingue-se da formação cultural francesa.

A identidade brasileira originou-se da mistura entre indígenas nativos, portugueses colonizadores e africanos trazidos ao País. Esse processo foi, posteriormente, ampliado pela imigração de italianos, alemães, espanhóis, sírio-libaneses e japoneses.

Essa miscigenação cultural e étnica formou a nacionalidade brasileira de sociedade culturalmente diversificada em comparação com a formação europeia da França.

Da mesma maneira, a religiosidade brasileira é caracterizada pelo sincretismo de crenças decorrente da fusão de matrizes indígenas, africanas e cristãs ao longo de sua história. Essa mescla se intensificou durante o período colonial.

O sincretismo religioso brasileiro vai além, influenciando a arte, a música e as relações sociais, sendo elemento relevante na formação da identidade nacional.

José do Carmo Rodrigues, no livro “Espiritismo no Brasil: história, prática e conversão”, na Introdução, discorre sobre a caraterística da religiosidade brasileira: “O Brasil, ainda, vivendo um império que recém tinha saído da fase colonial, se sustentava nos braços do catolicismo, profundamente arraigado na cultura do povo. (…) A religião caminha lado a lado com o ser humano, desde muito tempo. Há nele a necessidade de se relacionar e se identificar com o sagrado. (…) A religião é o empreendimento humano pelo qual se estabelece um cosmo sagrado. (…) É o peso da tradição e da cultura.”

João do Carmo acrescentou: “Foi assim, cremos nós, que a sociedade brasileira se tornou um imenso laboratório de crenças e experiências religiosas, que, no início da modernização e do processo de pluralismo da segunda metade do século XIX, foi acolhendo novas maneiras de se experimentar o sagrado.”

Assim, pelos aspectos culturais, sociais e religiosos, não é difícil entender por que o Espiritismo, no século XIX, encontrou solo fértil no Brasil para se estabelecer e expandir.

Depois de certo tempo, o Brasil assumia a liderança na prática e na divulgação do Espiritismo, deslocando-se da França para o solo brasileiro.

Entretanto, o estabelecimento do Espiritismo no Brasil não foi imediato e tampouco desenvolveu-se facilmente, pois enfrentou ataques externos desde a sua chegada.

A Igreja Católica via o Espiritismo como ameaça à fé cristã tradicional. Essa oposição fundamentou-se em divergências, considerando a doutrina espírita como heresia e incompatível com a fé cristã. Divergências essa que continuam até os dias atuais.

Os protestantes, como a segunda força religiosa no Brasil, também se opuseram ao Espiritismo por motivos teológicos, principalmente sobre a reencarnação, o valor dos antigos e novo testamentos, a evocação dos mortos, a justificação pela fé e obras e o Espiritismo como terceira revelação. Essas desavenças permanecem até hoje.

O movimento espírita enfrentou, também, oposição da classe médica no tratamento de doenças, porquanto médiuns de cura usavam a homeopatia como meio de prescrever remédios.

A desobsessão espiritual se opunha ao tratamento médico de doenças mentais, além de os médiuns espíritas serem considerados loucos e os centros espíritas local de loucos.

No início da República, pelo Código Penal de 1890, criminalizava-se práticas que supostamente associavam-se ao Espiritismo, como curandeirismo e charlatanismo, sendo os espíritas acusados de crimes contra a saúde pública. Isso permitiu que sessões espíritas fossem invadidas, médiuns presos e centros espíritas fechados pela polícia.

Os jornais de ampla circulação da época discutiam a criminalização do Espiritismo, servindo como veículo para ataques e embates entre o Estado e o movimento espírita.

Cabe, nesse momento de reflexão, trazer os comentários de Alexandre Caldini Neto, do livro “A essência do Espiritismo”, em “O que levou o espiritismo brasileiro a se definir como religião?”, que escreveu:

“Foi nesse ambiente de embate com a Igreja Católica que ocorreu a guinada religiosa do espiritismo no Brasil, já a partir de 1889, sob forte influência de Adolfo Bezerra de Menezes, médico espírita, de família profundamente católica. Sob a liderança de Bezerra de Menezes, então presidente da FEB, o espiritismo foi assumindo um caráter bastante religioso, em alguns aspectos bem próximo dos dogmas, crenças práticas do catolicismo. (…)

Por meio da FEB, Bezerra incentivou o estudo das obras de Jean Baptiste Roustaing, um obscuro advogado francês, contemporâneo de Kardec, que escreveu livros buscando introduzir no espiritismo conceitos comuns nas religiões, porém inexistentes no que a espiritualidade ditou aos médiuns que assessoravam Kardec.

Esse viés religioso e conservador se disseminou pelo espiritismo brasileiro ao longo de todo o século XX.” (NETO, 2025, p. 47)

Mais adiante, Neto, em “Existem dois espiritismos, o religioso e o filosófico?”, o autor se posiciona: “No Brasil, predomina o espiritismo religioso, muito influenciado pelo catolicismo. Para mim, espiritismo é o de Allan Kardec, eminentemente filósofo e ativo.” (NETO, 2025, p. 49)

Contudo, Neto, em “O viés religioso tira o mérito do espiritismo brasileiro?”, respondendo à sua pergunta, expressa:

“De jeito nenhum! O espiritismo, do modo como é amplamente praticado e aceito no Brasil, é muito meritório. Ele traz incontáveis benefícios para os que o praticam, assim como para toda a sociedade brasileira.

O alerta quanto aos rumos que o espiritismo tem tomado no Brasil serve para que não sigamos pelo caminho mais fácil, apenas da caridade material e das orações, em detrimento do nosso aprimoramento moral e intelectual e da transformação da sociedade. Serve também para que evitemos as distrações com fantasias sobre o mundo espiritual, bem como a adoração de gurus espíritas e a suposta autoridade de médiuns e espíritos. Relembrando as orientações da espiritualidade de Kardec, tudo no espiritismo deve ser pautado pela razão, pela lógica e pela serenidade.” (NETO, 2025, p. 67)

Como se pode perceber os assuntos relacionados à chegada do Espiritismo no Brasil são bem polêmicos e motivos de divisões internas no movimento espírita brasileiro.

Divisões internas na condução do Espiritismo no Brasil

Controversas acerca de determinados assuntos e debates conflitantes motivaram divisões internas no movimento espírita brasileiro, tais como: obras de Roustaing no Estatuto da FEB; possíveis adulterações da Codificação Espírita original na França, após a morte de Kardec; a obra “Brasil Coração do mundo, pátria do evangelho”, de Humberto de Campos, na psicografia de Francisco Cândido Xavier; e o Espiritismo como religião.

Uma das controvérsias aponta para possível afastamento do movimento espírita brasileiro das obras originais de Kardec, após a sua morte, em que alguns princípios e conceitos foram inseridos, posteriormente, por influência das obras “Os Quatro Evangelhos” de Jean Baptiste Roustaing, em especial no Capítulo XV – Os milagres do Evangelho e no Capítulo XVII – Predições do Evangelho (5ª edição francesa, 1872), os quais incluem interpretações contraditórias alterando a edição anterior.

No Brasil, desde a década de 1880, um grupo de espíritas do Rio de Janeiro estudou “Os quatro evangelhos” de Roustaing, decidindo difundir essas obras no movimento espírita brasileiro por meio da FEB, encontrando reação de espíritas contrários a essa ação.

Paulatinamente, os grupos afinados com a filiação ideológica Espiritismo-Evangelho foram se reunindo em torno da FEB, consolidando-se, em 1895, em torno da liderança de Bezerra de Menezes.

Atendendo ao pedido da comissão formada por Augusto Elias da Silva, Manuel Fernandes Figueira, Alfredo Pereira, o então gerente do Reformador, e do ex-presidente da FEB Dias da Cruz, Bezerra de Menezes aceitou a indicação à Presidência da Federação mais uma vez, pois já exercera o cargo em 1889.

Porém, dessa vez, Bezerra de Menezes foi eleito com poderes excepcionais pela Assembleia Extraordinária de 3 de agosto de 1895, em que os estatutos da instituição foram reformados a fim tornar obrigatório o estudo da obra de Roustaing, conforme o artigo 4º, § 1º.

Bezerra de Menezes, ao presidir a FEB, consolidou o Espiritismo com forte viés cristão, adotando o estudo de “Os Quatro Evangelhos” de Roustaing, gerando divisões no movimento espírita brasileiro.

Paulo Henrique de Figueiredo, no livro “Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo”, em “A surpreendente denúncia de Canuto”, na página 78, comenta que Canuto Abreu, avaliando as circunstâncias do movimento espírita em 1934, após profundas análises do desvio ocorrido no Espiritismo originalmente proposto por Kardec, no artigo “O Espiritismo e as religiões”, expressa que a FEB, por não querer seguir os preceitos de Kardec, semeou incoerências na doutrina, permitindo mistificações emanadas de falsas autoridades, aceitas de pronto sem maduro exame.

Mais adiante, Figueiredo, baseado em artigo de Canuto Abreu, escreveu:

“Nasceu daí a falsa concepção de um Espiritismo sectário. Retomando a herança daqueles campeões, a Federação Espírita concebeu o plano de nacionalizar a nova filosofia, dando-lhe uma interpretação brasileira e esperando impingi-la ao resto do mundo como sendo a verdadeira doutrina. (…)

Na verdade, se a alma brasileira fosse distinta das outras almas, e se todas diferissem nos seus atributos, nos seus instintos e na sua fenomenologia, seria admissível para cada indivíduo, raça, povo ou seita um Espiritismo particular, o que implicaria a impossibilidade de sua generalização.

O que fizeram os inovadores? Com o fundamento de aperfeiçoarem a Doutrina de Kardec, adotaram a extravagância religiosa de Roustaing, já fulminada pelo mestre com argumentos irrefutáveis, ao vir à luz. O Jesus fluídico daquele escritor fascinou a nova seita, centralizando a concepção de um espiritismo beato, tão inconsistente e falso como o fantasma que o encabeça.” (FIGUEIREDO, 2019, p. 79)

Figueiredo, em seguida, reafirma que essa proposta encontrou guarida na FEB, endossando uma doutrina contrária à de Kardec, dizendo: “De fato, Roustaing é a antítese de Kardec. Em Kardec há uma ciência, em Roustaing não há ciência alguma. Em Kardec não há milagres nem dogmas, em Roustaing só há milagres e dogmas. (…)” (FIGUEIREDO, 2019, p. 79)

Naquela época, segundo Canuto Abreu, diretores da FEB entendiam as explicações de Roustaing com mais ampla do que as de Kardec, inclusive Manuel Faustino de Freitas Quintão, então presidente da FEB, escreveu na revista Reformador, de maio de 1917, na página 167: “Ao contrário, eles se complementam (…) estudando Kardec sem ‘parti pris’, pode a sua obra se considerada uma tarefa preliminar destinada ao grande público cético ou profano, e daí o seu cuidado evidente em chocar certas teorias, sempre que as comentava pessoalmente (…) Roustaing, ao contrário, preposto a uma tarefa complementar, viria tocar o mundo religioso imanente, essencial de todos os tempos, tudo dizendo sem ambiguidade nem restrições, e ferindo a fundo escolas, dogmas, preconceitos e consciências.” (FIGUEIREDO, 2019, p. 71)

Quintão, na mesma revista, na página 215, continua: “Nós cremos ter deixado patente o nosso pensamento no artigo anterior: a revelação de Roustaing abrange, ao nosso ver, um plano universal, que alteia a onipotência Divina; a revelação de Kardec adstringe-se à esfera planetária e nela é integra e completa, também (…) Routaing deveria ter explicado e desenvolvido o que Kardec deixou de aclarar.” (FIGUEIREDO, 2019, p. 71)

Figueiredo comenta, mais adiante, que a posição de Quintão é clara e sincera, mas demonstra desconhecimento do verdadeiro caráter do Espiritismo, opondo-se a Kardec.

Comenta, ainda, na página 74, que Canuto Abreu desejava pôr a limpo as profundas diferenças entre o Espiritismo proposto por Kardec no século XIX e esse novo movimento espírita que se afastava dele debaixo de seus olhos, no início do século XX.

Após intensas pressões de estudiosos e pesquisadores espíritas, reparando a originária inclusão no Estatuto da FEB, a 10 de agosto de 2019, em Assembleia Geral Extraordinária, a Federação aprovou a retirada do estudo das obras de Roustaing de seu Estatuto, ocasião em que muitos espíritas comemoraram, enquanto outros acharam irrelevante e alguns nem sabiam quem era Roustaing.

Nessa Assembleia, foi criado um artigo definindo que o estudo de obras subsidiárias e coerentes com a Codificação será decisão do Conselho Diretor da FEB, estabelecendo assim um certo controle dos rumos da Doutrina Espírita.

Embora a FEB tenha retirado a referência de Roustaing de seu Estatuto, os debates das adulterações das obras de Kardec e a natureza do Espiritismo como religião permanecem.

Os que defendem a hipótese de adulteração das obras de Kardec

Para essa tese, pesquisadores alegam que, após a morte de Kardec, alterações significativas foram feitas na 5ª edição de “A Gênese” sem o consentimento do Codificador.

A tese concentra-se nas diferenças entre a 4ª edição (1868) e a 5ª edição (1872) francesa, em que a questão central é se as modificações foram feitas por Kardec antes de sua desencarnação (1869) ou inseridas indevidamente após sua morte (1872).

Pesquisas indicam que passagens foram modificadas, suprimidas ou acrescentadas em relação à 4ª edição, que foi a última publicada em vida.

Os defensores dessa tese apontam que não há evidências documentais de que Kardec tenha finalizado essas revisões específicas antes de sua morte, e que Leymarie agiu sem o consenso da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas ou da viúva de Kardec. 

Argumentam, ainda, que houve mudanças que alteraram o sentido de temas importantes, como as teses de “agênere”, a reencarnação e a natureza do perispírito, aproximando-os das ideias de Roustaing, que contrariam o pensamento original de Kardec.

A 5ª edição francesa foi registrada apenas em 1872, mais de três anos após a morte de Kardec, levantando suspeitas de que os editores posteriores tenham alterado o conteúdo sem o consentimento do autor.

Os que defendem a hipótese de não haver adulteração

A polêmica sobre a 5ª edição de “A Gênese” é um dos temas mais debatidos no movimento espírita contemporâneo, envolvendo a análise técnica de documentos históricos franceses, do século XIX, e a interpretação de fontes primárias.

A localização de supostos exemplares da 5ª edição datados na capa com o ano de 1869, ano do desencarne de Kardec, contesta a ideia de que as alterações foram feitas apenas em 1872 por Leymarie.

A FEB considera a 5ª edição como a definitiva, revisada e ampliada pelo próprio Codificador, baseando-se na análise de que não há provas sólidas de adulteração póstuma.

Esse assunto permanece sem consenso, em que os dois lados apresentam evidências. No entanto, a controvérsia dessas alterações de adulteração continua ativa.

“Brasil Coração do mundo, pátria do evangelho”, de Humberto de Campos, na psicografia de Francisco Cândido Xavier

A obra “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, psicografada por Chico Xavier e atribuída ao Espírito Humberto de Campos, publicada pela FEB em 1938, é motivo de outras controvérsias, debates e divisões no movimento espírita brasileiro.

A obra é considerada um clássico por muitos, enquanto outros espíritas a questionam, especialmente em relação ao seu contexto histórico de implicações sociopolíticas.

Publicado durante o Estado Novo, de 1937 a 1945, no período do governo de Getúlio Vargas, o livro insere-se em momento com forte apelo nacionalista.

A obra reinterpreta a história brasileira sob ótica espiritual, definindo Ismael como condutor espiritual da nação.

Os críticos da obra enxergam-na como ufanista e nacionalista, romantizando a colonização e apresentando uma visão messiânica do Brasil.

Alguns pesquisadores espíritas sugerem que o livro pode conter interpolações, com inserções que não seriam originais do autor, prejudicando a narrativa.

A ideia central de que o Brasil tem um destino especial como a “Pátria do Evangelho” é vista por alguns como arrogância ou prepotência, questionando por que um país seria superior a outros na vivência dos ensinamentos de Jesus. Essa perspectiva de destino manifesto ou eleição espiritual é ponto central da divisão interna entre os espíritas.

Pelo livro, essa missão não seria imutável, mas oportunidade coletiva de evolução, que depende do livre-arbítrio dos brasileiros para ser cumprida.

Já defensores da obra veem nela uma revelação espiritual profunda que oferece propósito de amor, caridade e fraternidade para o País, acreditando que o Brasil tem a missão de “coração do mundo” para espalhar paz e ensinamentos cristãos redivivos pelo Espiritismo.

Em 1944, a viúva de Humberto de Campos, Catarina Vergolina de Campos, processou Chico Xavier e a FEB para reivindicar direitos autorais sobre essas obras psicografadas.

A ação visava reconhecer a autoria espiritual ou retirar os livros de circulação. O judiciário negou o pedido, entendendo que a morte extingue a personalidade jurídica, impossibilitando direitos autorais sobre obras “pós-túmulo”, ou seja, o Direito não reconhece produção intelectual de espíritos e que o autor falecido não poderia adquirir direitos.

Após esse processo, o Espírito de Humberto de Campos passou a assinar suas obras como Irmão X para evitar novos conflitos.

A obra continua a ser amplamente debatida, dividindo opiniões entre aqueles que a aceitam como revelação e os que a analisam com ceticismo e messianismo.

A descrença diante da possibilidade de estar sendo enganado

Ninguém gosta de ser enganado ou manipulado e, quando se percebe nessa situação, a descrença toma conta da pessoa, de um grupo ou seguidores.

A experiência de ser enganado gera impacto que transcende a decepção, corroendo e destruindo a relação de confiança, provocando transição da crença para o ceticismo, podendo resultar mágoa, revolta, ansiedade e medo por estar sendo manipulado.

Enquanto não esclarecidas e resolvidas as questões que levam a divisões internas no movimento espírita brasileiro, elas continuarão a ser motivos de desconfianças, afastando-se cada vez mais de uma desejável união, ou até mesmo provocando perda de adeptos.

No cenário atual, a quebra de confiança por dúvidas quanto aos desvios doutrinários e a omissão das lideranças espíritas podem levar a profundas crises de credibilidade, podendo, inclusive, conduzir para os rumos que ocorreram na França.

Por outro lado, a diversidade de opiniões, percepções e vivências torna a unidade de pensamento não apenas difícil, mas muitas vezes indesejável, sendo a dissidência um elemento natural na busca por novos caminhos pela manifestação da autonomia individual (livre-arbítrio e consciência própria) e da necessidade de mudança.

A unidade será possível não pela supressão das diferenças de pensamentos, mas pela reconciliação com objetivos comuns, capazes de se estabelecer mecanismos de controle doutrinário, como Kardec o fez durante a Codificação Espírita.

Para pensar e refletir

Dalmo Duque dos Santos, no livro “Nova história do Espiritismo: dos precursores de Kardec a Chico Xavier”, em “Livro IV – O movimento espírita”, em “Semelhanças e diferenças”, traz as seguintes reflexões:

“A principal causa da deturpação e desvio das grandes ideias filosóficas e concepções religiosas é que o homem, não se esforçando o suficiente para compreendê-las, passam a adaptá-las ao seu modo de ser e de agir. (…)

Quando os espíritos e Allan Kardec montaram o corpo doutrinário do espiritismo já contavam com possíveis desvios ou adaptações dos princípios fundamentais, pois que, apesar do grande embasamento filosófico, nenhuma doutrina, na sua expressão social, pode resistir à força da cultura na qual está inserida. (…)

Então, por mais que o espiritismo seja claro nos seus conceitos, a maioria dos espíritas ainda está muito longe da clareza e objetividade das ideias dos seus propositores, mantendo-se muito próximas de suas antigas raízes religiosas e intelectuais. (…)

Não é uma questão de capacidade intelectual, mas de cultura, de maturidade espiritual ou ainda de tendências comportamentais, que são coisas diferentes entre si, que possuem diferentes forças influenciadoras. Praticamente, todas as controvérsias e divergências que encontramos no movimento espírita são reflexos desse fator cultural que ainda está muito arraigado nos espíritos dos adeptos, sobretudo dos líderes. (…)

Ideias extremistas do tipo ‘espiritismo não é religião’ ou no seu inverso ‘espiritismo é apenas religião’ podem transformar-se em seitas intelectuais isoladas, ou em seitas evangelistas de massa, cujos germes do fanatismo se diferenciam apenas no enfoque que cada uma dá à sua forma de pensar. (…)

Negar que existam essas tendências ou discriminá-las é uma forma de manter certo exclusivismo ou diferencial em relação à maioria; é também prova de um comportamento elitista. Elitismo é arrogância e esta gera a intolerância, comportamento frontalmente contra os ensinamentos do espiritismo e dos espíritos que opinaram nos textos da codificação.”   (SANTOS, 2010, p. 302)   

Essas reflexões de Santos vêm bem a propósito, porquanto o fator cultural e o sincretismo religioso do Brasil moldaram o movimento espírita no País e negar essa influência será ignorar a realidade brasileira.

Assim, a falta de unidade doutrinária e de um debate franco e aberto tem sido desafio contínuo a ser enfrentado na busca da essência do Espiritismo.

Espiritismo como religião no Brasil

Dalmo Duque dos Santos, no livro “Nova história do Espiritismo: dos precursores de Kardec a Chico Xavier”, em “Livro I – O encontro dos mundos”, expressou:

“A comunicação com Deus e com as chamadas forças sobrenaturais sempre foi uma das necessidades mais espontâneas da vida mental humana. Esse sentimento de vazio existencial tem sido a marca principal do esforço que fazemos para nos relacionarmos com o Criador. (…)

Desde as mais primitivas experiências de religiosidade totêmicas até os cultos filosóficos mais sofisticados, essa é uma necessidade incontida de falar com Deus e com os deuses, de saber quem somos, de onde viemos e principalmente para onde vamos. (…)

Dessa relação terra-a-terra que procuramos estabelecer com o Criador surgiu também o costume de associar Deus com a nossa imagem e semelhança exterior e a religião com as relações ritualistas de poder entre os humanos e os sobre-humanos.” (SANTOS, 2010, p. 24)

Kardec, na Revista Espírita, Ano VI, dezembro de 1863, em “Período da luta”, p. 504, escreveu sobre os seis períodos do Espiritismo, a saber:

“O primeiro período do Espiritismo, caracterizado pelas mesas girantes, foi o da curiosidade. O segundo foi o período filosófico, marcado pelo aparecimento de O Livro dos Espíritos. A partir deste momento o Espiritismo tomou um caráter completamente diverso. (…)

Estamos, pois, em pleno período de luta, mas este não terminou. Vendo a inutilidade dos ataques a céu aberto, vão ensaiar a guerra subterrânea, que se organiza e já começa. Uma calma aparente vai ser sentida, mas é a calma precursora da tempestade; não obstante, à tempestade sucede a bonança. (…)

A luta determinará uma nova fase do Espiritismo e levará ao quarto período, que será o período religioso; depois virá o quinto, período intermediário, consequência natural do precedente, e que mais tarde receberá sua denominação característica. O sexto e último período será o da regeneração social, que abrirá a era do século vinte.”

Pela visão de Kardec, após o terceiro período de luta, dar-se-ia o quarto período religioso, que coincide com os tempos atuais.

Não há como negar que o aspecto religioso do Espiritismo é o fator que mais atraiu adeptos no Brasil, adaptando-se à cultura brasileira e ao sincretismo de crenças, focando na transformação moral cristã, na reencarnação, no consolo e na caridade.

José do Carmo Rodrigues, no Capítulo 1, “O espiritismo e suas origens”, nos itens “1.3 Espiritismo: ciência ou religião” (p. 45) e “1.3.2 O espiritismo como religião” (p.52), faz uma abordagem peculiar sobre esse tema, a saber:

“Desde o seu início no século XIX, o espiritismo esteve entre três polos: de um lado, os que consideravam uma nova ciência; do outro, estavam os poucos que consideravam o espiritismo uma religião; e outros, ainda, apenas uma filosofia. Nas obras de Kardec, o aspecto científico estaria representado pelos livros O Livro dos Médiuns e A Gênese; o aspecto filosófico, por O Livro dos Espíritos; e o aspecto religioso por O Evangelho Segundo o Espiritismo. (…) Ainda hoje, existem opiniões conflitantes, dentro e fora do meio espírita, sobre ser o espiritismo uma ciência ou uma religião. (…)

Kardec justifica, então, a priori, o espiritismo como ciência, pelo estudo sistemático que fez de fatos observáveis. Busca nesse estudo uma verdade que os explique dentro do estoque de recursos disponíveis em seu tempo. (…)

Kardec aplicava os métodos que aprendera a desenvolver em sua vida profissional e pelos quais teve vários de seus trabalhos reconhecidos e até premiados como o que recebeu, em 1831, da Academia Real Arras, por ter saído vencedor em um concurso daquela instituição. (…)

Uma das questões que deve ser objetivamente discutida nesta obra é o fato de o espiritismo ser ou não uma religião. Quem começa essa polêmica é o próprio Kardec, quando, procura, de início, descaracterizar o espiritismo como uma nova religião. (…)

Ele mesmo afirma, na sua Revista Espírita, de 1859, que ‘O espiritismo não é pois, uma religião. Se fosse teria seu culto, seus templos, seus ministros. […] e não impõe nenhum culto aos seus partidários, como a astronomia não impõe o culto dos astros, nem a pirotecnia o culto do fogo’. (…) Ele não negava a enorme validade e necessidade de religião … (…)

A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, fundada por ele, não era um templo, senão um centro de pesquisa. Tanto que o estatuto da Sociedade proibia as discussões religiosas concentrando-se nos assuntos de pesquisa. ‘Está classificada na categoria das sociedades científicas, porque, com efeito, seu objetivo é estudar e aprofundar todos os fenômenos que resultam das relações entre os mundos visível e invisível.’ [KAREC, 2005b, p. 207]

Foi com o tempo que os depoimentos dos espíritos foram chamando a atenção para o caráter religioso da nova Doutrina. O Evangelho Segundo o espiritismo (1864) foi o terceiro livro publicado por Kardec sobre o espiritismo. (…)

Mas talvez onde Kardec melhor expresse o que entende por religião e a sua relação com o espiritismo seja por ocasião do seu discurso, na Sessão Anual Comemorativa aos Mortos, em novembro de 1868, transcrita na Revista Espírita do mesmo ano. Naquela oportunidade, Kardec fez o discurso de abertura, com o tema ‘O espiritismo é uma religião?’. Nesse discurso, Kardec diz da importância do pensamento individual e coletivo, em que a soma das vontades dos indivíduos pode operar os maiores prodígios. (…)

‘Um a religião, em sua concepção larga e verdadeira, é um laço que religa os homens numa comunhão de sentimentos, de princípios e de crenças’. [KARDEC, 2006d, p. 490] (…)

O aspecto científico continuou seu caminho dentro dos limites da doutrina, mas o aspecto religioso, com base no cristianismo, alargou a sua influência a ponto de se tornar o dístico de sua empreitada: Fora da Caridade não há salvação. Nesse discurso, realizado na Sessão Anual Comemorativa aos Mortos, em novembro de 1868, Kardec fala de fé, de amor, de compaixão, componentes de uma crença religiosa, e não de um compêndio científico. Valoriza os preceitos morais da fraternidade e confirma a força da oração. Convida seus correligionários ao respeito a todas as crenças e a ‘[…] ver, enfim, nas descobertas da ciência, a revelação das leis da Natureza, que são as leis de Deus: eis o Credo, a religião do espiritismo’. [KARDEC, 2006d. p.494] (…)

Percebe-se a pressão do conceito arraigado de religião, patrocinado pelas religiões que se consideram como tal, a exigir uma estrutura-padrão de toda nova proposta religiosa. Ou é desse jeito, ou não é religião. Kardec não propôs apenas uma nova forma de ciência, mas também uma outra forma de religião. Uma religião que não precisa de sacerdotes, de rituais, de símbolos, de dogmas. (…)

O que, pelo menos no Brasil, se pode perceber é que o lado religioso do espiritismo aparece com muita ênfase. A prática do espiritismo no Brasil está bastante voltada para a prática da mediunidade, para o estudo do Evangelho de Jesus e das obras básicas da Doutrina Espírita e para a prática da caridade. (…) São muitíssimo raras, no Brasil, as organizações espíritas voltadas para o estudo e a pesquisa dos fenômenos espíritas, como uma ciência. Isso, claro, na proporção das instituições espíritas existentes. (…)

O espiritismo no Brasil é realmente uma religião. (…)

A grande maioria dos espíritas no Brasil não sabe o que seja fazer ciência espírita. (…)

Como então dizer que o espiritismo é ciência, ou mesmo seja pura filosofia, se esses aspectos aparecem pouco na prática espírita brasileira? ‘Portanto, falar de Espiritismo laico – o que significa dizer de um Espiritismo destituído de qualquer ligação com o assunto religião – é um contrassenso e uma negação da obra de Kardec’ [INCONTRI, 2004, p. 86].” (RODRIGUES, 2023, p. 45)

José do Carmo faz uma abordagem lógica e sequencial com argumentos importantes para se debater esse tema, principalmente em sua conclusão de que a força Espiritismo brasileiro é o aspecto religioso.

Autonomia, moral e Espiritismo

Figueiredo, no livro “Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo”, em “Autonomia, a moral do novo mundo”, escreveu:

“A autonomia será a alternativa proposta pelo Espiritualismo Racional e ampliada pelo Espiritismo, qualificando o ato moral como uma escolha livre, racional, consciente e desinteressada. Para ser uma escolha livre, não pode depender de nada externo, mas apenas da vontade. Como, além do ato, importa a intenção, ela precisa ser esclarecida pela razão. A referência do que são o bem e o mal é a própria consciência do indivíduo. (…) Essa definição do ato moral como sendo o dever ultrapassa os limites da justiça, pois a virtude não se limita a deixar de fazer o mal, mas se caracteriza por fazer o bem de forma incondicional. Essa é a definição da caridade desinteressada. (…)

A teoria moral espírita destrói as bases do materialismo e da exploração religiosa, pois demonstra que o interesse em recompensas, seja para ganhar simpatia, melhor condição na outra vida ou para merecer benefícios divinos, caracteriza egoísmo e orgulho.

As religiões ancestrais coincidem com o materialismo do interesse ou heterônoma. Também as consequências morais do Espiritualismo Racional e do Espiritismo coincidem, definindo a moral autônoma.” (FIGUEIREDO, 2019, p. 271)

Figueiredo, em “Espiritismo e moral”, complementa:

“Um dos objetivos mais sérios da Doutrina Espírita está no que toca o coração. As consequências relacionadas à alma, os recursos que ela disponibiliza para aliviar os padecimentos e enfermidades, a esperança oferecida aos espíritos imperfeitos creditando à sua vontade e a seu esforço os meios de superação de seu sofrimento moral; a alegria e o consolo de reencontrar parentes e amigos desencarnados, conversando, ouvindo conselhos, nas reuniões espíritas. (…)

Não importa o quão simples ou iletrado, a Doutrina bem esclarecida faz vibrar a alma e aquece o coração, pois a consciência reconhece o conteúdo verdadeiro, não importa a forma pela qual ele se apresente.

O Espiritismo propõe a fé raciocinada. Acreditar por ter compreendido o que se crê. Mas o verdadeiro espírita tem fé, reflete sobre a crença e a realiza. Um agir de forma crítica e meditada. (…) Em outras palavras, segundo Kardec, ‘Sem dúvida, é alguma coisa crer, porque já é um pé colocado no bom caminho; mas a crença sem prática é uma letra morta’. O Espiritismo, dessa forma, participa das transformações sociais da humanidade não só pela letra, mas pela ação dos espíritas.” (FIGUEIREDO, 2019, p. 341)   

Figueiredo, em “A moral e a busca da felicidade”, a respeito da moral da salvação formulada pela doutrina da Igreja durante a Idade Média, paternal e assistencialista, moral da pobreza e do sacrifício, ressalta:

“Nessa visão heterônoma das Igrejas, o crente que busca obedecer às regras morais imagina uma divindade a quem teme e à qual deve ser submisso. Um ser vigilante e vingativo que pode causar a desgraça a quem não reconhecer seu poder. O indivíduo pensa: ‘Deus está vendo, não quero ser condenado’. O sentimento principal é o do medo, qualquer erro desperta o sentimento de culpa, o terror de ser condenado após a morte. É importante compreender que a eficácia do medo está na constante ameaça, que mantém o indivíduo passivo, e não no cumprimento do castigo.” (FIGUEIREDO, 2019, p. 343)

Figueiredo, em “O surgimento de um novo paradigma quanto à moral”, comenta que a moral deriva da escolha livre dos atos, esclarecida pela razão e iluminadas pelas leis divinas presentes na consciência, ou seja, para o despertar da autonomia moral, detalhando:

“Na moral autônoma, as leis morais são internas e estão presentes na consciência. Ela se estabelece pelos princípios da liberdade e da igualdade. A virtude está na compreensão dos princípios morais e sua aplicação na vida por meio da vontade esclarecida, agindo por convicção, independentemente de recompensas e castigos. Não se privilegia nem se despreza ninguém, e se considera importante a participação de cada um. Não há submissão, e sim respeito mútuo, reciprocidade, cooperação e solidariedade.  (FIGUEIREDO, 2019, p. 347)

Figueiredo, ainda, relaciona a moral com felicidade e perfeição, em que Deus é a perfeição absoluta e o ser humano, como ser inteligente espiritual, também tem o atributo de perfectibilidade, sendo diferenciado um do outro pelo grau de perfeição, ou seja, quanto mais o ser evolui, mais ele se aproxima da natureza divina. Afirma que a motivação do comportamento moral é um reconhecimento de sua filiação divina, tendo por meta aperfeiçoar-se sempre na busca da perfectibilidade.

Sem entrar no debate de Roustaing, da adulteração das obras de Kardec e do livro “Brasil Coração do mundo, pátria do evangelho”, os aspectos científico e filosófico do Espiritismo são importantes para iluminar o interior de cada ser humano com as verdades divinas que purificam o coração e conduzem para o caminho do bem.

Mas é a prática da lei maior do amor, caridade ou amor em ação, que impulsiona as pessoas para a almejada evolução moral e espiritual, fazendo-as agir de acordo com os ensinamentos e os exemplos do Mestre Jesus, que são normas de condutas para a vida.

O Livro dos Espíritos ensina que Jesus é modelo de perfeição moral que Deus oferece ao ser humano para impulsionar seu progresso moral e espiritual, porquanto o Cristo é o caminho, a verdade e a vida eterna, em que ninguém chegará ao Pai a não ser por ele.  

O Espiritismo é religião, mas não aos moldes de outras crenças. Ele é religião na essência de se praticar o que se prega, pois todo conhecimento sem a prática é inútil, seria a mesma coisa do que a fé sem obras.

De nada adiantaria ter pleno conhecimento dos aspectos filosóficos e científicos do Espiritismo se não os colocar em prática na sua vida como norma de conduta.

Esse arcabouço de princípios e conceitos não passariam de meras informações sem qualquer aplicação em sua existência. Ninguém evoluirá moral e espiritualmente somente com conhecimentos filosóficos e científicos. De onde viriam as obras com méritos?

Religião é religação com Deus, em que rituais, práticas exteriores, dogmas, dentre outros tantos, são criações humanas, assim como a própria religião.

A vertente religiosa espírita centra-se na pessoa, no seu livre-arbítrio, na escolha do seu destino, em suas obras e seus merecimentos, na reforma íntima por meio do autodescobrimento, do autoconhecimento, na conscientização de si mesmo, na vontade da regeneração, da transformação moral pela mudança de atitudes e comportamentos. Sem esses entendimentos, os debates ficam concentrados na comparação com outras crenças.

Além disso, o Espiritismo respeita o livre-arbítrio e as crenças que cada um adotou para sua vida. O Espiritismo não busca converter ninguém. O respeito é também para com o ateu.

Bom lembrar a passagem evangélica do Centurião de Cafarnaum, militar, cidadão romano, que representa exemplo do homem de bem pela força de suas qualidades morais e pela fé que tinha, conseguindo transformar adversários em amigos, que se solidarizaram com ele num momento em que buscou auxílio de Jesus em benefício de um servo doente. Diante da surpreendente fé do romano, Jesus disse: “em verdade vos afirmo que nem mesmo em Israel achei tamanha fé”.

Como o Espiritismo caminharia sem os ensinamentos e os exemplos de Jesus?

O crescimento do Espiritismo no Brasil

Alexandre Caldini Neto, em “A essência do Espiritismo”, expressa que o Espiritismo cresceu no Brasil por diversos fatores: mediunidade; religiosidade; catolicização; caridade; elite; e Chico Xavier.

Alexandre diz que: a mediunidade faz parte da nossa cultura, antes mesmo da chegada do Espiritismo; a forte religiosidade advém dos colonizadores portugueses e de outros imigrantes; a  inserção do caráter religioso no Espiritismo brasileiro facilitou a sua aceitação em um País de maioria católica; a caridade foi uma forte ação espírita que serviu de contrapeso ao preconceito reinante da época; a elite brasileira de influência cultural francesa tinha mais facilidade de acesso e entendimentos dos livros da Codificação editados em francês; e a vida espírita de Chico Xavier.

Francisco Cândido Xavier (1910-2002), o Chico Xavier, contribuiu significativamente para o crescimento do Espiritismo no Brasil, sendo o seu maior expoente.

O impacto Chico Xavier é incomparável, tendo psicografado mais de 450 livros e vendido mais de 50 milhões de exemplares, consolidando o Brasil como a maior nação espírita do mundo.

Chico Xavier popularizou o Espiritismo, transformando a Doutrina Espírita em um movimento de massas e de forte apelo popular e cristão.

Além disso, viveu de forma humilde e cedeu todos os direitos autorais de seus livros para instituições espíritas e de caridade, exemplificando a caridade que pregava.

Sua vida e mediunidade foram amplamente difundidas, inclusive por meio de programas de televisão, como o Pinga-Fogo na década de 1970, que trouxe grande visibilidade para a doutrina.

A morte de Francisco Cândido Xavier, em 30 de junho de 2002, é reconhecida como marco divisório no Espiritismo brasileiro, representando a perda de seu maior expoente e o encerramento de um ciclo de expansão sem precedentes da doutrina no País.

Divaldo Pereira Franco (1927–2025) foi também um dos expoentes do Espiritismo, médium e orador, cuja contribuição para a expansão do Espiritismo no Brasil foi vasta, abrangendo obras sociais e literatura mediúnica.

As principais contribuições de Divaldo Franco incluem: fundação da Mansão do Caminho (1952), instituição social que acolhe e educa milhares de crianças, jovens e famílias em situação de extrema vulnerabilidade; obras literárias psicografadas com mais de 250 livros, muitos deles do Espírito Joanna de Ângelis; realizou mais de 20.000 palestras e conferências no Brasil e no exterior.

Divaldo Franco dedicou sua vida a unir a caridade social com a divulgação doutrinária, deixando legado inestimável que influenciou também a expansão do Espiritismo no Brasil.

A busca de unificação doutrinária

A criação da FEB, em 2 de janeiro de 1884, foi importante para estruturar o movimento espírita, divulgar a doutrina e promover o estudo das obras de Kardec.

O Pacto Áureo, de 5 de outubro de 1949, assinado no Rio de Janeiro, foi acordo entre a FEB e as federações estaduais para unificar o movimento espírita no Brasil.

Criou-se, ainda, o Conselho Federativo Nacional (CFN), promovendo a organização conjunta, padronização doutrinária kardecista e a fraternidade nacional.

A despeito do Pacto Áureo, ele manteve as autonomias de condução interna dos centros e grupos espíritas, respeitando os princípios da doutrina. Essa liberdade é um dos pilares do Espiritismo brasileiro.

O movimento espírita brasileiro enfrenta importantes desafios focados na manutenção de sua essência doutrinária diante da dinâmica e da progressividade das revelações espíritas que acompanham o progresso humano e os avanços da Ciência, na consolidação do aspecto religioso, que atrai adeptos, e na unificação de pensamentos e ações pela pacificação das divergências de interpretações e divulgação da doutrina espírita.

A necessidade de união e divulgação da doutrina são temas centrais diante de diferenças entre os que seguem estritamente a codificação e os que focam mais aspectos religiosos ou obras complementares.

Percebe-se preocupação constante em evitar que a doutrina se desvie dos preceitos estabelecidos por Kardec nas obras básicas e, ao mesmo tempo, enfrentar o desafio de não transformar o Espiritismo em religião dogmática, mantendo-o como filosofia de transformação moral e racional.

Nesse contexto, a vertente religiosa, focada no cristianismo redivivo e na vivência do Evangelho de Jesus, é a que mais atrai adeptos no Brasil, mas o desafio é manter o equilíbrio com os aspectos científico e filosófico.

Os dados do Censo Demográfico de 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2025, indicam redução na proporção de pessoas que se autodeclaram espíritas no Brasil. O Censo 2022 apontou que os espíritas passaram de 2,2% da população brasileira em 2010 para 1,8% em 2022.

Apesar da redução, o Espiritismo no Brasil mantém o segundo maior contingente percentual da sua história recente, oscilando entre 1% e 2% nas últimas quatro décadas

A perspectiva atual para o movimento espírita brasileiro envolve pensar com a racionalidade de Kardec, inseridos em seu aspecto religioso, e com sensibilidade social para divulgar a essência da doutrina.

Essa perspectiva está centrada na conciliação entre a racionalidade de Kardec e a necessidade de adaptação aos novos tempos, marcada por sensibilidade social e acolhimento emocional.

Nesse contexto, os espíritas, diante de eventuais conflitos, precisam identificar o que é essencial, deixando de se contaminar por sentimentos que distorcem a fé raciocinada.

Nas desavenças segregadoras, perde-se o foco do Espiritismo como “O Consolador Prometido”, representado pela Codificação Espírita de Kardec, presidida pelo Espírito de Verdade com o auxílio de Espíritos Superiores, desvendando as coisas espirituais que o homem não pode descobrir por si mesmo.

Importante recordar que a Codificação Espírita é construção coletiva, formado pelo conjunto dos seres do mundo espiritual, cada um trazendo o tributo de suas luzes aos homens, para lhes tornar conhecido esse mundo e a sorte que os espera.

A Doutrina Espírita não foi ditada completa, nem imposta à crença cega, porque é deduzida pelo trabalho do homem, da observação dos fatos que os Espíritos põem sob os nossos olhos e as instruções que nos dão. As revelações são incessantes, complementares e acumulativas de conhecimentos, sendo transmitidas por diversos meios e médiuns.

Jesus revelou a verdade divina pela Palavra que liberta aqueles que creem e praticam os seus ensinamentos e exemplos como roteiros de vida. A verdade de Deus é absoluta, única, eterna e imutável.

Para o ser humano, o conhecimento da verdade divina é proporcional à sua evolução moral, intelectual e espiritual, sendo que as revelações espíritas sempre ocorrerão quando pudermos assimilar e suportar seus conteúdos. Portanto, o conhecimento da verdade divina tem relação com o estágio evolutivo e a capacidade de compreendê-la.

A despeito da condição evolutiva de cada um, são inadequados debates que desviem os trabalhadores espíritas do serviço a ser realizado junto aos seus semelhantes.

A esse respeito, veio à mente as palavras de Francisco Cândido Xavier: “Se Allan Kardec tivesse escrito que fora do Espiritismo não há salvação, eu teria ido por outro caminho. Graças a Deus, ele escreveu fora da caridade, ou seja, fora do Amor, não há salvação.”

O Espiritismo foca a prática da caridade como o principal meio de salvar a alma e promover o progresso moral e espiritual do ser humano.

O Espírito Emmanuel, no livro Pão nosso, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, “No serviço cristão”, alerta para questões essenciais, em que determinados trabalhadores, aprendizes ou grupos espíritas concentram seus esforços em outros assuntos ou fenômenos que não conduzem para a transformação moral do ser humano.

Emmanuel chama atenção para debates secundários que não conduzem para a transformação moral das pessoas.

As consequências dos esclarecimentos espíritas devem estimular a reforma íntima na prática do bem para a construção do reino de Deus dentro de si. Por isso, imprescindível caminhar com Jesus pelas verdades divinas que libertam a alma.

A Doutrina Espírita mostra o caminho a ser seguido em um longo processo evolutivo de pluralidade de existências e a mensagem cristã de merecimento segundo as suas obras estimula o trabalho e o esforço individual como mola propulsora da construção do saber e da moralização.

O espírita deve dar exemplo, confiabilidade e autoridade àquilo que prega e difunde. A retidão de comportamento, atitude e procedimento no caminho do bem e da caridade terá efeito aglutinador pelo exemplo de fé, esperança e confiança em Deus e no Mestre Jesus.

Não se pode perder o foco do lema espírita: “fora da caridade não tem salvação!”

O atual momento de transição planetária exige perseverança e vigilância por parte dos trabalhadores espíritas para não se desviarem do caminho da prática do amor na forma da caridade, principalmente acerca de questões polêmicas circunstanciais de relevância temporária própria de seres humanos imperfeitos em processo evolutivo.

O Evangelho de Jesus é o Código Moral dos cristãos, que se fundamenta na lei de Deus, na lei maior do amor, e a moral que a Doutrina Espírita ensina é a de Jesus Cristo.

Para sermos considerados discípulos de Jesus é necessário o desenvolvimento de valores morais cristãos. Por conseguinte, devemos buscar o que é essencial.

Ao invés de cultuar cisões decorrentes de questões secundárias, o importante será unir esforços no trabalho edificante na prática do bem, com fundamento no Evangelho Redivivo de Jesus e nos princípios de O Consolador Prometido.

Para tanto, será preciso cultuar a vigilância de atitudes e comportamentos para não se desviar do caminho da luz.

A força do Espiritismo não está na individualidade, em certo grupo ou na entidade. Ela está na própria Codificação Espírita e nas consequências morais e éticas que ela estimula e desenvolve.

Divergência de opinião e interpretações sempre haverá, mas que sejamos unidos pelo lema “fora da caridade não há salvação”, como instrumento de transformação moral e espiritual de cada ser humano na busca da fraternidade universal e da perfeição.

Autor: Juan Carlos Orozco

Referências:

EMMANUEL (Espírito); (psicografado por) Francisco Cândido Xavier. Pão nosso. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2018.

FIGUEIREDO, Paulo Henrique de. Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo. 1ª Edição. São Paulo/SP: FEAL, 2019.

GARCIA, Wilson. Ponto final: o reencontro do espiritismo com Allan Kardec. 1ª Edição. Capivari/SP: Editora EME, 2020.

KARDEC, Allan; tradução de Evandro Noleto Bezerra. A Gênese. 2ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 131ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

KARDEC, Allan; tradução de Evandro Noleto Bezerra. Obras póstumas. 2ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2021.

NETO, Alexandre Caldini. A essência do Espiritismo. 1ª Edição. Rio de Janeiro/RJ: Sextante, 2025.

REVISTA ESPÍRITA, tradução de Evandro Noleto Bezerra. Período de luta. 1ª Edição. Federação Espírita Brasileira, 1863.

REVISTA ESPÍRITA, tradução de Evandro Noleto Bezerra. IV – O Chefe do Espiritismo. 1ª Edição. Federação Espírita Brasileira, 1868.

RODRIGUES, José do Carmo. Espiritismo no Brasil: história, prática e conversão. 1ª Edição. Curitiba/PR: Appris, 2023.

SANTOS, Dalmo Duque dos. Nova história do Espiritismo: dos precursores de Kardec a Chico Xavier. 1ª Edição. Limeira/SP: Editora do Conhecimento, 2010.

Para acessar o Blog Reflexões espíritas, clicar no link abaixo:

https://juancarlosespiritismo.blog/

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