Essa reflexão discorre sobre a ideia de Deus com dificuldade para definir, conceituar e identificar a natureza, o princípio, as caraterísticas, os atributos e as ações divinas.
Essa dificuldade ocorre porque Deus foge ao objeto de estudo empírico exigido pela metodologia científica, que investiga fenômenos físicos e leis naturais para formular hipóteses que levem a estudos, pesquisas, investigações, mensurações e comprovações por meio da Ciência, sem transitar o que transcende uma visão materialista.
Assim, Deus está fora do escopo da Ciência, sendo tema mais para a filosofia e as religiões, que buscam explicações para além da matéria.
Allan Kardec norteou seu trabalho de Codificação Espirita na razão e no bom senso da fé inabalável, sendo característica de sua obra que seguia as ideias positivistas da época pela metodologia científica. Kardec como educador e pesquisador agia com rigor científico, adotando abordagem racional e experimental para o estudo dos fenômenos mediúnicos.
Ele defendeu a aliança da Ciência com a religião, como alavancas da inteligência humana, em que uma revela as leis do mundo material e a outra as do mundo moral, ambas com os mesmos princípios por suas leis, que é de Deus, sem se contradizerem.
Para Kardec, Espiritismo e Ciência deveriam caminhar juntos. Caso a Ciência provasse que a Codificação estaria errada em algum ponto, a Doutrina deveria modificar-se, pois a verdade é uma só.
Portanto, o aspecto científico do Espiritismo baseia-se em estudos, observações, pesquisas, experimentações e análises dos fenômenos mediúnicos e anímicos, tratando da natureza, da origem e do destino dos Espíritos e as suas relações com o mundo corporal.
Importante registrar as palavras de Paulo Henrique de Figueiredo, no livro “Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo”, em “O método das ciências”, que disse:
“… Allan Kardec não produziu a teoria por si mesmo, uma vez que ela teve como origem os ensinamentos dos Espíritos superiores. Foi um trabalho coletivo de Espíritos encarnados e desencarnados. Os diversos centros de pesquisa garantiam a diversidade de médiuns necessários para evitar uma origem única de ideias, o que manteria tudo somente no campo da opinião.
A universalidade do ensino dos Espíritos superiores é o que permite verificar a procedência e veracidade do ensino, além do exame racional e metódico das hipóteses. Por isso, a tarefa fundamental de Kardec, repetimos, na análise das comunicações, foi, em suas palavras, ‘avaliar os graus de confiança que a razão permitia conceder-lhes, distinguir as ideias sistemáticas, individuais, e isoladas daquela que receberam a sanção do ensinamento universal dos Espíritos’. E para isso ele se valeu da metodologia científica apropriada a esse objeto de estudo, disponível em seu tempo, que foi o das ciências filosóficas.” (FIGUEIREDO, 2019, p. 255)
Nesse contexto, Kardec em “O Livro do Espíritos”, nas questões de 1 a 16, cuida do tema Deus, começando com a pergunta “Que é Deus?”, tendo como resposta que “Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas”. Destaca-se que Kardec não pergunta quem é Deus, afastando a hipótese de uma pessoa em algum lugar do Universo.
O Codificador Espírita apresenta novo conceito de Deus, opondo-se a outras crenças religiosas, como, por exemplo, as que adotam um deus antropomórfico, parcial e vingador.
Na verdade, muitas definições religiosas de Deus limitam-no, tentando circunscrevê-lo, anulando as suas características e os seus atributos.
Nas questões seguintes, Kardec realiza várias perguntas aos Espíritos Superiores para desvendar um pouco mais a respeito de Deus.
Percebe-se, pelas respostas às perguntas, que a linguagem humana é pobre, incompleta, limitada e insuficiente para expressar Deus, que está acima de seu conhecimento, assentando-se em muitas abstrações.
Os Espíritos Superiores expressam que a prova da existência de Deus está no axioma aplicada pela Ciência, de que não há efeito sem causa, porquanto para a causa do que não é obra do homem, a razão responderá por si só.
Kardec complementa que, para crer em Deus, basta olhar as obras da Criação. Se o Universo existe, logo tem uma causa. Duvidar da existência de Deus é negar que todo efeito tem uma causa e, também, achar que o nada poderia fazer alguma coisa.
Pela obra se reconhece o autor. Há uma inteligência superior à Humanidade, que é causa primária de todas as coisas, seja qual for o nome que se dê.
Não se pode compreender a natureza íntima de Deus porque falta-nos um sentido que somente a evolução espiritual proporcionará, quando menos obscurecido pela matéria.
Quando dizemos que Deus é eterno, infinito, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom, tem-se apenas ideia de seus atributos pelo ponto de vista humano, pois há coisas que a linguagem não tem meio de exprimir, porque estão acima da sua inteligência.
Se Deus fosse um ser material, embora dotado de suprema inteligência, seria algo no Universo que estaria sujeito às adversidades, faltando-lhe atributos de imutabilidade.
Uma certeza é que a inteligência suprema de Deus se revela em suas obras, mesmo sem o conhecimento completo da sua natureza.
Todas as definições de Deus serão insuficientes e, de certo modo, induzem ao erro.
Não procure Deus em imagens e lugares sagrados, mas sim na natureza, no Universo em movimento pelo infinito por toda a eternidade e no esplendor da vida que a morada terrestre oferece.
A vontade que dirige o Universo é imperceptível, porém tudo manifesta a ação de Deus. As forças grandiosas que animam o Universo proclamam a realidade da inteligência suprema.
Deus está em cada um de nós, na consciência, lugar sagrado de intuição.
A percepção de Deus pode ser intuída pela razão, pela observação da Criação e pela ideia de que para todo efeito se pressupõe uma causa.
A concepção espírita de Deus afasta a ideia materializada ou limitada da divindade, convidando o ser humano a percebê-lo na ordem do Universo, na natureza e na consciência humana.
Autor: Juan Carlos Orozco
Bibliografia:
DENIS, León. O grande enigma. 16ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2014.
EMMANUEL, (Espírito), na psicografia de Francisco Cândido Xavier. “O Consolador”. 18ª Edição. Rio de Janeiro/ RJ: FEB, 1997, Questão 310.
FIGUEIREDO, Paulo Henrique de. Autonomia: a história jamais contada do Espiritismo. 1ª Edição. São Paulo/SP: FEAL, 2019.
KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.
