Visitas espíritas entre pessoas vivas: a vida oculta da alma durante o sono

Segundo a Doutrina Espírita, a existência humana não se restringe à vida de relação observável no plano físico. Durante o sono, a emancipação da alma possibilita que o Espírito possa visitar, dialogar e reunir-se com outros Espíritos encarnados.

Esse fenômeno, examinado nas questões de 413 a 418 em “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, indica que os limites corporais e a distância geográfica não impedem o intercâmbio entre Espíritos.

As denominadas “visitas espíritas entre pessoas vivas” constituem uma dimensão relevante da experiência humana, cujos efeitos se manifestariam na vida cotidiana por meio de intuições, inspirações e afinidades, cuja origem nem sempre é conscientemente identificada.

Duas fases de uma só existência

A emancipação da alma, durante o sono, não pressupõe a coexistência de duas vidas autônomas e paralelas, conforme esclarecem os Espíritos Superiores na questão 413: “… não há, verdadeiramente, duas existências. São antes duas fases de uma só existência, porquanto o homem não vive duplamente”.

Enquanto o corpo repousa no sono, o Espírito se desprende parcialmente da matéria e desenvolve atividades no plano espiritual. Nessa situação, ocorre uma relação entre as dimensões espiritual e corporal.

O encontro entre Espíritos encarnados durante o sono

Pela emancipação da alma, duas pessoas vivas podem encontrar-se, comunicar-se e prestar auxílio mútuo durante o sono.

A questão 414 esclarece: “Podes ter, sem que o suspeites, amigos em outro país. É tão habitual o fato de irdes encontrar-vos, durante o sono, com amigos e parentes, com os que conheceis e que vos podem ser úteis, que quase todas as noites fazeis essas visitas.”

Pessoas que não se conhecem no estado de vigília, podem manter vínculos no plano espiritual, inclusive em decorrência de relações estabelecidas em existências passadas, de acordo com esclarecimentos da questão 417, os quais mencionam “laços antigos ou recentes da amizade”, responsáveis por reunir Espíritos em assembleias durante o sono.

A utilidade das visitas e a intuição ao despertar

A ausência de lembrança desses encontros no plano espiritual, ao despertar, suscita a questão de sua utilidade.

A resposta à questão 415 afirma que, ao despertar, o indivíduo conserva a intuição do que teria vivenciado; dessa percepção, decorrem ideias espontâneas, cuja origem não é reconhecida conscientemente.

Nesse contexto, pensamentos, inspirações e possíveis soluções podem surgir na vigília de modo inesperado, como conteúdos interiores, em que a procedência permanece desconhecida para o indivíduo, os quais seriam adquiridos nas confabulações espirituais realizadas durante o sono.

O papel da vontade e dos méritos espirituais

A questão 416 informa que a vontade do indivíduo encarnado, isoladamente, não assegura que o Espírito realizará determinada visita durante o sono.

Uma vez parcialmente desprendido da matéria, o Espírito pode não se dispor a cumprir o propósito formulado durante a vigília, visto que os interesses da vida corporal tenderiam a assumir menor relevância no estado espiritual.

Espíritos considerados mais elevados tenderiam a buscar companhias e ambientes compatíveis com essa condição, ao passo que aqueles ainda vinculados às paixões terrenas podem dedicar-se a ocupações inferiores ou permanecer inativos.

Desse modo, a qualidade das experiências espirituais atribuídas ao sono estaria relacionada ao grau de desenvolvimento moral do indivíduo.

Verificação de fatos e pressentimentos

A questão 418 examina a hipótese de uma pessoa que, julgando equivocadamente que um amigo faleceu, encontra-se com ele durante o sono e constata que permanece vivo.

Nessa condição, o Espírito, dotado de percepção mais ampla, poderia encontrar o amigo e reconhecer sua situação efetiva.

Ao despertar, o indivíduo poderia conservar um pressentimento acerca da sobrevivência do amigo, desde que esse conhecimento não lhe tivesse sido vedado como parte de uma prova.

Esse mecanismo explica determinados pressentimentos e intuições que não encontram justificativa imediata na experiência consciente.

Conclusão

As visitas espíritas entre pessoas vivas configuram uma outra dimensão da existência humana pela emancipação da alma.

Durante o sono, a alma se desprende parcialmente da matéria e retomaria vínculos no plano espiritual, encontrando-se com amigos, familiares e companheiros de experiências pretéritas.

Embora a memória consciente desses encontros seja preservada, ela poderá se manifestar mediante efeitos perceptíveis, tais como: intuições, inspirações, afinidades e estímulos ao desenvolvimento moral.

A compreensão desse fenômeno permite considerar o sono não apenas como uma necessidade biológica, mas também como oportunidade de renovação, aprendizado e reencontro, por meio da qual o Espírito preserva seus vínculos para além da experiência corporal.

Autor: Juan Carlos Orozco

Bibliografia:

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

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