O sono e os sonhos: uma perspectiva espírita

O sono e os sonhos constituem fenômenos que, ao longo da história, têm suscitado o interesse de diferentes tradições filosóficas, religiosas e científicas.

Enquanto as abordagens de orientação materialista tendem a explicar esses fenômenos com base em processos neurofisiológicos, a Doutrina Espírita propõe uma interpretação que ultrapassa a dimensão corporal, concebendo-os como manifestações da emancipação parcial do Espírito durante a encarnação.

Conforme os ensinamentos apresentados em O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec (questões de 400 a 412), o sono não se reduz a um estado de repouso orgânico; constitui, também, uma ocasião de reconexão do Espírito com o plano espiritual. Nessa perspectiva, os sonhos correspondem a registros fragmentários das experiências vivenciadas nesse estado.

A natureza do sono e dos sonhos

Durante o sono, os vínculos que mantêm o Espírito ligado ao corpo físico afrouxam-se, não precisando este então da sua presença, ele se lança pelo espaço e entra em relação mais direta com os outros Espíritos, encarnados ou desencarnados.

Nessa condição, o Espírito jamais está inativo; ao contrário, pode experimentar uma ampliação de suas faculdades, acessar lembranças passadas e, em determinadas circunstâncias, apreender possibilidades futuras.

O sonho é uma lembrança, ainda que parcial, das percepções e experiências do Espírito durante o sono.

Essa recordação apresenta-se, frequentemente, de forma incompleta e descontínua, uma vez que o organismo físico não tem o pleno desenvolvimento das impressões que não são apreendidas por intermédio dos sentidos corporais.

A incoerência e a aparente ausência de lógica de muitos sonhos decorrem dessas lacunas mnemônicas. O fenômeno pode ser comparado a uma narrativa da qual foram suprimidos, de modo aleatório, frases e segmentos, comprometendo a inteligibilidade do conjunto. Além disso, preocupações próprias do estado de vigília e a influência de Espíritos de menor elevação moral podem alterar ou perturbar as imagens visuais do sonho.

Em “O Livro dos Espíritos”, após a resposta à questão 402, Kardec comenta:

“Os sonhos são efeito da emancipação da alma, que mais independente se torna pela suspensão da vida ativa e de relação. Daí uma espécie de clarividência indefinida que se alonga até aos mais afastados lugares e até mesmo a outros mundos. Daí também a lembrança que traz à memória acontecimentos da precedente existência ou das existências anteriores. As singulares imagens do que se passa ou se passou em mundos desconhecidos, entremeados de coisas do mundo atual, é que formam esses conjuntos estranhos e confusos, que nenhum sentido ou ligação parecem ter. A incoerência dos sonhos ainda se explica pelas lacunas que apresenta a recordação incompleta que conservamos do que nos apareceu quando sonhávamos. É como se a uma narração se truncassem frases ou trechos ao acaso. Reunidos depois, os fragmentos restantes nenhuma significação racional teriam.”

A importância espiritual do sono

O sono desempenha uma dupla função reparadora: favorece a recomposição das forças orgânicas e, simultaneamente, contribui para a renovação das disposições morais do Espírito.

O sono permite que os Espíritos encarnados reencontrem aqueles com quem mantêm vínculos no plano espiritual e recebam orientações, ensinamentos e inspirações que, após o despertar, podem manifestar-se sob a forma de intuições.

Para os Espíritos moralmente elevados, o sono constituiria uma oportunidade de aprendizado e aperfeiçoamento junto a entidades superiores. Por outro lado, Espíritos em estágios menos avançados poderiam voltar-se a ambientes inferiores, movidos por vínculos pretéritos ou pela busca de satisfações de natureza material.

Essa dinâmica explica determinadas simpatias e antipatias, aparentemente espontâneas, em relação a pessoas desconhecidas no plano físico, com as quais poderia ter ocorrido convivência durante o sono.

De modo semelhante, intuições surgidas no estado de vigília podem decorrer de orientações recebidas pelo Espírito durante o repouso corporal.

Graus de emancipação e experiências significativas

A emancipação da alma não depende, necessariamente, do sono profundo. Basta um entorpecimento dos sentidos para que a alma recupere parte de sua liberdade, valendo-se dos intervalos de menor atividade corporal.

Em situações de enfraquecimento físico, como doença ou prostração, esse desprendimento seria favorecido pela redução da atividade orgânica.

No livro Missionários da Luz”, do Espírito André Luiz, na psicografia de Francisco Cândido Xavier, tem-se relatos de Espíritos encarnados que receberam esclarecimentos e orientações durante o sono e participaram de reuniões espirituais voltadas à formação de trabalhadores dedicados ao bem, evidenciando que o sono pode constituir um período de aprendizado e amparo espiritual, cujos efeitos se expressariam, na vida cotidiana, por meio de inspiração, coragem e fortalecimento moral.

Outros casos de experiências significativas, durante o sono, são relatados no Programa Complementar, Tomo único, Módulo VII – Fenômenos e emancipação da alma, Roteiro 1: O sono e os sonhos, do livro Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita, Programa Complementar, Tomo Único, da Federação Espírita Brasileira.

Conclusão

O sono não se restringe à condição de fenômeno biológico, mas representa uma experiência de emancipação da alma e interação entre as dimensões material e espiritual.

Os sonhos são manifestações fragmentárias dessa experiência, registros incompletos das vivências do Espírito enquanto o corpo permanece em repouso.

A compreensão dessa dimensão faz refletir além dessa vida, como recurso de renovação espiritual, aprendizagem e consolação, ocupando posição relevante na compreensão espírita da existência humana.

Autor: Juan Carlos Orozco

Bibliografia:

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

ROCHA, Cecília (organizadora). Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita – Programa Complementar – Tomo Único. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2014.

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