Dupla vista: a visão da alma além dos olhos carnais

Esta reflexão, com base nas questões de 447 a 454 de “O Livro dos Espíritos”, trata da dupla vista ou segunda vista, que é a vista da alma, como uma forma de emancipação parcial da alma com diferentes graus de percepção do Espírito, durante o estado de vigília.

É a faculdade da alma que se manifesta de forma espontânea ou intermitente em algumas pessoas, de ver, ouvir e sentir além dos limites dos sentidos físicos, constituindo uma emancipação análoga ao sonho e ao sonambulismo.

A unidade dos fenômenos de emancipação espiritual

A questão 447 esclarece que sonho, sonambulismo e dupla vista “são uma só coisa”, porquanto todos derivam do mesmo princípio: a libertação parcial do Espírito em relação à matéria. A diferença reside no grau de desprendimento.

No sonho, a alma se desliga temporariamente do corpo com acesso ao plano espiritual.

No sonambulismo, o corpo pode agir mecanicamente, enquanto ocorre um grau mais acentuado de emancipação do Espírito do que no estado de vigília comum.

Na dupla vista, a liberdade se estende ao estado de vigília, consciente do ambiente físico, ao mesmo tempo em que enxerga além dele; o corpo permanece desperto e ativo, mas o Espírito consegue, momentaneamente, afastar o “véu da matéria” e perceber realidades que escapam aos sentidos físicos.

A pessoa com essa faculdade continua operando no mundo material, mas suas faculdades espirituais estão expandidas o suficiente para captar a dimensão invisível ao mesmo tempo. Aos dotados dessa faculdade, ela se afigura tão natural como a que todos temos de ver. É, literalmente, viver em dois planos simultaneamente por alguns instantes.

Faculdade permanente, exercício transitório

Conforme esclarece a questão 448, a faculdade da segunda vista é permanente em determinados indivíduos, mas seu exercício não o é.

O poder da vista dupla varia, indo desde a sensação confusa até a percepção clara e nítida das coisas presentes ou ausentes.

Quando rudimentar, confere a certas pessoas o tato, a perspicácia, uma certa segurança nos atos, a que se pode dar o qualitativo de golpe de vista moral.

Um pouco desenvolvida, desperta os pressentimentos e intuições sobre fatos cotidianos.

Mais desenvolvida, permite vislumbrar acontecimentos passados, presentes ou futuros com clareza.

Em avançada, proporciona a percepção nítida e clara de realidades distantes ou do mundo espiritual, independentemente do tempo e do espaço.

Assim, essa faculdade está diretamente ligada ao grau de evolução do mundo e do Espírito.

Em mundos menos materiais que a Terra, os Espíritos se desprendem com tal facilidade que a dupla vista se torna condição praticamente permanente. Nesses mundos, o estado normal dos habitantes se assemelharia ao dos sonâmbulos lúcidos entre nós.

Entre nós, a manifestação depende de circunstâncias específicas que favoreçam o desprendimento espiritual sem a perda completa da consciência corporal.

Manifestação espontânea e influência da vontade

A questão 449 revela que a dupla vista surge, na maioria das vezes, de forma espontânea. Todavia, a vontade desempenha papel relevante: pessoas dotadas dessa faculdade, como algumas “videntes”, conseguem, por esforço próprio, colocar-se no estado propício à percepção extra-sensorial.

A manifestação não é inteiramente fortuita nas pessoas dotadas dessa faculdade, mas a vontade pode favorecer o estado necessário ao seu exercício.

Assim, a vontade desempenha papel importante no despertar da dupla vista, embora o fenômeno ocorra frequentemente de forma espontânea.

Desenvolvimento pela prática e influência orgânica

A resposta à questão 450 esclarece: “Sim, do trabalho sempre resulta o progresso e a dissipação do véu que encobre as coisas.”

Segundo a resposta à questão 450, a dupla vista seria suscetível de desenvolvimento pelo exercício contínuo. A organização física do indivíduo, contudo, exerceria influência decisiva: haveria organismos “refratários” à faculdade, enquanto outros apresentariam predisposição natural.

A questão 451 atribui a ocorrência da faculdade em determinadas famílias à semelhança de organização entre pais e filhos e acrescenta que seu exercício pode ser favorecido por uma espécie de educação transmitida de geração a geração.

Circunstâncias que despertam a segunda vista

A questão 452 elenca fatores que podem desencadear ou intensificar a dupla vista: moléstia, proximidade do perigo, grande comoção emocional.

Em períodos de crise coletiva, como guerras, perseguições e calamidades, a supraexcitação moral provocaria o desenvolvimento dessa percepção ampliada.

A Providência parece conceder esse recurso como meio de autopreservação: diante de um perigo, a alma receberia a faculdade de perceber além do véu material e, assim, buscar meios de evitá-lo.

Graus de percepção e consciência da faculdade

Nem todas as pessoas a quem se atribui a dupla vista teriam plena consciência dessa condição, conforme indica a questão 453.

Muitos consideram natural o que percebem e sequer imaginam que outros não compartilham de sua visão.

A questão 454 relaciona, também, a dupla vista à perspicácia de certas pessoas que, sem nada apresentarem de extraordinário, captam as coisas com maior profundidade e precisão.

Nos graus mais elevados, essa faculdade pode manifestar-se como presciência ou pressentimento, pelos quais o indivíduo perceberia acontecimentos futuros ou realidades distantes.

Conclusão

A dupla vista é compreendida como uma emancipação parcial do Espírito, extensão das faculdades da alma e não como fenômeno isolado ou inexplicável.

Em certas condições orgânicas ou emocionais, ou ainda sob a influência da vontade e de experiências, a percepção humana poderia ultrapassar os limites atribuídos aos sentidos físicos e tornar mais tênue a separação entre os mundos material e espiritual.

Embora se manifeste de modo mais evidente em determinadas pessoas, a segunda vista é uma potencialidade ligada à condição do Espírito encarnado. Seu exercício pode ser favorecido pela prática, por predisposições orgânicas, pela educação familiar e por circunstâncias excepcionais da jornada terrena.

Compreender esse fenômeno convida-nos a refletir acerca dos limites da percepção sensorial e a reconhecer a possibilidade de uma “vista da alma” mesmo durante a vigília.

Autor: Juan Carlos Orozco

Bibliografia:

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 1. ed. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

ROCHA, Cecília (organizadora). Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita – Programa Complementar – Tomo Único. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2014.

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https://juancarlosespiritismo.blog/

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