O princípio vital: da matéria organizada à vida

As questões de 60 a 75 em “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, compõem o Capítulo IV – Do Princípio Vital, detalhando a mecânica da vida, da matéria e da inteligência, apresentando esclarecimentos a respeito de: seres orgânicos e inorgânicos; a vida e a morte; e inteligência e instinto.

Kardec discorre sobre fenômenos da vida com princípios, conceitos e informações para distinguir matéria, princípio vital e inteligência, as bases para a compreensão da organização do corpo na manifestação das faculdades intelectuais nos seres humanos.

Os seres orgânicos possuem fonte de atividade própria, que lhes dá vida, nascendo, crescendo, reproduzindo-se por si mesmos e morrendo. Eles são providos de órgãos especiais para a execução dos diferentes atos da vida, os quais são apropriados às necessidades que a conservação lhes impõe. Nessa classe, estão os seres humanos, os animais e as plantas.

O fluido vital é o agente que anima os corpos, funcionando como uma força que mantém os órgãos em atividade. Com a morte, o corpo desorganiza-se e deixa de absorver o princípio vital, cujos elementos retornam ao reservatório universal.

Os seres inorgânicos carecem de vitalidade e movimentos próprios, que se formam pela agregação da matéria, tais como: minerais, água, ar, dentre outros.

Da matéria à vida

A matéria é sempre a mesma, porém nos corpos orgânicos está animalizada pela união com o princípio vital.

A vida é efeito devido à ação desse agente sobre a matéria. Esse agente sem a matéria não é a vida, do mesmo modo que a matéria não pode viver sem esse agente. Ele dá a vida a todos os seres que o absorvem e assimilam.

Espírito e matéria são dois elementos constitutivos do Universo, que têm suas origens na matéria universal modificada, tudo isso derivando de um só princípio.

O princípio vital tem por fonte o fluido universal, sendo elo intermediário entre Espírito e matéria, unido à matéria organizada para produzir vida, comunicando sua atividade aos órgãos.

O princípio vital é um só para todos os seres orgânicos, que se modificam segundo as espécies. Ele dá a esses seres movimento e atividade, distinguindo-os da matéria inerte, porquanto o movimento da matéria não é a vida. Esse movimento ela o recebe, não o dá.

O agente vital não se desenvolve senão com o corpo, porquanto esse agente sem a matéria não é a vida. A união dos dois é necessária para produzir a vida.

A vitalidade se acha em estado latente, quando o agente vital não está unido ao corpo.

O conjunto dos órgãos constitui uma espécie de mecanismo que recebe impulsão do princípio vital que entre eles existe.

O princípio vital é a força motriz dos corpos orgânicos. Ao mesmo tempo que o agente vital dá impulsão aos órgãos, a ação destes entretém e desenvolve a atividade daquele agente, quase como sucede com o atrito, que desenvolve o calor.

A vida e a morte

A morte nos seres orgânicos é causa do esgotamento dos órgãos, devido à desorganização dos órgãos essenciais que impede a continuidade da ação vital.

O coração tem papel importante, sendo a máquina da vida, mas não é o único órgão que ocasiona a morte.

A matéria inerte se decompõe e vai formar novos organismos. O princípio vital volta à massa donde saiu.

Desfeita a organização do corpo físico, os elementos materiais entram em novas combinações e podem integrar outros corpos.

A quantidade de fluido vital não é absoluta em todos os seres orgânicos, variando segundo as espécies e não é constante, quer em cada indivíduo, quer nos indivíduos de uma espécie. Alguns há, que se acham saturados desse fluido, enquanto outros o possuem em quantidade apenas suficiente. Daí, para alguns, vida mais ativa, mais tenaz e, de certo modo, superabundante.

A quantidade de fluido vital se esgota. Pode tornar-se insuficiente para a conservação da vida, se não for renovada pela absorção e assimilação das substâncias que o contêm.

O fluido vital se transmite de um indivíduo a outro. Aquele que o tiver em maior porção pode dá-lo a um que o tenha de menos e, em certos casos, prolongar a vida prestes a extinguir-se.

Assim, a conservação do organismo depende tanto de sua organização física quanto da renovação pelo princípio vital.

Inteligência e instinto

A inteligência não é atributo do princípio vital. Ela tem origem no princípio da inteligência universal, sendo faculdade de cada ser, constituindo sua individualidade moral.

Por exemplo, as plantas vivem e não pensam: só têm vida orgânica. A inteligência e a matéria são independentes, porquanto um corpo pode viver sem a inteligência.

A inteligência somente pode se manifestar por meio dos órgãos materiais. Necessário é que o Espírito se una à matéria animalizada para intelectualizá-la.

A inteligência é faculdade especial, peculiar de algumas classes de seres orgânicos e que lhes dá, com o pensamento, a vontade de atuar, a consciência de que existem e de que constituem uma individualidade, assim como os meios de estabelecerem relações com o mundo exterior e de proverem as suas necessidades.

Como a vida orgânica e a inteligência têm princípios independentes, um organismo pode viver sem possuir pensamento e vontade.

O instinto aparece como uma espécie de inteligência rudimentar, sem raciocínio, em que todos os seres por ele provêm às suas necessidades. Por conseguinte, as manifestações decorrentes do instinto são quase sempre espontâneas e voltadas às necessidades imediatas. A inteligência propriamente dita combina, compara e delibera.

No entanto, muitos atos reúnem impulso instintivo e elaboração intelectual, em proporções diferentes.

Com a razão, amplia-se a esfera de escolha, permitindo ao ser humano deliberar e exercer o livre-arbítrio, mas não torna o discernimento infalível: uma educação deficiente, o orgulho e o egoísmo podem falsear o julgamento.

O instinto, embora não raciocine, oferece uma orientação espontânea para necessidades determinadas; a razão, por sua vez, abre o campo da escolha e também a possibilidade do erro.

Conclusão

Pelo exposto, o princípio vital é elemento que dá vida à matéria orgânica. Quando o corpo morre, esse princípio se dissipa e a matéria volta à sua origem.

O princípio vital funciona como uma fonte que anima a matéria orgânica. Ele é temporário, ligando-se ao corpo no nascimento e se dissipa com a morte física, retornando à massa geral do fluido cósmico universal.

A inteligência reside no Espírito, não nos órgãos físicos. O corpo físico e seus órgãos são apenas meios que o Espírito usa para se manifestar no mundo material. A capacidade de pensar, sentir e lembrar pertence à alma e não à carne.

O instinto é a inteligência em estado rudimentar, focada na sobrevivência e agindo de forma automática. À medida que o Espírito evolui, ele desenvolve a razão, que lhe dá o livre-arbítrio. O instinto gradativamente dá espaço à razão e à autoconsciência.

Quanto maior a capacidade de raciocinar e compreender o mundo, maior se torna a liberdade de escolha de um indivíduo e, consequentemente, maior a sua responsabilidade pelas consequências de seus atos.

Autor: Juan Carlos Orozco

Bibliografia

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

ROCHA, Cecília (organizadora). Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita – Programa Complementar – Tomo Único. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2014.

Para acessar o Blog Reflexões espíritas, clicar no link abaixo:

https://juancarlosespiritismo.blog/

Deixe um comentário

search previous next tag category expand menu location phone mail time cart zoom edit close