Essas reflexões, baseadas nas questões de 76 a 92 em “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, cuida dos Espíritos imortais como seres inteligentes da criação, criados pela vontade de Deus, como a individualização do princípio inteligente do Universo, dotados de livre-arbítrio, que progridem continuamente em pluralidade de existências, sobrevivendo à destruição do corpo físico. Eles não são seres à parte da criação, mas sim os próprios elementos inteligentes dela.
A palavra “Espírito”, com a primeira letra maiúscula, é empregada para designar a individualidade do ser extracorpóreo e não o elemento inteligente do Universo, que é grafada em minúsculo.
Os Espíritos são as individualizações do princípio inteligente, como os corpos são as individualizações do princípio material.
Os Espíritos não constituem parcelas da divindade e nem emanações que nela se confundem; são seres criados, dotados de individualidades próprias.
Deus cria os Espíritos sempre e initerruptamente. Cada Espírito procede da vontade divina, e não da geração de um Espírito por outro. Quando e como cada um é criado, ninguém sabe. A origem do Espírito é desconhecida.
Além dos esclarecimentos a respeito do ser espiritual, as reflexões tratam de aspectos morais acera dos deveres e das responsabilidades em um processo evolutivo.
Incorporeidade e continuidade da existência
Dizer que o Espírito é imaterial não seria bem o termo de definição, porque, pela sua essência, difere de tudo o que conhecemos sob o nome de matéria. O mais exato é chamar de incorpóreo, porque, sendo uma criação de Deus, o Espírito há de ser alguma coisa, pois tem uma realidade própria.
O Espírito é matéria quintessenciada, mas sem analogia para nós. É tão etéreo que escapa inteiramente ao alcance dos nossos sentidos.
As analogias humanas são limitadas, assim como para um cego impede a compreensão direta da luz, devido à sua condição encarnada que não oferece instrumentos sensoriais suficientes para definir a essência espiritual. Essa limitação cognitiva não constitui fundamento para negar aquilo que ainda não se compreende.
O mundo espiritual e sua relação com o mundo corporal
Os Espíritos constituem o mundo dos Espíritos ou das inteligências incorpóreas.
O mundo dos Espíritos é o principal na ordem das coisas, pois preexiste e sobrevive a tudo.
Os mundos do Espíritos (invisíveis) e os mundos materiais (visíveis) são distintos e independentes, mas a correlação entre ambos é incessante, porquanto um sobre o outro reagem os dois domínios, mantendo relações contínuas e exercendo influência recíproca.
Esses mundos caminham juntos, funcionando como duas engrenagens de um mesmo mecanismo de aprendizado universal.
Os Espírito estão por toda parte, povoando os espaços infinitos. Muitos deles estão ao nosso lado, observando-nos e atuando, sem os perceber, pois que os Espíritos são uma das potências da natureza e instrumentos de que Deus se serve para execução de seus desígnios providenciais.
Nem todos vão a toda parte, porque há regiões interditadas aos menos adiantados, uma vez que essas possibilidades correspondem ao grau de evolução. Isso porque o progresso moral condiciona as formas de atuação, influências, convivências e participação na ordem espiritual.
Forma, movimento e irradiação
Aos olhos humanos, os Espíritos não possuem uma forma determinada. Eles podem se assemelhar a uma chama, um clarão, ou uma centelha etérea.
Para os próprios Espíritos, contudo, há uma forma definida.
Eles têm uma coloração que vai do escuro e opaco a uma cor brilhante, qual a do rubi, conforme o Espírito é mais ou menos puro. Nesse contexto, a luminosidade assume valor simbólico, associado ao desenvolvimento intelectual e moral.
O deslocamento do Espírito é associado à rapidez do pensamento, embora este é um atributo dele. Quando o pensamento está em alguma parte, a alma também aí está, pois que é a alma quem pensa. Logo, o deslocamento espiritual é instantâneo porque a alma e o pensamento são indissociáveis. Onde o pensamento está focado, a alma se faz presente.
O Espírito pode, se o quiser, inteirar-se da distância que percorre, mas essa distância pode desaparecer completamente, dependendo da sua vontade, bem como da sua natureza mais ou menos depurada. Ele pode perceber a distância percorrida ou, conforme sua vontade e condição, identificar o ponto de destino como presença imediata.
A matéria não lhe impõe obstáculos, porquanto ele passa através de tudo.
Não pode haver divisão de um mesmo Espírito, mas cada um é centro que irradia para diversos lados. Isso é que faz parecer estar um Espírito em muitos lugares ao mesmo tempo. Contudo, não se divide.
Como centro de pensamento e ação, pode irradiar sua influência em múltiplas direções. A extensão dessa irradiação relaciona-se ao grau de pureza alcançado, preservando-se a unidade do ser espiritual, sem negar a amplitude potencial de sua atuação.
Consequências morais para a vida
Os princípios apresentados não se restringem a meros esclarecimentos.
O ser humano deve ser compreendido como um ser espiritual imortal, em experiência corporal no contexto de um processo evolutivo moral.
Cada ser constitui uma individualidade, um ser consciente pelo uso do livre-arbítrio na escolha de seu destino, em processo de progresso, portador de uma trajetória própria, de potencialidades e responsabilidades morais.
Cada pessoa é ser único, que preserva a sua identidade, as suas memórias e as suas conquistas ao longo de sua trajetória evolutiva.
A pluralidade de existências e as influências entre os mundos visível e invisível conferem relevância ética e moral aos pensamentos e às escolhas.
O pensamento deixa de ser concebido como atividade destituída de consequências: constitui expressão da vida psíquica que se irradia.
O cultivo do equilíbrio, da benevolência e de disposições construtivas configura, por conseguinte, prática de disciplina interior e de cooperação com o bem.
A diversidade dos graus de pureza permite interpretar as diferenças morais sem atribuir um caráter definitivo.
A existência de Espíritos em distintos níveis de progresso pressupõe, igualmente, as possibilidades de aperfeiçoamentos.
Nenhuma consciência se encontrará eternamente na condição atual. A fraternidade adquire, sob essa perspectiva, fundamento universal para todas as criaturas de Deus, individualidades imortais convocadas ao progresso mútuo.
Reconhecer-se como Espírito imortal significa compreender a vida presente como etapa de aprendizagem e responsabilidade.
A verdadeira grandeza não se mede pelo domínio material, mas pela qualidade moral que amplia a capacidade de servir, conviver e promover o bem.
Assim, o conhecimento da natureza espiritual do ser implica no compromisso com o aperfeiçoamento contínuo e com a construção de relações orientadas pela fraternidade universal.
Autor: Juan Carlos Orozco
Bibliografia
KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.
