Perispírito: natureza, propriedades, funcionalidades e qualidades

Essa reflexão aborda o perispírito a partir das questões de 93 a 95 em “O Livro dos Espíritos”, destacando a sua natureza semimaterial, a sua formação com base no fluido universal e a sua função intermediária nas relações entre o Espírito e a matéria.

O perispírito ocupa um lugar importante como envoltório semimaterial do Espírito e elemento de ligação com a matéria. Compreender sua natureza, suas propriedades e suas funções permitem relacionar os esclarecimentos doutrinários dos fenômenos espirituais.

Essa reflexão aborda as consequências morais decorrentes de suas propriedades, qualidades e funções, demonstrando como eles se articulam com fator de progresso.

Perispírito

No livro “Obras póstumas”, de Allan Kardec, na Primeira Parte, em “Manifestações dos Espíritos”, no item I – O perispírito como princípio das manifestações, tem-se:

“9. Os Espíritos, como já foi dito, têm um corpo fluídico, a que se dá o nome de perispírito, cuja substância tem origem no fluido universal ou cósmico, que o forma e alimenta, como o ar forma e alimenta o corpo material do homem. O perispírito é mais ou menos etéreo, conforme os mundos e o grau de depuração do Espírito. Nos mundos e nos Espíritos inferiores, ele é de natureza mais grosseira e se aproxima muito da matéria bruta.

10. Durante a encarnação, o Espírito conserva o seu perispírito, sendo-lhe o corpo apenas um segundo envoltório mais grosseiro, mais resistente, apropriado aos fenômenos a que tem de prestar-se e do qual o Espírito se despoja por ocasião da morte.

O perispírito serve de intermediário ao Espírito e ao corpo. É o órgão de transmissão de todas as sensações. Relativamente às que vêm do exterior, pode-se dizer que o corpo recebe a impressão; o perispírito a transmite e o Espírito, que é o ser sensível e inteligente, a recebe. Quando o ato é de iniciativa do Espírito, pode dizer-se que o Espírito quer, o perispírito transmite e o corpo executa.

11. O perispírito não se acha encerrado nos limites do corpo, como numa caixa. Pela sua natureza fluídica, ele é expansível, irradia para o exterior e forma, em torno do corpo, uma espécie de atmosfera que o pensamento e a força da vontade podem dilatar mais ou menos. Daí se segue que pessoas há que, sem estarem em contato corporal, podem achar-se em contato pelos seus perispíritos e permutar a seu mau grado impressões e, algumas vezes, pensamentos, por meio da intuição.

12. Sendo um dos elementos constitutivos do homem, o perispírito desempenha importante papel em todos os fenômenos psicológicos e, até certo ponto, nos fenômenos fisiológicos e patológicos. Quando as ciências médicas tiverem na devida conta o elemento espiritual na economia do ser, terão dado grande passo e horizontes inteiramente novos se lhes patentearão. As causas de muitas moléstias serão a esse tempo descobertas e encontrados poderosos meios de combatê-las.

13. Por meio do perispírito é que os Espíritos atuam sobre a matéria inerte e produzem os diversos fenômenos mediúnicos. Sua natureza etérea não é que a isso obstaria, pois se sabe que os mais poderosos motores se nos deparam nos fluidos mais rarefeitos e nos mais imponderáveis. Não há, pois, motivo de espanto quando, com essa alavanca, os Espíritos produzem certos efeitos físicos, tais como pancadas e ruídos de toda espécie, levantamento, transporte ou lançamento de objetos. Para explicarem-se esses fatos, não há porque recorrer ao maravilhoso, nem ao sobrenatural.

14. Atuando sobre a matéria, podem os Espíritos manifestar-se de muitas maneiras diferentes: por efeitos físicos, quais os ruídos e a movimentação de objetos; pela transmissão do pensamento, pela visão, pela audição, pela palavra, pelo tato, pela escrita, pelo desenho, pela música etc. Numa palavra, por todos os meios que sirvam a pô-los em comunicação com os homens.

15. Podem ser espontâneas ou provocadas as manifestações dos Espíritos. As primeiras dão-se inopinadamente e de improviso. Produzem-se, muitas vezes, entre pessoas de todo estranhas às ideias espíritas. Nalguns casos e sob o império de certas circunstâncias, pode a vontade provocar as manifestações, soba influência de pessoas dotadas, para tal efeito, de faculdades especiais.

As manifestações espontâneas sempre se produziram, em todas as épocas e em todos os países. Sem dúvida, já na Antiguidade se conhecia o meio de as provocar, mas esse meio constituía privilégio de certas castas que somente a raros iniciados o revelavam, sob condições rigorosas, escondendo-o ao vulgo, a fim de o dominar pelo prestígio de um poder oculto. Ele, contudo, se perpetuou, através das idades até os nossos dias, entre alguns indivíduos, mas quase sempre desfigurado pela superstição, ou de mistura com as práticas ridículas da magia, o que contribuiu para o desacreditar. Nada mais fora até então senão germens lançados aqui e ali. A Providência reservara para a nossa época o conhecimento completo e a vulgarização desses fenômenos, para os expurgar das ligas impuras e torná-los úteis ao melhoramento da Humanidade, madura agora para os compreender e lhes tirar as consequências.”

Propriedades do perispírito

Em “Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita”, Programa Complementar, Tomo Único, Módulo II – Fluidos e Perispírito, Roteiro 2 – Perispírito: formação, propriedades e funções, destacamos:

“Em estudos sobre as qualidades inerentes ao perispírito, autores encarnados e desencarnados identificaram, entre outras, as seguintes propriedades: plasticidade, densidade, ponderabilidade, luminosidade, penetrabilidade, visibilidade, tangibilidade, sensibilidade, expansibilidade, unicidade, mutabilidade.

  • Plasticidade é a capacidade que o Espírito tem de produzir alterações morfológicas no seu perispírito. (…)
  • Densidade é a propriedade que determina a constituição molecular do perispírito. Varia […] de acordo com o estado dos mundos. Parece que também varia, em um mesmo mundo, de indivíduo para indivíduo. Nos Espíritos moralmente adiantados, é mais sutil e se aproxima da dos Espíritos elevados; nos Espíritos inferiores, ao contrário, aproxima-se da matéria e é o que faz que os Espíritos de baixa condição conservem por muito tempo as ilusões da vida terrestre. Esses pensam e obram como se ainda fossem vivos.
  • Ponderabilidade é a propriedade relacionada ao peso específico do perispírito, que varia conforme a densidade. A nossa […] posição mental determina o peso específico do nosso envoltório espiritual e, consequentemente, o habitat que lhe compete. Mero problema de padrão vibratório. (…)
  • Luminosidade, ou brilho perispiritual, tem relação direta com a evolução moral do Espírito, que, por sua natureza, possui uma […] propriedade luminosa que se desenvolve sob o influxo da atividade e das qualidades da alma. […] A intensidade da luz está na razão da pureza do Espírito: as menores imperfeições morais atenuam-na e enfraquecem-na. A luz irradiada por um Espírito será tanto mais viva, quanto maior o seu adiantamento. (…)
  • Penetrabilidade é a propriedade que permite o Espírito atravessar barreiras vibracionais, físicas ou não. Matéria nenhuma lhe opõe obstáculo; ele as atravessa todas, como a luz atravessa os corpos transparentes. (…)
  •  Visibilidade é a propriedade que o perispírito possui de se tornar visível. Usualmente, não percebemos o perispírito dos Espíritos, encarnados ou desencarnados. Os Espíritos […] menos adiantados percebem o corpo espiritual de seus pares, captando-lhe o aspecto geral. Já os Espíritos Superiores podem perscrutar a intimidade perispirítica de desencarnados de menor grau de elevação, bem como a dos encarnados, observando-lhes as desarmonias e as necessidades.
  • Tangibilidade é a possibilidade que tem o perispírito de […] tornar-se materialmente tangível, no todo ou em parte. (…)
  • Sensibilidade é a propriedade que o perispírito tem de transmitir sensações, sentimentos e emoções do Espírito. As sensações não são percebidas por um órgão ou estrutura biológica, tal como acontece no corpo físico. Elas são gerais, percebidas em todo o perispírito. O Espírito, assim, […] vê, ouve, sente, enfim com o corpo espiritual inteiro […], uma vez que as sedes dos sentidos não encontram localização tão específica quando se observa no estado de encarnação.
  • Expansibilidade é a característica que permite ao perispírito sua expansão e exteriorização nos fenômenos anímicos, nas doações fluídicas e nos processos mediúnicos. Pela sua natureza fluídica, ele é expansível, irradia para o exterior e forma, em torno do corpo, uma espécie de atmosfera que o pensamento e a força da vontade podem dilatar mais ou menos. (…)
  • Unicidade tem na estrutura perispirítica um reflexo da alma, significa dizer que cada pessoa traz no próprio perispírito a soma das suas conquistas evolutivas. Não há, portanto, dois perispíritos iguais.
  • Mutabilidade deve ser entendida como a capacidade que permite ao perispírito, pela ação da plasticidade, mudar seu aspecto com relação à sua estrutura e forma, modificação esta sustentada pela mente em decorrência do processo evolutivo. (…)”

Funções do perispírito

No mesmo livro, destacam-se:

“Durante a encarnação, o Espírito conserva o seu perispírito, sendo-lhe o corpo apenas um segundo envoltório mais grosseiro, mais resistente, apropriado aos fenômenos a que tem de prestar-se e do qual o Espírito se despoja por ocasião da morte. O perispírito serve de intermediário ao Espírito e ao corpo. É o órgão de transmissão de todas as sensações. Relativamente às que vêm do exterior, pode-se dizer que o corpo recebe a impressão; o perispírito a transmite e o Espírito, que é o ser sensível e inteligente, a recebe. Quando o ato é de iniciativa do Espírito, pode dizer-se que o Espírito quer, o perispírito transmite e o corpo executa.

Temos, desse modo, algumas funções básicas do perispírito, tais como:

  • Função Instrumental. Como se […] depreende de seu próprio conceito, a função primordial do perispírito é servir de instrumento à alma, em sua interação com os mundos espiritual e físico. Projeção energética da alma, aglutina em si a energia cósmica matriz, consolidando, já, uma estrutura de natureza física, que, a refletir, sempre, a fonte, serve como seu elemento de ligação com o meio que o cerca, de modo que não só possa nele agir, influenciando, como também, dele receber influência, em regime de trocas e aproveitamentos, em sua gloriosa caminhada evolutiva.
  • Função Individualizadora. O perispírito serve à […] sua individualização e identificação. A alma é única e diferenciada, e o perispírito, como seu envoltório perene, mostra-a, refletindo-a, assegurando-lhe a identidade exclusiva. […]Essa identidade, que diz de suas qualidades positivas e negativas, transmite-se, quando em estado de encarnação, ao corpo físico, que, entretanto, nem sempre a reflete inteiramente.
  • Função Organizadora. Esta função não se refere apenas à forma, aos aspectos anatômicos ou às peculiaridades […] fisionômicas do ser em gestação, mas, principalmente, com os diversos sistemas de sustentação psicofiológicas que regerão sua vida.26 Ensina Emmanuel que, na […] câmara uterina, o reflexo dominante de nossa individualidade impressiona a chapa fetal ou o conjunto de princípios germinativos que nos forjam os alicerces do novo instrumento físico, selando-nos a destinação para as tarefas que somos chamados a executar no mundo, em certa quota de tempo.
  • Função Sustentadora. Garante vitalidade ao corpo físico, sus tentando-o desde a sua formação até o completo crescimento, durante todo o tempo programado para a sua encarnação. Essa ação, durante a programação de cada indivíduo, garante e conserva a integridade do corpo físico, como explica Léon Denis: insensível […] às causas de desagregação e destruição que afetam o corpo físico, o perispírito assegura a estabilidade da vida em meio da contínua renovação das células.”

Qualidade dos fluidos

O envoltório perispiritual funciona como espelho refletor direto e permanente da alma, moldando sua aparência, densidade e luminosidade de acordo com a natureza, boa ou má, dos pensamentos e sentimentos habituais do Espírito.

Os fluidos viciados pelas emanações dos maus Espíritos podem se depurar pelo afastamento desses Espíritos, mas o perispírito deles será sempre o que é, enquanto o próprio Espírito não se modificar.

O Espírito, ao encarnar, conserva o seu perispírito com as qualidades que lhe são próprias, e que, como se sabe, não é circunscrito pelo corpo, mas irradia em torno dele e o envolve como em uma atmosfera fluídica.

Pela sua união íntima com o corpo, o perispírito desempenha um papel preponderante no organismo; pela sua expansão, ele coloca o Espírito encarnado em relação mais direta com os Espíritos livres.

O pensamento do Espírito encarnado atua sobre os fluidos espirituais como o dos desencarnados; ele se transmite de Espírito a Espírito pelas mesmas vias, e, conforme seja bom ou mau, saneia ou vicia os fluidos ambientes.

Como o perispírito dos encarnados é de uma natureza idêntica à dos fluidos espirituais, ele os assimila com facilidade, como uma esponja que se embebe de líquido. Esses fluidos têm sobre o perispírito uma ação tanto mais direta quanto, por sua expansão e sua irradiação, o perispírito se confunde com eles.

Conforme esses fluidos atuam sobre o perispírito, este, por sua vez, reage sobre o organismo material com o qual está em contato molecular. Se os eflúvios são de boa natureza, o corpo experimenta uma impressão salutar; se são maus, a impressão é penosa. Se são permanentes e intensos, os maus eflúvios podem ocasionar desordens físicas, não sendo outra a causa de certas enfermidades.

Os meios onde predominam os maus espíritos são, assim, impregnados de maus fluidos que são absorvidos pelos poros perispirituais, tal como se absorve os miasmas pestilenciais pelos poros do corpo.

O mesmo ocorre em uma reunião de encarnados. Uma assembleia é um foco de irradiação de pensamentos diversos. O pensamento agindo sobre os fluidos, como o som age sobre o ar, esses fluidos nos trazem os pensamentos como o ar nos traz o som. Pode-se, pois, dizer, em realidade, que há nesses fluidos ondas e raios de pensamentos que se cruzam sem se confundir, como há no ar ondas e raios sonoros.

Uma assembleia é, como uma orquestra, um coro de pensamentos onde cada um emite sua nota. Resulta daí uma multiplicidade de correntes e de eflúvios fluídicos, cuja impressão cada um recebe através do sentido espiritual, como num coro musical em que cada um recebe a impressão dos sons através do sentido da audição.

Entretanto, do mesmo modo que há irradiações sonoras harmoniosas ou dissonantes, também existem pensamentos harmônicos ou discordantes. Se o conjunto é harmonioso, a impressão é agradável; se o conjunto é discordante, a impressão é desagradável. Ora, para isso não é necessário que o pensamento seja formulado por palavras, quer o pensamento se externe ou não, a irradiação fluídica existirá sempre, basta, porém, que se misturem alguns pensamentos maus, para que se produza o efeito de uma corrente de ar gelado num meio tépido.

Esta é a causa da satisfação que sentimos numa reunião simpática, animada por pensamentos bons e benévolos. Ela é envolvida por uma salubre atmosfera moral, onde se respira à vontade; sai-se dali reconfortado, uma vez que somos impregnados de eflúvios fluídicos salutares.

Desse modo, também podemos explicar a ansiedade, o indefinível mal-estar que se experimenta em um meio antipático, onde pensamentos malévolos provocam como que correntes de ar nauseabundo.

O pensamento, portanto, produz uma espécie de efeito físico que influencia o moral, fato que só o Espiritismo poderia tornar compreensível. O homem sente isso instintivamente, uma vez que procura as reuniões homogêneas e simpáticas, onde sabe que pode haurir novas forças morais; poder-se-ia dizer que em tais reuniões ele recupera as perdas fluídicas que sofre todos os dias pela irradiação do pensamento, como recupera, pelos alimentos, as perdas do corpo material.

É que, efetivamente, o pensamento é uma emissão que ocasiona uma perda real nos fluidos espirituais e, por consequência, nos fluidos materiais, de tal maneira que o homem tem necessidade de se retemperar com os eflúvios externos que recebe.

Quando se diz que um médico cura um doente por meio de boas palavras, trata-se de uma verdade absoluta, uma vez que o pensamento bondoso traz consigo fluidos reparadores que atuam sobre o físico tanto quanto sobre o moral.

O meio é muito simples, porque depende da vontade do próprio homem, que traz consigo o antídoto necessário. Os fluidos se unem pela semelhança de suas naturezas, os fluidos dessemelhantes se repelem; há incompatibilidade entre os bons e os maus fluidos, como entre o óleo e a água.

À invasão de maus fluidos é preciso opor os bons fluidos, e, como cada um de nós tem no seu perispírito uma fonte permanente de fluidos, todos trazem o remédio em si mesmos, trata-se apenas de purificar essa fonte e lhe dar qualidades tais que sejam um repulsor para as más influências, ao invés de serem uma força atrativa.

O perispírito, então, é uma couraça que deve receber de nós a melhor têmpera possível, ora, como as qualidades do perispírito estão relacionadas com as da alma, é necessário trabalhar para melhorá-la, uma vez que são as imperfeições da alma que atraem os maus espíritos.

Os Espíritos realmente bons, encarnados ou desencarnados, nada teriam a temer da influência dos maus Espíritos, pois estes se aproximariam dos ambientes e indivíduos com os quais encontram afinidade moral. Nessa perspectiva, a transformação íntima, e não uma proteção meramente exterior, constituiria o principal meio de afastar influências negativas.

Ação dos Espíritos sobre os fluidos e criações fluídicas

Os fluidos espirituais, que constituem um dos estados do fluido cósmico universal, são a atmosfera dos seres espirituais, o elemento de onde tiram os materiais sobre os quais eles operam, o meio onde se passam os fenômenos especiais, perceptíveis à visão e à audição do Espírito, mas que escapam aos sentidos carnais, impressionados somente pela matéria tangível. É o meio de transmissão do pensamento, tal como o ar é o meio de transmissão do som.

Os Espíritos agem sobre os fluidos espirituais, não os manipulando como os homens manipulam os gases, mas com a ajuda do pensamento e da vontade. O pensamento e a vontade são para os espíritos o que a mão é para o homem.

Pelo pensamento, eles imprimem aos fluidos espirituais essa ou aquela direção; eles os aglomeram, combinam ou dispersam; com eles formam conjuntos tendo uma aparência, uma forma e uma cor determinadas; mudam as suas propriedades, como um químico muda a dos gases ou de outras substâncias, combinando-as segundo certas leis.

Algumas vezes, essas transformações são o resultado de uma intenção, outras, são o produto de um pensamento inconsciente. Ao espírito basta pensar em uma coisa para que ela se produza.

É assim, por exemplo, que um Espírito se apresenta à visão de um encarnado, dotado de visão espiritual, com a aparência que tinha quando vivo na época em que o encarnado o conheceu, embora ele tenha vivido, depois dessa época, muitas outras encarnações.

Ele se apresenta com as roupas, os sinais exteriores, enfermidades, cicatrizes, membros amputados, etc., que tinha então. Um decapitado se apresentará sem a cabeça. Isso não quer dizer que ele tenha conservado essa aparência, claro que não, uma vez que, como espírito, ele não é coxo, nem maneta, nem zarolho e nem decapitado.

O que ocorre é que seu pensamento se reportando à época em que era assim, seu perispírito toma instantaneamente aquela aparência, que ele deixa, do mesmo modo, logo que o pensamento deixa de agir naquele sentido.

Assim, se em uma encarnação foi negro e numa outra foi branco, ele se apresentará como branco ou como negro, conforme a encarnação sob a qual for evocado e a que se transporte o seu pensamento.

Por um efeito análogo, o pensamento do espírito cria fluidicamente os objetos dos quais ele tinha o hábito de se servir. Um espírito avarento manuseará ouro, um militar terá suas armas e seu uniforme, um fumante seu cachimbo, um lavrador sua charrua e seus bois, uma velha mulher a sua roca. Esses objetos fluídicos são tão reais para o espírito quanto o eram, no estado material, para o homem vivo, mas pelo fato de serem criações do pensamento, sua existência é tão fugaz quanto a do pensamento que os criou.

A ação dos espíritos sobre os fluidos espirituais tem consequências de uma importância direta e capital para os encarnados. Desde o momento em que esses fluidos são o veículo do pensamento, e que o pensamento pode modificar-lhes as propriedades, é evidente que eles devem estar impregnados das qualidades boas ou más dos pensamentos que os põem em vibração, modificados pela pureza ou impureza dos sentimentos.

Os maus pensamentos corrompem os fluidos espirituais, como os miasmas deletérios corrompem o ar respirável. Os fluidos que cercam os maus espíritos ou que eles projetam são, pois, viciados, enquanto que aqueles que recebem a influência de bons espíritos são tão puros quanto o comporta o grau da perfeição moral desses mesmos espíritos.

Não seria possível fazer uma enumeração ou uma classificação de bons e de maus fluidos, nem especificar suas qualidades respectivas, considerando-se que sua diversidade é tão grande quanto a dos pensamentos. (KARDEC. A Gênese, da pg. 322 a pg. 324)

Conclusão

O perispírito é o envoltório semimaterial que acompanha o Espírito e lhe permite relacionar-se com diferentes condições de existência.

Formado a partir do fluido universal próprio de cada mundo, ele se adapta ao ambiente, responde à ação do pensamento e pode participar de fenômenos de percepção e manifestação espiritual.

Sua plasticidade traduz a ligação contínua entre a realidade íntima e as formas pelas quais o ser se expressa.

A principal consequência dessa compreensão é moral. Se pensamentos e sentimentos qualificam os fluidos e influenciam a sintonia espiritual, educar a mente e o coração integra o próprio processo evolutivo.

O estudo do perispírito não se limita a esclarecimentos de alguns fenômenos: amplia a consciência sobre a responsabilidade pessoal e os seus efeitos da vida íntima nas relações.

Ao cultivar o bem, o ser melhora a sua conduta, favorece vínculos mais equilibrados e participa da construção de uma atmosfera espiritual mais saudável para si e àqueles que a cercam.

Compilado por: Juan Carlos Orozco

Bibliografia

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 1ª Edição. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. Obras póstumas. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

ROCHA, Cecília (org.). Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita: programa complementar. Tomo único. 1ª Edição. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2014.

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