Transmigrações progressivas: o caminho irreversível para a evolução espiritual

Essa reflexão trata das questões de 189 a 196 em “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, que trazem esclarecimentos a respeito das transmigrações progressivas, que representam o processo irreversível de evolução espiritual contínua das almas por meio de reencarnações sucessivas em diferentes corpos e mundos.

Pela Doutrina Espírita, há o esclarecimento de que os Espíritos são criados por Deus simples e ignorantes, com iguais aptidões para o progresso a que são destinados. Ninguém nasce privilegiado ou condenado ao mal, porquanto todos começam no mesmo estágio de evolução, ou seja, simples e ignorantes.

Pelo determinismo divino, o destino de todos os Espíritos é a perfeição. O tempo e os caminhos para alcançar essa perfeição dependem do esforço próprio, das escolhas e da vontade de cada individualidade através das reencarnações.

A vida material é necessária para que o Espírito execute tarefas e passe por provas que consolidam o seu aprendizado. Ninguém chega à perfeição sem passar pelas fileiras da encarnação. O corpo físico funciona como meio para o Espírito ampliar as suas virtudes, superar as suas imperfeições e desenvolver a inteligência e o amor por meio do trabalho e das relações humanas.

Em uma comparação, o Espírito passa também por uma fase de infância em seu processo de crescimento, à semelhante da infância na vida corporal, na qual a sua consciência e o seu livre-arbítrio se desenvolvem gradualmente.

Na primeira encarnação, a alma começa a sua caminhada evolutiva. O Espírito vive fase instintiva de inteligência rudimentar, não gozando da plenitude de suas faculdades, em que o livre-arbítrio e a responsabilidade moral vão desabrochando, exatamente como ocorre no crescimento de uma criança, sem ter consciência de si mesmo e de seus atos.

A inteligência se desenvolve pouco a pouco, sem o conhecimento do bem e do mal, mas trazem em si o germe e a potencialidade para o desenvolvimento de todas as suas faculdades. A alma já nutre sentimentos, desejos, paixões e impulsos básicos, sinais de atividade e de consciência do “eu”.

Kardec, depois das respostas à questão 191, em “O Livro dos Espíritos”, esclarece:

“A vida do Espírito, em seu conjunto, apresenta as mesmas fases que observamos na vida corporal. Ele passa gradualmente do estado de embrião ao de infância, para chegar, percorrendo sucessivos períodos, ao de adulto, que é o da perfeição, com a diferença de que para o Espírito não há declínio, nem decrepitude, como na vida corporal; que a sua vida, que teve começo, não terá fim; que imenso tempo lhe é necessário, do nosso ponto de vista, para passar da infância espírita ao completo desenvolvimento; e que o seu progresso se realiza, não num único mundo, mas vivendo ele em mundos diversos. A vida do Espírito, pois, se compõe de uma série de existências corpóreas, cada uma das quais representa para ele uma ocasião de progredir, do mesmo modo que cada existência corporal se compõe de uma série de dias, em cada um dos quais o homem obtém um acréscimo de experiência e de instrução. Mas, assim como, na vida do homem, há dias que nenhum fruto produz, na do Espírito há existências corporais de que ele nenhum resultado colhe, porque não as soube aproveitar.”

Não há possibilidade de o Espírito transpor todos os graus da escala de aperfeiçoamento em poucas reencarnações para tornar-se Espírito puro, pulando os estágios intermédios, porquanto para atingir o estado de perfeição é preciso adquirir a plenitude da inteligência suprema e todos os atributos morais possíveis.

Assim, a evolução espiritual é processo gradual e contínuo que exige desenvolvimento da inteligência e da moral, sendo impossível saltar etapas em direção à perfeição absoluta. Se somente se adiantou em um sentido, importa se adiante no outro.

Dá-se com o Espírito o que se verifica com a criança; por mais precoce que seja, tem de passar pela juventude, antes de chegar à idade adulta.

Quanto mais o homem se adianta na vida atual, menos longas e penosas serão as provas que se seguirem.

Cabe ao ser humano preparar a vida presente para a existência futura com menos amarguras, reduzindo a extensão e as dificuldades do caminho.

Pela lei do progresso, o Espírito pode estacionar, mas não regride ou degenera, mantendo o que já conquistou em outras existências. Os Espíritos se elevam gradualmente na escala espiritual sem descer da categoria a que ascenderam. Em diferentes existências, os Espíritos podem descer como seres humanos para cumprir as provas e as expiações, mas não decaem como Espíritos. Isso, porque o Espírito nunca perde a inteligência ou a moralidade que já conquistou.

Espírito que alcançou certo nível de elevação pode reencarnar em posições sociais humildes, sofridas ou passar por duras expiações na Terra. Quem foi rico pode retornar pobre. Essa situação representaria declínio na condição material e social, mas não na sua evolução como ser espiritual.

A vida corpórea funciona como meio de purificação, onde o Espírito é colocado diante de dificuldades que exigem escolhas morais. O Espírito melhora nessas provas, evitando o mal e praticando o bem. Porém, somente ao cabo de mais ou menos longo tempo, conforme os esforços que empreguem, após muitas encarnações ou depurações sucessivas, atingem a finalidade a que tendem.

Assim, o Espírito é construtor do seu destino, com a responsabilidade e o mérito de sua caminhada, em que cada escolha no presente trará efeito na vida futura.

O Espírito não é condenado a um destino imutável, porquanto cada encarnação é oportunidade e etapa necessária na jornada evolutiva rumo à perfeição. Não há atalhos.

O progresso é um processo contínuo irreversível.

Autor: Juan Carlos Orozco

Bibliografia

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 1ª Edição. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

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