Esta reflexão trata de aptidões, tendências, vocações, faculdades intelectuais e atributos morais que revelam a trajetória do Espírito, segundo as respostas às questões de 218 a 221 em “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, que fornecem conhecimentos intuitivos como ideias inatas de vidas passadas.
Essas ideias inatas parecem se manifestar, em certo momento, como peças de um quebra-cabeça que se juntam para formar uma imagem do passado.
Na questão 218, Kardec pergunta se o Espírito conserva algum vestígio das percepções e dos conhecimentos que adquiriu nas existências anteriores. A resposta é que o Espírito guarda vaga lembrança, que lhe dá o que se chama ideias inatas, porque ele não esquece o que aprendeu.
Liberto da matéria, o Espírito sempre tem essa lembrança. Durante a reencarnação, esquece-a momentaneamente; porém, a intuição que dela conserva lhe auxilia o progresso.
Em cada existência, o Espírito tem como ponto de partida o alcançado anteriormente. Se não fosse assim, teria que recomeçar constantemente.
Mesmo sem recordar fatos, nomes ou lugares, o Espírito traz consigo tendências, habilidades e valores construídos ao longo do tempo.
A natureza do esquecimento temporário de fatos do passado, como traumas de vidas anteriores, é compreendida como necessidade evolutiva. Sem o peso dos erros passados, o Espírito tem oportunidade para recomeçar.
O fenômeno do esquecimento de existências anteriores acompanha a reencarnação do Espírito, desde a sua união ao embrião pelo laço fluídico (perispírito) até o seu retorno ao plano espiritual, quando recupera a lembrança do seu passado.
Com o nascimento, o Espírito começa a recuperar suas faculdades, desenvolvendo-as à medida que formam os órgãos. Ao mesmo tempo, o Espírito restabelece a consciência de si mesmo, porém sem a lembrança do passado, mantendo as faculdades, qualidades e aptidões adquiridas em estado de latência, que o ajudarão a fazer melhor do que antes.
O Espírito renasce para continuar e melhorar o trabalho interrompido. O renascimento é mais um degrau a subir, visto que a lembrança do passado, muitas vezes penosa e humilhante, adicionada aos amargores de uma nova existência, poderia perturbá-lo e criar embaraços.
Pelo esquecimento do passado, surge novo ser, por mais antigo que seja seu Espírito, adotando novos processos, auxiliado pelas aquisições anteriores. Ao mesmo tempo, não entendemos o porquê de determinadas circunstâncias, ocorrências, fatos e adversidades na vida, que refletem o passado existencial de cada um de nós.
Pelas ideias inatas, podemos ter leve noção do que somos pelo que fomos em face das características das provas e expiações da vida presente, despertando para a tarefa a ser realizada que se apresenta diante de nós.
Quando retornar ao plano espiritual, a lembrança do passado se desdobrará diante dos olhos, sabendo se empregou bem ou mal o seu tempo. Com isso, não há solução de continuidade na vida espiritual, pois o Espírito imortal é o mesmo, sendo apenas mais uma fase de sua existência.
Em recomeço, o Espírito carrega seu patrimônio: atributos, aptidões, faculdades, vocação, conhecimentos, sentimentos, comportamentos, atitudes, percepções de vida, vícios, ilusões, preconceitos, dentre outros, de experiências e aprendizados acumulativos.
Em determinada reencarnação, o Espírito, mudando de corpo, pode obstar alguma faculdade, que poderá permanecer adormecida, em estado latente, por querer o Espírito exercitar outra, mas ela poderá reaparecer mais tarde.
Por tudo isso, compreender as ideias inatas convida ao autodescobrimento, ao autoconhecimento e à conscientização de si mesmo, pois somos consequência do que fomos.
Se olhar para a vida atual, pode-se ter uma noção das provas e expiações em relação ao passado, e uma ideia do que realizar para reparar as faltas anteriores.
Nesse contexto, podemos enxergar o passado pelo presente, pois colhemos o que plantamos livremente, cujos frutos das escolhas retornarão como situações, pessoas ou coisas, boas ou más, do que realizamos. As ações, quer sejam positivas ou negativas, geram consequências que retornam em algum momento.
Lembre-se: somos pelo que fomos. Logo, poderemos enxergar o passado por suas ideias inatas para entender o presente e construir um futuro melhor.
Autor: Juan Carlos Orozco
Bibliografia
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 1ª Edição. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.
