Pressentimento é a percepção, muitas vezes vaga e inexplicável, de que algo poderá acontecer no futuro, podendo ser bom ou ruim.
Normalmente, manifesta-se como intuição com a sensação de risco, perigo, prenúncio, alerta, cuidado, advertência, orientação, informação, expectativa, dentre outras, sem que haja causa racional evidente.
Em algum momento, sentimos um pressentimento que poderá causar receio, dúvida, desconfiança, medo, alarme, até alegria ou euforia, que recomenda cautela, sendo difícil de se estabelecer uma relação de causa e efeito, e do que poderá ser provavelmente alerta, ansiedade, imaginário ou falso, não identificando um motivo lógico aparente.
Sob a ótica espírita, com outro enfoque, em “O Livro dos Espíritos”, na questão 522, os Espíritos Superiores revelam que o pressentimento poderá ser um “conselho íntimo e oculto” proveniente de um Espírito protetor (ação externa), mediante orientação silenciosa que tem por objetivo desviar do mal ou preparar para um acontecimento, sem violar o livre-arbítrio.
Pressentimento poderá, ainda, ter dinâmica interior da lembrança de compromissos, provas ou escolhas que o próprio Espírito assumiu antes de reencarnar. Nesse caso, a voz da intuição é de escolha anterior, como espécie de impressão do gênero das provas a que se submete. Nessa situação, o Espírito pressente o encadeamento de causas e efeitos que ele mesmo programou.
Esses dois tipos de pressentimentos, influência de benfeitores espirituais e memória espiritual reminiscente da própria alma, impedem que se reduza as intuições a uma única causa. É preciso cautela para discernir.
A resposta à questão 523 reconhece que os pressentimentos são, por natureza, vagos e imprecisos. Diante dessa incerteza, qual deve ser a atitude?
A orientação é recorrer à prece, pedindo a Deus e ao bom Espírito que esclareçam, fortaleçam, orientem e elevem o pensamento.
A confiança na assistência espiritual não dispensa cuidados; ao contrário, estimula.
A prece verdadeira não paralisa, mobiliza; não substitui a razão, ilumina-a. O Espírito amadurecido aprende que a inspiração superior costuma chegar como reforço à sua própria consciência, jamais como substituto da inteligência, da experiência e do diálogo.
Na questão 524, os Espíritos esclarecem que seus avisos não se limitam apenas a questões morais, porquanto alcançam tudo e os assuntos particulares da vida cotidiana. Isso para que possa viver melhor possível.
Kardec comenta a resposta da questão 524:
“Os Espíritos protetores nos ajudam com seus conselhos, mediante a voz da consciência que fazem ressoar em nosso íntimo. Como, porém, nem sempre ligamos a isso a devida importância, outros conselhos mais diretos eles nos dão, servindo-se das pessoas que nos cercam. Examine cada um as diversas circunstâncias felizes ou infelizes de sua vida e verá que em muitas ocasiões recebeu conselhos de que se não aproveitou e que lhe teriam poupado muitos desgostos, se os houvera escutado.”
A orientação espiritual pode chegar por diversos meios: voz da consciência; conversa casual; leitura inesperada; conselho de alguém; análise serena das circunstâncias; etc. O essencial não é o meio, mas a finalidade benéfica da mensagem.
Kardec ensina que devemos filtrar a intuição pela razão, lógica e moral, porquanto há também influências de Espíritos inferiores que podem conduzir para algo ruim. Isso porque o mundo espiritual interage constantemente conosco, mas a aceitação dessas ideias passa obrigatoriamente pelos crivos da racionalidade e do discernimento, que são indispensáveis.
Um pressentimento que provoca medo, ansiedade, culpa, dependência emocional, promete revelações sensacionalistas, fixa datas para acontecimentos fatais ou de grande impacto, soluções mágicas, julgamento alheio, ou alimenta a curiosidade mórbida, deve ser recebido com reserva. A verdadeira inspiração eleva, acalma e conduz ao bem; nunca amedronta e nem escraviza.
Em “O Livro dos Médiuns”, na Segunda Parte, no item “184 – Médiuns de pressentimentos”, Kardec ensina:
“O pressentimento é uma intuição vaga das coisas futuras. Algumas pessoas têm essa faculdade mais ou menos desenvolvida. Pode ser devida a uma espécie de dupla vista, que lhes permite entrever as consequências das coisas atuais e a filiação dos acontecimentos. Mas, muitas vezes, também é resultado de comunicações ocultas e, sobretudo neste caso, é que se pode dar aos que dela são dotados o nome de médiuns de pressentimentos, que constituem uma variedade dos médiuns inspirados.”
Kardec, sobre médiuns proféticos, na Segunda Parte, no item “190 – Médiuns especiais para efeitos intelectuais. Aptidões diversas”, esclarece:
“Recebem, permitindo-o Deus, com mais precisão do que os médiuns de pressentimentos, a revelação de futuras coisas de interesse geral e são incumbidos de dá-las a conhecer aos homens, para instrução destes. ‘Se há profetas verdadeiros, mais ainda os há falsos, que consideram revelações os devaneios da própria imaginação, quando não são embusteiros que, por ambição, se apresentam como tais’.”
Em “Obras Póstumas”, em “IV – Emancipação da alma”, no item 28, Kardec relaciona pressentimentos à emancipação da alma:
“Em sua manifestação mais simples, a faculdade que a alma tem de emancipar-se produz o que se denomina o devaneio em vigília. A algumas pessoas, essa emancipação também dá a presciência, que se traduz pelos pressentimentos; em grau mais avançado de desprendimento, produz o fenômeno conhecido pelo nome de ‘segunda vista’, ‘vista dupla’, ou ‘sonambulismo vígil’.”
No mesmo livro, no item 48, Kardec diferenciando pressentimento de profecia, comenta:
“De certo modo, o pressentimento é dado à maioria dos homens, para uso pessoal deles; o dom de profecia, ao contrário, é excepcional e implica a ideia de uma missão na Terra. Todavia, se há verdadeiros profetas, maior é o número dos falsos, que tomam os devaneios da sua imaginação como revelações, quando não são velhacos que por ambição se fazem passar como profetas. ‘O verdadeiro profeta é um homem de bem, inspirado por Deus. Podeis reconhecê-lo pelas suas palavras e pelos seus atos. Impossível é que Deus se sirva da boca do mentiroso para ensinar a verdade’.”
Assim, na perspectiva espírita, os pressentimentos nascem de duas fontes complementares: impressões do próprio Espírito e inspiração de protetores espirituais.
Nenhum pressentimento dispensa a verificação dos fatos.
A verdadeira orientação espiritual não impõe, amedronta, pune, castiga ou manipula. Ela convida, esclarece, consola, aperfeiçoa, estimula, liberta, fortalece e conduz a fazer o bem, com prudência, coragem e amor, respeitando o livre-arbítrio.
Por fim, o exercício da mediunidade deve ser responsável, equilibrado e com utilidade moral para o aperfeiçoamento pessoal e da coletividade.
Autor: Juan Carlos Orozco
Referências
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questões 522 a 524. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira.
KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira.
