Conhecimento de si mesmo: Quem é você? Você se conhece?

Essa reflexão trata da questão 919 de “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, que traz esclarecimentos a respeito do conhecimento de si mesmo.

Quem é você? Você se conhece?

Consciência é o centro da personalidade: individualidade que se mantém nas transformações do ser. É a faculdade de perceber, sentir, viver, agir, pensar, experimentar e compreender os mundos interior e exterior.

Consciência moral é a percepção do que é certo ou errado em atos e motivos. É o senso íntimo que julga a legitimidade de atos e intenções. Quando associada ao ambiente social, confere à pessoa a capacidade de realizar uma avaliação crítica sobre o que é certo ou errado.

A consciência de si mesmo permite vivenciar, experimentar e compreender aspectos do seu interior e a percepção do mundo em que vive, dentro de uma relação do “eu” com o ambiente em sociedade, para realizar avaliação crítica do que é moralmente certo ou errado.

Autodescobrimento é ir ao encontro do interior desconhecido, penetrando, explorando e desvendando sua personalidade espiritual que deve progredir moral e espiritualmente, ou seja, representa o movimento de exploração do próprio mundo interior desconhecido, desvendando a personalidade espiritual em busca de progresso.

Conhecimento é a capacidade de entender, aprender e compreender coisas, fatos, fenômenos ou informações por meio de experiência, vivência, raciocínio ou associação.

Autoconhecimento é o estado de consciência própria acerca de características, atitudes, comportamentos, virtudes, vícios, sensações, inclinações, sentimentos e variados domínios da realidade. É o mapeamento real e prático de si mesmo, o diagnóstico claro de virtudes, vícios, comportamentos, pensamentos e inclinações.

O autodescobrimento, o autoconhecimento e a consciência de si mesmo são indutores de evolução moral e espiritual por meio da reforma íntima. À medida que vamos nos descobrindo e conhecendo como seres espirituais inteligentes, vamos dominando as potencialidades da alma e do corpo, controlando os pensamentos, a vontade e os desejos.

O encadeamento dessas faculdades atua diretamente no processo de reforma íntima, gerando os seguintes resultados práticos: o domínio das potencialidades da alma e as reações do corpo físico; educação da vontade pelo controle sobre os pensamentos, desejos e impulsos primitivos; e reflexo mental, passando a corresponder ao nível de maturidade e estágio evolutivo alcançado. A mente é o espelho da vida, refletindo a alma e projetando os pensamentos, conforme o nosso estágio evolutivo.

Na questão 919, em “O Livro dos Espíritos”, Kardec pergunta: “Qual o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal?”

A resposta cita um ensinamento antigo, mas sempre atual: “Conhece-te a ti mesmo”. Mas a parte mais difícil é justamente essa: Como, de fato, se conhecer?

O Espírito de Santo Agostinho compartilha o método que ele próprio usava quando vivia na Terra: “Fazei o que eu fazia, quando vivi na Terra: ao fim do dia, interrogava a minha consciência, passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se não faltara a algum dever, se ninguém tivera motivo para de mim se queixar. Foi assim que cheguei a me conhecer e a ver o que em mim precisava de reforma. (…) Dirigi, pois, a vós mesmos perguntas, interrogai-vos sobre o que tendes feito e com que objetivo procedestes em tal ou tal circunstância, sobre se fizestes alguma coisa que, feita por outrem, censuraríeis, sobre se obrastes alguma ação que não ousaríeis confessar. Perguntai ainda mais: Se aprouvesse a Deus chamar-me neste momento, teria que temer o olhar de alguém, ao entrar de novo no mundo dos Espíritos, onde nada pode ser ocultado? (…) Examinai o que pudestes ter obrado contra Deus, de pois contra o vosso próximo e, finalmente, contra vós mesmos. As respostas vos darão, ou o descanso para a vossa consciência, ou a indicação de um mal que precise ser curado. O conhecimento de si mesmo é, portanto, a chave do progresso individual.”

Santo Agostinho sugere que cada um faça o mesmo: ao se deitar, reserve alguns minutos para revisar o dia. Não precisa de nada complicado, apenas perguntas honestas, dirigidas a si mesmo: O que eu fiz hoje? Por qual motivo agi assim em determinada situação? Fiz algo que, se fosse feito por outra pessoa, eu criticaria? Há alguma atitude minha que eu não teria coragem de admitir em voz alta? Se Deus me chamasse agora, eu teria medo do olhar de alguém ao retornar ao mundo espiritual, onde nada fica escondido?

Examine suas ações em três níveis: contra Deus, ao próximo e a si mesmo. As respostas trarão a paz de consciência, ou a indicação clara de algo que precisa ser melhorado.

Mas a gente não se engana sobre si mesmo?

Esse é o ponto mais delicado.

O orgulho e o amor-próprio tendem a suavizar as próprias falhas. “O avarento se considera apenas econômico e previdente; o orgulhoso julga que em si só há dignidade. Isto é muito real, mas tendes um meio de verificação que não pode iludir-vos.”  

Como escapar dessa armadilha?

Quando estiver em dúvida sobre uma atitude sua, pergunte-se: Se outra pessoa fizesse isso, eu acharia certo ou errado? Se você condenar o outro, não tem como justificar em si mesmo, Deus não usa duas medidas.

Também vale ouvir o que as pessoas ao redor pensam, inclusive os inimigos. Eles, afinal, não têm interesse em lhe agradar e podem funcionar como um espelho sincero.

Por que vale a pena fazer esse esforço?

Se você investe seu tempo diário para construir uma aposentadoria confortável, por que não investir alguns minutos para construir uma vida interior mais tranquila e um futuro espiritual mais sereno?

O comerciante faz o balanço dos lucros e prejuízos; faça o mesmo com o seu “dia moral”. Com o tempo, você vai perceber que os acertos superam as falhas.

E se puder dormir sabendo que fez um bom dia, poderá descansar em paz.

Autodescobrimento, autoconhecimento e consciência de si mesmo

Com dito no início, essas ações são necessárias para impulsionar uma reforma íntima.

Isso porque a conscientização de si mesmo, por meio do autodescobrimento e do autoconhecimento, permite ao ser humano vivenciar, experimentar e compreender aspectos do seu mundo interior e a percepção do mundo em que vive, dentro de uma relação do “eu” com o ambiente em sociedade, para realizar uma avaliação crítica do que é moralmente certo ou errado em atos e motivos individuais.

A reflexão e a introspecção conduzem para identificar as próprias imperfeições e reconhecer o que é preciso melhorar para seguir o caminho da renovação decorrente das transformações vivenciadas pelo Espírito. E ainda auxiliam a identificar e reconhecer as possibilidades, os recursos latentes e os meios que poderão ser utilizados nessa empreitada renovadora.

Afinal das contas, quem vai julgar pelo que fizemos ou deixamos de fazer é a própria consciência, porquanto a consciência é essência da personalidade, pois somos responsáveis pelos nossos atos ou omissões. Perante as leis divinas, seremos julgados e condenados pela própria consciência.

É a própria consciência também que vai atrair as oportunidades de reajustes, reabilitação e regeneração da alma.

A consciência de si mesmo e a percepção das coisas exteriores relacionam-se com a inteligência, a vontade, a liberdade e a responsabilidade.

Nesse aspecto, a Doutrina Espírita esclarece que, na infância espiritual, o Espírito é movido pelo instinto de sobrevivência, não tendo consciência de si e pouca é a sua liberdade de escolha. O livre-arbítrio e a liberdade de escolha, entre o bem e o mal, desenvolvem-se à medida que o Espírito adquire inteligência e consciência de si mesmo.

Reforma íntima

Deus nos chama à responsabilidade pelos atos praticados. Pela justiça divina, somos educados para melhorar e evoluir, pois a vida tem um sentido existencial. Tudo tem um motivo, um propósito, uma finalidade e uma vontade divina na construção do nosso destino e na cocriação de um mundo mais fraterno.

A Doutrina Espírita, com seus esclarecimentos, foca, principalmente, a pessoa e o seu interior para estimular a renovação e a regeneração.

Propõe a reforma íntima como a luta necessária contra as próprias imperfeições na busca da melhoria moral para seguir em frente no caminho do progresso moral e espiritual.

Tudo isso mediante esforço próprio e trabalho edificante pela prática do verdadeiro amor e da caridade que salva.

Porque somos um mundo interior, morada íntima e microcosmo individual ou universo a parte, local de transformação, renovação, fé, cura e de progresso espiritual na batalha íntima do bem contra o mal, com um ritmo evolutivo próprio condizente com o nosso grau de consciência e amor.

Muitos buscam a felicidade momentânea em lugares, bens materiais, poder ou pessoas. Projetam as causas das aflições e dos sofrimentos em algo, alguém ou ao acaso. Porém, esquecem que a construção da verdadeira felicidade começa na edificação do próprio ser. A transformação do ser humano é uma ação de dentro para fora, mediante processo contínuo de aprimoramento.

A Terra, mundo de provas e expiações, é escola abençoada e estágio necessário para essa evolução, e não uma prisão de penas eternas. A busca da felicidade é uma realidade a que todos estamos destinados pelo determinismo divino da reencarnação em pluralidade de existências na busca da perfeição. Para alcançar essa perfeição, temos que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal.

O Espírito imortal necessita adquirir todas as virtudes e aptidões pela prática do bem, do amor e da caridade, concorrendo para a execução dos propósitos divinos, no limite do desenvolvimento de suas forças físicas e intelectuais, em que cada um tem seu papel a desempenhar, sendo solidário coletivamente para o progresso geral.

Muitos dos males que vivemos são frutos do nosso caráter, da maneira de proceder, da imprevidência, do egoísmo, do orgulho, da ambição, da falta de perseverança para resistir às tentações, das paixões descontroladas, dos desejos insaciáveis, da excessiva vaidade, da ausência de moderação, da raiva dominante, do ódio doentio, das más tendências, da fraqueza moral, da indiferença para com o próximo, da ingratidão, da cegueira para as coisas de Deus.

Para garantir a libertação da alma, o Espírito tem de renunciar às suas imperfeições, fazendo despertar o arrependimento das faltas cometidas, mediante o desejo de se depurar e reparar o mal causado.

Toda falta cometida é dívida contraída que deverá ser paga. Se não for em uma existência, será na seguinte ou seguintes, porque todas as existências são solidárias entre si. Os males são causados por nós mesmos, nesta vida ou em existências passadas, porquanto não há efeito sem causa.

Pela Lei de Causa e Efeito, tudo o que plantamos no passado colhemos agora. As nossas escolhas de agora determinarão o que vamos colher no futuro.

Pelo véu do esquecimento, não temos lembrança da vida passada durante a vida corpórea, o que permite a regeneração do Espírito.

Em cada estágio da prática do amor divino, purificamos o coração das nossas próprias imperfeições mediante as lutas renovadoras. A cada experiência amorosa, sobe-se um degrau evolutivo. O amor tudo modifica, transforma, cura e regenera.

À medida que o ser humano avança na vida espiritual, a alma que enveredou pelo mau caminho se esclarece e despoja, pouco a pouco, de suas imperfeições, conforme a maior ou menor boa vontade que demonstre, em virtude do seu livre-arbítrio.

O esforço de purificação é objetivo essencial daqueles que se encontram conscientes da necessidade de aperfeiçoamento moral e espiritual, tornando-os pessoas melhores pela assepsia de pensamentos e seleção de atitudes perante a si mesmo e com o seu próximo.

Devemos ir ao encontro de Jesus, buscar sua fonte amorosa e energia fluídica irradiante pelos canais condutores da fé.

Diante das aflições, precisamos ter a paz do Cristo e bom ânimo para enfrentar as provações e expiações, afastando a angústia, a ansiedade, o medo, o desânimo, a depressão e os maus pensamentos.

Cristo espera que adotemos uma postura de levantar-se e seguir em frente. Reparando o tempo perdido, façamos brilhar a nossa luz para a vida, aproveitando a experiência do passado para construir um novo futuro.

É indispensável a luta do bem contra o mal dentro do próprio íntimo para se tornar possível o triunfo futuro. Quanto mais a alma se eleva, cresce, se faz bela, tanto mais a dor se espiritualiza e torna sutil.

A evolução moral e espiritual será mediante a depuração das nossas imperfeições no caminho da verdade e da vida a caminho do Pai em pluralidade de existências.

Conheça a você mesmo!

Reflita o que Santo Agostinho escreveu: “O conhecimento de si mesmo é, portanto, a chave do progresso individual. Mas, direis, como há de alguém julgar-se a si mesmo? Não está aí a ilusão do amor-próprio para atenuar as faltas e torná-las desculpáveis?”

Autor: Juan Carlos Orozco

Referências

ÂNGELIS, Joanna (Espírito); na psicografia de Divaldo Pereira Franco. Autodescobrimento: uma busca interior. 1ª Edição. Salvador/BA: Editora Leal, 2002.

ÂNGELIS, Joanna (Espírito); na psicografia de Divaldo Pereira Franco. O ser consciente 1ª Edição. Salvador/BA: Editora Leal, 2008.

DENIS, León. O problema do ser, do destino e da dor. 32ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2017.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

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https://juancarlosespiritismo.blog/

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