Não se pode servir a Deus e a Mamon

Esta reflexão colhe os ensinamentos do Capítulo XVI de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, de Allan Kardec, que tem como título: “não se pode servir a Deus e a Mamon”.

Deus não condena a riqueza e tampouco o rico, ou a pobreza e o pobre. O que se condena é o mau uso dos bens que Deus nos dá como instrumento de progresso moral para ser utilizado no amor ao próximo pela ação da caridade rumo à fraternidade universal, quer seja rico ou pobre. A riqueza como prova ou expiação associa-se aos talentos que Deus nos empresta para a prática do bem, servindo.

Nesse sentido, em “O Consolador”, na psicografia de Francisco Cândido Xavier, na resposta à pergunta 57, o Espírito Emmanuel disse: todos os homens são ricos pelas bênçãos de Deus e cada qual deve aproveitar, com êxito, os ‘talentos’ recebidos, porquanto, sem exceção de um só, prestarão um dia, ale-túmulo, contas de seus esforços”. (EMMANUEL. O Consolador)

No dizer de Cairbar Schutel: “todos somos filhos de Deus; o Pai das Almas reparte com todos igualmente os seus dons; a uns dá mais, a outros dá menos, sempre de acordo com a capacidade de cada um. A uns dá dinheiro, a outros sabedoria, a outros dons espirituais, e, finalmente, a outros concede todas essas dádivas reunidas. De modo que um tem cinco talentos, outro dois, outro um; ou então um tem dez minas, outro cinco, outro duas”.  (Cairbar Schutel. Parábolas e Ensino de Jesus.)

Em “O Céu e o Inferno”, de Allan Kardec, no Capítulo I, em “A passagem”, temos: a confiança na vida futura não exclui os temores quanto à passagem desta para a outra vida. Muitas pessoas não temem a morte em si, mas o momento da transição. Sofre-se ou não nessa passagem? É por isso que se inquietam, e com razão, visto que ninguém foge à lei fatal dessa transição. Podemos dispensar-nos de uma viagem neste mundo, menos essa. Ricos e pobres, todos devem fazê-la, e, por mais dolorosa que seja, nem posição nem fortuna poderiam suavizá-la”. (KARDEC. O Céu e o Inferno)

“Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará a outro, ou se prenderá a um e desprezará o outro. Não podeis servir simultaneamente a Deus e a Mamon”. (Lucas, 16: 13)

Mamon, literalmente, significa dinheiro em hebraico; um termo para descrever, na maioria das vezes, riqueza material ou cobiça. Mamon pode representar também um pecado capital, a ganância ou avareza. Em outra visão, Mamon representaria um “deus”, “senhor” ou “demônio” da avareza, um dos sete príncipes do inferno, que controlaria e dominaria as almas dos homens, com uma aparência deformada, carregando um grande saco de moedas de ouro e subornando os humanos.

No livro “Céu e Inferno”, de Allan Kardec, a expressão Mamon aparece no Capítulo IV, na “Descrição do inferno cristão”, na lista da ralé de demônios da legião de vampiros, sendo Mamon um dos muitos príncipes que comandariam tais legiões, o “demônio da avareza”. Então, servir a Mamon seria como servir ao “demônio da avareza”.

Nesta reflexão, Mamon representará as paixões inferiores e as coisas materiais supérfluas que, pelo fascínio que exercem sobre as criaturas, podem arrastá-las a grandes desarmonias espirituais e a quedas morais significativas” (MOURA. Estudo aprofundado da doutrina espírita: Ensinos e parábolas de Jesus – Parte I).

Aquele que é dominado pelos sentimentos inferiores de apego aos bens materiais, pensando tão somente no gozo das paixões que escravizam, precisa se libertar deste jugo, porquanto Deus dirá: o que fizeste, depositário infiel, dos bens que lhe confiei?

O melhor emprego da riqueza divina está nas palavras do Mestre: “amai-vos uns aos outros”. Elas guardam o segredo do bom emprego dessa riqueza. Quem ama o próximo pela caridade emprega a riqueza que mais agrada a Deus. É a riqueza das boas obras.

Assim, é preciso livrar-se do Mamon que domina e escraviza o Espírito invigilante.

Sendo o homem depositário fiel e administrador dos bens de Deus, responsabilidade lhe será cobrada do emprego que haja dado a eles em função do uso do livre-arbítrio.

A riqueza divina deve ser igual à fonte de água viva que espalha a fecundidade e o bem-estar ao seu derredor.

Vejamos a Parábola de Zaqueu: “Tendo Jesus entrado em Jericó, passava pela cidade; e havia ali um homem chamado Zaqueu, chefe dos publicanos e muito rico, o qual, desejoso de ver a Jesus, para conhecê-lo, não o conseguia devido à multidão, por ser ele de estatura muito baixa. Por isso, correu à frente da turba e subiu a um sicômoro, para o ver, porquanto ele tinha de passar por ali. Chegando a esse lugar, Jesus dirigiu para o alto o olhar e, vendo-o, disse-lhe: Zaqueu, dá-te pressa em descer, porquanto preciso que me hospedes hoje em tua casa. Zaqueu desceu imediatamente e o recebeu jubiloso. Vendo isso, todos murmuravam, a dizer: ele foi hospedar-se em casa de um homem de má vida. Entretanto, Zaqueu, pondo-se diante do Senhor, lhe disse: Senhor, dou a metade dos meus bens aos pobres e, se causei dano a alguém, seja no que for, indenizo-o com quatro tantos. Ao que Jesus lhe disse: esta casa recebeu hoje a salvação, porque também este é filho de Abraão; visto que o Filho do Homem veio para procurar e salvar o que estava perdido”. (Lucas, 19: 1 a 10)

Zaqueu era conhecido como um avarento incorrigível, mas Jesus identificou-o como um rico de nobre coração, capaz de transformar a riqueza em trabalho e beneficência.

Embora Zaqueu fosse um arrecadador de impostos que enriquecera ilicitamente, as palavras do Mestre encontraram ressonância em seu coração.

A Parábola traz luz ao ensinamento de que certas almas se entregam ao mal porque ainda não foram despertadas para o bem. Apesar dessas almas preservarem algumas misérias e torpezas mundanas, podem ser terrenos férteis para receber a semente dos ideais nobres e generosos para, a qualquer momento, germinar, florescer e frutificar abundantemente.

Jesus aproveitava todas as circunstâncias para ensinar e encaminhar as pessoas para o bem, e o mesmo aconteceu com Zaqueu que, a partir daquele instante, teve a sua existência transformada. A conversão de Zaqueu revestiu-se de suma importância, indicando que todo pecador pode regenerar-se.

A prova da riqueza não é fácil de ser suportada, pois pode estimular a exacerbação das más tendências e o predomínio das paixões inferiores. A riqueza não é a causa dos males, mas sim o homem que dela abusa devido ao seu grau de inferioridade moral. Pelo abuso, o homem torna-se pernicioso daquilo que lhe poderia ser de maior utilidade para produzir o bem.

Cansado da vida que levava, Zaqueu sentiu a necessidade de conhecer Jesus. A sua percepção espiritual e a sua acuidade mental o fizeram refletir que Jesus era o caminho da sua regeneração espiritual. Diante desse fato, foi ao encontro do Mestre.

Ao hospedar o Mestre, Zaqueu exclamou: “Senhor, distribuo aos pobres a metade dos meus haveres; e se lesei a alguém, seja no que for, restituo-lhe quadruplicado”.

Zaqueu representa a soma de dificuldades que os arrependidos trazem no coração. Sintonizados, porém, com o Evangelho de Jesus, reconhecem que é possível vencer os desvios de caráter e corrigir os erros cometidos.

A transformação espiritual de Zaqueu apenas começara naquele encontro com Jesus, recebendo a oportunidade de se reajustar perante a Lei de Deus. Deveria, daí em diante, desenvolver todos os esforços necessários para o progresso do seu Espírito.

É necessário acender a luz para encontrar o caminho da libertação. Sem a irradiação brilhante do próprio ser, não poderemos ser vistos com facilidade pelos mensageiros divinos, que ajudam em nome do Altíssimo, e nem auxiliaremos a quem quer que seja. É indispensável organizar o santuário interior e iluminá-lo, a fim de que as trevas não nos dominem.

As provas da vida são desafios que permitem ao ser humano considerar a precariedade dos valores materiais que absorvem a humanidade encarnada. Redimensionando a existência à luz do entendimento evangélico, agora revivido pelo Espiritismo, aprendemos fazer distinção entre o certo e o errado, entre o que é de duração passageira e o que é eterno.

A conversão de Zaqueu ensina que o fato de a riqueza tornar difícil a jornada, não significa ser impossível encontrar o caminho da salvação e podemos de alguma forma servir a propósitos edificantes pelo amor ao próximo.

Pelo livre-arbítrio, o homem constrói a sua experiência e o seu progresso, distinguindo o bem do mal. Não deve o homem ser conduzido fatalmente ao bem, nem ao mal, sem o que não mais fora senão instrumento passivo e irresponsável como os animais. A riqueza é um meio de o experimentar moralmente.

Há ricos e pobres, e a cada um Deus atribui uma missão. A pobreza é prova de paciência e resignação. Já a riqueza é prova de caridade e de abnegação.

Os bens da Terra pertencem a Deus, que os distribui a seu grado, não sendo o homem senão o usufrutuário, o administrador mais ou menos íntegro e inteligente desses bens.

Eles não constituem propriedade individual do homem. Nada nos pertence na Terra, nem sequer o nosso pobre corpo. Os bens materiais aqui ficam. Somos depositários e não proprietários.

O desapego aos bens terrenos consiste em apreciá-los no seu justo valor, em saber servir-se deles em benefício dos outros e não apenas em benefício próprio, em não sacrificar por eles os interesses da vida futura, em perdê-los sem murmurar, caso apraza a Deus retirá-los.

O rico tem, pois, uma missão, que ele pode embelezar e tornar proveitosa a si mesmo. Rejeitar a riqueza, quando Deus a outorga, é renunciar aos benefícios do bem que se pode fazer, gerindo-a com critério.

Procede o ser de acordo com os desígnios de Deus quando sabe prescindir da riqueza quando não a tem, sabe empregá-la utilmente quando a possui, sabe sacrificá-la quando necessário.

Precisamos saber se contentar com pouco. Se somos pobres, não devemos ter inveja dos ricos, porquanto a riqueza não é necessária à felicidade. Se somos ricos, não devemos esquecer que os bens de que dispondes apenas nos são confiados e que temos de justificar o emprego que demos a eles, prestando contas.

Logo, não devemos ser depositários infiéis, utilizando os bens emprestados unicamente para a satisfação do nosso egoísmo e orgulho. Não devemos nos julgar com o direito de dispô-los em exclusivo proveito daquilo que recebemos como simples empréstimo.

Se não sabemos restituir, não teremos o direito de pedir, lembrando-se de que aquele que dá aos pobres, salda a sua dívida que contraiu com Deus.

Bibliografia:

BÍBLIA SAGRADA.

EMMANUEL (Espírito); (psicografado por) Francisco Cândido Xavier. O Consolador. (?) Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, (?).

KARDEC, Allan; Tradução de Evandro Noleto Bezerra. O Céu e o Inferno. 2ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan; Tradução de Guillon Ribeiro. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

SCHUTEL, Cairbar. Parábolas e Ensino de Jesus. 1ª Edição. Matão/SP: Gráfica da Casa Editora o Clarim, 1928.

MOURA, Marta Antunes de Oliveira de (Organizadora). Estudo aprofundado da doutrina espírita: Ensinos Estudo aprofundado da doutrina espírita: Ensinos e parábolas de Jesus – Parte I. Orientações espíritas e sugestões didático pedagógicas direcionadas ao estudo do aspecto religioso do espiritismo. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2016.

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