Dai gratuitamente o que gratuitamente recebestes

Esta reflexão apoia-se no Capítulo XXVI de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, de Allan Kardec, que tem como título: “Dai gratuitamente o que gratuitamente recebestes”.

“Restituí a saúde aos doentes, ressuscitai os mortos, curai os leprosos, expulsai os demônios. Daí gratuitamente o que gratuitamente haveis recebido”. (Mateus, 10: 8)

Tratamos, aqui, da moral e da ética perante as leis de Deus que norteiam a moral e a ética dos Espíritas.

As leis de Deus são eterna, imutáveis, infinitas e universais. Na mesma direção, a moral e a ética Espíritas não podem ser relativizadas, devendo seguir a principal recomendação: ninguém se faça pagar daquilo que nada pagou.

Do Evangelho de Mateus, o que os discípulos haviam recebido gratuitamente era a faculdade de curar os doentes e de expulsar os maus Espíritos. Esse dom Deus lhes dera gratuitamente, para alívio dos que sofrem e como meio de propagação da fé. Jesus recomendava-lhes que não fizessem dele objeto de comércio, nem de especulação ou meio de vida. A misericórdia de Deus, a crença, a fé, o consolo, o alívio e a cura não estão à venda.

A moral envolve valores que regem o comportamento diante das normas instituídas pela sociedade ou pelo grupo social, determinando o sentido moral de cada indivíduo em suas relações saudáveis e harmoniosas. Busca o bem-estar social.

Para a Doutrina Espírita, em “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, na questão 629, “a moral é a regra do bem proceder, isto é, de distinguir o bem do mal. Funda-se na observância da lei de Deus. O homem procede bem quando faz tudo pelo bem de todos, porque então cumpre a lei de Deus”. (KARDEC. O Livro dos Espíritos)

Na questão 630, “o bem é tudo o que é conforme a lei de Deus; o mal, tudo o que lhe é contrário. Assim, fazer o bem é proceder de acordo com a lei de Deus; fazer o mal é infringi-la”. (KARDEC. O Livro dos Espíritos)

No Livro “A Gênese”, de Allan Kardec, na parte acerca da origem do bem e do mal, “se o homem fosse criado perfeito, fatalmente seria levado para o bem. Deus quis que ele fosse submetido à lei do progresso, e que esse progresso fosse fruto do seu próprio trabalho, a fim de que dele tenha o mérito, da mesma maneira que a responsabilidade do mal que é praticado por sua vontade”. (KARDEC. A Gênese)

“Como o homem tem que progredir, os males aos quais está exposto são um estímulo para o exercício da sua inteligência, de todas as suas faculdades físicas e morais, incitando-o à procura dos meios de se preservar deles. Se ele não tivesse nada a temer, nenhuma necessidade o levaria à busca do melhor; ele se entorpeceria com a inatividade de seu espírito; não inventaria nada, não descobriria nada. A dor é o aguilhão que compele o homem a avançar na estrada do progresso”. (KARDEC. A Gênese)

O Evangelho de Jesus é o Código Moral dos cristãos, que se fundamenta na Lei de Deus, e a moral que a Doutrina Espírita ensina é a de Jesus Cristo, razão que não há outra melhor. Nesse sentido, a moral Espírita deve ter o mesmo referencial.

As orientações morais fornecem subsídios para a construção e aplicação de normas de conduta, coletivas e individuais, subsídios que podem ser utilizados pelo ser humano, independentemente dos seus costumes, religião e tradições.

Por esse motivo, a moral é sempre interpretada como o bem, como tudo que promove a melhoria integral do homem, ajustando-o à realidade da vida, independentemente de religião e crença, ou até mesmo na ausência destas, tornando-se uma pessoa de bem.

Entretanto, para ser efetivamente bom, o ser humano precisa vivenciar a Lei de Amor: o bem é tudo o que é conforme a Lei de Deus, e o mal é tudo o que dela se afasta.

A consciência moral decorre da estruturação do mundo moral no íntimo do ser, pois o indivíduo moralizado é alguém que considera o sentido da vida dentro de um contexto maior, que não se resume apenas ao atendimento às necessidades de sobrevivência biológica da espécie.

Enfim, para que um ato seja considerado efetivamente moral é necessário que seja voluntário, espontâneo, livre, consciente, intencional, jamais imposto. Revestido dessas características, o ato moral apresenta responsabilidade e compromisso.

Responsável é aquele que responde pelos seus atos, isto é, a pessoa consciente e livre assume a autoria do seu ato, reconhecendo-o como seu e respondendo pelas suas consequências.

A Ética Espírita compreende o agir de acordo com a Doutrina Espírita, que se baseia na Lei de Deus, nos ensinamentos de Jesus Cristo e na moral Espírita, na prática do bem.

A ética sintetiza regras e preceitos de ordem valorativa e moral de um indivíduo, grupo ou sociedade. Busca fundamentar o modo de viver e agir. Deste entendimento, é possível definir regras e prescrições que determinam o comportamento e as condutas, consideradas válidas para um grupo, uma comunidade ou para um indivíduo.

Enquanto a moral trata dos valores, que devem fundamentar o comportamento coletivo e individual, a ética cuida da sua aplicabilidade, por meio de normas e regras que regulam as relações humanas. Pode-se dizer, então, que se a moral atinge todas as culturas, em qualquer época, por serem princípios universais, a ética se constitui de regras especificas definidas para uma sociedade ou grupos.

O “dai gratuitamente o que gratuitamente recebestes” está inserido no contexto da moral e da ética cristã, regulando o comportamento e norteando os atos de seus seguidores.

De todos os fatos que dão testemunho do poder de Jesus, os mais numerosos são as curas. Os apóstolos haviam recebido gratuitamente o dom de Deus para curar doentes e expulsar demônios.

No cumprimento de sua missão, Jesus contou com a colaboração dos apóstolos e de outros discípulos.

Os grandes operários da Espiritualidade, cheios de coragem e de austeridade, sulcaram as estradas de vila em vila, de aldeia em aldeia, sem se preocuparem com haveres, com roupas, com bolsas, com alforjes nem com sandálias, no cumprimento das ordens que receberam, já curando enfermos e levando a paz às multidões sufocadas pelas tribulações, já anunciando à viva voz e sem desejar outros valores, a chegada do Reino de Deus, que, deveria dominar os corações.

Para sermos considerados discípulos de Jesus é necessário o desenvolvimento de valores morais: desinteresse, abnegação, sacrifício, mansidão, coragem, dignidade, humildade, amor.

Quanto à gratuidade das curas das enfermidades e dos alívios dos sofrimentos, Deus quer que a luz chegue a todos. Não quer que o mais pobre fique dela privado e possa dizer: não tenho fé, porque não a pude pagar; não tive o consolo de receber os encorajamentos e os testemunhos de afeição dos que pranteio, porque sou pobre.

A Doutrina Espírita não se coaduna com qualquer tipo de cobrança para a prestação de serviço espiritual. Os ensinamentos tratam da desaprovação da mercantilagem em nome da Doutrina Espírita. Se recebemos de graça, de graça devemos dar.

Para obter benevolência dos bons Espíritos é condição ter humildade, devotamento e abnegação; o mais absoluto desinteresse material.

Entre o Céu e a Terra, os intermediários (médiuns) não podem receber dinheiro por essa tarefa. O Criador não vende os benefícios que concede.

A mediunidade é conferida gratuitamente por Deus para alívio dos que sofrem, não podendo ser empregada comercialmente.

Os intérpretes dos Espíritos não podem obter lucro material para instruírem os homens, mostrar-lhes o caminho do bem e conduzi-los à fé. Não devem vender mensagens que não lhes pertencem, tampouco ser objeto de lucro financeiro, pois não são produtos de sua autoria, nem de suas pesquisas, nem de seu trabalho pessoal.

O médium não pode vender a possível cura sob qualquer contexto. Essa questão não se relativiza. O médium curador transmite o fluido salutar dos bons Espíritos. Jesus e os apóstolos nada cobravam pelas curas.

O médium que exerce sua faculdade segundo o Cristo, sem interesses materiais ou egoístas, recebe a correspondente recompensa espiritual. A única moeda que o Criador acolhe como câmbio é o amor ao próximo. O Espiritismo deve ser a disseminação da palavra de consolo tal como Jesus nos ensinou. O Espiritismo não assenta com interesses comerciais.

Os bons médiuns têm afinidades com os bons Espíritos. Os maus médiuns têm afinidades com os maus Espíritos. As qualidades morais dos médiuns têm influências com a natureza dos Espíritos que se comunicam por seu intermédio.

As qualidades dos bons Espíritos são: bondade, benevolência, simplicidade de coração, amor ao próximo e desprendimentos das coisas materiais. Os defeitos que os afastam são: orgulho, egoísmo, inveja, ciúme, ódio, sensualidade e todas paixões pelas quais o homem se apega à matéria.

A mediunidade não é arte, nem talento, pelo que não pode tornar-se profissão. Ela não existe sem o concurso dos Espíritos; faltando estes, já não há mediunidade. Explorar alguém a mediunidade é dispor de uma coisa da qual não é realmente dono. Afirmar o contrário é enganar a quem paga.

É diferente do trabalho do médico, do advogado, do engenheiro e do professor, que oferecem o fruto dos seus estudos, dos seus esforços e até dos seus sacrifícios nos bancos acadêmicos e daí poderem auferirem lucros das suas aptidões, bem longe das hostes espíritas.

Assim, é no exercício da mediunidade com Jesus e na aplicação dos seus valores a benefício do próximo e em nome da caridade que o ser atinge a plenitude das suas funções e faculdades, convertendo-se em bênçãos, semeador da saúde espiritual e da paz: “Dai gratuitamente o que gratuitamente recebestes”.

Bibliografia:

BÍBLIA SAGRADA.

KARDEC, Allan; tradução de Evandro Noleto Bezerra. A Gênese. 2ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

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