Pedi e obtereis

Esta reflexão apoia-se no Capítulo XXVII de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, de Allan Kardec, que tem como título: “Pedi e obtereis”.

A prece é invocação mediante a qual o homem entra, pela transmissão do pensamento, em comunicação com o ser a quem se dirige. Todos os seres encarnados e desencarnados estão mergulhados no fluido cósmico universal que ocupa o espaço. Esse fluido, sendo veículo do pensamento, recebe da vontade uma impulsão. A corrente fluídica emanada da oração guarda proporção com a do pensamento e da vontade, dando a ela intensidade e direção.

Assim, dirigido o pensamento para um ser qualquer na Terra ou no espaço, de encarnado para desencarnado, ou vice-versa, uma corrente fluídica se estabelece entre um e outro, transmitindo o pensamento. É assim que os Espíritos se comunicam, transmitem suas inspirações e ouvem a prece que lhes é dirigida.

O poder da onda mental da oração está na intensidade do pensamento edificante e nobre, nas aspirações superiores, que enviam mensagens de amor e fé. A confiança, a constância, a persistência e a vontade na comunicação (oração) são fundamentais para a conexão e conseguir falar com o nosso destinatário. Se não rezar, ficaremos incomunicáveis com os auxílios do Céu.

 “O pensamento, portanto, vinculado a Deus, ao bem, ao amor, ao desejo sincero de ajudar, eis a oração que todos podem e devem utilizar, a fim de que a felicidade se instale por definitivo nos corações. Por isso que as formas e as fórmulas utilizadas para a oração se fazem secundárias, sendo indispensável a intenção do orante, cujo propósito estimula o dínamo cerebral a liberar a onda psíquica vigorosa que lhe conduzirá a aspiração”. (Espírito Manoel Philomeno de Miranda, por Divaldo Franco)

Em “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, a resposta à pergunta 659 é de que: “a prece é um ato de adoração. Orar a Deus é pensar Nele; é aproximar-se Dele; é pôr-se em comunicação com Ele. Três coisas podemos propor-nos por meio da prece: louvar, pedir, agradecer”.

Jesus, em sua jornada terrena sempre orou para se comunicar com o Pai.

Na transfiguração de Jesus, no Monte Tabor, “Jesus tomou consigo a Pedro, João e Tiago e subiu a um monte para orar. Enquanto orava, a aparência de seu rosto se transformou, e suas roupas ficaram alvas e resplandecentes como o brilho de um relâmpago” (Lucas 9: 28-29). Naquele sublime momento, apareceram-lhes Moisés e Elias.

Essa passagem bíblica da transfiguração de Jesus ocorre no contexto de sua oração, que entra em comunicação com o Pai, passando-nos a mensagem de que a oração transfigura a nossa vida e ilumina o nosso ser.

Em outra passagem, Jesus, diante de um menino possuído por um espírito mau, que os discípulos não conseguiram expulsar, respondeu: “ó gente incrédula, até quando estarei convosco? Até quando vos suportarei? Tragam-no para mim”. Depois de expulsar espírito obsessor, os discípulos perguntaram: “por que o não pudemos nós expulsar? E disse-lhes: esta casta não pode sair com coisa alguma, a não ser com oração e jejum” (Marcos 9: 28-29). Daí o poder da oração na cura.

Nos Evangelhos de Mateus e Lucas, no Sermão da Montanha, Jesus ensina os discípulos a orar o “Pai Nosso”, em sete petições, revelando à humanidade a nossa relação especial e filial com Deus Pai. Oração para louvar, pedir e agradecer.

“Quando orardes, não vos assemelheis aos hipócritas, que, afetadamente, oram de pé nas sinagogas e nos cantos das ruas para serem vistos pelos homens. Digo-vos, em verdade, que eles já receberam sua recompensa. Quando quiserdes orar, entrai para o vosso quarto e, fechada a porta, orai a vosso Pai em secreto; e vosso Pai, que vê o que se passa em secreto, vos dará a recompensa. Não cuideis de pedir muito nas vossas preces, como fazem os pagãos, os quais imaginam que pela multiplicidade das palavras é que serão atendidos. Não vos torneis semelhantes a eles, porque vosso Pai sabe do que é que tendes necessidade, antes que lhe peçais”. (Mateus, 6:  5-8)

“Quando vos aprestardes para orar, se tiverdes qualquer coisa contra alguém, perdoai-lhe, a fim de que vosso Pai, que está nos céus, também vos perdoe os vossos pecados. Se não perdoardes, vosso Pai, que está nos céus, também não vos perdoará os pecados”. (Marcos, 11: 25-26)

Por estas passagens, Jesus definiu claramente as qualidades da prece. Quando orar, não nos coloquemos em evidência. Orar em secreto. Não é pela multiplicidade das palavras que seremos escutados, mas pela sinceridade delas. Antes de orar, se tiver qualquer coisa contra alguém, perdoa, pois a prece não pode ser agradável a Deus se não parte de um coração purificado de todo sentimento contrário à caridade.

Há quem conteste a eficácia da prece supondo que, Deus conhecendo as nossas necessidades, inúteis seriam expô-las. Acrescentam que, achando-se tudo no Universo encadeado por leis eternas, não podem as nossas súplicas mudar os decretos de Deus.

Sem dúvidas há leis naturais e imutáveis que não podem ser suprimidas a um simples capricho, mas crer que todas as circunstâncias da vida estão submetidas à fatalidade, há grande distância. Se assim fosse, nada mais seria o homem do que instrumento passivo, sem livre-arbítrio e iniciativa. Nessa hipótese, só lhe caberia curvar a cabeça ao jugo dos acontecimentos, sem cogitar de evitá-los.

Deus nos deu razão e inteligência, sendo o ser humano livre para agir em uma ou noutra direção, cujos atos acarretam consequências do que fez ou não. Alguns sucessos escapam à fatalidade e não quebram a harmonia das leis universais. Nesse sentido, é possível que Deus atenda a certos pedidos sem perturbar a imutabilidade das leis.

Por outro lado, “concedido vos será o que quer que pedirdes pela prece” seria ilógico deduzir que basta pedir para obter toda súplica que se faça, uma vez que Deus sabe, melhor do que nós, o que é para o nosso bem.

Em geral, o homem apenas vê o presente. Se o sofrimento é de utilidade para a nossa evolução, Deus nos deixará sofrer. O que Deus sempre nos concederá é confiança, coragem, paciência e resignação, assim como os meios para vencer as montanhas de dificuldades mediante elevadas sugestões dos bons Espíritos, deixando-nos o mérito das ações.

Ele assiste os que ajudam a si mesmos, conforme a máxima: “ajuda-te, que o Céu te ajudará”. Não assiste os que tudo esperam de socorro sem fazer uso das faculdades que possuem. Muitas das vezes, o homem espera ser socorrido sem qualquer esforço. Por conseguinte, temos de fazer a nossa parte.

As preces feitas a Deus escutam-nas os Espíritos incumbidos da execução de suas vontades. As que se dirigem aos bons Espíritos são reportadas a Deus. Quando alguém ora a outros seres que não a Deus, o faz recorrendo a intermediários e intercessores, porquanto nada sucede sem a vontade do Pai.

Pela prece, obtém o homem o concurso dos bons Espíritos que acorrem a sustentá-lo em suas boas resoluções e a inspirar-lhe ideias sãs. Ele adquire a força moral necessária para vencer as dificuldades e a retomar ao caminho certo, se deste se afastou. Por esse meio, pode também desviar de si os males que atrairia pelas suas próprias faltas.

O homem é causa da maior parte das suas aflições, às quais se pouparia caso obrasse com sabedoria e prudência. Todas essas misérias resultam das nossas infrações às leis de Deus e que, se as observássemos pontualmente, seríamos inteiramente ditosos.

Se não ultrapassássemos o limite do necessário para a satisfação das nossas necessidades, não apanharíamos as enfermidades que resultam dos excessos, nem experimentaríamos as vicissitudes que as doenças acarretam. Se puséssemos freio à nossa ambição, não teríamos de temer a ruína. Se não quiséssemos subir mais alto do que podemos, não teríamos de recear a queda. Se fôssemos humildes, não sofreríamos as decepções do orgulho abatido. Se praticássemos a lei de caridade, não seríamos maldizentes, nem invejosos, nem ciosos, e evitaríamos as disputas e dissensões. Se mal a ninguém fizéssemos, não houvéramos de temer as vinganças, etc.

Renunciar alguém à prece é negar a bondade de Deus, recusando a sua assistência e abrir mão do bem que lhes pode fazer. Acedendo ao pedido que se lhe faz, Deus muitas vezes objetiva recompensar a intenção, o devotamento e a fé daquele que ora. Daí decorre que a prece do homem de bem tem mais merecimento aos olhos de Deus e sempre mais eficácia, porquanto o homem vicioso e mau não pode orar com o fervor e a confiança que somente nascem do sentimento da verdadeira piedade. Do coração do egoísta, daquele que apenas de lábios ora, unicamente saem palavras, nunca os ímpetos de caridade dão à prece todo o seu poder.

Por exercer a prece uma ação magnética, poder-se-ia supor que o seu efeito depende da força fluídica. Entretanto, não é assim. Exercendo sobre os homens essa ação, os Espíritos, sendo preciso, suprem a insuficiência daquele que ora, agindo diretamente em seu nome, dando-lhe momentaneamente uma força excepcional quando o julgam digno dessa graça, ou que ela lhe pode ser proveitosa.

O homem que não se considere suficientemente bom para exercer salutar influência, não deve por isso abster-se de orar a bem de outrem, com a ideia de que não é digno de ser escutado. A consciência da sua inferioridade constitui prova de humildade, grata sempre a Deus, que leva em conta a intenção caridosa que o anima. Seu fervor e sua confiança são um primeiro passo para a sua conversão ao bem, conversão que os Espíritos bons se sentem ditosos em incentivar.

Repelida é a prece do orgulhoso que deposita fé no seu poder e nos seus merecimentos e acredita ser-lhe possível sobrepor-se à vontade do Eterno.

Está no pensamento o poder da prece, que por nada depende nem das palavras, nem do lugar, nem do momento em que seja feita. Pode-se orar em toda parte e a qualquer hora, a sós ou em comum. A influência do lugar ou do tempo só se faz sentir nas circunstâncias que favoreçam o recolhimento. A prece em comum tem ação mais poderosa, quando todos os que oram se associam de coração a um mesmo pensamento e colimam o mesmo objetivo, porquanto é como se muitos clamassem juntos e em uníssono.

Não há fórmulas para a prece. Ore segundo suas convicções. Use o vocabulário do seu dia a dia, sem qualquer ritual, sem qualquer formulário, em verdadeira conversa informal a quem se dirige (Deus, Jesus, entidade espiritual, santo ou divindade). Ela deve ser simples, concisa e sem fraseologia rebuscada. Cada palavra deve ter o seu valor e a sua ideia, tocar a alma.

Assim, para conectar, é preciso concentrar-se no pensamento e na vontade, do fundo da alma e do coração, para emanar os bons impulsos eletromagnéticos, cujos sinais tocarão no ente invocado. O magnetismo irradiante da oração decorre do poder da fé posta em ação.

Se tivéssemos a consciência e a compreensão das potências da alma, a força que trazemos em nós, e se quiséssemos colocar essa vontade a serviço desta força, seriamos capazes de realizar o que, hoje, muitos chamam de prodígios e não tão somente como um desenvolvimento das faculdades humanas. O poder da prece está dentro de nós.

Bibliografia:

BÍBLIA SAGRADA.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

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