Tempo material, tempo espiritual e eternidade

Este tema traz reflexões sobre o tempo material, o tempo espiritual e a eternidade, em analogia à Trindade Universal – Deus, princípio material e princípio espiritual –, em que o Universo engloba tudo o que existe, quer seja ele oriundo de elemento material ou espiritual. Da ação simultânea dos princípios material e espiritual, nascem os fenômenos especiais que são naturalmente inexplicáveis, se não considerarmos um dos dois. Mas acima de tudo está Deus, inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.

Não raro em nossas existências terrenas estamos constantemente preocupados com o tempo material, contudo esquecemos que evoluímos segundo o tempo espiritual diante da eternidade divina.

Em um dicionário, o tempo significa a sucessão de séculos, anos, dias, horas, minutos e segundos, que envolve a noção de presente, passado e futuro, ou um meio contínuo no qual os acontecimentos parecem suceder-se em momentos irreversíveis.

Para quantificar o tempo na Terra, usamos como referencial que o nosso planeta leva um ano para percorrer a sua órbita ao redor do Sol e um dia para dar uma volta em torno do seu próprio eixo. Pelo calendário gregoriano, o ano coincide aproximadamente com uma volta da Terra ao redor do Sol, perfazendo um total de 365 dias.

Em determinadas sociedades a contagem do tempo vincula-se às tradições religiosas. No mundo cristão, a referência é o nascimento de Jesus Cristo. No Islão, calcula-se a partir do ano em que Maomé fugiu para Medina. Os judeus contam o tempo com a “criação do Mundo”, segundo a Bíblia.

O curso do tempo pode também seguir a ordem dirigida antes e depois na sucessão dos acontecimentos, como, por exemplo, antes ou depois de Cristo.

Para a Física, o tempo pode ser calculado pela equação que considera a velocidade e o espaço a percorrer.

Na Astronomia, a velocidade da luz impõe também uma relação de espaço e tempo. Einstein altera as variáveis de espaço e tempo, conforme o observador, mas não vamos cuidar da Teoria da Relatividade de Einstein, deixamos isso para a Ciência.

Apesar dos cálculos matemáticos, para alguns filósofos, o tempo existe somente na mente, dependendo da forma como o interpretamos. Assim, podemos dizer que algo durou muito ou pouco tempo. Para eles, não há como quantificar essa sensação de tempo.

Em “A Gênese”, no Capítulo VI, Uranografia geral, O espaço e o tempo, Allan Kardec expressa que o tempo é uma sucessão das coisas ligado à eternidade, do mesmo modo que as coisas estão ligadas ao infinito, ou seja, o tempo relacionado à eternidade e o espaço ao infinito.

O Codificador conduz o raciocínio para a origem do planeta, quando a Terra ainda não se movia. Quanto ao tempo, ninguém poderia dizer em que época isso ocorreu, porque o pêndulo dos séculos ainda não havia sido colocado em movimento.

Quando o planeta se moveu no espaço na primeira hora, desde então, houve tarde e manhã. A eternidade permaneceu impassível e imóvel, mas o tempo marchou em relação a outros mundos. Para a Terra, as gerações começaram a contar os anos e séculos.

Em um ensaio, Kardec transporta-nos para o último dia da Terra, quando ela se apagará do livro da vida para não mais reaparecer, interrompendo a sucessão de eventos e movimentos terrestres que mediam o tempo. O tempo acaba com eles. Neste exercício mental, o Codificador expõe uma sucessão de coisas que dão início ao tempo até a sua extinção, para mostrar que o tempo é medido durante o seu trajeto.

Lembra que há uma vastidão de mundos com tempos diversos e incompatíveis, mundos estes mergulhados na eternidade que substitui as efêmeras sucessões diante da imensidade e da eternidade sem limites, dadas as duas grandes propriedades da natureza universal. Assim, um observador que atravessa as incomensuráveis distâncias do espaço sem encontrar o que o detenha e um geólogo que remonta além dos limites das idades perceberão a dupla noção do infinito: extensão e duração.

Sendo o tempo apenas a relação das coisas transitórias e dependendo unicamente das coisas que se medem, se tomássemos os séculos terrestres por unidade e os empilhássemos aos milhares para formar um número colossal, esse número nunca representaria mais que um ponto na eternidade, do mesmo modo que milhares de léguas adicionadas a milhares de léguas não dão mais que um ponto na extensão.

Kardec leva-nos a refletir sobre o tempo que está fora da vida etérea da alma, em que poderíamos escrever um número de séculos tão longo, supondo-nos envelhecidos desse número, sem que na realidade a nossa alma conte um dia a mais.

No final, conclui que, mesmo juntando os números indefiníveis de séculos de uma sucessão de períodos, o inconcebível amontoado de séculos seria como se não existisse diante de toda a eternidade. O tempo é apenas uma medida relativa da sucessão das coisas transitórias. A eternidade não é suscetível de medida alguma, do ponto de vista da duração, pois para ela não há começo e fim: tudo lhe é presente. Kardec pergunta: “Se séculos de séculos são menos que um segundo relativamente à eternidade, que vem a ser a duração da vida humana?”

Destas reflexões, podemos inferir sobre o tempo material da Ciência, por meio de seus cálculos matemáticos, e o tempo espiritual diante da eternidade, que não tem começo nem fim, pois devemos considerar na equação espiritual a imortalidade do Espírito, que tem início quando criado por Deus, mas não tem fim.

Em “O Livro dos Espíritos”, na questão 42, Kardec pergunta se pode conhecer o tempo que dura a formação dos mundos: da Terra, por exemplo. A resposta é “Nada te posso dizer a respeito, porque só o Criador o sabe e bem louco será quem pretenda sabê-lo, ou conhecer que número de séculos dura essa formação”.

Complementando a resposta da questão 188, Kardec diz que “as condições de longevidade não são, tampouco, em qualquer parte, as mesmas que na Terra e as idades não se podem comparar. Evocado, um Espírito que desencarnara havia alguns anos, disse que, desde seis meses antes, estava encarnado em mundo cujo nome nos é desconhecido. Interrogado sobre a idade que tinha nesse mundo, disse: ‘Não posso avaliá-la, porque não contamos o tempo como contais. Depois, os modos de existência não são idênticos. Nós, lá, nos desenvolvemos muito mais rapidamente. Entretanto, se bem não haja mais de seis dos vossos meses que lá estou, posso dizer que, quanto à inteligência, tenho trinta anos da idade que tive na Terra’.”

Na questão 240, Kardec pergunta sobre a duração se os Espíritos a compreendem como nós, a resposta é que “Não e daí vem que nem sempre nos compreendeis, quando se trata de determinar datas ou épocas”. E Kardec anota: “Os Espíritos vivem fora do tempo como o compreendemos. A duração, para eles, deixa, por assim dizer, de existir. Os séculos, para nós tão longos, não passam, aos olhos deles, de instantes que se movem na eternidade, do mesmo modo que os relevos do solo se apagam e desaparecem para quem se eleva no espaço”.

Desses esclarecimentos, verificamos que o tempo para os Espíritos é outro, não como o compreendemos. A duração para eles pouco importa diante da eternidade, além disso não se pode comparar o tempo nos diferentes mundos em face da sua relatividade.

Ademais, Deus é eterno, não se sujeitando a qualquer tempo, e está presente em toda a parte do Universo. Diante da eternidade divina, o tempo terrestre tem consequência material quando a nossa mente está presa à sucessão de coisas materiais. Contudo, há o tempo espiritual como instrumento de evolução rumo à perfeição relativa à Humanidade.

Deus usa o tempo como instrumento de evolução na conquista dos bens celestiais que nos premiarão na eternidade. É a benção do tempo material que nos carrega através do tempo espiritual, ou infinito, na direção da própria perfeição.

Bibliografia:

KARDEC, Allan; tradução de Evandro Noleto Bezerra. A Gênese. 2ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

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