A desencarnação

A desencarnação é fato natural. O medo deve-se ao desconhecimento sobre a continuidade da vida no plano espiritual e ao apego às pessoas e aos bens materiais, situação que configura o sentimento de perda, além da expectativa de não mais encontrar os entes queridos.

Entendendo-a e o prosseguimento da vida em outra dimensão, ameniza-se o medo, situação que possibilita auxiliar os Espíritos sofredores que se manifestam na reunião mediúnica. À medida que o ser humano compreende que é imortal e que pode retornar à vida do corpo pela reencarnação, quantas vezes se fizerem necessárias, o medo de morrer desaparece.

A certeza de reencontrar os amigos depois da morte, de reatar as relações que tivera na Terra, de não perder um só fruto do seu trabalho, de engrandecer-se incessantemente em inteligência e perfeição, dá-lhe paciência para esperar e coragem para suportar as fadigas momentâneas da vida terrena.

Do princípio universal da vida e da inteligência, nascem as individualidades espirituais.

A palavra Espírito (letra maiúscula) designa as individualidades dos seres extracorpóreos.

A inteligência é a faculdade de cada ser e constitui a sua individualidade, conservando-a depois de desencarnar.

Sobre a individualidade dos Espíritos, em “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, temos os esclarecimentos que a alma, após a morte, conserva a sua individualidade, jamais a perde. A alma conserva a sua individualidade, uma vez que não tem mais corpo material, porquanto continua a ter um fluido que lhe é próprio, haurido na atmosfera do seu planeta, e que guarda a aparência de sua última encarnação: o seu perispírito.

Uma das comprovações da individualidade do Espírito, depois da morte, está nas comunicações mediúnicas, pois que muito amiúde nos fala reveladora da existência de um ser que está fora de nós. Comprovam-se as individualidades pelo perispírito, que os torna distinguíveis uns dos outros, como faz o corpo entre os homens.

O sentimento instintivo da vida futura, no ser humano, reside no seu foro íntimo. A vida futura implica na conservação da nossa individualidade, após a morte.

Em geral, a separação da alma e do corpo não é dolorosa. O corpo sofre mais durante a vida do que no momento da morte.

No instante da morte, o Espírito vê chegar o fim do seu exílio. Ocorrendo a falência geral do sistema, a alma se liberta do corpo. Depois algum tempo, a matéria se desorganiza e decompõe.  O princípio vital que animava os órgãos do corpo extingue-se e o corpo morre. Então, o Espírito deixa o corpo.

O fenômeno da desencarnação é oposto ao da encarnação. Quando o Espírito tem de encarnar num corpo, o laço fluídico (perispírito) liga-o, desde a concepção, ao gérmen que o atrai por uma força irresistível. Sob a influência do princípio vital, o Espírito se une, molécula a molécula, ao corpo em formação por intermédio do perispírito. Por efeito contrário, a união do perispírito e do corpo cessa logo que o princípio vital deixa de atuar em consequência da desorganização do corpo. O perispírito se desprende, molécula a molécula. Ao Espírito é restituída a liberdade. A morte é a destruição do corpo e não do perispírito.

Na passagem da vida corpórea para a espiritual, produz-se o fenômeno da perturbação, em que a alma experimenta um torpor que momentaneamente paralisa as suas faculdades, neutralizando as sensações. É como se estivesse num estado de catalepsia, de modo que a alma quase nunca testemunha conscientemente o derradeiro suspiro. Quase nunca porque há casos em que a alma pode contemplar conscientemente o desprendimento.

A duração da perturbação é indeterminada, variando de algumas horas a alguns anos. À proporção que se liberta, a alma encontra-se numa situação comparável ao desperta de um sono profundo; as ideias são confusas, vagas, incertas; vê como que através de um nevoeiro, aclarando-se a vista pouco a pouco e lhe despertando a memória e o conhecimento de si mesma. Esse despertar é bem diverso, conforme os indivíduos.

Uma visão panorâmica e retrospectiva permite ao desencarnado reviver com detalhes os pensamentos marcantes que tivera e os atos cometidos na existência que finda. O Espírito se vê diante de tudo que sonhou, arquitetou e realizou na vida que se esgota. As ideias insignificantes que tivera e os atos mínimos desfilam absolutamente precisos, revelados de roldão, como se existisse uma câmara ultrarrápida instalada no seu interior, projetando na mente um filme cinematográfico que vai se desenrolando inopinadamente.

O desprendimento do perispírito não se completa subitamente, soltando-se, pouco a pouco, dos laços que o prendiam, conforme os indivíduos.

Em alguns, cuja vida foi toda material, o desprendimento do perispírito é menos rápido, durando dias, semanas e até meses. O Espírito mantém afinidade proporcional à preponderância que, durante a vida, deu à matéria. Quanto mais identificado com a matéria, tanto mais penosa é a separação.

Em outros o desprendimento é bastante rápido. As elevações intelectual, moral e dos pensamentos operam um começo de desprendimento, mesmo durante a vida do corpo, de modo que, em chegando a morte, ele é quase instantâneo.

Na desencarnação, a alma tendo deixado o corpo, o ser já não tem consciência de si mesmo, restando-lhe um sopro de vida orgânica. Nos instantes finais da separação, a alma sente que se desfazem os laços que a prendem ao corpo. Emprega, então, todos os esforços para desfazê-los inteiramente. Já em parte desprendida da matéria, vê o futuro desdobrar-se diante de si e goza, por antecipação, do estado de Espírito.

O último alento quase nunca é doloroso, uma vez que ocorre em momento de inconsciência. A alma sofre antes dele a desagregação da matéria.

A intensidade e a duração da perturbação estão na razão direta da afinidade existente entre corpo e perispírito. A afinidade entre o corpo e o perispírito é proporcional ao apego à matéria, que atinge o seu máximo no homem cujas preocupações dizem respeito exclusiva e unicamente à vida e gozos materiais. Quanto maior for essa afinidade, tanto mais penosos e prolongados serão os esforços da alma para desprender-se.

Há pessoas nas quais a coesão é tão fraca que o desprendimento se opera por si mesmo, como que naturalmente; é o caso das mortes calmas, de pacífico despertar. Nas almas puras, que antecipadamente se identificam com a vida espiritual, o apego é quase nulo.

A causa principal da maior ou menor facilidade de desprendimento é o estado moral da alma. Depende de nós tornar fácil ou penoso, agradável ou doloroso, esse desprendimento. A lentidão e a dificuldade do desprendimento estão na razão do grau de pureza e desmaterialização da alma.

Na morte natural, resultante da extinção das forças vitais por velhice ou doença, o desprendimento opera-se gradualmente.

Àqueles, cuja alma se desmaterializou e cujos pensamentos se destacam das coisas terrenas, o desprendimento quase se completa antes da morte real. Ainda com vida orgânica, o Espírito já penetra a vida espiritual, apenas ligado por elo tão frágil que se rompe com a última pancada do coração. A perturbação é quase nula. O Espírito deixa a vida corpórea sem o perceber.

No ser materializado tudo contribui para estreitar os laços materiais, e, quando a morte se aproxima, o desprendimento demanda contínuos esforços. As convulsões da agonia são indícios da luta do Espírito, que procura romper os elos resistentes, e outras se agarra ao corpo do qual uma força irresistível o arrebata com violência.

A morte súbita pode ou não estar associada a um ato de violência. São mortes violentas: homicídios, torturas, suicídios, desastres, calamidades naturais ou provocadas pelo homem, etc. Tais mortes provocam sofrimento que varia ao infinito.

Na morte violenta, as sensações não são as mesmas. Nenhuma desagregação inicial há começado previamente a separação do perispírito. A vida orgânica em plena força é subitamente aniquilada. Nestas condições, o desprendimento só começa depois da morte e não pode completar-se rapidamente.

O Espírito, colhido de improviso, fica como que aturdido e sente, e pensa, e acredita-se vivo, prolongando-se esta ilusão até que compreenda o seu estado. Neste estado intermediário, entre a vida corporal e a espiritual, o Espírito julga material o seu corpo fluídico, experimentando todas as sensações da vida orgânica. Nesses casos, há uma série infinita de modalidades que variam segundo os conhecimentos e progressos morais do Espírito.

Àqueles cuja alma está purificada, a situação pouco dura, porque já possuem em si como que um desprendimento antecipado, cujo termo a morte mais súbita não faz senão apressar.

Outros há, para os quais a situação se prolonga por anos inteiros.

No suicida, principalmente, excede a toda expectativa. Preso ao corpo por todas as suas fibras, o perispírito faz repercutir na alma todas as sensações daquele, com sofrimentos cruciantes. Nos suicidas, o sofrimento pode ser significativamente maior, não só pelo arrependimento do ato cometido, mas porque, havendo ainda fluido vital circulante no organismo, visto que a desencarnação não estava prevista para aquele momento, os laços perispirituais estão mais fortemente presos ao corpo físico. Nestas condições, a separação perispiritual é muito penosa, porque o Espírito pode experimentar o horror da decomposição.

É usual em nossa sociedade o sepultamento do cadáver, após vinte e quatros horas. Todavia, tem sido cada vez mais comum o uso da cremação. Neste caso, a lei exige uma Declaração de Intenção, previamente assinada pelo falecido, ou Autorização de parente próximo, registradas em cartório. No meio espírita, recomenda-se cremar o cadáver após 72 horas, tempo considerado suficiente para o desligamento perispiritual. Mas a Lei estimula 48 horas do decesso.

Na doação de órgãos, importante avaliar se o doador não permaneceria preso ao processo de decomposição.

Chico Xavier apresentou as seguintes ponderações:

“Sempre que a pessoa cultiva desinteresse absoluto por tudo aquilo que ela cede para alguém, sem perguntar ao beneficiado o que fez da dádiva recebida, sem desejar qualquer remuneração, nem mesmo aquela que a pessoa humana habitualmente espera com o nome de compreensão, sem aguardar gratidão alguma, isto é, se a pessoa chegou a um ponto de evolução em que a noção da posse não mais a preocupa, esta criatura está em condições de doar, porque não vai afetar o perispírito em coisa alguma”.

Em resumo, o estado do Espírito sofrerá mais na medida da lentidão do desprendimento do perispírito. A rapidez do desprendimento está na razão direta do adiantamento moral do Espírito.

Para o Espírito desmaterializado, a morte é como um sono breve, cujo despertar é suave. Para isso, trabalhe na sua purificação, reprima as más tendências e domine as paixões. Preciso se faz abdicar das vantagens imediatas em prol do futuro, assim como identificar-se com a vida espiritual. Não basta crer, mas compreender.

Considerar que tudo isso satisfaça, ao mesmo tempo, à razão, à lógica, ao bom senso e ao conceito em que tem a grandeza, a bondade e a justiça de Deus.

A vida futura é realidade e a vida espiritual é a verdadeira vida. A vida corporal é limitada.

Quando se compreende a causa e a utilidade das vicissitudes humanas suportadas com resignação, pouco importam os incidentes da jornada. A alma eleva-se.

 Bibliografia:

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

MOURA, Marta Antunes de Oliveira de (Organizadora). Mediunidade: estudo e prática. Programa I. 2ª Edição. Brasília/DF, Federação Espírita Brasileira, 2018.

ROCHA, Cecília (Organizadora). Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita: programa complementar. Tomo Único. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2018.

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