Ensaio teórico das sensações

Sofrem os Espíritos? Que sensações experimentam?

Pelas observações, a sensação nos Espíritos é fato.

Kardec pede ao Espírito São Luiz explicações sobre a penosa sensação de frio que um Espírito dizia sentir, indagando: concebemos os sofrimentos morais, como pesares, remorsos, vergonha; mas calor e frio, a dor física, não são efeitos morais; experimentariam os Espíritos tais sensações? O Espírito respondeu com outra pergunta: tua alma sente frio? Não; mas tem consciência da sensação que age sobre o corpo.

Refletindo, Kardec conclui: esse Espírito não sentia frio real, mas a lembrança da sensação do frio que havia suportado e essa lembrança, tida por ele como realidade, tornava-se um suplício. Porém, o benfeitor espiritual enfatiza: é mais ou menos isso. Fique bem entendido que há uma distinção, que compreendeis perfeitamente, entre a dor física e a dor moral; não se deve confundir o efeito com a causa.

Allan Kardec apresenta uma análise deste assunto tão útil quanto necessário à prática mediúnica.

O corpo é o instrumento da dor. Se não é a causa primária desta é, pelo menos, a causa imediata. A alma tem a percepção da dor: essa percepção é o efeito. A lembrança que da dor a alma conserva pode ser muito penosa, mas não pode ter ação física.

O frio e o calor não desorganizam a alma, que não é suscetível de congelar-se, nem de queimar-se. Todos os dias, a recordação ou a apreensão de um mal físico produzem o efeito desse mal, como se fosse real. Aqueles, que amputaram um membro, costumam sentir dor no membro que lhes falta, pois o cérebro guardou esta impressão.

Há coisa análoga a isso nos sofrimentos do Espírito após a morte.

O perispírito desempenha importante papel em todos os fenômenos espíritas: nas aparições vaporosas ou tangíveis; no estado em que o Espírito vem a encontrar-se por ocasião da morte; na ideia, que tão frequentemente manifesta, de que ainda está vivo; nas situações tão comoventes que nos revelam os dos suicidas, dos supliciados, dos que se deixaram absorver pelos gozos materiais; e inúmeros outros fatos.

As sensações e percepções sentidas e relatadas pelos Espíritos são mediadas pelo perispírito, o princípio da vida orgânica, porém não o da vida intelectual, que reside no Espírito. O perispírito é o agente das sensações exteriores. No corpo, os órgãos, servindo-lhes de condutos, localizam essas sensações.

Destruído o corpo, as sensações se tornam gerais. Daí o Espírito não dizer que sofre mais da cabeça do que dos pés, ou vice-versa.

Não se pode confundir as sensações do perispírito, que se tornou independente, com as do corpo. Liberto do corpo, o Espírito pode sofrer, mas esse sofrimento não é corporal, embora não seja exclusivamente moral, como o remorso, pois que ele se queixa de frio e calor. O Espírito não sofre mais no inverno do que no verão, visto que ele pode atravessar chamas sem experimentarem qualquer dor, pois nenhuma impressão lhes causa a temperatura. A dor que sentem não é uma dor física propriamente dita.

É um vago sentimento íntimo, que o próprio Espírito nem sempre compreende bem, precisamente porque a dor não se acha localizada e porque não a produzem agentes exteriores; é mais uma reminiscência do que uma realidade, reminiscência, porém, igualmente penosa.

Esclarece Kardec: ensina-nos a experiência que, por ocasião da morte, o perispírito se desprende mais ou menos lentamente do corpo; que, durante os primeiros minutos depois da desencarnação, o Espírito não encontra explicação para a situação em que se acha. Crê não estar morto, por isso que se sente vivo; vê a um lado o corpo, sabe que lhe pertence, mas não compreende que esteja separado dele. Essa situação dura enquanto haja qualquer ligação entre o corpo e o perispírito.

Disse-nos, certa vez, um suicida: “não, não estou morto.” E acrescentava: “no entanto, sinto os vermes a me roerem”. Indubitavelmente, os vermes não lhe roíam o perispírito e ainda menos o Espírito; roíam-lhe apenas o corpo. Como, porém, não era completa a separação do corpo e do perispírito, uma espécie de repercussão moral se produzia, transmitindo ao Espírito o que estava ocorrendo no corpo. Repercussão talvez não seja o termo próprio, porque pode induzir à suposição de um efeito muito material. Era antes a visão do que se passava com o corpo, ao qual ainda o conservava ligado o perispírito, o que lhe causava a ilusão, que ele tomava por realidade.

Assim, pois, não haveria no caso uma reminiscência, porquanto ele não fora, em vida, roído pelos vermes: havia o sentimento de um fato da atualidade. Isto mostra que deduções se podem tirar dos fatos, quando atentamente observados.

Durante a vida, o corpo recebe impressões exteriores e as transmite ao Espírito por intermédio do perispírito, que constitui, provavelmente, o que se chama fluido nervoso. Uma vez morto, o corpo nada mais sente, por já não haver nele Espírito, nem perispírito. Este, desprendido do corpo, experimenta a sensação, porém, como já não lhe chega por um conduto limitado, ela se lhe torna geral.

Não sendo o perispírito, realmente, mais do que simples agente de transmissão, pois que no Espírito é que está a consciência, lógico será deduzir-se que, se pudesse existir perispírito sem Espírito, aquele nada sentiria, exatamente como um corpo que morreu. Do mesmo modo, se o Espírito não tivesse perispírito, seria inacessível a toda e qualquer sensação dolorosa. É o que se dá com os Espíritos completamente purificados. Sabemos que quanto mais eles se purificam, tanto mais etérea se torna a essência do perispírito, donde se segue que a influência material diminui à medida que o Espírito progride, isto é, à medida que o próprio perispírito se torna menos grosseiro.

Dizendo que os Espíritos são inacessíveis às impressões da matéria que conhecemos, referimo-nos aos Espíritos muito elevados, cujo envoltório etéreo não encontra analogia neste mundo.

Outro tanto não acontece com os de perispírito mais denso, os quais percebem os nossos sons e odores, não, porém, apenas por uma parte limitada de suas individualidades, conforme lhes sucedia quando vivos.

Pode-se dizer que, neles, as vibrações moleculares se fazem sentir em todo o ser e lhes chegam assim ao sensorium commune, que é o próprio Espírito, embora de modo diverso e talvez, também, dando uma impressão diferente, o que modifica a percepção. Eles ouvem o som da nossa voz, entretanto nos compreendem sem o auxílio da palavra, somente pela transmissão do pensamento. Em apoio do que dizemos há o fato de que essa penetração é tanto mais fácil, quanto mais desmaterializado está o Espírito.

Pelo que concerne à vista, essa, para o Espírito, independe da luz, qual a temos. A faculdade de ver é um atributo essencial da alma, para quem a obscuridade não existe. É, contudo, mais extensa, mais penetrante nas mais purificadas.

A alma, ou o Espírito, tem, pois, em si mesma, a faculdade de todas as percepções. Estas, na vida corpórea, se obliteram pela grosseria dos órgãos do corpo; na vida extracorpórea se vão desanuviando, à proporção que o invólucro semi material se eteriza.

Podemos concluir com Kardec: os Espíritos possuem todas as percepções que tinham na Terra, porém em grau mais alto, porque as suas faculdades não estão amortecidas pela matéria; eles têm sensações desconhecidas por nós, veem e ouvem coisas que os nossos sentidos limitados nos não permitem ver nem ouvir. Para eles não há obscuridade, excetuando-se aqueles que, por punição, se acham temporariamente nas trevas.

A seguir, destacam-se algumas questões realizadas por Allan Kardec em “O Livro dos Espíritos”:

237. Uma vez de volta ao mundo dos Espíritos, conserva a alma as percepções que tinha quando na Terra?

“Sim, além de outras de que aí não dispunha, porque o corpo, qual véu sobre elas lançado, as obscurecia. A inteligência é um atributo, que tanto mais livremente se manifesta no Espírito, quanto menos entraves tenha que vencer”.

238. São ilimitadas as percepções e os conhecimentos dos Espíritos? Numa palavra: eles sabem tudo?

“Quanto mais se aproximam da perfeição, tanto mais sabem. Se são Espíritos superiores, sabem muito. Os Espíritos inferiores são mais ou menos ignorantes acerca de tudo”.

239. Conhecem os Espíritos o princípio das coisas?

“Conforme a elevação e a pureza que hajam atingido. Os de ordem inferior não sabem mais do que os homens”.

240. A duração, os Espíritos a compreendem como nós?

“Não e daí vem que nem sempre nos compreendeis, quando se trata de determinar datas ou épocas”.

Os Espíritos vivem fora do tempo como o compreendemos. A duração, para eles, deixa, por assim dizer, de existir. Os séculos, para nós tão longos, não passam, aos olhos deles, de instantes que se movem na eternidade, do mesmo modo que os relevos do solo se apagam e desaparecem para quem se eleva no espaço.

243. E o futuro, os Espíritos o conhecem?

“Ainda isto depende da elevação que tenham conquistado. Muitas vezes, apenas o entreveem, porém nem sempre lhes é permitido revelá-lo. Quando o veem, parece-lhes presente. À medida que se aproxima de Deus, tanto mais claramente o Espírito descortina o futuro. Depois da morte, a alma vê e apreende num golpe de vista suas passadas migrações, mas não pode ver o que Deus lhe reserva. Para que tal aconteça, preciso é que, ao cabo de múltiplas existências, se haja integrado nele”.

a) Os Espíritos que alcançaram a perfeição absoluta têm conhecimento completo do futuro?

“Completo não se pode dizer, por isso que só Deus é soberano Senhor e ninguém o pode igualar”.

244. Os Espíritos veem a Deus?

“Só os Espíritos superiores o veem e compreendem. Os inferiores o sentem e adivinham”.

b) Deus transmite diretamente a ordem ao Espírito, ou por intermédio de outros Espíritos?

“Ela não lhe vem direta de Deus. Para se comunicar com Deus, é-lhe necessário ser digno disso. Deus lhe transmite suas ordens por intermédio dos Espíritos imediatamente superiores em perfeição e instrução”.

245. O Espírito tem circunscrita a visão como os seres corpóreos?

“Não, ela reside em todo ele”.

246. Precisam da luz para ver?

“Veem por si mesmos, sem precisarem de luz exterior. Para os Espíritos, não há trevas, salvo as em que podem achar-se por expiação”.

248. O Espírito vê as coisas tão distintamente como nós?

“Mais distintamente, pois que sua vista penetra onde a vossa não pode penetrar. Nada a obscurece”.

249. Percebe os sons?

“Sim, percebe mesmo sons imperceptíveis para os vossos sentidos obtusos”.

a) No Espírito, a faculdade de ouvir está em todo ele, como a de ver?

“Todas as percepções constituem atributos do Espírito e lhe são inerentes ao ser. Quando o reveste um corpo material, elas só lhe chegam pelo conduto dos órgãos. Deixam, porém, de estar localizadas, em se achando ele na condição de Espírito livre”.

255. Quando um Espírito diz que sofre, de que natureza é o seu sofrimento?

“Angústias morais, que o torturam mais dolorosamente do que todos os sofrimentos físicos”.

256. Como é então que alguns Espíritos se têm queixado de sofrer frio ou calor?

“É reminiscência do que padecem durante a vida, reminiscência não raro tão aflitiva quanto a realidade. Muitas vezes, no que eles assim dizem apenas há uma comparação mediante a qual, em falta de coisa melhor, procuram exprimir a situação em que se acham. Quando se lembram do corpo que revestiram, têm impressão semelhante à de uma pessoa que, havendo tirado o manto que a envolvia, julga, passado algum tempo, que ainda o traz sobre os ombros”.

 Bibliografia:

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

MOURA, Marta Antunes de Oliveira de (Organizadora). Mediunidade: estudo e prática. Programa I. 2ª Edição. Brasília/DF, Federação Espírita Brasileira, 2018.

ROCHA, Cecília (Organizadora). Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita: programa complementar. Tomo Único. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2018.

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