Dupla vista

Allan Kardec trata da dupla vista em “O Livro dos Espíritos”, das questões 447 a 454, no Capítulo VIII: “Emancipação da Alma”. Na questão 455, Kardec faz um resumo da emancipação da alma, cujo extrato da dupla vista é o seguinte:

“A emancipação da alma se verifica às vezes no estado de vigília e produz o fenômeno conhecido pelo nome de segunda vista ou dupla vista, que é a faculdade graças à qual quem a possui vê, ouve e sente além dos limites dos sentidos humanos. Percebe o que exista até onde estende a alma a sua ação. Vê, por assim dizer, através da vista ordinária e como por uma espécie de miragem.

No momento em que o fenômeno da segunda vista se produz, o estado físico do indivíduo se acha sensivelmente modificado. O olhar apresenta alguma coisa de vago. Ele olha sem ver. Toda a sua fisionomia reflete uma como exaltação. Nota-se que os órgãos visuais se conservam alheios ao fenômeno, pelo fato de a visão persistir, malgrado à oclusão dos olhos.

Aos dotados desta faculdade ela se afigura tão natural, como a que todos temos de ver. Consideram-na um atributo de seus próprios seres, que em nada lhes parecem excepcionais. De ordinário, o esquecimento se segue a essa lucidez passageira, cuja lembrança, tornando-se cada vez mais vaga, acaba por desaparecer, como a de um sonho.

O poder da vista dupla varia, indo desde a sensação confusa até a percepção clara e nítida das coisas presentes ou ausentes. Quando rudimentar, confere a certas pessoas o tato, a perspicácia, uma certa segurança nos atos, a que se pode dar o qualificativo de precisão de golpe de vista moral. Um pouco desenvolvida, desperta os pressentimentos. Mais desenvolvida mostra os acontecimentos que deram ou estão para dar-se.

O sonambulismo natural e artificial, o êxtase e a dupla vista são efeitos vários, ou de modalidades diversas, de uma mesma causa. Esses fenômenos, como os sonhos, estão na ordem da natureza. Tal a razão por que hão existido em todos os tempos. A História mostra que foram sempre conhecidos e até explorados desde a mais remota antiguidade e neles se nos depara a explicação de uma imensidade de fatos que os preconceitos fizeram fossem tidos por sobrenaturais”.

Na questão 447, Kardec pergunta se “O fenômeno a que se dá a designação de dupla vista tem alguma relação com o sonho e o sonambulismo”. A resposta é que “Tudo isso é uma só coisa. O que se chama dupla vista é ainda resultado da libertação do Espírito, sem que o corpo seja adormecido. A dupla vista ou segunda vista é a vista da alma”.

Se é permanente a segunda vista, a resposta na questão 448 é que “A faculdade é, o exercício não. Em os mundos menos materiais do que o vosso, os Espíritos se desprendem mais facilmente e se põem em comunicação apenas pelo pensamento, sem que, todavia, fique abolida a linguagem articulada. Por isso mesmo, em tais mundos, a dupla vista é faculdade permanente, para a maioria de seus habitantes, cujo estado normal se pode comparar ao dos vossos sonâmbulos lúcidos. Essa também a razão por que esses Espíritos se vos manifestam com maior facilidade do que os encarnados em corpos mais grosseiros”.

Quanto à segunda vista aparecer espontaneamente ou por efeito da vontade de quem a possui como faculdade, a resposta é que “As mais das vezes é espontânea, porém a vontade também desempenha com grande frequência importante papel no seu aparecimento”.

A dupla vista é suscetível de desenvolver-se pelo exercício. Do trabalho sempre resulta o progresso e a dissipação do véu que encobre as coisas. Esta faculdade tem ligação com a organização física, pois o organismo influi para a sua existência. Há organismos que lhe são refratários.

A segunda vista pode ser hereditária em algumas famílias por semelhança da organização, que se transmite como as outras qualidades físicas. Depois, a faculdade se desenvolve por uma espécie de educação, que também se transmite de um a outro.

A moléstia, a proximidade do perigo e uma grande comoção podem desenvolver a segunda vista. O corpo, às vezes, vem a achar-se num estado especial que faculta ao Espírito ver o que não podemos ver com os olhos carnais.

Nas épocas de crises e de calamidades, as grandes emoções, todas as causas, enfim, de super excitação do moral provocam não raro o desenvolvimento da dupla vista. Parece que a Providência, quando um perigo nos ameaça, nos dá o meio de conjurá-lo. Todas as seitas e partidos perseguidos oferecem múltiplos exemplos desse fato.

Nem sempre as pessoas dotadas de dupla vista têm consciência de que a possuem. Consideram isso coisa perfeitamente natural e muitos creem que, se cada um observasse o que se passa consigo, todos verificariam que são como eles.

Esta faculdade pode, em alguns casos, dar a presciência das coisas. Também dá os pressentimentos, pois que muitos são os graus em que ela existe, sendo possível que num mesmo indivíduo exista em todos os graus, ou em alguns somente.

Os médiuns de pressentimentos são os que, em dadas circunstâncias, têm uma imprecisa intuição das coisas futuras. Essa intuição pode provir de uma espécie de dupla vista, que faculta se entrevejam as consequências das coisas presentes; mas, doutras vezes, resulta de comunicações ocultas, que fazem de tais pessoas uma variedade dos médiuns inspirados.

“São muitos os casos de dupla vista encontrados na literatura espírita. A título de exemplo, citamos o seguinte, conforme consta na obra A Morte e o Seu Mistério, de Camille Flammarion: O professor Boehm, que ensinava matemáticas em Marburg, estando uma noite com amigos, teve de repente a convicção de que devia regressar a sua casa. Mas, como tomasse tranquilamente o seu chá, resistiu a esta impressão, a qual todavia tornou a arrastá-lo com tanta força que se viu obrigado a obedecer. Chegado à sua morada, encontrou aí tudo como o havia deixado; mas sentia-se obrigado a mudar o seu leito de lugar. Por mais absurda que lhe parecesse esta imposição mental, entendeu que a devia cumprir, chamou a criada e com o auxílio dela colocou a cama do outro lado do quarto. Feito isto, ficou satisfeito e voltou para junto de seus amigos a acabar o serão. Despediu-se deles às dez horas, voltou para casa, deitou-se e adormeceu. Foi despertado, durante a noite, por grande fragor e verificou que grossa viga tinha desabado, arrastando uma parte do teto e caindo no lugar que o seu leito havia ocupado”. (Cecília Rocha. Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita: programa complementar. Tomo Único)

Bibliografia

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

MOURA, Marta Antunes de Oliveira de (Organizadora). Mediunidade: estudo e prática. Programa I. 2ª Edição. Brasília/DF, Federação Espírita Brasileira, 2018.

ROCHA, Cecília (Organizadora). Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita: programa complementar. Tomo Único. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2018.

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