Sonambulismo

Pelo dicionário, sonambulismo é um fenômeno ou conjunto de atividades, ou movimentos físicos automáticos, que ocorre com algumas pessoas, como levantar, caminhar e falar durante o sono natural ou provocado, dos quais não se recordam quando despertam. É o mesmo que noctambulismo.

Em Psicologia, a hipnose é um tipo de sonambulismo magnético provocado. Figuradamente, pode significar a maneira de ser dos que parecem agir mecanicamente, sem saber como e por que o fazem.

Para a Doutrina Espírita, em “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, no Capítulo VIII, “Da emancipação da alma”, “Sonambulismo”, na questão 425, temos:

425. O sonambulismo natural tem alguma relação com os sonhos? Como explicá-lo?

“É um estado de independência do Espírito, mais completo do que no sonho, estado em que maior amplitude adquirem suas faculdades. A alma tem então percepções de que não dispõe no sonho, que é um estado de sonambulismo imperfeito.

“No sonambulismo, o Espírito está na posse plena de si mesmo. Os órgãos materiais, achando-se de certa forma em estado de catalepsia, deixam de receber as impressões exteriores. Esse estado se apresenta principalmente durante o sono, ocasião em que o Espírito pode abandonar provisoriamente o corpo, por se encontrar este gozando do repouso indispensável à matéria. Quando se produzem os fatos do sonambulismo, é que o Espírito, preocupado com uma coisa ou outra, se aplica a uma ação qualquer, para cuja prática necessita de utilizar-se do corpo. Serve-se então deste, como se serve de uma mesa ou de outro objeto material no fenômeno das manifestações físicas, ou mesmo como se utiliza da mão do médium nas comunicações escritas. Nos sonhos de que se tem consciência, os órgãos, inclusive os da memória, começam a despertar. Recebem imperfeitamente as impressões produzidas por objetos ou causas externas e as comunicam ao Espírito, que, então, também em repouso, só experimenta, do que lhe é transmitido, sensações confusas e, amiúde, desordenadas, sem nenhuma aparente razão de ser, mescladas que se apresentam de vagas recordações, quer da existência atual, quer de anteriores. Facilmente, portanto, se compreende por que os sonâmbulos nenhuma lembrança guardam do que se passou enquanto estiveram no estado sonambúlico e por que os sonhos, de que se conserva memória, as mais das vezes não têm sentido. Digo – as mais das vezes, porque também sucede serem a consequência de lembrança exata de acontecimentos de uma vida anterior e até, não raro, uma espécie de intuição do futuro”.

Na questão 426, Kardec constata que o sonambulismo magnético tem alguma relação com o natural, mas com a diferença de o magnético ser provocado.

Na clarividência sonambúlica, é a alma que vê. Ela vê através dos corpos opacos, porquanto a matéria nenhum obstáculo oferece ao Espírito, que livremente a atravessa.

“Frequentemente ouvis o sonâmbulo dizer que vê pela fronte, pelo punho, etc., porque, achando-vos inteiramente presos à matéria, não compreendeis lhe seja possível ver sem o auxílio dos órgãos. Ele próprio, pelo desejo que manifestais, julga precisar dos órgãos. Se, porém, o deixásseis livre, compreenderia que vê por todas as partes do seu corpo, ou, melhor falando, que vê de fora do seu corpo” (resposta à questão 429).

O sonâmbulo não vê tudo e tantas vezes se engana porque “Primeiramente, aos Espíritos imperfeitos não é dado verem tudo e tudo saberem. Não ignoras que ainda partilham dos vossos erros e prejuízos. Depois, quando unidos à matéria, não gozam de todas as suas faculdades de Espírito. Deus outorgou ao homem a faculdade sonambúlica para fim útil e sério, não para que se informe do que não deva saber. Eis por que os sonâmbulos nem tudo podem dizer” (resposta à questão 430).

Sobre qual a origem das ideias inatas do sonâmbulo e como pode falar com exatidão de coisas que ignora quando desperto, de coisas que estão mesmo acima de sua capacidade intelectual, a resposta à questão 431 esclarece:

“É que o sonâmbulo possui mais conhecimentos do que os que lhe supões. Apenas, tais conhecimentos dormitam, porque, por demasiado imperfeito, seu invólucro corporal não lhe consente rememorá-lo. Que é, afinal, um sonâmbulo? Espírito, como nós, e que se encontra encarnado na matéria para cumprir a sua missão, despertando dessa letargia quando cai em estado sonambúlico. Já te temos dito, repetidamente, que vivemos muitas vezes. Esta mudança é que, ao sonâmbulo, como a qualquer Espírito ocasiona a perda material do que haja aprendido em precedente existência. Entrando no estado, a que chamas crise, lembra-se do que sabe, mas sempre de modo incompleto. Sabe, mas não poderia dizer donde lhe vem o que sabe, nem como possui os conhecimentos que revela. Passada a crise, toda recordação se apaga e ele volve à obscuridade”.

“Mostra a experiência que os sonâmbulos também recebem comunicações de outros Espíritos, que lhes transmitem o que devam dizer e suprem à incapacidade que denotam. Isto se verifica principalmente nas prescrições médicas. O Espírito do sonâmbulo vê o mal, outro lhe indica o remédio. Essa dupla ação é às vezes patente e se revela, além disso, por estas expressões muito frequentes: dizem-me que diga, ou proíbem-me que diga tal coisa. Neste último caso, há sempre perigo em insistir-se por uma revelação negada, porque se dá azo a que intervenham Espíritos levianos, que falam de tudo sem escrúpulo e sem se importarem com a verdade”.

O desenvolvimento maior ou menor da clarividência sonambúlica depende da organização física e da natureza do Espírito encarnado. “Há disposições físicas que permitem ao Espírito desprender-se mais ou menos facilmente da matéria.”

Na questão 435, se pode o sonâmbulo ver outros Espíritos, a reposta é que “A maioria deles os vê muito bem, dependendo do grau e da natureza da lucidez de cada um. É muito comum, porém, não perceberem, no primeiro momento, que estão vendo Espíritos e os tomarem por seres corpóreos. Isso acontece principalmente aos que, nada conhecendo do Espiritismo, ainda não compreendem a essência dos Espíritos. O fato os espanta e fá-los supor que têm diante da vista seres terrenos”.

No sonambulismo, a alma se transporta ao local dos acontecimentos, mas pode também presenciá-los à distância, como se estivesse vendo uma projeção; pode falar com exatidão de coisas que, a rigor, ignora no estado de vigília, ou até mesmo de assuntos que estão acima de sua capacidade; vê outros Espíritos e pode receber instruções deles. Quando isto acontece o encarnado atua como Espírito emancipado (fenômeno anímico) e como médium (transmite informações dos Espíritos).

Nestas condições, o sonâmbulo perde momentaneamente contato com a realidade aparente, externa e da vida de relação, vivendo a vida do Espírito, enquanto o corpo permanece inerte, situado entre a vigília e o sono. Facilmente se compreende por que os sonâmbulos não se recordam do que se passou no estado sonambúlico e por que os sonhos, cuja lembrança conservam, na maioria das vezes já não têm sentido.

O êxtase é um sonambulismo mais apurado. A alma do extático é ainda mais independente. O êxtase é um tipo de sonambulismo no qual a alma visita os mundos ou dimensões superiores da vida.

O transe, mediúnico ou não, pode apresentar dois estados extremos: superficial (ou consciente) e profundo (inconsciente ou sonambúlico). Entretanto, entre um e outro estado há inúmeras gradações que caracterizam o transe parcial (ou semiconsciente).

No transe superficial, não há amnésia lacunar, o paciente se recorda de tudo e pode, inclusive, pôr em dúvida o fato de ter permanecido em transe. Já o transe profundo ou sonambulismo é caracterizado pela extrema sugestibilidade e amnésia lacunar. A amnésia lacunar é o esquecimento de acontecimentos vividos ou presenciados durante o transe.

Os médiuns videntes são dotados da faculdade de ver os Espíritos em estado normal, quando perfeitamente acordados, e conservam a lembrança precisa do que viram. Outros só a possuem em estado sonambúlico, ou próximo do sonambulismo.

O médium sonambúlico, sob transe profundo, é o que não se recorda do que transmitiu durante as comunicações dos Espíritos. O médium falante geralmente se exprime sem ter consciência do que diz e muitas vezes diz coisas completamente estranhas às suas ideias habituais, aos seus conhecimentos e, até mesmo, fora do alcance de sua inteligência. Embora se ache perfeitamente acordado e em estado normal, raramente se lembra do que disse. Nem sempre, porém, a passividade do médium falante é tão completa assim. Alguns têm intuição do que dizem, no momento exato em que pronunciam as palavras.

O médium sonambúlico age como intermediário dos Espíritos quando se encontra parcialmente desligado do corpo físico, fornecendo aos circunstantes as informações que lhe foram dadas pelos comunicantes espirituais.

São duas ordens de fenômenos que se acham reunidos. O sonâmbulo age sob a influência do seu próprio Espírito, pois é a sua alma que, nos momentos de emancipação, vê, ouve e percebe, fora dos limites dos sentidos. Ele tira de si mesmo o que expressa. O médium, ao contrário, é instrumento de uma inteligência estranha; é passivo, e o que diz não vem dele. Em resumo, o sonâmbulo exprime o seu próprio pensamento, ao passo que o médium expressa o pensamento de outrem.

Sendo assim, o estudo do transe não pode desconsiderar a ação anímica do médium, de ocorrência usual, mesmo nos transes sonambúlicos (ou profundos).

Bibliografia:

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

MOURA, Marta Antunes de Oliveira de (Organizadora). Mediunidade: estudo e prática. Programa I. 2ª Edição. Brasília/DF, Federação Espírita Brasileira, 2018.

ROCHA, Cecília (Organizadora). Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita: programa complementar. Tomo Único. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2018.

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