Parábola dos lavradores maus, vinhateiros homicidas ou rendeiros infiéis, ou Parábola da vinha e dos vinhateiros

“Ouvi ainda outra parábola: Havia um homem, proprietário, que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar, e edificou uma torre; depois arrendou-a a uns lavradores e ausentou-se do país. E quando chegou o tempo dos frutos, enviou os seus servos aos lavradores, para receber os seus frutos. E os lavradores, apoderando-se dos servos, espancaram um, mataram outro, e a outro apedrejaram. Depois enviou ainda outros servos, em maior número do que os primeiros; e fizeram-lhes o mesmo. Por último enviou-lhes seu filho, dizendo: A meu filho terão respeito. Mas os lavradores, vendo o filho, disseram entre si: Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo, e apoderemo-nos da sua herança. E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e o mataram. Quando, pois, vier o senhor da vinha, que fará àqueles lavradores? Responderam-lhe eles: Fará perecer miseravelmente a esses maus, e arrendará a vinha a outros lavradores, que a seu tempo lhe entreguem os frutos”. (Mateus, 21: 33- 41; Marcos, 12: 1-9; e Lucas, 20: 9-16)

Importante lembrar que as parábolas de Jesus, por meio de alegorias, trazem diversos ensinamentos para as nossas vidas. Contudo, dependendo da crença religiosa, podemos ter diferentes interpretações. Aqui buscaremos uma visão da Doutrina Espírita extraída da literatura citada na bibliográfica.

Em várias fontes de pesquisa, encontramos o título “Parábola dos lavradores maus”. Mas, Allan Kardec, em “A Gênese”, no Capítulo XVII, em “Predições do Evangelho”, utiliza a expressão “Parábola dos vinhateiros homicidas”; Cairbar Schutel, em seu livro Parábolas e Ensino de Jesus, acrescenta “Parábola dos lavradores maus ou dos rendeiros infiéis”; e Antônio Luiz Sayão denomina de “Parábola da vinha e dos vinhateiros”.

Antes de interpretar a Parábola, necessário identificar os personagens, os fatos e os simbolismos utilizados para facilitar o entendimento e colher os ensinos necessários. Entretanto, mesmo na literatura Espírita, há interpretações divergentes, principalmente quanto: a vinha; os lavradores ou vinhateiros; a torre ou casa edificada; a herança; e os frutos.

Allan Kardec: “30. O pai de família é Deus; a vinha que Ele plantou é a lei que estabeleceu; os vinhateiros a quem arrendou a vinha são os homens que devem ensinar e praticar a lei; os servos que enviou aos arrendatários são os profetas que estes últimos massacraram; seu filho, enviado por último, é Jesus, a quem eles igualmente mataram. (…) Assim aconteceu com os escribas, com os príncipes dos sacerdotes e com os fariseus;” (grifos nosso). (Allan Kardec. A Gênese. Predições do Evangelho. Parábola dos vinhateiros homicidas.)

Cairbar Schutel: “Um proprietário plantou uma vinha, cercou-a com um tapume feito de ramos e troncos de árvores; assentou um lagar (local com todos os petrechos para a fabricação de vinho) e edificou uma ‘torre’ (grande edifício com proteção contra os ataques inimigos). (…) A seara é a Humanidade; o proprietário é Deus; a vinha que ele plantou é a religião; o lagar são os meios de purificação espiritual que ele concede; a casa que edificou é o mundo, os lavradores que arrendaram a lavoura são os sacerdotes de todos os tempos, desde os antigos que sacrificavam o sangue dos animais, até os nossos contemporâneos” (grifos nosso). (Cairbar Schutel. Parábolas e Ensino de Jesus. Parábola dos lavradores maus ou dos rendeiros infiéis.)

Rodolfo Calligaris: “O proprietário é Deus; a vinha é a religião do amor que deverá ser implantada na humanidade terrena; e os lavradores a quem a vinha foi arrendada são os sacerdotes de todas as épocas, desde os que sacrificavam animais para oferecer em holocausto nos altares do Judaísmo até os de hoje, que oficiam em suntuosos templos e catedrais. Os frutos são a piedade cristã, o progresso moral, e os servos incumbidos de recebê-los são os missionários enviados por Deus à Terra, de tempo em tempo, a exemplo dos profetas da antiguidade, João Hus, Savonarola, Lutero, etc., os quais, por reclamá-los à casta sacerdotal, verberando-lhes a incúria no trato das coisas divinas, foram por ela perseguidos, injuriados e mortos. O filho do proprietário é Jesus, cujo martírio ignominioso na cruz foi, também, obra exclusiva do sacerdotalismo. A herança é o reino dos céus, de que o sacerdócio hierárquico pretende ter a posse, constituindo-se seu único dispensador” (grifos nosso). (Rodolfo Calligaris. Parábolas evangélicas à luz do espiritismo. Parábola dos lavradores maus.)

Antônio Luiz Sayão: “Israel é a vinha que o Senhor plantou; a sebe de que a cercou representa os cuidados que tomou para que conservada fosse a lembrança do seu nome. O lagar é o emblema da provação, da expiação, da reencarnação, em suma. A torre seria a habitação indestrutível dos vinhateiros, se houveram cuidado devidamente da vinha. Os servos do dono desta são os profetas que repetidamente têm vindo fazer sentir aos homens que não estavam trilhando o caminho que lhes fora indicado. (…) O povo judeu representa os vinhateiros, até à ‘morte’ de Jesus. A partir de então, a vinha foi retirada do poder dos ‘maus’ vinhateiros e dada a ‘outros’.  (…) A vinha que o Senhor lhes arrendou é a Humanidade inteira e a sebe com que a cercou é a lei de amor, que o seu Filho bem-amado desceu a pregar pela palavra e pelo exemplo. O lagar, como sempre é a reencarnação, mediante a qual se extraem dos frutos da vinha, espremendo-se-lhes a parte material e perecível, o ‘espírito’, que se não altera e dura eternamente. (…) A torre, que é o nosso planeta, será a habitação indestrutível dos vinhateiros que houverem cuidado da vinha, o lugar seguro onde eles depositarão o suco da uva, quando lhe houverem dado, pelo trabalho, a propriedade e a pureza de que necessita para ficar guardado nela. Será, portanto, o nosso planeta, quando se houver tornado mundo superior” (grifos nosso). (Antônio Luiz Sayão. Elucidações evangélicas à luz da Doutrina Espírita. Parábola da vinha e dos vinhateiros.)

Assim, percebe-se um consenso em: o proprietário, ou o pai de família, sendo Deus; o filho do proprietário como Jesus; os servos do proprietário representando os profetas e missionários enviados por Deus; e os lavradores, ou vinhateiros, daquela época, são os que deveriam ensinar e praticar a lei, os sacerdotes, os escribas, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus.

Destaca-se que Allan Kardec, ao transportar estes ensinamentos para a atualidade, quando se reporta aos lavradores ou vinhateiros, assim comenta: “Ora, a que resultado chegaram os que, durante esse longo período, foram encarregados da educação religiosa dessa mesma humanidade?” Então, poderíamos inferir que, para os dias atuais, o alerta da Parábola seria para todos os encarregados pela educação religiosa cristã no mundo.

Kardec considera a vinha plantada como sendo a lei estabelecida por Deus. Cairbar Schutel e Rodolfo Calligaris entendem a vinha como a religião. Para Antônio Luiz Sayão a vinha é Israel e o povo judeu representa os vinhateiros.

Desses conflitos, relendo o Evangelho, levantam-se alguns aspectos para as devidas reflexões: o proprietário plantou a vinha e cercou-a; o proprietário disponibilizou todos os meios para colher os frutos; deixou a vinha aos cuidados dos lavradores; os primeiros servos enviados pelo proprietário para receber os frutos foram martirizados pelos lavradores; os vinhateiros fizeram a mesma coisa com outros servos posteriormente, e com o próprio filho do proprietário; a justificativa dos lavradores era ter a posse da herança; e quando vier o proprietário, esses lavradores maus perecerão e a vinha será arrendada a outros vinhateiros, para que esses entreguem os frutos.

Desses aspectos, sem desmerecer as diversas interpretações, a que melhor acolhemos é a que se aproxima de outra passagem de Jesus:  “Portanto, eu vos digo que o reino de Deus vos será tirado e será dado a uma nação que dê os seus frutos” (Mateus, 21: 43). Nesse sentido, ficamos com a visão de Allan Kardec: “a vinha que Ele plantou é a lei que estabeleceu”, ou seja, o reino de Deus.

Para a interpretação da vinha como religião, desculpem-me mais uma vez, mas religião é meio para se chegar ao Pai e não um fim em si mesmo.

Dentre o tríplice aspecto da Doutrina Espírita, o Espiritismo como religião se preocupa com as consequências morais do ensino científico-filosófico, buscando, na ética pregada por Jesus, os elementos que deverão nortear a conduta do homem rumo ao Criador. O Espiritismo é religião se analisado pela finalidade que tem de proporcionar a transformação moral do homem, retomando os ensinamentos de Cristo, para que sejam aplicados na vida diária de cada pessoa, revivendo o Cristianismo na sua verdadeira expressão de amor e caridade, em suma, religando a criatura à sua origem divina.

Vislumbram-se como fim: a busca da perfeição em pluralidade de existências (questão 132 de “O Livro dos Espíritos”); os progressos intelectual, moral e espiritual dos seres humanos e da humanidade; as boas obras; a caridade; e amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Essa questão fez-me recordar uma frase numa palestra Espírita que me marcou muito: Quando você morrer e bater na “porta do Céu”, “São Pedro” não vai lhe perguntar qual a sua religião, mas sim quais são as suas obras? Isto porque mesmos os ateus produzem boas obras, como na passagem do Centurião de Cafarnaum: o homem de bem. Jesus disse: “Porque o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e, então, dará a cada um segundo as suas obras” (Mateus 16: 27). 

Mais uma lembrança do saudoso Chico Xavier: “Se Allan Kardec tivesse escrito que ´fora do Espiritismo não há salvação´, eu teria ido por outro caminho. Graças a Deus ele escreveu ´Fora da Caridade´, ou seja, fora do Amor não há salvação´.”

A despeito do que foi dito, deixo ao leitor chegar às suas conclusões na identificação dos personagens, dos fatos e dos simbolismos, sem entrar em polêmica que não leva a nada.

Prosseguindo a interpretação, antecedendo o arrendamento, a fazenda estava pronta para a produção dos frutos, porquanto o proprietário plantou a vinha, cercou-a com ramos e troncos de árvores, assentou um lagar, com os meios necessários, e edificou uma torre para habitação e proteção.

Tendo de ausentar-se do país, o proprietário arrendou a vinha a uns lavradores.

Por ocasião da primeira colheita, o Senhor da vinha mandou os seus servos receber os frutos que lhe tocavam. Os lavradores, em vez de darem conta da produção, agarraram, feriram, apedrejaram e mataram os emissários. Na outra colheita, o proprietário enviou outros emissários, que tiveram a mesma sorte dos primeiros.

Os servos de Deus têm vindo repetidamente alertar os seres humanos que não estão trilhando a estrada que lhes é indicada, mas os lavradores deixam-se levar pelas práticas exteriores, pelos formalismos e pela escuridão espiritual que desviam do caminho, da verdade e da vida em direção ao Pai.

Vendo o proprietário o que acontecera com os seus emissários, julgou mais acertado enviar o próprio filho, na certeza de que os respeitariam. Mas os lavradores, vendo este chegar à propriedade, combinaram entre si e deliberaram matá-lo. E assim o fizeram.

Os lavradores mostraram as suas cegueiras, recusando-se a aceitar as verdades divinas das leis de Deus e repelindo todas as advertências que lhes eram feitas.

Kardec bem esclarece: “Assim aconteceu com os escribas, com os príncipes dos sacerdotes e com os fariseus; assim será quando Ele vier de novo pedir contas a cada um do que fez da sua doutrina; retirará toda autoridade ao que dela houver abusado, pois Ele quer que o seu campo seja administrado de acordo com a sua vontade”.

Com a promessa do Filho de Deus para a fase de regeneração do nosso planeta e de transformação moral da Humanidade, ainda vemos as mesmas hostilidades do passado.

Kardec comenta: “Que diria o Cristo se vivesse hoje entre nós? Se visse os que se dizem seus representantes a ambicionar as honras, as riquezas, o poder e o fausto dos príncipes do mundo, ao passo que Ele, mais rei do que todos os reis da Terra, fez a sua entrada em Jerusalém montado num jumento? Não teria o direito de dizer-lhes: Que fizestes dos meus ensinos, vós que incensais o bezerro de ouro, que proferis a maior parte das vossas preces em favor dos ricos, reservando uma parte insignificante para os pobres, apesar de eu haver dito: Os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros no reino dos céus? Mas se Ele não está carnalmente entre nós, está em Espírito e, como o senhor da parábola, virá pedir contas aos seus vinhateiros, quando chegar o tempo da colheita”.

Assim, como divulgadores da Palavra para ensinar e praticar a lei de Deus, temos uma grande responsabilidade para não nos desviarmos do caminho, da verdade e da vida que conduz ao Pai, tendo Jesus como modelo e guia na busca da perfeição relativa à Humanidade.

Bibliografia:

BÍBLIA SAGRADA.

KARDEC, Allan; tradução de Evandro Noleto Bezerra. A Gênese. 2ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

SAYÃO, Antônio Luiz. Elucidações evangélicas à luz da Doutrina Espírita. 16ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

SCHUTEL, Cairbar. Parábolas e Ensino de Jesus. 28ª Edição. Matão/SP: Casa Editora O Clarim, 2016.

CALLIGARIS, Rodolfo. Parábolas evangélicas à luz do espiritismo. 11ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

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