As tentações de Jesus

Essa reflexão abordará as supostas “tentações de Jesus” nos Evangelhos de Mateus (4: 1-11) e Lucas (4: 1-13), colhendo alguns entendimentos e esclarecimentos sob a ótica da Doutrina Espírita.

Antes disso, importante destacar certos aspectos relacionados a Jesus Cristo para, em outro momento, discorrer sobre os ensinamentos a respeito das “tentações de Jesus”.

A autoridade de Jesus está na natureza excepcional de seu Espírito puro, com superioridade intelectual e moral absoluta em relação aos Espíritos de outras ordens. Espírito que percorreu todos os estágios e graus da escala evolutiva e se despojou de todas as impurezas da matéria. O Espírito puro, tendo alcançado a soma de perfeição de que é suscetível a criatura, não tem mais que sofrer provas, nem expiações (Questões 112 e 113. O Livro dos Espíritos. Allan Kardec).

No Plano de Deus, a missão de Jesus, personificando a sabedoria e o amor divinos, foi a de orientar, salvar a humanidade e mostrar o caminho, a verdade e a vida em direção ao Pai, por meio da Palavra e dos seus ensinamentos e exemplos, que servem como roteiros de vida a todos na busca da perfeição, porquanto ninguém chega ao Pai senão por Ele.

Como construtor e governador do orbe terrestre, guia e modelo da humanidade, o Cristo deixou a palavra de vida eterna, cuja doutrina é a expressão mais pura da lei de Deus.

Do nascimento à ressurreição, o Mestre ensinou aos homens que a verdadeira vida não é a que transcorre na Terra, mas sim a que é vivida no reino dos Céus. Ensinou o caminho que a esse reino conduz e os meios de se reconciliar com Deus.

Feitas as considerações iniciais, passemos aos textos evangélicos:

“Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome; E, chegando-se a ele o tentador, disse: Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães. Ele, porém, respondendo, disse: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus. Então o diabo o transportou à cidade santa, e colocou-o sobre o pináculo do templo, E disse-lhe: Se tu és o Filho de Deus, lança-te de aqui abaixo; porque está escrito: Que aos seus anjos dará ordens a teu respeito, e tomar-te-ão nas mãos, para que nunca tropeces com o teu pé em alguma pedra. Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus. Novamente o transportou o diabo a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles. E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares. Então disse-lhe Jesus: Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás. Então o diabo o deixou; e, eis que chegaram os anjos, e o serviam”. (Mateus, 4: 1-11)

“Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto, onde, durante quarenta dias, foi tentado pelo diabo. Não comeu nada durante esses dias e, ao fim deles, teve fome. O diabo lhe disse: Se você é o Filho de Deus, mande a esta pedra que se transforme em pão. Jesus respondeu: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem. O diabo o levou a um lugar alto e mostrou-lhe num relance todos os reinos do mundo. E lhe disse: Eu lhe darei toda a autoridade sobre eles e todo o seu esplendor, porque me foram dados e posso dá-los a quem eu quiser. Então, se você me adorar, tudo será seu. Jesus respondeu: Está escrito: Adore o Senhor, o seu Deus e só a ele preste culto. O diabo o levou a Jerusalém, colocou-o na parte mais alta do templo e lhe disse: Se você é o Filho de Deus, jogue-se daqui para baixo. Pois está escrito: ‘Ele dará ordens a seus anjos a seu respeito, para lhe guardarem; com as mãos eles os segurarão, para que você não tropece em alguma pedra. Jesus respondeu: Dito está: Não ponha à prova o Senhor, o seu Deus. Tendo terminado todas essas tentações, o diabo o deixou até ocasião oportuna”. (Lucas, 4: 1-13)

Em “O Evangelho Redivivo: estudo interpretativo do Evangelho segundo Mateus”, Livro II, da FEB Editora, no Tema 9, “As provações de Jesus no deserto”, destacamos: “Os Evangelhos sinópticos referem-se às ‘tentações’ que Jesus teria passado no deserto, logo após ser batizado por João Batista, no rio Jordão. Algo totalmente fora de propósito, considerando ele o Messias, e, por isso mesmo, Espírito portador de qualidades divinas. Jesus passou por inúmeras provações, como bem sabemos, mas jamais tentado, pois a superioridade do seu Espírito demonstra que ele estaria (e está) acima de qualquer tentação. (…) A suposta ‘tentação’ de Jesus seria mais um simbolismo do que fato verdadeiramente ocorrido. Trata-se de representação simbólica de acontecimentos antigos, sucedidos com os judeus que, antes de se constituírem numa nação, peregrinaram por quarenta anos, no deserto”.

Como dito anteriormente, os Espíritos puros não têm mais que sofrer provas, nem expiações (Questões 112 e 113. O Livro dos Espíritos. Allan Kardec.), contudo as provações que Jesus passou faziam parte de sua missão salvadora da humanidade, cujos exemplos e ensinamentos devemos transportar para os dias atuais.

Em “A Gênese”, no Capítulo XV, “Os milagres do Evangelho”, em “Tentação de Jesus”, no item 52, Allan Kardec comenta: “Jesus, transportado pelo diabo ao pináculo do templo, depois ao cume de uma montanha e tentado por ele, constitui uma daquelas parábolas que lhe eram familiares e que a credulidade pública transformou em fatos materiais”.

Assim, Kardec intitula a “Tentação de Jesus” como parábola, diante da narrativa de o Cristo ter sido “transportado pelo diabo”.

No mesmo Capítulo de “A Gênese”, no item 53, o Espírito João Evangelista (Bordeaux, 1862) esclarece:

“Jesus não foi arrebatado. Ele apenas quis fazer que os homens compreendessem que a humanidade se acha sujeita a falir e que deve manter-se sempre vigilante contra as más inspirações a que, pela sua natureza fraca, é impelida a ceder. A tentação de Jesus é, pois, uma figura e fora preciso ser cego para tomá-la ao pé da letra. Como pretenderíeis que o Messias, o Verbo de Deus encarnado, tenha estado submetido, por algum tempo, por mais curto que fosse, às sugestões do demônio e que, como diz o Evangelho de Lucas, o demônio o houvesse deixado por algum tempo, o que levaria a supor que o Cristo continuou submetido ao poder daquela entidade maléfica? Não; compreendei melhor os ensinos que vos foram dados. O Espírito do mal não teria nenhum poder sobre a essência do bem. Ninguém diz ter visto Jesus no cume da montanha, nem no pináculo do Templo. Sem dúvida, tal fato se teria espalhado por todos os povos. A tentação, portanto, não constituiu um ato material e físico. Quanto ao ato moral, admitiríeis que o Espírito das trevas pudesse dizer àquele que conhecia sua própria origem e o seu poder: ‘Adora-me, que te darei todos os reinos da Terra?’ Então o demônio desconheceria aquele a quem fazia tais oferecimentos? Não é provável. Ora, se o conhecia, suas propostas eram uma insensatez, pois ele sabia perfeitamente que seria repelido por aquele que viera destruir o seu império sobre os homens.

“Compreendei, portanto, o sentido dessa parábola, pois se trata apenas de uma parábola, do mesmo modo que nos casos do Filho Pródigo e do Bom Samaritano. Aquela mostra os perigos que correm os homens, se não resistem à voz íntima que lhes clama sem cessar: ‘Podes ser mais do que és; podes possuir mais do que possuis; podes engrandecer-te, adquirir muito; cede à voz da ambição e todos os teus desejos serão satisfeitos.’ Ela vos mostra o perigo e o meio de o evitardes, dizendo às más inspirações: Retira-te, Satanás! ou, por outras palavras: Vai-te, tentação!

“As duas outras parábolas que lembrei mostram o que ainda pode esperar aquele que, por muito fraco para expulsar o demônio, lhe sucumbiu às tentações. Mostram a misericórdia do pai de família, pousando a mão sobre a fronte do filho arrependido e concedendo-lhe, com amor, o perdão implorado. Mostram o culpado, o cismático, o homem repelido por seus irmãos, valendo mais, aos olhos do Juiz supremo, do que os que o desprezam, por praticar Ele as virtudes ensinadas pela lei de amor.

“Pesai bem os ensinamentos que os Evangelhos contêm; sabei distinguir o que ali está em sentido próprio, ou em sentido figurado, e os erros que vos têm cegado durante tantos séculos se apagarão pouco a pouco, cedendo lugar à brilhante luz da verdade. – João Evangelista (Bordeaux, 1862.)”

Para a Doutrina Espírita, demônios, satanás ou belzebu são denominações de Espíritos do mau ou impuros, da décima classe, “… inclinados ao mal, de que fazem o objeto de suas preocupações. Como Espíritos, dão conselhos pérfidos, sopram a discórdia e a desconfiança e se mascaram de todas as maneiras para melhor enganar. Ligam-se aos homens de caráter bastante fraco para cederem às suas sugestões, a fim de induzi-los à perdição, satisfeitos com o conseguirem retardar-lhes o adiantamento, fazendo-os sucumbir nas provas por que passam. (…) Alguns povos os arvoraram em divindades maléficas; outros os designam pelos nomes de demônios, maus gênios, Espíritos do mal”. (Questão 102. O Livro dos Espíritos. Allan Kardec.)

“Por demônios se devem entender os Espíritos impuros, que muitas vezes não valem mais do que as entidades designadas por esse nome, mas com a diferença de ser transitório o estado deles. São Espíritos imperfeitos, que se rebelam contra as provas que lhes tocam e que, por isso, as sofrem mais longamente, porém que, a seu turno, chegarão a sair daquele estado, quando o quiserem. Poder-se-ia, pois, aceitar o termo demônio com esta restrição. Como o entendem atualmente, dando-se-lhe um sentido exclusivo, ele induziria em erro, com o fazer crer na existência de seres especiais criados para o mal.

Satanás é evidentemente a personificação do mal sob forma alegórica, visto não se poder admitir que exista um ser mau a lutar, como de potência a potência, com a Divindade e cuja única preocupação consistisse em lhe contrariar os desígnios”. (Comentários de Allan Kardec à questão 131. O Livro dos Espíritos.)

Primeira provação: transformar pedras em pães (Mateus, 4: 4)

“A necessidade imediata era alimentar, passado o prolongado jejum. O tentador tinha o intuito de ver Jesus subjugado a uma necessidade fisiológica básica, inerente à sobrevivência da espécie humana, que é a de ingerir alimentos, a fim de que a máquina orgânica se mantenha em funcionamento. (…)

O teste teria, então, dupla natureza: vencer a necessidade fisiológica por meio de um ato prodigioso. A primeira parte foi realizada com tranquilidade por Jesus: ‘Como homem, tinha a organização dos seres carnais, mas como Espírito puro, desprendido da matéria, havia de viver mais da vida espiritual do que da vida corpórea, de cujas fraquezas não era passível. (…) Sua alma não devia achar-se presa ao corpo senão pelos laços estritamente indispensáveis (…)’. A segunda parte foi desnecessária, uma vez que Jesus não foi vencido pela fome”. (…)

“Com Jesus, encontramos sempre acréscimo de forças morais para vencer as vicissitudes da vida, independentemente da forma como estas se apresentam”. (O Evangelho Redivivo: estudo interpretativo do Evangelho segundo Mateus. Livro II, FEB Editora, Tema 9, As provações de Jesus no deserto.)

Segunda provação: atirar-se do pináculo do templo e ser salvo pelos anjos (Mateus, 4: 5-6)

“Depois Jesus foi levado para Jerusalém (Cidade Santa), sendo colocado no alto do Templo, ‘nome dado ao principal centro de culto do povo de Israel, onde se realizavam as diversas ofertas e sacrifícios conhecidos como korbanot.

Uma coisa fica evidente nesta passagem evangélica: o tentador reconhece que Jesus é o Filho de Deus (…), ou seja, o próprio adversário do bem percebeu que se encontra diante do Messias ou, no mínimo, que Jesus teria uma relação mais especial com Deus, bem diferente da que existe entre as pessoas comuns e o Criador. (…)

Para a Doutrina Espírita, as tentações oferecidas pela vida transitória no plano físico têm sido um dos maiores obstáculos à melhoria moral do ser humano. ‘(…) Contra o desejo que frequentemente nos assalta de vivermos uma vida fácil, (Jesus) avisa-nos de que não devemos tentar a Deus. Os trabalhos, os suores, as amarguras e as desilusões são oportunidades benditas de redenção e de progresso”. (O Evangelho Redivivo: estudo interpretativo do Evangelho segundo Mateus. Livro II, FEB Editora, Tema 9, As provações de Jesus no deserto.)

Terceira provação: poder e riqueza do mundo (Mateus, 4: 8-9)

“Jesus foi conduzido a um monte muito alto, onde poderia ver todos os reinos do mundo (…). Aqui, considera-se que se trata de mais um simbolismo, possivelmente uma forma de representar uma visão psíquica ou vidência, não exatamente um monte. O poder transitório do mundo é oferecido a Jesus por aquele que as escrituras denominam satanás”.

Pela resposta de Jesus, temos a lição: “Adorar a Deus, em espírito e verdade, seguir os preceitos da Lei de Deus, transmitida pelo Cristo, deve ser nosso esforço permanente. (…) A lição que se aprende, no final, é que o bem é e sempre será vitorioso, porque este é permanente”. (O Evangelho Redivivo: estudo interpretativo do Evangelho segundo Mateus. Livro II, FEB Editora, Tema 9, As provações de Jesus no deserto.)

Assim sendo, precisamos conhecer e sentir mais Jesus, estudar com dedicação os seus ensinos, aceitar o seu jugo, divulgando a sua mensagem de amor.

Bibliografia:

BÍBLIA SAGRADA.

KARDEC, Allan; tradução de Evandro Noleto Bezerra. A Gênese. 2ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

MOURA, Marta Antunes de Oliveira de (Organizadora). O evangelho redivivo: estudo interpretativo do Evangelho segundo Mateus. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2020.

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