Flagelos destruidores

Para as nossas reflexões e encadear as ideias, visando um melhor entendimento dos flagelos destruidores, abordaremos o tema na seguinte sequência: o Universo e a Terra em evolução; o bem e o mal; a educação pela dor e pelo sofrimento; e os flagelos destruidores.

O Universo e a Terra em evolução

Pelas leis de Deus, há tempo da criação, do crescimento, do desenvolvimento, do amadurecimento, da virilidade, do envelhecimento, da transformação e da renovação.

Cada coisa a seu tempo e a Natureza não dá saltos evolutivos.

Do fiat lux, o Universo não se apresentou na plenitude de sua existência, porquanto nasceu criança, está em movimento, evoluindo e segue o seu destino percorrendo o infinito por toda a eternidade.

Assim, o progresso é lei da natureza e todos os seres estão submetidos a ele. Nada está parado.

O mundo, ao progredir, oferece morada mais agradável a seus habitantes à medida que eles também progridem. Paralelamente, marcham os progressos de homens, animais, vegetais e os mundos que eles habitam.

A Terra também teve a sua infância, quando da sua formação no Sistema Solar.

Há bilhões de anos, a Terra não existia; nem o Sistema Solar. Mas, já havia sóis iluminando o Universo. Planetas davam vida e existência a uma imensidão de seres que nos precederam na carreira humana.

As produções da natureza desconhecida e maravilhosos fenômenos do céu estavam sob outros olhares. Antes e depois de nós, está a eternidade.

No espaço, ocorre a eterna ação simultânea da criação, em perfeita harmonia, sendo que nada é por acaso, revelando uma providência divina diretora.

Na eterna sucessão de mundos, sabemos que as leis divinas presidem à história do Cosmo e regem igualmente a destruição dos astros, visto que a morte não é apenas uma metamorfose do ser vivo, mas também uma transformação da matéria inanimada.

Em “A Gênese”, Capítulo VI, nos itens 49 e 50, Allan Kardec comenta:

“Com efeito, se remontarmos à origem primeira das primitivas aglomerações da substância cósmica, notaremos que, sob o império dessa lei, a matéria sofre as transformações necessárias, que levam do germe ao fruto maduro, e que, sob a impulsão das diversas forças nascidas dessa lei, ela percorre a escala das revoluções periódicas. Primeiramente, centro fluídico dos movimentos; em seguida, gerador dos mundos; mais tarde, núcleo central e atrativo das esferas que nasceram no seu seio. (…)

As mesmas leis que a elevaram acima do caos tenebroso e que a gratificaram com os esplendores da vida, as mesmas forças que a governaram durante os séculos da sua adolescência, que lhe firmaram os primeiros passos na existência e que a conduziram à idade madura e à velhice, vão também presidir à desagregação de seus elementos constitutivos, a fim de os restituir ao laboratório em que a potência criadora haure incessantemente as condições da estabilidade geral. Esses elementos vão retornar à massa comum do éter, para se assimilarem a outros corpos, ou para regenerarem outros sóis. E essa morte não será um acontecimento inútil, nem para esta Terra, nem para suas irmãs. Noutras regiões, ela renovará outras criações de natureza diferente e, lá onde os sistemas de mundos se desvaneceram, em breve renascerá outro jardim de flores mais brilhantes e mais perfumadas.”

Dos ensinos dos Espíritos, somos informados que há diferentes categorias de mundos, quanto ao grau de adiantamento ou inferioridade dos seus habitantes.

Pertencente ao mundo de expiação e provas, a Terra já esteve material e moralmente num estado inferior. Hoje, se prepara para atingir um grau mais avançado pela lei do progresso.

Para que os homens sejam felizes na Terra, é preciso que somente a povoem Espíritos bons, encarnados e desencarnados.

As principais alterações que se observam, hoje, são de natureza moral, convidando o ser humano à mudança de comportamento, alterando os hábitos viciosos.

Moralmente, a Humanidade progride pelo desenvolvimento da inteligência, do senso moral e do abrandamento dos costumes.

Até aqui, a Humanidade tem realizado grandes progressos com a sua inteligência, chegando a resultados que jamais havia alcançado, sob o ponto de vista das ciências.

Resta, ainda, um imenso progresso a realizar: fazer com que reine a caridade, a fraternidade e a solidariedade, para assegurar o bem-estar moral de todos os seus habitantes.

Quando a humanidade está madura para subir um degrau, pode-se dizer que os tempos marcados por Deus são chegados.

De todas as partes, somos alertados sobre esses tempos, em que grandes acontecimentos ocorrerão para a regeneração da humanidade.

Se a nossa época está designada para a realização de certas coisas, é que estas têm uma razão de ser na marcha do conjunto.

Materialmente, a Terra tem sofrido transformações identificadas e comprovadas pela Ciência. 

A transformação moral ocorrerá pela depuração dos Espíritos encarnados e desencarnados que o povoam.

Não se trata de uma mudança parcial, uma renovação limitada a certa região, povo ou raça. Trata-se de um movimento universal, que se opera no sentido do progresso moral.

A geração futura, livre das escórias do velho mundo e formada de elementos mais depurados, se achará possuída de ideias e de sentimentos muito diversos dos da geração presente, que se vai a passo de gigante.

O velho mundo estará morto, ficando para a História. Essa será a transição planetária da Terra.

O bem e o mal

O bem é tudo conforme a lei de Deus e o mal tudo o que lhe é contrário, ou seja, fazer o bem é proceder de acordo com a lei de Deus e fazer o mal é infringi-la.

Não é difícil distinguir o bem do mal, pois o Criador deu ao ser humano a inteligência para diferenciar um do outro, bastando aplicar o preceito de Jesus; “Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a lei e os profetas” (Mateus, 7: 12). Tudo se resume nisso.

Na questão 633, em “O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec anota que “A regra do bem e do mal, que se poderia chamar de reciprocidade ou de solidariedade, é inaplicável ao proceder pessoal do homem para consigo mesmo”. Na resposta à questão, os Espíritos esclarecem: “Quando comeis em excesso, verificais que isso vos faz mal. Pois bem, é Deus quem vos dá a medida daquilo de que necessitais. Quando excedeis dessa medida, sois punidos. Em tudo é assim. A lei natural traça para o homem o limite das suas necessidades. Se ele ultrapassa esse limite, é punido pelo sofrimento. Se atendesse sempre à voz que lhe diz – basta, evitaria a maior parte dos males, cuja culpa lança à Natureza”.

Na questão 636, somos informados que: “A lei de Deus é a mesma para todos; porém, o mal depende principalmente da vontade que se tenha de o praticar. O bem é sempre o bem e o mal sempre o mal, qualquer que seja a posição do homem. Diferença só há quanto ao grau da responsabilidade”.

Na questão 637, temos que “Tanto mais culpado é o homem, quanto melhor sabe o que faz”. A esse respeito, Kardec comenta: “As circunstâncias dão relativa gravidade ao bem e ao mal. Muitas vezes, comete o homem faltas, que, nem por serem consequência da posição em que a sociedade o colocou, se tornam menos repreensíveis. Mas, a sua responsabilidade é proporcionada aos meios de que ele dispõe para compreender o bem e o mal. Assim, mais culpado é, aos olhos de Deus, o homem instruído que pratica uma simples injustiça, do que o selvagem ignorante que se entrega aos seus instintos”.

A ambição desvairada, o orgulho, o egoísmo, entre outras paixões inferiores, podem levar o homem a destruir o seu semelhante. Dizem os Espíritos Superiores que essa “necessidade desaparece, entretanto, à medida que a alma se depura, passando de uma a outra existência”.

O mal recai sempre sobre o seu causador. Aquele que induz o seu semelhante a praticar o mal pela posição em que o coloca tem mais responsabilidade do que este último, porque cada um será punido, não só pelo mal que haja feito, mas também pelo mal a que tenha dado lugar. De igual modo, aquele que, embora não praticando o mal, se aproveita do mal praticado por outrem, é tão culpado quanto este, uma vez que aproveitar do mal é participar dele.

Mais numerosos do que os males que o homem não pode evitar são os que ele cria pelos seus próprios vícios, os que provêm do seu orgulho, do seu egoísmo, da sua ambição, da sua cupidez e de seus excessos em tudo.

O bem é o único determinismo divino dentro do Universo, determinismo que absorve todas as ações humanas, para as assinalar com o sinete da fraternidade, da experiência e do amor.

Assim, o mal existe e tem causa. Pela justiça divina, todo mal tem consequência.

A educação pela dor e pelo sofrimento

A dor, assim como o sofrimento, tem a sua razão de ser.

Nas trajetórias evolutivas, “tudo o que vive neste mundo, natureza, animal, homem, sofre e, todavia, o amor é a lei do universo e por amor foi que Deus formou os seres. (…) A dor segue todos os nossos passos; espreita-nos em todas as voltas do caminho” (León Denis, O problema do ser, do destino e da dor.).

“Fundamentalmente, a dor é uma lei de equilíbrio e educação. Sem dúvida, as falhas do passado recaem sobre nós com todo o seu peso e determinam as condições de nosso destino. O sofrimento, muitas vezes, não é mais do que a repercussão das violações da ordem eterna cometidas; mas, sendo partilha de todos, deve ser considerado como necessidade de ordem geral, como agente de desenvolvimento, condição do progresso. Todos os seres têm de, por sua vez, passar por ele. Sua ação é benfazeja para quem sabe compreendê-lo; mas, somente podem compreendê-lo aqueles que lhe sentiram os poderosos efeitos” (León Denis).

“A dor e o prazer são as duas formas extremas da sensação. Para suprimir uma ou outra seria preciso suprimir a sensibilidade. São, pois, inseparáveis, em princípio, e ambos necessários à educação do ser, que, em sua evolução, deve experimentar todas as formas ilimitadas, tanto do prazer como da dor” (León Denis).

Assim, a dor e o prazer são meios de educar e agentes de progresso, em que as causas dos sofrimentos atuais se encontram nas violações do passado, anteriores aos efeitos, determinando as condições do destino de cada ser. Os benefícios da dor e do sofrimento alcançam aqueles que souberam compreender as suas ações e os seus efeitos.

“A tristeza e o sofrimento fazem-nos ver, ouvir, sentir mil coisas, delicadas ou fortes, que o homem feliz ou o homem vulgar não podem perceber” (León Denis).

A alma deve conquistar todos os elementos e atributos para se libertar dos sentimentos inferiores, renovar a sua morada e alcançar a verdadeira felicidade, mas para isso precisa dos obstáculos, das exigências e das duras lições que provocam os esforços e formam a experiência necessária para atingir a meta evolutiva.

Nos estágios inferiores da vida, há que se passar pelas provações e expiações da luta do bem contra o mal dentro do próprio íntimo, para se adquirir a conscientização necessária para o pleno exercício do livre-arbítrio e tornar possível o triunfo futuro.

“A dor física é, em geral, um aviso da natureza, que procura preservar-nos dos excessos. Sem ela, abusaríamos de nossos órgãos a ponto de os destruirmos antes do tempo” (León Denis). A dor adverte, sensibiliza, educa, conscientiza, liberta, renova e permite a elevação do ser, ou seja, colher os frutos da dor.

Quanto mais a alma se eleva, mais a dor se espiritualiza e torna sutil. Quanto mais o ser humano se aperfeiçoa, mais admiráveis se tornam os frutos da dor.

Sempre haverá sanção quando os deveres são violados e compensações para as dores vivenciadas. O maior juiz das nossas faltas é a própria consciência.

A lei dos destinos estabelece uma ordem no mundo moral, cujo mecanismo consiste em que todo mal se resgata pela dor. Por outro lado, todo o bem realizado segundo a lei de Deus proporciona tranquilidade e contribui para a sua elevação. Tudo isso determina as condições do destino de cada ser.

O sofrimento na Terra é instrumento de educação e progresso, obrigando os seres a enfrentar diversas situações que contribuem para adquirir a experiência necessária. Sem a dor, como conhecer a alegria; sem a sombra, como apreciar a luz.

As provações fazem compreender a nossa fragilidade e descobrir as verdadeiras riquezas espirituais. A cada dor que fere, aproxima-se um pouco mais da verdade e da perfeição. Assim, sofremos a ação de uma causa anterior e da lei que preside os destinos das almas, das sociedades e dos mundos.

“O objetivo da evolução, a razão de ser da vida não é a felicidade terrestre, como muitos erradamente creem, mas o aperfeiçoamento de cada um de nós, e esse aperfeiçoamento devemos realizá-lo por meio do trabalho, do esforço, de todas as alternativas da alegria e da dor, até que nos tenhamos desenvolvido completamente e elevado ao estado celeste” (León Denis).

Todas as nossas vidas são solidárias umas com as outras e se encadeiam rigorosamente. As consequências dos nossos atos constituem uma sucessão de elementos que se ligam uns aos outros pela estreita relação de causa e efeito. Sofremos os resultados inevitáveis.

Pela pluralidade de existências, desenvolve-se o princípio da vida que ilumina as consciências adormecidas. As dores do passado não ficam perdidas. Sob o açoite das provas e do sofrimento intenso da dor, todos sobem e se elevam.

Pela reencarnação, cada ser vem para prosseguir a tarefa de aperfeiçoamento interrompida pela existência anterior. É pela lei do esforço que o Espírito se afirma, triunfa e desenvolve-se. É na Terra onde se travam as batalhas incessantes do bem contra o mal.

Ao compreendermos o problema do ser, do destino e da dor, levantar-se-á no céu de seu destino uma nova estrela, “cujos raios trêmulos penetram no santuário de sua consciência e lhe iluminam os recônditos. (…) cada dor é um sulco onde se levanta uma seara de virtude e beleza” (León Denis).

“O universo é justiça e amor. Na espiral infinita das ascensões, a soma dos sofrimentos, divina alquimia, converte-se, lá em cima, em ondas de luz e torrentes de felicidade” (León Denis).

Os flagelos destruidores

Do “Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita”, Programa Fundamental, Tomo II, Módulo XIII, Roteiro 2, Flagelos Destruidores, extraímos:

“Os flagelos fazem parte do processo provacional e expiatório do nosso Planeta, alcançando, indistintamente, grandes e pequenos, ricos e pobres. Jesus, conhecedor profundo das necessidades de aprendizado humano, já nos advertia no Sermão da Montanha (Mateus, 24:6-8): Haveis de ouvir sobre guerras e rumores de guerra. Cuidado para não vos alarmardes. É preciso que aconteçam, mas ainda não é o fim. Pois se levantará nação contra nação e reino contra reino. E haverá fome e terremotos em todos os lugares. Tudo isso será o princípio das dores.14

Os Espíritos Orientadores nos esclarecem que Deus permite ser a Humanidade atingida por flagelos, para […] fazê-la progredir mais depressa. Já não dissemos ser a destruição uma necessidade para a regeneração moral dos Espíritos, que, em cada nova existência, sobem um degrau na escala do aperfeiçoamento? Preciso é que se veja o objetivo, para que os resultados possam ser apreciados. Somente do vosso ponto de vista pessoal os apreciais; daí vem que os qualificais de flagelos, por efeito do prejuízo que vos causam. Essas subversões, porém, são frequentemente necessárias para que mais pronto se dê o advento de uma melhor ordem de coisas e para que se realize em alguns anos o que teria exigido muitos séculos.6

Na verdade, o homem poderia evitar o sofrimento dos flagelos se fosse mais cuidadoso nas suas escolhas. Deus, em sua infinita bondade, oferece-nos inúmeros outros instrumentos de progresso, mas, como seres imperfeitos que ainda somos, optamos por seguir os caminhos mais ásperos e tortuosos da vida. Deus nos dá […] os meios de progredir pelo conhecimento do bem e do mal. O homem, porém, não se aproveita desses meios. Necessário, portanto, se torna que seja castigado no seu orgulho e que se lhe faça sentir a sua fraqueza.7

Dessa forma, os […] flagelos são provas que dão ao homem ocasião de exercitar a sua inteligência, de demonstrar sua paciência e resignação ante a vontade de Deus e que lhe oferecem ensejo de manifestar seus sentimentos de abnegação, de desinteresse e de amor ao próximo, se o não domina o egoísmo.8

Há dois tipos de flagelos destruidores: os naturais e os provocados pelos homens. Na primeira linha dos flagelos destruidores, naturais e independentes do homem, devem ser colocados a peste [e outras doenças semelhantes], a fome, as inundações, as intempéries fatais às produções da terra.9 Os flagelos destruidores provocados pelos homens revelam predominância […] da natureza animal sobre a natureza espiritual e transbordamento das paixões. No estado de barbaria, os povos um só direito conhecem — o do mais forte. Por isso é que, para tais povos, o de guerra é um estado normal.10

No que diz respeito aos flagelos naturais, tais como […] as inundações, as intempéries fatais à produção agrícola, os terremotos, os vendavais etc., que soem causar tantas vítimas, instruem-nos, ainda, os mentores espirituais, são acidentes passageiros no destino da Terra (mundo expiatório), que haverão de cessar no futuro, quando a Humanidade que a habite haja aprendido a viver segundo os mandamentos de Deus, pautados no Amor, dispensando, então, os corretivos da Dor.15 Dessa forma, em face […] do impositivo da evolução, o homem enfrenta os flagelos que fazem parte da vida. Os naturais surpreendem-no, sem que os possa evitar, não obstante a inteligência lhe haja facultado meios de os prevenir e até mesmo de remediar-lhes algumas consequências. Irrompem, de quando em quando, desafiando-lhe a capacidade intelectual, ao mesmo tempo estimulando-lhe os valores que deve aplicar para os conjurar e impedir. Enquanto isso não ocorre, constituem-lhe corretivos morais, mecanismos de reparação dos males perpetrados, recursos da Vida para impulsioná-lo ao progresso sem retentivas com a retaguarda. Inúmeros desses flagelos destruidores já podem ser previstos e alguns têm diminuídos os seus efeitos perniciosos, em razão das conquistas que a Humanidade vem alcançando. Outros, que constituíam impedimentos aos avanços e à saúde, têm sido minorados e até vencidos, quais a fertilização de regiões desérticas, o saneamento de áreas contaminadas, a correção de acidentes geográficos, a prevenção contra as epidemias que dizimariam multidões, assolando países e continentes inteiros, e, graças ao Espiritismo, a terapia preventiva em relação aos processos obsessivos que dominavam grupos e coletividades […].16

O homem recebeu em partilha uma inteligência com cujo auxílio lhe é possível conjurar, ou, pelo menos, atenuar os efeitos de todos os flagelos naturais. Quanto mais saber ele adquire e mais se adianta em civilização, tanto menos desastrosos se tornam os flagelos. Com uma organização sábia e previdente, chegará mesmo a lhes neutralizar as consequências, quando não possam ser inteiramente evitados. Assim, com referência, até, aos flagelos que têm certa utilidade para a ordem geral da Natureza e para o futuro, mas que, no presente, causam danos, facultou Deus ao homem os meios de lhes paralisar os efeitos. Assim é que ele saneia as regiões insalubres, imuniza contra os miasmas pestíferos, fertiliza terras áridas e se industria em preservá-las das inundações; constrói habitações mais salubres, mais sólidas para resistirem aos ventos tão necessários à purificação da atmosfera e se coloca ao abrigo das intempéries. É assim, finalmente, que, pouco a pouco, a necessidade lhe fez criar as ciências, por meio das quais melhora as condições de habitabilidade do globo e aumenta o seu próprio bem-estar.2

Tendo o homem que progredir, os males a que se acha exposto são um estimulante para o exercício da sua inteligência, de todas as suas faculdades físicas e morais, incitando-o a procurar os meios de evitá-los. Se ele nada houvesse de temer, nenhuma necessidade o induziria a procurar o melhor; o espírito se lhe entorpeceria na inatividade; nada inventaria, nem descobriria. A dor é o aguilhão que o impele para a frente, na senda do progresso.3

Os flagelos destruidores provocados pelo homem representam, ao contrário dos naturais, uma grave infração à lei de Deus. Sabemos que, de todos os sofrimentos existentes na Terra, […] os males mais numerosos são os que o homem cria pelos seus vícios, os que provêm do seu orgulho, do seu egoísmo, da sua ambição, da sua cupidez, de seus excessos em tudo. Aí a causa das guerras e das calamidades que estas acarretam, das dissenções, das injustiças, da opressão do fraco pelo forte, da maior parte, afinal, das enfermidades. Deus promulgou leis plenas de sabedoria, tendo por único objetivo o bem. Em si mesmo encontra o homem tudo o que lhe é necessário para cumpri-las. A consciência lhe traça a rota, a lei divina lhe está gravada no coração e, ao demais, Deus lha lembra constantemente por intermédio de seus messias e profetas, de todos os Espíritos encarnados que trazem a missão de o esclarecer, moralizar e melhorar e, nestes últimos tempos, pela multidão dos Espíritos desencarnados que se manifestam em toda parte. Se o homem se conformasse rigorosamente com as leis divinas, não há duvidar de que se pouparia aos mais agudos males e viveria ditoso na Terra. Se assim não procede, é por virtude do seu livre-arbítrio: sofre então as consequências do seu proceder.4

Entretanto, Deus, todo bondade, pôs o remédio ao lado do mal, isto é, faz que do próprio mal saia o remédio. Um momento chega em que o excesso do mal moral se torna intolerável e impõe ao homem a necessidade de mudar de vida. Instruído pela experiência, ele se sente compelido a procurar no bem o remédio, sempre por efeito do seu livre-arbítrio. Quando toma melhor caminho, é por sua vontade e porque reconheceu os inconvenientes do outro. A necessidade, pois, o constrange a melhorar-se moralmente, para ser mais feliz, do mesmo modo que o constrangeu a melhorar as condições materiais da sua existência.5

Esta é a explicação para a ocorrência de tragédias que, como se surgissem do nada, se abatem sobre indivíduos e coletividades. Na verdade, esses sofrimentos dolorosos, que assumem a feição de flagelos destruidores, fazem parte da programação reencarnatória, representando, em última análise, medidas de reajuste espiritual perante a Lei de Deus. São aflições que remontam às ações ocorridas no passado, em outras reencarnações. Todavia, por virtude do axioma segundo o qual todo efeito tem uma causa, tais misérias são efeitos que hão de ter uma causa e, desde que se admita um Deus justo, essa causa também há de ser justa. Ora, ao efeito precedendo sempre a causa, se esta não se encontra na vida atual, há de ser anterior a essa vida, isto é, há de estar numa existência precedente. Por outro lado, não podendo Deus punir alguém pelo bem que fez, nem pelo mal que não fez, se somos punidos, é que fizemos o mal; se esse mal não o fizemos na presente vida, tê-lo-emos feito noutra. É uma alternativa a que ninguém pode fugir e em que a lógica decide de que parte se acha a justiça de Deus.1

De todos os flagelos destruidores, provocados pela incúria e imprevidência humanas, a guerra traduz-se, possivelmente, como sendo o mais doloroso. Contudo, à medida que […] o homem progride, menos frequente se torna a guerra, porque ele lhe evita as causas, fazendo-a com humanidade, quando a sente necessária.10

Infelizmente, o ser humano ainda não está preparado para viver a paz, de forma que a guerra representa, ao lado das graves tragédias, um doloroso processo de conquista da liberdade e do progresso.12 Neste sentido, a principal causa […] da guerra está no atraso dos indivíduos e das sociedades humanas, donde derivam as paixões desordenadas, que tomam o caráter de violência e, com sua impetuosidade, produzem os conflitos que ensanguentam as páginas da história da Humanidade.13

No futuro, quando a Terra passar, definitivamente, para a categoria de mundo de regeneração, estando o Planeta livre de expiações, as guerras serão banidas. Mas isto somente ocorrerá quando, efetivamente, […] os homens compreenderem a justiça e praticarem a lei de Deus. Nessa época, todos os povos serão irmãos.11

Assim, […] a guerra-monstro de mil faces que começa no egoísmo de cada um, que se corporifica na discórdia do lar, e se prolonga na intolerância da fé, na vaidade da inteligência e no orgulho das raças, alimentando-se de sangue e lágrimas, violência e desespero, ódio e rapina, tão cruel entre as nações supercivilizadas do século XX [e do atual], quanto já o era na corte obscurantista de Ramsés II – somente desaparecerá quando o Evangelho de Jesus iluminar o coração humano, fazendo com que os habitantes da Terra se amem como irmãos.17

Bibliografia:

DENIS, León. O problema do ser, do destino e da dor. 32ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2017.

KARDEC, Allan; tradução de Evandro Noleto Bezerra. A Gênese. 2ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Espíritos. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

MIRANDA, Manoel Philomeno de (Espírito); psicografado por Divaldo Pereira Franco. Transição Planetária. 5ª Edição. Salvador/BA: Editora Leal, 2017.

MOURA, Marta Antunes de Oliveira (organizadora). Estudo aprofundado da doutrina espírita: Ensinos e parábolas de Jesus – Parte II. Orientações espíritas e sugestões didático-pedagógicas direcionadas ao estudo do aspecto religioso do Espiritismo. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2016.

ROCHA, Cecília (organizadora). Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita: Programa Fundamental. Tomo II. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2014.

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