Os Evangelhos registram, em diversas passagens, que Jesus conhecia os pensamentos e as intenções ocultas das pessoas, faculdade que transcende a percepção sensorial comum. Os textos demonstram que o pensamento é força irradiante e pode ser captada por quem possui percepção espiritual desenvolvida.
Mateus 9: 3-4: “E eis que alguns dos escribas diziam entre si: ele blasfema. Mas Jesus, conhecendo os seus pensamentos, disse: Por que pensais mal em vossos corações?”
Mateus 12: 24-25: “Mas os fariseus, ouvindo isto, diziam: este não expulsa os demônios senão por Belzebu, (…) Jesus, porém, conhecendo os seus pensamentos, disse-lhes …”
Marcos 2: 6-8: “Quem pode perdoar pecados, a não ser somente Deus? Jesus percebeu logo em seu espírito que era isso que eles estavam pensando e lhes disse …”
Lucas 6: 7-8: “E os escribas e fariseus observavam-no, se o curaria no sábado, para acharem de que o acusar. Mas ele bem conhecia os seus pensamentos …”
Lucas 9: 46-47: “Começou uma discussão entre os discípulos acerca de qual deles seria o maior. Jesus, conhecendo os seus pensamentos, tomou uma criança …”
João 4: 16-19: “A mulher respondeu, e disse: não tenho marido.” (…) Jesus revelou: “Porque tiveste cinco maridos e o que agora tens não é teu marido.”
Essas passagens evidenciam a leitura dos pensamentos das pessoas pelo Cristo, manifestação de lei natural da transmissão mental.
Fluido cósmico universal, perispírito, comunicação e transmissão
A Codificação Espírita, de Allan Kardec, revela que o Universo é permeado pelo fluido cósmico universal, matéria elementar primitiva da qual derivam todas as formas e energias. Esse fluido se apresenta em dois estados: eterização (imponderabilidade), estado sutil, próprio dos planos espirituais, onde o fluido é rarefeito e escapa aos sentidos físicos; e materialização (ponderabilidade), estado condensado, que dá origem à matéria tangível do mundo corpóreo.
Entre esses extremos, há um estado intermediário que serve como meio de transmissão das ondas mentais, que conecta os seres encarnados e desencarnados.
O perispírito, envoltório e corpo fluídico do Espírito, de natureza semimaterial e sutil, formado a partir do fluido cósmico universal, é veículo de transmissão das impressões fisiológicas, sensações, pensamentos, atos e percepções psicológicas. É por meio do perispírito que os Espíritos atuam sobre a matéria inerte e produzem os diversos fenômenos mediúnicos.
Fenômenos anímicos e mediúnicos
A Doutrina Espírita considera os fenômenos paranormais, ou extrassensoriais, como de dois tipos: anímicos e mediúnicos.
Os fenômenos anímicos são produzidos pela alma humana, em que Allan Kardec chamou-os de fenômenos de emancipação da alma.
Os fenômenos mediúnicos indicam a faculdade inerente às pessoas de se comunicarem com seres extracorpóreos, podendo apresentar duas formas de manifestação: de efeitos físicos, pela ação no meio ambiente; e de efeitos intelectuais, relacionados ao conhecimento ou ao intelecto.
A transmissão de pensamento entre Espíritos encarnados é fenômeno anímico, enquanto a transmissão de pensamento entre Espíritos desencarnados e encarnados, ou entre dois Espíritos, é fenômeno mediúnico.
Esses fenômenos ocorrem pela sensibilidade do perispírito, que atua como instrumento de captação, comunicação e transmissão de energias e pensamentos.
Os médiuns captam e refletem essas energias e pensamentos com facilidade porque têm um perispírito mais sensível.
Propagação do pensamento
Impulsionado pela vontade do Espírito, o pensamento gera vibrações que se propagam pelo fluido cósmico universal de modo análogo ao som no ar. Enquanto as ondas sonoras são circunscritas, as ondas mentais se estendem ao infinito, cruzando-se sem se confundirem.
A intensidade e o alcance da transmissão variam conforme a força da vontade, a pureza dos sentimentos e o grau de afinidade vibratória entre emissor e receptor.
Visão espiritual, dupla vista e clarividência
A visão espiritual, ou dupla vista, é a faculdade que permite o Espírito, encarnado ou desencarnado, perceber realidades além dos sentidos físicos.
Clarividência é a capacidade da alma emancipada de perceber coisas, cenas, pessoas ou acontecimentos do mundo físico independentemente dos limites da visão material comum, seja ultrapassando barreiras físicas, como um corpo opaco, ou alcançando grandes distância.
A emancipação da alma ocorre quando o Espírito encarnado se desprende parcialmente do corpo, como no sono ou em estados sonambúlicos, permitindo que a mente perceba fatos materiais distantes pelo olhar da alma.
O médium sensitivo consegue descrever ambientes, pessoas ou situações ocultas aos olhos físicos, ultrapassando paredes, distâncias geográficas e até barreiras de tempo, passado ou futuro.
A visão espiritual pode se manifestar durante o sono, o transe mediúnico, o desprendimento parcial do perispírito ou em estado de vigília.
Audição espiritual (clariaudiência)
Clariaudiência é a capacidade mediúnica de perceber sons e orientações do plano espiritual. Manifesta-se de duas formas: intuitiva, pela compreensão de ideias mentais como uma voz interior de origem espiritual; e sensorial, percepção de vozes e ruídos com nitidez, como se fossem sons físicos externos.
Fotografia do pensamento, criações fluídicas e formas-pensamento
O perispírito funciona como espelho e registro fotográfico, em que cada pensamento, emoção ou ato deixa nele uma impressão visível para quem possui percepção espiritual, podendo atravessar obstáculos materiais além dos limites físicos.
No livro “Obras Póstumas”, em “Fotografia e telegrafia do pensamento”, Kardec esclarece:
“Ainda mais: criando imagens fluídicas, o pensamento se reflete no envoltório perispirítico como num espelho, ou, então, como essas imagens de objetos terrestres que se refletem nos vapores do ar, tomando aí um corpo e, de certo modo, fotografando-se. Se um homem, por exemplo, tiver a ideia de matar alguém, embora seu corpo material se conserve impassível, seu corpo fluídico é acionado por essa ideia e a reproduz com todos os matizes. Ele executa fluidicamente o gesto, o ato que o indivíduo premeditou. Seu pensamento cria a imagem da vítima e a cena inteira se desenha, como num quadro, tal qual lhe está na mente.
É assim que os mais secretos movimentos da alma repercutem no invólucro fluídico. É assim que uma alma pode ler noutra alma como num livro e ver o que não é perceptível aos olhos corporais.”
Pela clarividência, capta-se formas-pensamento, com aparência, cor e intensidade próprias, auras, irradiações fluídicas, cenas e ambientes do plano espiritual.
A fotografia do pensamento revela tendências, desejos e projetos habituais, mas não determina com certeza a execução futura de um ato, pois o livre-arbítrio e as circunstâncias posteriores podem alterar o curso das intenções.
O pensamento persistente, acompanhado de sentimento e vontade, molda os fluidos ao redor do ser, gerando formas-pensamento com características próprias de aparência, cor e intensidade. Essas criações não são ilusões, porquanto possuem realidade objetiva no plano espiritual e podem exercer ação concreta sobre outros seres.
Influência dos Espíritos sobre encarnados
Os Espíritos agem sobre os fluidos espirituais por meio do pensamento e da vontade, imprimindo-lhes direção, combinando-os, aglomerando-os ou dispersando-os.
Essa ação produz efeitos em três níveis: ambientes fluídicos coletivos; sugestão e inspiração; e obsessão espiritual.
Os pensamentos de um grupo criam uma atmosfera espiritual própria, que atrai Espíritos congeniais e influencia os presentes. É por isso que reuniões de prece, por exemplo, geram sensação de bem-estar, em que os fluidos são purificados pela concentração de pensamentos elevados.
Espíritos podem sugerir ideias, inspirar pensamentos e até dirigir ações dos encarnados, especialmente quando estes lhes franqueiam acesso pela afinidade ou pela invigilância moral. Isso ocorre sem anular o livre-arbítrio, porque o encarnado sempre pode resistir ou acolher a influência.
Quando a influência se torna persistente e prejudicial, configura-se a obsessão, ação contínua de um Espírito sobre outro ser por sintonia fluídica. A obsessão se manifesta em graus variados: simples, pela influência passageira facilmente superada pela vigilância; fascinação, na qual o obsidiado acredita nas sugestões do obsessor como se fossem suas; e subjugação, pela perda de autonomia, fazendo o obsidiado a agir contra a sua vontade.
A qualidade dos fluidos irradiados depende da pureza ou impureza dos sentimentos. Os fluidos benévolos elevam e curam. Os fluidos viciados deprimem e adoecem. Daí a ênfase no aperfeiçoamento moral como condição para a elevação espiritual.
Telegrafia do pensamento e lei da solidariedade
Kardec, em “Obras Póstumas”, esclarece a ação universal dos pensamentos das criaturas umas sobre as outras: “Pela telegrafia do pensamento, ele apreciará em todo o seu valor a Lei da Solidariedade, ponderando que não há um pensamento, seja criminoso, seja virtuoso, ou de outro gênero, que não tenha ação real sobre o conjunto dos pensamentos humanos e sobre cada um deles.”
Assim, o pensamento é força viva atuante e estamos interligados por uma rede invisível de energias mentais. Cada ideia emitida, boa ou má, repercute no universo espiritual e atinge a humanidade. Nessa perspectiva, o pensamento une ou afasta pessoas por sintonia vibratória, explica avisos intuitivos à distância e amplia a responsabilidade moral de cada indivíduo sobre o ambiente espiritual coletivo.
Conclusão
A transmissão do pensamento, na perspectiva espírita, demonstra um Universo interconectado por um oceano invisível de vibrações fluídicas. Nessa teia, cada ser encarnado ou desencarnado é emissor e receptor de ondas mentais que moldam realidades espirituais e, por reflexo, a realidade física.
As passagens evangélicas em que Jesus lê pensamentos revelam manifestações naturais de uma lei universal. A compreensão desse mecanismo impõe uma responsabilidade ética profunda: o pensamento é força criadora, e a vigilância sobre o que se pensa e se sente é condição essencial para a harmonia individual, familiar e coletiva.
Autor: Juan Carlos Orozco
Bibliografia
BÍBLIA SAGRADA.
KARDEC, Allan. A Gênese. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 2ª ed. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 1ª ed. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução de Guillon Ribeiro. 1ª ed. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 124ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.
KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Tradução de Guillon Ribeiro. 41ª ed. Brasília/DF: FEB, 2019.
