Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados

“Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados”. (Mateus 5: 4)

Como pode haver bem-aventurança, ou felicidade, em sofrer uma aflição?

Kardec esclarece que “essas palavras podem, também, ser traduzidas assim: deveis considerar-vos felizes por sofrer, porque as vossas dores neste mundo são as dívidas de vossas faltas passadas, e essas dores, suportadas pacientemente na Terra, vos poupam séculos de sofrimento na vida futura. Deveis, portanto, estar felizes por Deus ter reduzido vossa dívida, permitindo-vos quitá-las no presente, o que vos assegura a tranquilidade para o futuro”. (Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo)

Em “O Cristo Consolador”, Kardec diz que “todos os sofrimentos: misérias, decepções, dores físicas, perda de seres amados, encontram consolação na fé no futuro, na confiança na justiça de Deus, que o Cristo veio ensinar aos homens”.

E continua: “sobre aquele que, ao contrário, nada espera após esta vida, ou que simplesmente duvida, as aflições caem com todo o seu peso e nenhuma esperança lhe mitiga o amargor. Foi isso que levou Jesus a dizer: ‘vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve’ (Mateus, 11: 28-30)”.

Jesus faz ver a importância do seu Evangelho como rota segura para a conquista da verdadeira felicidade.

Sob o seu amparo e a sua orientação, adquirimos fortaleza moral que nos liberta dos velhos hábitos que nos mantêm presos ao solo das imperfeições.

O jugo de Jesus, “entretanto, faz depender de uma condição a sua assistência e a felicidade que promete aos aflitos. Essa condição está na lei por Ele ensinada”.

Ninguém como Cristo espalhou na Terra tanta alegria e fortaleza de ânimo.

Jesus chama ao seu coração todos os que estão cansados e oprimidos sob o peso dos desenganos terrestres. Convoca os aflitos à consolação.

O “vinde a mim” está saturado de vibrações amorosas, convidando-nos para o seu caminho, indicando a possibilidade de nos libertarmos do peso das provações.

É o apelo sincero das mãos estendidas, do abraço fraterno, do secar de lágrimas, da oferta do ombro amigo e da manifestação de socorro, consolo e proteção.

Essas palavras continuam soando nas nossas consciências, até que o livre arbítrio nos conduza na direção do Mestre, que constitui a porta para a solução de todas as dores e sofrimentos.

Alguns tipos de aflições e sofrimentos são esclarecidos por diferentes Espíritos, apresentando as possíveis causas e como se portar para alcançar a bem-aventurança, a verdadeira felicidade, que é a do Espírito ou da alma, quando o reino de Deus estiver dentro nós.

Os “aflitos” são “os que choram”, pois estes apontam para o sofrimento existente na humanidade.

Segundo Kardec, o aspecto fundamental para entendermos a bem-aventurança aos aflitos é a compreensão sobre a vida espiritual, a imortalidade e a evolução moral do Espírito mediante a pluralidade de existências, que explica a razão do nosso sofrimento.

Pela lei de causa e efeito e pela justiça divina, que se relacionam com o amor a Deus e ao próximo, os padecimentos que passamos representam parcelas dos males que causamos em nosso processo evolutivo.

Kardec, em “O que é o espiritismo”, sobre a lei de causa e efeito, expressa: “se admitimos a justiça de Deus, não podemos deixar de admitir que esse efeito tem uma causa; e se esta causa não se encontra na vida presente, deve achar-se antes desta, porque em todas as coisas a causa deve preceder ao efeito; há, pois, necessidade de a alma já ter vivido, para que possa merecer uma expiação”. (Allan Kardec. O que é o espiritismo)

Pela lei de causa e efeito, se a causa não se estiver nesta vida deve achar-se antes desta, porque em todas as coisas a causa deve preceder ao efeito. Nada é por acaso!

O ser humano tem o livre-arbítrio para construir o seu destino e, dessa liberdade e do nível evolutivo em que se encontra, o Espírito faz escolhas acertadas ou equivocadas.

As escolhas felizes são incorporadas ao patrimônio espiritual, servindo de referência para novas escolhas. As más ações, ou escolhas infelizes, produzem sofrimento ao Espírito porque, mesmo que não conheça o processo de ação-reação, da repercussão dos seus atos, a voz da consciência o alerta de que cometeu um atentado contra a Lei de Deus.

Os erros ou equívocos cometidos são reparados ao longo das reencarnações sucessivas, por meio de provas e expiações, sempre com base na expressão amor-justiça-misericórdia divinos.

Os processos de reparação e de novos aprendizados são definidos no planejamento reencarnatório.

A manifestação da lei de causa e efeito, em cada período reencarnatório, representa a escolha de provas definidas ou aceitas pelo ser reencarnante. E tais provas estão sempre em relação com as faltas que deve expiar. Se delas triunfa, eleva-se; se sucumbe, tem de recomeçar.

Mesmo que o Espírito encarnado não recorde os erros cometidos, ou as determinações do planejamento reencarnatório, ensina Kardec que o esquecimento das faltas cometidas não é obstáculo à melhoria do Espírito, porque, mesmo não se lembrando delas com precisão, o fato de as ter conhecido na erraticidade e o desejo de repará-las o guia por intuição e lhe dá o pensamento de resistir ao mal.

Esse pensamento é a voz da consciência, secundada pelos Espíritos que o assistem. Embora o homem não conheça os próprios atos que praticou em suas existências anteriores, sempre pode saber qual o gênero das faltas de que se tornou culpado e qual era o seu caráter dominante. Basta estudar a si mesmo e julgar do que foi, não pelo que é, mas pelas suas tendências.

As vicissitudes da vida corporal são, ao mesmo tempo, expiação das faltas passadas e provas para o futuro. A natureza das vicissitudes e das provas que sofremos também nos pode esclarecer sobre o que fomos e o que fizemos, do mesmo modo que neste mundo julgamos os atos de um culpado pelo castigo que lhe infringe a lei.

A reparação de faltas, acionada pela lei de causa e efeito, não se manifesta como única escolha, ou como uma imposição das provações. O ser humano que já revela possuir algum entendimento da lei de Deus, pode, perfeitamente, optar por quitar suas dívidas pelo exercício da lei de amor.

O homem sofre sempre a consequência de suas faltas; não há uma só infração à lei de Deus que não acarrete a sua punição.

Assim, o homem é constantemente o árbitro da sua própria sorte; pode abreviar ou prolongar indefinidamente o seu suplício; a sua felicidade ou a sua desventura dependem da vontade que tenha de praticar o bem.

A aflição pode ser representada por simples mal-estar, traduzido na forma de dor ou sofrimento, até intensa preocupação, real ou fictícia, física ou moral, causada por algo que pode, inclusive, por em risco a própria existência. O grau de aceitação da aflição varia conforme o estágio evolutivo da pessoa.

Existem aflições que podem produzir maiores desarmonias, como as que provocam depressões ou são indutivas de atitudes extremas, como o suicídio. Entretanto, tudo está mais ou menos relacionado às disposições íntimas de cada um: há indivíduos que revelam grande resistência ao sofrimento, não se subjugando a eles. Outros, já se desestruturam perante as menores dificuldades.

O Espiritismo considera que as aflições são, em geral, oportunidades de reajustes perante a lei de Deus, sendo necessário compreendê-las e aproveitá-las como preciosa lição.

O sofrimento humano tem origem nos atos cometidos pelo Espírito no passado, em outras encarnações, ou na atual existência. É resultado da própria imperfeição humana, que não sabe utilizar adequadamente a liberdade de escolha.

À medida que o ser evolui, a imperfeição atenua, e o sofrimento resultante de suas más escolhas, vai desaparecendo, até cessar de vez.

Sendo Deus soberanamente bom e justo, não haveria de permitir que fôssemos martirizados, salvo por uma boa razão ou causa justa; assim, sofremos é porque, por ignorância ou rebeldia, fiamos em débito com a lei, seja nesta ou em anteriores encarnações.

Criados para a felicidade completa, só a conheceremos quando formos perfeitos; qualquer mácula ou falha de caráter interdita-nos a entrada nos mundos venturosos e, pois, através das existências sucessivas, neste e em outros planetas, que nós vamos purificando e engrandecendo, pondo-nos em condições de fruir a deleitável companhia das almas santificadas.

É importante avaliarmos para onde estamos caminhando, que escolhas estamos realizando e que resultados elas podem produzir.

Se já existe o propósito de seguir o bem, a despeito das imperfeições que ainda possuímos, este esforço será recompensado, cedo ou tarde. Se a nossa felicidade se concentra apenas nos prazeres materiais, estaremos semeando um futuro de aflições.

O reinado de Jesus, que pela inferioridade moral dos seres terrenos ainda não pertence a este mundo, não deve ser confundido com os reinados da Terra, onde o homem apropria-se do ouro, dos títulos, dos territórios e do temporário poder, desencarnando pobre e odiado por todos.

Se a felicidade do homem terreno, por se respaldar no orgulho e no egoísmo, consiste no elevado patamar social que o situa acima do seu semelhante, o mesmo não acontece com os Espíritos superiores, que procuram ocultar sua superioridade espiritual para não ferir os seres que assistem.

A despeito dos nossos equívocos, a bondade divina sempre nos concede oportunidades para resgatar nossos compromissos. Todos temos no trabalho do bem o nosso grande remédio.

Deus sabe que todos nós, encarnados e desencarnados em serviço na Terra, somos ainda Espíritos imperfeitos, mas concedeu-nos o trabalho do bem, que podemos desenvolver e sublimar, segundo a nossa vontade, para que a nossa vida se aperfeiçoe.

Somente na vida futura podem efetivar-se as compensações que Jesus promete aos aflitos da Terra. Sem a certeza do futuro, estas máximas seriam um contrassenso. A fé no futuro pode consolar e infundir paciência.

A expiação serve sempre de prova, mas nem sempre a prova é uma expiação.

Provas e expiações são sempre sinais de relativa inferioridade, porquanto o que é perfeito não precisa ser provado.

Por outro lado, pode um Espírito haver chegado a certo grau de elevação e desejoso de adiantar-se mais, solicitar uma missão, uma tarefa a executar, pela qual tanto mais recompensado será, se sair vitorioso, quanto mais rude haja sido a luta.

Tais são essas pessoas de instintos naturalmente bons, de alma elevada, de nobres sentimentos inatos, que parece nada de mau haverem trazido de suas precedentes existências e que sofrem, com resignação toda cristã, as maiores dores, somente pedindo a Deus que as possam suportar sem murmurar.

Pode-se, ao contrário, considerar como expiações as aflições que provocam queixas e impelem o homem à revolta contra Deus.

O sofrimento que não provoca queixas pode ser uma expiação; mas, é indício de que foi buscada voluntariamente, antes que imposta, e constitui prova de forte resolução, o que é sinal de progresso.

Os Espíritos não podem aspirar à completa felicidade, enquanto não se tenham tornado puros: qualquer mácula lhes interdita a entrada nos mundos ditosos.

Mediante as diversas existências corpóreas é que os Espíritos vão se expungindo, pouco a pouco, de suas imperfeições.

As provações da vida os fazem adiantar-se, quando bem suportadas.

Como expiações, elas apagam as faltas e purificam. São o remédio que limpa as chagas e cura o doente.

Quanto mais grave é o mal, tanto mais enérgico deve ser o remédio.

Aquele que muito sofre deve reconhecer que muito tinha a expiar e deve regozijar-se à ideia da sua próxima cura. Dele depende, pela resignação, tornar proveitoso o seu sofrimento e não lhe estragar o fruto com as suas impaciências, visto que, do contrário, terá de recomeçar.

Frequentemente, o Espírito renasce no mesmo meio em que já viveu, estabelecendo de novo relações com as mesmas pessoas, a fim de reparar o mal que lhes haja feito. Se reconhecesse nelas as a quem odiara, quiçá o ódio se lhe despertaria outra vez no íntimo. De todo modo, ele se sentiria humilhado em presença daquelas a quem houvesse ofendido.

Para melhorarmos, outorgou-nos Deus, precisamente, o de que necessitamos e nos basta: a voz da consciência e as tendências instintivas. Priva-nos do que nos seria prejudicial.

Ao nascer, traz o homem consigo o que adquiriu, nasce qual se fez; em cada existência, tem um novo ponto de partida. Pouco lhe importa saber o que foi antes: se se vê punido, é que praticou o mal.

Suas atuais tendências más indicam o que lhe resta a corrigir em si próprio e é nisso que deve concentrar-se toda a sua atenção, porquanto, daquilo de que se haja corrigido completamente, nenhum traço mais conservará. As boas resoluções que tomou são a voz da consciência, advertindo-o do que é bem e do que é mal e dando-lhe forças para resistir às tentações.

O esquecimento ocorre apenas durante a vida corpórea. Voltando à vida espiritual, readquire o Espírito a lembrança do passado; nada mais há, portanto, do que uma interrupção temporária, semelhante à que se dá na vida terrestre durante o sono, a qual não obsta a que, no dia seguinte, nos recordemos do que tenhamos feito na véspera e nos dias precedentes.

E não é somente após a morte que o Espírito recobra a lembrança do passado. Pode dizer-se que jamais a perde, pois que, como a experiência o demonstra, mesmo encarnado, adormecido o corpo, ocasião em que goza de certa liberdade, o Espírito tem consciência de seus atos anteriores; sabe por que sofre e que sofre com justiça.

A lembrança unicamente se apaga no curso da vida exterior, da vida de relação. Mas, na falta de uma recordação exata, que lhe poderia ser penosa e prejudicá-lo nas suas relações sociais, forças novas haure ele nesses instantes de emancipação da alma, se os sabe aproveitar.

Assim, na certeza de um próximo futuro mais ditoso sustenta e anima, o ser longe de se queixar, agradece ao Céu as dores que o fazem avançar.

“Bem-aventurados os aflitos pode então traduzir-se assim: bem-aventurados os que têm ocasião de provar sua fé, sua firmeza, sua perseverança e sua submissão à vontade de Deus, porque terão centuplicada a alegria que lhes falta na Terra, porque depois do labor virá o repouso”. Lacordaire (Havre, 1863.)

“A fé é o remédio seguro do sofrimento; mostra sempre os horizontes do infinito diante dos quais se esvaem os poucos dias brumosos do presente. Não nos pergunteis, portanto, qual o remédio para curar tal úlcera ou tal chaga, para tal tentação ou tal prova. Lembrai-vos de que aquele que crê é forte pelo remédio da fé e que aquele que duvida um instante da sua eficácia é imediatamente punido, porque logo sente as pungitivas angústias da aflição.

Ditosos os que sofrem e choram! Alegres estejam suas almas, porque Deus as cumulará de bem-aventuranças”. Santo Agostinho (Paris, 1863.)

Bibliografia:

BÍBLIA SAGRADA.

EMMANUEL (Espírito); (psicografado por) Francisco Cândido Xavier. O Evangelho por Emmanuel: comentários ao evangelho segundo Mateus. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2017.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O livro dos espíritos. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

KARDEC, Allan; tradução de Guillon Ribeiro. O Livro dos Médiuns. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2019.

MENEZES, Bezerra de (Espírito), (psicografado por) Alda Maria. Estudando o Evangelho com Bezerra de Menezes. 1ª Edição. Belo Horizonte/MG: Centro Espírita Manoel Felipe Santiago (CEMFS), 2014.

MOURA, Marta Antunes de Oliveira. Estudo aprofundado da doutrina espírita: Livro II – Ensinos e parábolas de Jesus – Parte I, Orientações espíritas e sugestões didático pedagógicas direcionadas ao estudo do aspecto religioso do espiritismo. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2015.

MOURA, Marta Antunes de Oliveira. Estudo Aprofundado da Doutrina Espírita: Livro IV – Espiritismo, o consolador prometido por Jesus. Orientações espíritas e sugestões didático-pedagógicas direcionada ao estudo do aspecto religioso do Espiritismo. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

MOURA, Marta Antunes de Oliveira. Estudo Aprofundado da Doutrina Espírita: Livro V – Programa Filosofia e Ciência Espíritas. Contém orientações doutrinárias que priorizam os aspectos filosóficos e científicos do Espiritismo vinculadas às consequências morais do aprendizado espírita. 1ª Edição. Brasília/DF: Federação Espírita Brasileira, 2011.

Um comentário em “Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados

  1. Lindo !
    Ensinamento de Jesus Cristo para conosco.

    Curtido por 1 pessoa

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